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terça-feira, 14 de setembro de 2010

[agência pirata] SARNEY, CORSÁRIOS E LADRÕES



::txt::Marco Antonio Lemos::

Começo perguntando o que eventualmente levaria alguém que, de forma contínua, quase que buscando criar uma segunda natureza feita a enxó, martelo e formão, sempre se procurou pautar publicamente, no trato pessoal, por exibições de grande dignidade, fidalguia, tolerância, finesse d’esprit, respeito cerimonioso a adversários e temperança diante de críticas, a, de súbito, entregar-se a uma fúria digna de serial killer psiacopata de seriado de TV, com chiliques e sapitucas absolutamente incompatíveis com a biografia que sempre procurou esmeradamente construir. Toda vez que algum Dr. Jekyll se converte em algum Mr. Hide, razão há de ter tido, como dizia minha patusca, pachola e sábia avó.



Nesta sua última edição, a revista Veja, na matéria sobre o novo livro de Laurentino Gomes, ”1822”, narra que o hoje senador José Sarney, então presidente da República, em visita à Abadia de Westminster, em Londres, aproveitou-se de estar subitamente a sós frente à tumba do almirante escocês Thomas Cochrane, herói nacional dos britânicos, para, furibundo, pisotear-lhe com gosto e força a lápide, entre sussurros raivosos e espumejantes de “corsário!!!”. Fez mais depois, assumiu e gabou-se: “Pisei, pisei mesmo e com gosto. É um sujeito pelo qual não tenho nenhuma simpatia”



Mas, afinal, o que teria levado Sarney, cujo gosto pela etiqueta, pelo protocolo e pela “liturgia do cargo” são mais do que conhecidos, a tais destemperos? O que teria o tal Cochrane feito para que o ódio do senador, que hoje esquece tão fácil ofendas de Lula a Collor, que já o classificam como “homem não comum”, jamais tenha se aplacado?

Um pouco mais adiante, a própria reportagem esclarece: é que o citado almirante, para o efeito de consolidar a recém-proclamada independência do Brasil, recebeu ordens de D. Pedro I de eliminar focos resistentes ao governo do Rio de Janeiro, um dos quais a província do Maranhão, muito lusitólatra. São Luís foi ocupada e o governo da província viu-se “convencido”, a poder dos canhões de Cochrane, a aderir ao processo independentista, em 28 de julho de 1823. O problema é que Cochrane, bem ao estilo dos flibusteiros e bucaneiros da época, como Francis Drake e Capitão Kidd, ao mesmo tempo em que executava as ordens imperiais, teria se aproveitado para saquear, com a maior rapacidade possível, a capital maranhense. Segundo Laurentino Gomes, o butim incluía “todo o dinheiro depositado no tesouro público, na alfândega, recebeu ordens de D. Pedro I, nos quartéis e outras repartições, além de propriedades particulares e mercadorias armazenadas a bordo de 120 navios e embarcações menores ancorados no porto”. A dinheirama foi tanta que, convertida em valores atuais, equivaleria a R$ 40 milhões.



Como não se tem qualquer notícia de reações similares daquele ex-presidente diante dos túmulos de quaisquer outros invasores estrangeiros do Maranhão, em especial o mais conspícuo, o francês Daniel de La Touche, Senhor de La Ravardière, que andou por lá entre 1612 e 1615 criando a França Equinocial, a suposição mais forte para o piripaque de Sarney contra Cochrane deve ter sido mesmo grana. Onde já se viu meter assim, sem cerimônia e na maior cara de pau, a mão na bufunfa maranhense? E sem pedir sequer licença a algum ilustre antepassado dos Sarneys e Ribamares! Dá pra imaginar quanto renderiam R$ 40 milhões, entre 1823 e os dias de hoje? Ou pelo menos em 1966, quando o mesmo Sarney se tornou senhor da capitania maranhense, que desde então dirigiu, pessoalmente ou com a família, com raros e curtos intervalos? Quanto prejuízo, Deus meu! Quantos danos emergentes, quantos lucros cessantes!!! Tal audácia, inominável desatino, opróbrio secular, justificaria plenamente o faniquito sarneyísta no túmulo cochrânico. Penso que até faria por merecer, com inteira justiça, uma ação de danos morais, perante o Tribunal Internacional de Haia ou, pela natureza do agravo, a OMC. Veja arremata o episódio com um ferino mas delicioso comentário:

“Talvez seja o caso de dizer que o Maranhão continua a ser tratado da mesma forma por aqueles que pisam a lápide de Cochrane”

Vejo-me aqui imaginando um dia futuro o que acabará não fazendo algum novo senhor de baraço e cutelo das plagas do Maranhão, após assumir o poder, efetuar auditorias e constatar o que foi saqueado no Estado entre 1966 e o fim da era Sarney e decidir ir ao Convento das Mercês, onde o Marimbondo de Fogo estará enterrado no jazigo da família. Presumo que ele não dirá “corsário!”, e sim coisa bem pior...

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