#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 14 de julho de 2009

CLAYTON BARROS



# águas passadas #

“Uma nação que precisa de herói está fodida”

txt n' ntrvst: Tiago Jucá Oliveira
phts: Guilherme Carlin


Um dos melhores músicos do Brasil, Clayton Barros continua sendo um sujeito simples. Único membro do Cordel do Fogo Encantado que toca um instrumento harmônico, “no meio de um monte de percussionistas, tudo indignado, com raiva, com vontade de tocar”, Clayton fala da importância da banda se manter independente. Nesta entrevista você poderá saber um pouco mais da carreira dele e a do Cordel. Neste encontro entre O DILÚVIO e Clayton, a frase que sintetiza tudo só poderia ser “foi tanta água que meu boi nadou”.

De onde vem essa técnica que você tem pra tocar violão?


Existe um divisor de águas na minha história enquanto músico, antes do Cordel e depois do Cordel. Eu sempre ouvi os violonistas cantores brasileiros como João Bosco, Geraldo Azevedo, pessoas que tinham talento pra tocar, cantar e compor. Então essa foi a turma que eu procurava, e também uns instrumentistas como Baden Powell, hoje o Yamandu Costa e o pessoal de fora Al Di Meola, Paco de Lucía, flamenco e tal, eu tenho umas coisas espanholas no meu som que eu trago. Uma coisa moura também, essa mistura. Meu pai fala ‘entonce’, que é então em espanhol. Não que eu tenha uma influência da vida da Espanha, mas respiro naturalmente essa coisa do rasgo, de tanger as cordas dessa forma e também trabalhar dedilhados. Eu não curto só o trabalho de violão quando se usa só batidas. Eu gosto de um violão que seja trabalhado ritmo e com condições de você fazer solos e bases simultâneos. O Cordel é uma banda extremamente percussiva, e pelo fato de eu ter tocado muito na noite, sozinho, voz e violão, eu desenvolvi uma técnica que eu conseguia, entre primas e bordões, fazer base e ritmo, tinha que segurar a noite, quatro horas tocando. Quando a gente inventa e monta o Cordel, aí eu começo a utilizar uma coisa mais agressiva, não aquela informação mais suave que eu trabalhava nas noites. Porque o Cordel cada vez mais ele ia crescendo, a nossa instiga, nosso próprio ímpeto de se inserir, de fazer um trabalho, de luta, de independência. Isso é transmitido na música, na força do braço, na pancada que a gente dá. Então foi inevitável que o som no Cordel precisasse um pouco mais de peso, um pouco mais de drive, mesmo em cordas de nylon, que é mais difícil a captação, pra você trabalhar mais efeitos. Hoje eu não uso mais um instrumento acústico, meu violão é elétrico desde o início. Não que não fosse no começo da banda, mas a gente era mais suave. O segundo disco a gente já tinha modificado nosso som pra mais agressivo, tanto é que eu uso uns pedais ali e uns efeitos, não por intenção de modernizar o som ou não, mas por necessidade de poder amplificar determinado timbre, determinado sinal, pra ser compatível com a pancadaria que os meninos desenvolvem, que não é brincadeira não. É só um instrumento harmônico no meio de um monte de percussionistas, tudo indignado, com raiva, com vontade de tocar. Eu montei essa técnica junto com os meninos, de tocar mais forte.

Como você entrou no Cordel?

Pois é, o Cordel vem da cabeça de Lirinha. Eu morava no Recife, já estava lá uns quatro anos. O Lirinha já recitava e já agrupava pessoas para encontros e tal. E antes de eu voltar pra Arcoverde, e a gente montar o Cordel junto, ele tinha desenvolvido um espetáculo chamado Brasil Caboclo com outros amigos lá. Quando eu cheguei já tinha uma idéia circulando, que era texto, sonorização, bem pouca música, mais a idéia da palavra e teatral. Eu já era um músico que ganhava uma grana e o resto do pessoal não. Eu sobrevivia de música, tocava na noite desde os 16 anos.

Você se interessou por música e violão a partir de quando?


Meu primeiro flerte com música foi na escola, com banda marcial, tocando sopro. Foi meu primeiro contato. Numa das férias eu fui pra casa da minha irmã no Recife, lá tinha um violão e eu aproveitei as férias pra ficar brincando e desenvolvi um interesse grandioso, uma paixão. Sabe quando você tem aquele estalo: “é isso que eu quero, que eu vou agarrar com unhas e dentes”. Eu fazia datilografia em Arcoverde, meu pai pagava, e eu deixava de ir às aulas pra ver ensaio de bandas e estar perto de músicos, xeretando mesmo, aperreando. Isso eu tinha uns 14 ou 15 anos, foi muito cedo. Até foi um determinado espanto pra família, porque aquela visão do trabalho burocrático de você dar certo no mundo. Arte sempre sugere um risco. Na verdade tudo sugere um risco, a meu ver. A arte é uma coisa maravilhosa e “perigosa” de ser feita, porque existe muita quebra de mitos. Com 16 anos eu já tava tocando na noite, já ouvia muito esses compositores brasileiros que te falei, escutava muita música em casa, ainda não desenvolvia pegar música de ouvido, também nunca estudei música, partitura pra mim é grego. Embora saiba que necessito porque já perdi muita música por não ter escrito ou não ter um gravador na hora. As vezes vem um riff e algumas coisas não dá pra você lembrar. O rádio sempre foi presente lá em casa. Eu quando criança acordava muito cedo e o pai sempre tava ouvindo AM, muitas músicas nordestinas eu ouvi. Em 1989 fiz minha primeira incursão no sudeste, pra conhecer uma parte da família que eu não conhecia e trabalhar como operário, e aí comecei a ouvir música estrangeira, rock, heavy metal, trash. Aí passei dois anos em São Paulo, não me adaptei, não era aquilo que eu queria, saudades e tal, volto pra Arcoverde, mas já com a cabeça mexida por conta dessa incursão no sudeste. Aí foi quando nessas férias eu conheci o violão, comecei a me dedicar à música, parei de ouvir um pouco o rock e comecei a me dedicar mais a música do nordeste e do Brasil. Comecei a gostar de bossa nova, a ouvir os compositores lá da região, grandes nomes como Toquinho, Baden. Acho ingrato dizer nomes porque tem um milhão que você não diz. A descoberta foi Jorge Bem, curto muito o trabalho que foi feito em A Tábua de Esmeraldas, aqueles violões são muito bem gravados, a pegada dele é muito fodida, muito boa, embora ele não dedilhe, e sim é um ritmista do samba rock. As harmonias e a pegada me interessam bastante, a forma de compor, embora eu seja mais melodista. Aprendi muito com o Cordel, mas antes eu era muito melodista, ainda sou, tanto é que estou fazendo um disco infantil, que vai se chamar Outros Planetas, tem todas essas coisas que não cabem no Cordel, como letras e algumas inspirações, que são coisas minhas, assim como todos do Cordel tem suas informações pessoais. Mas também estou trazendo nesse disco infantil essas coisas do começo, mais leves e mais suaves, inevitável não trazer o ritmo e a pegada que eu desenvolvo na banda. Não foi um disco programado, foi algo natural.



O Cordel vem fazendo um relativo sucesso, porém mantendo-se independente e sem jabá de gravadora, ou seja, é pela qualidade mesmo da banda.

A gente não tinha grana e a gente não faria isso e nem faremos, porque é a ideologia que construímos juntos e dentro de cada um prevalece esse instinto guerreiro, essa coisa de andar na contramão e não se tornar uma coisa boba.

Aquela edição da Trip que trazia encartado um CD com 10 músicas do Cordel mais uma inédita do Chico Science foi muito importante pra banda ser conhecida nacionalmente.

Essa edição da Trip vendeu 60 mil exemplares no país todo. Logo em seguida sai o primeiro CD, aí depois na própria Trip saiu o CD do RecBeat, com várias bandas, inúmeras coisas aconteceram.

O DILÚVIO também tem atacado nessa área de encartar CDs de bandas independentes por um preço justo.

Eu acho uma pena a Trip não ter feito isso mais. Se vocês puderem, continuem fazendo. Parabéns cara, isso é uma coisa importantíssima. Banda e revista crescem juntas. O problema da independência é distribuição, porque você fica pouco refém, porque as gravadoras tomam conta desse mercado. Nossa distribuição é inferior das gravadoras, que detêm esse domínio. Hoje nós estamos com uma distribuidora independente, que é um anexo de artistas independentes da Trama. Eu confesso que não chegou onde eu queria e esperava. Pensei que ia chegar numa loja e encontrar, e não estou encontrando. Não seria uma queixa, e sim uma expectativa que eu tive e não foi atendida.



O que o Cordel tem a agradecer ao movimento manguebit?

Eles são grandes guerreiros, como foram Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro para abrir portas. A gente chegou aqui no sul por conta de Mundo Livre S/A e Otto, viemos no ônibus com eles, quer dizer, os caras abriram as portas pra nós. Nossos primeiros shows como banda foi viajando com o MLSA. Gutie, nosso produtor e que era produtor do MLSA na época. Temos um grande respeito, já gostávamos dos caras. E eu tenho uma gratidão particular, sou muito amigo de Bactéria, se encontramos em Arcoverde, tomamos uma cerveja, ele é figura ilustríssima, sujeito sangue muito bom, um cara alegre, pra cima. Os caras têm um peito muito forte, são grandes lutadores. Fred 04 está sempre aqui quando rolam o Fórum Social Mundial, é uma figura muito equilibrada, politicamente falando, tem postura e atitude, apesar de atitude ser uma palavra tão desgastada já, mas são pessoas importantíssimas pra música.

O Cordel não chega a ter essa postura política nas letras.

Nós somos mais metafóricos, mas mesmo assim no nosso primeiro disco a gente fala de Xicão, da tribo Xucurú, a gente fala dessa questão da agua em “Chover”, da seca, da alegria de um povo fodido pelos outros. Sabemos que o nordeste elege mal os seus representantes. Existe também uma má construção do nordeste nas outras partes do Brasil. Inúmeras eleições no nordeste são compradas, assistencialismo, paternalismo e coronelismo. Fica difícil mudar essa condição em pouco tempo. E agora mais uma frustração política que estamos vendo no momento. Não me espanta tanto porque sempre achei que o problema não é quem vai sentar lá, o problema é a cadeira, que já ta corrompida, o sistema ta todo corrompido, troca o presidente e entra outro, mas vão negociar com os mesmos de sempre, com o crime organizado. E a gente não pode também ficar esperando que heróis nos salvem. Uma nação que precise de herói ta fodida. A gente precisa aprender a fazer das nossas vidas o melhor possível. São detalhes mínimos, como não jogar lixo no chão, saber lutar, procurar os seus direitos, se informar pra saber como surgiu o seu país e sua cidade. Eu tenho uma admiração muito grande por Eduardo Bueno, o Peninha, um escritor que me abriu muito os olhos. E a gente caminha por aí, com umas letras mais poéticas e metafóricas, existem as panfletárias que a gente admira como Chico Science e Fred 04, também temos essa postura política, mas a gente não utiliza o microfone pra discurso. O texto que está ali no disco já é o nosso discurso.

Falando em herói, Lampião e o cangaço são temas em algumas letras do Cordel, tipo aquela famosa carta que ele enviou ao governador de Pernambuco se intitulando governador do Sertão (utilizadas por mim em meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo: a influencia do cangaço na música nordestina). Você que é de lá pode contar melhor como é essa influência de Lampião no imaginário popular?

O povo é dividido. Não própria cidade dele, Serra Talhada, ergueu-se uma estátua e rolou uma discussão muito grande, porque pra uns ele era um criminoso, pra outros era um grande herói. A figura de Lampião foi despertada por causa da opressão que rolava no nordeste. Ele se tornou cangaceiro por conta do assassinato do pai dele, e se tornou um Robin Hood do nordeste, que influenciou bastante a música, tem até um disco do Volta Seca (cangaceiro do bando de Lampião) cantando músicas dele. Mas eu não diria herói ou bandido, mas um ícone importantíssimo. Eu sou mais para Lampião do que pra Severino Cavalcanti e Lula. Acho que Lula não tem muita culpa nessa merda, não, a galera que está por trás é que está fodendo, mas eu ainda prefiro não a arma em punho, sou contra luta armada, mas acho que a língua, a caneta, a mão, o pensamento, o disco, o microfone são grandes armas que a gente pode utilizar bem.

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