Lampião e seus irmãos entraram para o cangaço para vingar a morte do pai assassinado pela poderosa família Nogueira. Somente no bando dos cangaceiros de Sinhô Pereira é que Virgolino Lampião teve proteção contra futura represálias dos coronéis e, principalmente, seria comeste grupo de homens armados que ele poderia dar o troco.
O paralelo entre o cangaço sertanejo com o tráfico carioca fica bem ilustrado no filme “Cidade de Deus”, do diretor Fernando Meirelles. Em determinada cena, o “patrão” está sentado à mesa de seu “quartel”, e uma fila de homens e meninos que, de um em, chegam e justificam a decisão de entrar pro mundo do crime: “mataram o meu pai”, “estupraram minha mulher”, etc. Assim como Lampião pegou em armas por causa da morte do pai, Labareda entrou para o cangaço depois que sua irmã foi “deflorada” por um soldado.
Quando o poder político rechaçou isolados crimes com extrema violência o humilhação, o que se viu foi a formação do crime organizado, e esta, em resposta àquela, reagiu em proporções iguais de crueldade. É a bola de neve que o ex-capitão da BOPE do Rio de Janeiro, Rodrigo Pimentel, explicou em depoimento para o filme documentário de João Moreira Salles, “Notícias de uma Guerra Particular”. A guerrilha urbana das favelas cariocas chegou a um nível tão absurdo que o único motivo para matar é vingança: policiais matam traficantes devido a morte de um colega, e traficantes matam os tiras em represália aos comparsas assassinados. Como afirma o historiador Eric Hobsbawm, em “Bandidos”, “onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”.
Como entender a brutal vingança dos cangaceiros? Segundo Hobsbawm, “é impossível fazer o opressor pagar a humilhação imposta à vítima em sua própria moeda, pois o opressor atua dentro de uma estrutura de riqueza, poder e superioridade social que a vítima não pode usar. A vítima só dispõe de seus próprios recursos, e entre estes, a violência e crueldade são os de eficiência mais visível”.
Hobsbawm acredita que os cangaceiros “não só praticam o terror e a crueldade numa medida que não podem ser explicada como simples retaliação, mas cujo terror na verdade faz parte de sua imagem pública”. Os principais motivos que levavam Lampião a cometer brutalidades eram dois. “Ia às raias do barbarismo contra o delator ou contra a volante, aquele por causa da traição, e esta, porque representava a autoridade que, na sua compreensão, ajudava sempre o coronel contra os pequenos, relata Maria Christina Matta Machado, no envolvente livro “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”.
Desse mesmo livro podemos tirar várias situações ocorridas durante o reinado de Lampião. Numa dela, Virgolino foi dar exemplo a um homem que havia avisado aos “macacos” de sua presença pela redondezas. O capitão ordenou seus homens a tirarem as roupas do traidor e de sua esposa e os levaram amarrados até um lugarejo mais próximo. Chegando ao local, Lampião mandou seus habitantes saírem às ruas e presenciarem a barbaridade que estava por vir: “chegavam homens, mulheres e crianças, conduzidas a coice de armas pelos cangaceiros. Expostos nus completamente os dois infelizes, ante aquela gente assombrada, Virgolino desembainhou o longo punhal e, devagarinho, como a saborear a sua torpe vingança, sangrou o desgraçado, cujos gritos provocaram risos dos “cabras” e lágrimas dos pobres sertanejos, espantados com tanta maldade”.
Querer uma discussão sobre Cangaço, Canudos, Balaiada e Palmares não é exatamente a função destas próximas linhas, muito menos colocar quatro (ou até mais) importantes acontecimentos históricos bem diferenciados uns dos outros num mesmo (sic) balaio. Seus ideais, apesar de distintos, ecoaram no Pelourinho. O grupo Olodum teve a ousadia de unir os focos rebeldes citados acima numa mesma letra, “Revolta Olodum”, na qual proclama a independência do sertão:
“Retirante ruralista, lavrador/ Nordestino Lampião, salvador/ Pátria Sertaneja, independente/ Antônio Conselheiro, em Canudos presidente/ Zumbi em Alagoas comandou/ Exército de ideal, libertador/ Sou mandinga balaiada/ Sou malê/ Sou búzios, sou revolta/ Arerê/ Ô Corisco, Maria Bonita mandou te chamar/ É o vingador de Lampião/ Êta cabra da peste/ Pelourinho, Olodum/ Somos do Nordeste”.
Observe o fator “nordeste” na letra. É a região mais pobre do país e seu povo é o mais discriminado. De longa data, muito antes da Mayara Petruso, nordestino é visto como burro, preguiçoso, etc, por uma boa parcela da sociedade (o twitter nos provou isso em pleno ano de 2010). A reação muitas vezes (pelo menos em Fortaleza é comum) se dá em adesivos pra carros e camisetas com a frase “orgulho de ser nordestino”. Ou em letras tipo essa do Olodum. Da exaltação regional à proclamação da Pátria Sertaneja.
Ao contrário de movimentos sudestinos e sulistas, que pregam sepaatismo pra ser livrar da vagabundagem nordestina que puxa a média dos índices sociais e econômicos pra baixo, o manifesto do Olodum enxerga méritos em heróis que lutaram contra injustiças cometidas pela própria sociedade em que estão inseridos. O inimigo não é um catarinense ou um paulista, e sim o soldado e o senhor de engenho. A briga não é com outros estados, e sim contra o Estado que o oprime e reprime. Em comum entre cangaço, messianismo e quilombos é que todos eles foram aniquilados pelo Estado. As vítimas sociais do coronelismo acabaram vitimizadas novamente, pagando com a vida por querer viver com independência, livre, com suas regras internas.
A situação dos estados do Nordeste se agravou quando o centro econômico do Brasil se transferiu para as regiões Sul e Sudeste, isto na metade do século XIX. O Nordeste, relata Rui Facó em “Cangaceiros e Fanáticos”, “com seus arraigados remanescentes feudais e acentuada debilidade técnica, foi perdendo terreno em todos domínios”. Darci Ribeiro enxerga algo parecido: “entre o poder federal e a massa flagelada pela seca medeia a poderosa camada senhorial dos coronéis, que controla toda vida do sertão, monopolizando não só as terras e o gado, mas as posições de mando e as oportunidades de trabalho que enseja a máquina governamental”, diz em “O Povo Brasileiro”.
O “separatismo” do Olodum, se é que assim podemos dizer sobre algo que não traz nenhum preconceito regional em seus manifestos, traz fortes elementos da questão racial. Em “Cabra da Peste”, cangaço e pelourinho se confundem: “A história consagrou/ Cangaceiro e trovador, nordestino/ É Zumbi, é Ganagazumba/ É a luta do pelô/ Oh xente amor”.
Quem conhece Salvador sabe que a consciência negra é muito explícita. E que se possível fosse, a Pátria Sertaneja seria um país africano dentro do Brasil. Mas isso já é outro papo, que não cabe aqui nem numa letra do Olodum. Axé!
Recebi um comentário, feito por um amigo, que condenava o louvor em torno da figura de Lampião. Não quero entrar no mérito da questão, se ele era herói ou vilão. Aliás, não é a intenção desta série julgar o mito. E sim relatar sinais dum sintoma claro: independente da bondade ou maldade do cangaço, ele ainda exerce uma importante influência sobre as artes.
O julgamento não cabe a mim. Deixo a você que julgue de acordo com seus próprios conceitos. A minha parte é aproveitar o espaço pra indicar livros que tratam sobre o assunto, e deles tirar trechos ilustrativos. Por ter aberto esse parênteses, me dei o direito de contar uma pequena história, que mostra como o imaginário popular trabalha o mito até os dias de hoje:
Água Branca é uma pequena localidade do estado de Alagoas. A principal moradora do município, em 1928, era a Baronesa de Água Branca. Lampião há tempos pedia dinheiro a ela, que respondia: "Tenho vinte contos, mas é para comprar de munição para o couro dele!". Diante da negativa da Baronesa, Lampião planejou um assalto à cidade.
Desfeita a tensão, Virgulino enviou um espião à feira de Água Branca, a fim de verificar as forças policiais. Enquanto isso, esperava as notícias em Bom Conselho de Papacaça. Depois de informado, Lampião rumou em direção a cidade. Foram quatro noites de viagem, sendo que os dias serviam para descanso. Na tarde do dia 27 de junho de 1928, o cangaceiro tomou um sítio não muito longe de Água Branca e obrigou o dono a fazer compras na cidade.
Deu-lhe dinheiro e uma lista, que continha cigarros, fósforos, esteiras de pipiri, duas redes brancas e uma lata de tinta vermelha. Para ter certeza que o dono do sítio ficasse em silêncio, manteve a família dele como refém. Lampião dividiu seu bando estrategicamente. Quatro duplas se formaram para fazer o bloqueio das entradas da cidade e ali ficarem até o término do assalto. Os outros dez cangaceiros encheram as duas redes compradas no comércio com armas e munições. A lata de tinta vermelha serviu para pintar as redes, dando assim a impressão de sangue de morto.
Ao amanhecer do dia 28, os dez cangaceiros entraram em Água Branca, carregando as redes com os dois 'defuntos'. Estacionaram em frente ao quartel da cidade e avisaram ao soldado de vigia que tinham encontrado dois mortos na estrada. O vigia os convidou para entrar e esperar, enquanto ele iria acordar um outro soldado numa casa vizinha. Quando o vigia saiu, os cangaceiros trataram de pegar as armas escondidas dentro das redes e esperam a volta para dar o bote.
Lampião soltou vinte presos e no lugar deles prendeu todos os guardas. Obrigou ao corneteiro dar toque de reunir. Lampião enjaulou mais de 30 soldados e roubou todas as armas e munições, que logo foram distribuídas entre os ex-prisioneiros, somando 30 homens armados prontos para o assalto. Os cangaceiros tomaram as ruas e acordaram os moradores com tiros. As casas e as lojas dos mais ricos foram saqueadas uma por uma. A Baronesa foi a que sofreu o maior prejuízo: dinheiro, ouro, e 25 cabras leiteiras.
Após o saque, ela seria humilhada: passeou de braço dado com Lampião pelo meio das ruas da cidade. Foi a primeira vez em que os cangaceiros, vibrantes e entusiasmados pela vitória, cantaram um xaxado ritmado pela batida forte dos rifles batendo no chão: "Olê mulé rendeira, olê mulé rendá, tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar".
“Acorda Maria Bonita, levante e faça o café, que o dia já vem raiando e a puliça já tá de pé”. Como explicar que alguns compositores, em algumas músicas ou em trechos delas, tenham reencarnado a fala e até mesmo o pensamento de Lampião?
Há quem se comporte assim. Chico Science, como vimos na edição anterior, trazia o capitão cangaceiro como mártir, mas em certos momentos tomou o corpo de Lampião pra sua revolução estético-musical ficar mais eficaz. O cangaço pra justificar o manguebit.
O episódio da morte de Lampião e de quase todos de seu bando marcou a história do país, encerrando assim o ciclo do cangaço. Imagens de cabeças degoladas e expostas ao público após a emboscada povoam até hoje o imaginário popular.
Na letra de “Sangue de Bairro”, Chico toma o cérebro de Lampião, já decapitado, por mais um breve instante. Ele relata o nome de 24 cangaceiros do bando de Lampião, antes de tomar uma decisão: “quando degolaram minha cabeça, passei mais de dois minutos vendo meu corpo tremendo e não sabia o que fazer; morrer, viver, morrer, viver!”.
O assalto ao corpo de Lampião não teve monopólio. Lirinha, líder do grupo Cordel do Fogo Encantado, também baixou o espírito do rei do cangaço. A canção “O Cordel Estradeiro” apresenta o local inóspito: “meu moxotó coroado, de xiquexique e facheiro, onde a cascavel cochila, na boca do cangaceiro”, para em seguida assumir sua personalidade: “eu também sou cangaceiro”, e, enfim, salientar o poder de sua peixeira agora reencarnada em versos: “e o meu cordel estradeiro, é cascavel poderosa. (…) é canção de lavadeira, peixeira de Lampião, as luzes do vagalume (…) pois meu verso é feito a foice, do cossaco cortar a cana”.
A curiosa relação sobre o poder do vagalume, mais brilhante na intensidade do horizonte da árida vegetação da caatinga, remete a própria morte de Lampião e Maria Bonita. Em entrevista à revista TPM, de março de 2001, Sila, mulher do cangaceiro Zé Sereno, ambos sobreviventes da tragédia de Angico, lembra que na noite de véspera da emboscada, ela e Maria Bonita conversavam no alto de uma ribanceira: “vi uma luz que acendia e apagava, até perguntei a ela se era uma lanterna. Ela disse que devia ser vagalume. Se eu tivesse descido e falado com Zé Sereno, não teria acontecido o que aconteceu”.
Em “Profecia Final (ou No Mais Profundo)”, Lirinha encarna o messiânico Antônio Conselheiro - “Adeus povo, adeus árvores, adeus campos, aceitai minha despedida” - antes de voltar a ser Rei do Cangaço. A letra contém trechos de uma famigerada carta enviada por Lampião em novembro de 1926 para o governador de Pernambuco, através de Pedro Paulo Magalhães Dias, inspetor da Esso que se fizera preso pelo bando, mas que fora liberado com a missão de entregar a carta. Nela, o rei do cangaço se auto proclama governador do sertão E apresentava uma “proposta que desejo fazer ao senhor para evitar guerra no sertão e acabar de vez com as brigas. Se o senhor estiver no acordo, devemos dividir nossos territórios”. Lampião queria limites, e Lirinha repetiu: “fico governando esta zona de cá, por inteiro, até as pontas dos trilhos em Rio Branco. E o senhor do seu lado, governa do Rio Branco até a pancada do mar”, no Recife.
Coincidência ou não, Rio Branco, como era conhecida antes a cidade de Arcoverde, a porta de entrada pro sertão, é onde surgiu o Cordel do Fogo Encantado.
* este texto pode ser reencarnado. Domínio Público!
Que aspectos de revolução tem os cangaceiros ? Como indivíduos, adverte Eric Hobsbawm, em “Bandidos”, são “menos rebeldes políticos ou sociais, e menos ainda revolucionários, do que camponeses que se recusam à submissão, e que, ao fazê-lo se destacam entre seus companheiros; excluídos da carreira habitual que lhes é oferecida, são forçados à marginalidade e ao crime”.
Os cangaceiros, em grupo, “representam pouco mais do que sintomas de crise e tensão na sociedade em que vivem; não constitui um programa para a sociedade camponesa, e sim uma forma de auto-ajuda, visando escapar dela, em dadas circunstâncias. Exceção feita à sua disposição ou capacidade de rejeitar a submissão individual, os bandidos não tem outras ideias senão as do campesinato de que fazem parte. São ativistas, e não ideólogos ou profetas dos quais se deve esperar nova visões ou novos planos de organização política”, define Hobsbawm.
De acordo com Rui Facó, “eram elementos ativos de uma transformação que prepara mudanças de caráter social, que subvertem a pasmaceira imposta pelo latifúndio durante séculos, provocam choques de classes, lutas armadas”. Segundo Facó, autor de “Cangaceiros e Fanáticos”, o cangaço não era ainda “a revolução social, mas são o seu prólogo”, muito menos uma luta pela terra, mas “uma luta em função da terra”.
Para Hobsbawm, “uma vez que os horizontes dos bandidos são estreitos e circunscritos, como os do próprio campesinato, os resultados de suas intervenções na História talvez não sejam o que eles esperavam”. Talvez “o oposto daquilo que esperavam”, o que não faz do banditismo “uma força histórica menor”.
No âmbito cultural, o cangaço é força constante há várias décadas. O Movimento Manguebit, surgido em Pernambuco nos anos 90, causou uma revolução na música brasileira, ao misturar os tambores de maracatu com riffs de guitarra, mangue com antena parabólica, caranguejos com cérebro, samba com noize. A sonoridade e a estética tinham discurso. A letra de “Monólogo ao Pé do Ouvido”, faixa inicial do primeiro álbum de Chico Science & Nação Zumbi, 'Da Lama ao Caos”, introduz heróis rebeldes pra embasar a novidade artística que o movimento propõe:
“Modernizar o passado/ é uma evolução musical/ cadê as notas que estavam aqui/ não preciso delas/ basta deixar tudo soando bem aos ouvidos/ Viva Zapata!/ Viva Sandino!/ Viva Zumbi!/ Antônio Conselheiro/ todos os Panteras Negras/ Lampião, sua imagem e semelhança/ eu tenho certeza eles também cantaram um dia”. Na música que vem na sequência, “Banditismo por uma questão de classe”, compara a violência do passado sertanejo com o presente suburbano:
“Oi sobe morro, ladeira, córrego, beco, favela/ a polícia atrás deles e eles no rabo dela/ acontece hoje, acontecia no sertão/ quando um bando de macaco perseguia Lampião/ E o que ele falava outros ainda falam/ 'Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala'/ em cada morro uma história diferente/ que a polícia mata gente inocente/ e quem era inocente hoje já virou bandido/ pra poder comer um pedaço de pão todo fodido”.
A influência do cangaço sobre o imaginário popular e a cultura nordestina é um dos pilares do movimento que revolucionou alguns conceitos artísticos na final do breve século passado. Como diria Chico, “banditismo por pura maldade, por necessidade, por uma questão de classe”. A ruptura não foi somente na estética. O manguebit “roubou” a cena. E da lama, nos trouxe o caos.
O banditismo social é um dos “fenômenos sociais mais universais da história, e um daqueles de mais impressionante uniformidade”, diz Eric Hobsbawm, em “Bandidos”, obra clássica escrita em 1969. Para o autor, ocorre em todas sociedades que “se situam entre a fase evolucionária da organização tribal e de clã, e a moderna sociedade capitalista e industrial”. O cangaço foi consequência duma sociedade injusta e opressora do coronéis no sertão nordestino. A vingança, o estopim pro cangaço. Quase não havia alternativas ao pobre sertanejo a não ser entrar em algum bando de cangaceiros armados, pois ele sozinho não tinha poder de interferir nas decisões da justiça. A mesma justiça que não punia os assassinos bem afortunados, embora fosse severa demais pro simples cidadão que vingara a morte do pai, tal como aconteceu com Vergolino Ferreira, o Lampeão.
Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”, ilustra o que era o cangaço: “uma forma de banditismo típica do sertão pastoril, estruturando-se em bandos de jagunços vestidos como vaqueiros, bem-armados, que percorreram as estradas do sertão em cavalgadas, como ondas de violência justiceira. Cada integrante do bando tinha sua própria justificativa moral para aliar-se no cangaço. Todos fazendo do banditismo uma expressão de revolta sertaneja contra as injustiças do mundo. Resultaram na eclosão de um tipo particular de heroísmo selvagem que conduziu a extremos de ferocidade. Tais foram os cangaceiros célebres que, se por um lado ressarciam aos pobres de sua pobreza com os bens que distribuíam depois de cada assalto, por outro matavam, estropiavam, violentavam, em puras exibições de fúria”.
É claro que nem todos injustiçados aderiram ao cangaço. Fabiano, personagem principal de Vidas Secas, romance de Graciliano Ramos que retrata uma família de retirantes do Nordeste castigada pela forte seca, é preso e humilhado pelo policial “amarelo”. A vontade era vingar o sofrimento que o soldado lhe causou, mas “o que o segurava era a família. (…) Se não fosse isso, um soldado amarelo não lhe pisava o pé não. (...) não envergaria o espinhaço não, sairia dali como uma onça e faria uma asneira. Carregaria a espingarda e daria um tiro de pé de pau no soldado amarelo. Não. O soldado amarelo era um infeliz que nem merecia um tabefe com as costas da mão. Mataria os donos dele. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo. Não ficaria um para semente. Era a ideia que lhe fervia na cabeça”.
Mas porque bandidos radicalmente violentos, “que não só praticam o terror e a crueldade numa medida que não podia ser explicada como simples retaliação, mas cujo terror na verdade faz parte de sua imagem pública”, como lembra Hobsbawm, eram heróis pra muitos sertanejos e ainda hoje são influentes nas manifestações da cultura popular. O próprio Hobsbawm entende que os bandidos sociais, “encarados como criminosos pelo senhor e pelo Estado, mas que continuam a fazer parte da sociedade camponesa, e são considerados por sua gente como heróis, como campeões, vingadores, paladinos da Justiça, talvez até mesmo como líderes da libertação, admirados, ajudados e apoiados”.
Para Fabiano, sempre haveria esperança nos cangaceiros. “Imaginou o soldado amarelo atirando-se a um cangaceiro na caatinga. Tinha graça. Não dava um caldo”.
# águas passadas # “Uma nação que precisa de herói está fodida”
txt n' ntrvst: Tiago Jucá Oliveira
phts: Guilherme Carlin
Um dos melhores músicos do Brasil, Clayton Barros continua sendo um sujeito simples. Único membro do Cordel do Fogo Encantado que toca um instrumento harmônico, “no meio de um monte de percussionistas, tudo indignado, com raiva, com vontade de tocar”, Clayton fala da importância da banda se manter independente. Nesta entrevista você poderá saber um pouco mais da carreira dele e a do Cordel. Neste encontro entre O DILÚVIO e Clayton, a frase que sintetiza tudo só poderia ser “foi tanta água que meu boi nadou”.
De onde vem essa técnica que você tem pra tocar violão?
Existe um divisor de águas na minha história enquanto músico, antes do Cordel e depois do Cordel. Eu sempre ouvi os violonistas cantores brasileiros como João Bosco, Geraldo Azevedo, pessoas que tinham talento pra tocar, cantar e compor. Então essa foi a turma que eu procurava, e também uns instrumentistas como Baden Powell, hoje o Yamandu Costa e o pessoal de fora Al Di Meola, Paco de Lucía, flamenco e tal, eu tenho umas coisas espanholas no meu som que eu trago. Uma coisa moura também, essa mistura. Meu pai fala ‘entonce’, que é então em espanhol. Não que eu tenha uma influência da vida da Espanha, mas respiro naturalmente essa coisa do rasgo, de tanger as cordas dessa forma e também trabalhar dedilhados. Eu não curto só o trabalho de violão quando se usa só batidas. Eu gosto de um violão que seja trabalhado ritmo e com condições de você fazer solos e bases simultâneos. O Cordel é uma banda extremamente percussiva, e pelo fato de eu ter tocado muito na noite, sozinho, voz e violão, eu desenvolvi uma técnica que eu conseguia, entre primas e bordões, fazer base e ritmo, tinha que segurar a noite, quatro horas tocando. Quando a gente inventa e monta o Cordel, aí eu começo a utilizar uma coisa mais agressiva, não aquela informação mais suave que eu trabalhava nas noites. Porque o Cordel cada vez mais ele ia crescendo, a nossa instiga, nosso próprio ímpeto de se inserir, de fazer um trabalho, de luta, de independência. Isso é transmitido na música, na força do braço, na pancada que a gente dá. Então foi inevitável que o som no Cordel precisasse um pouco mais de peso, um pouco mais de drive, mesmo em cordas de nylon, que é mais difícil a captação, pra você trabalhar mais efeitos. Hoje eu não uso mais um instrumento acústico, meu violão é elétrico desde o início. Não que não fosse no começo da banda, mas a gente era mais suave. O segundo disco a gente já tinha modificado nosso som pra mais agressivo, tanto é que eu uso uns pedais ali e uns efeitos, não por intenção de modernizar o som ou não, mas por necessidade de poder amplificar determinado timbre, determinado sinal, pra ser compatível com a pancadaria que os meninos desenvolvem, que não é brincadeira não. É só um instrumento harmônico no meio de um monte de percussionistas, tudo indignado, com raiva, com vontade de tocar. Eu montei essa técnica junto com os meninos, de tocar mais forte.
Como você entrou no Cordel?
Pois é, o Cordel vem da cabeça de Lirinha. Eu morava no Recife, já estava lá uns quatro anos. O Lirinha já recitava e já agrupava pessoas para encontros e tal. E antes de eu voltar pra Arcoverde, e a gente montar o Cordel junto, ele tinha desenvolvido um espetáculo chamado Brasil Caboclo com outros amigos lá. Quando eu cheguei já tinha uma idéia circulando, que era texto, sonorização, bem pouca música, mais a idéia da palavra e teatral. Eu já era um músico que ganhava uma grana e o resto do pessoal não. Eu sobrevivia de música, tocava na noite desde os 16 anos.
Você se interessou por música e violão a partir de quando?
Meu primeiro flerte com música foi na escola, com banda marcial, tocando sopro. Foi meu primeiro contato. Numa das férias eu fui pra casa da minha irmã no Recife, lá tinha um violão e eu aproveitei as férias pra ficar brincando e desenvolvi um interesse grandioso, uma paixão. Sabe quando você tem aquele estalo: “é isso que eu quero, que eu vou agarrar com unhas e dentes”. Eu fazia datilografia em Arcoverde, meu pai pagava, e eu deixava de ir às aulas pra ver ensaio de bandas e estar perto de músicos, xeretando mesmo, aperreando. Isso eu tinha uns 14 ou 15 anos, foi muito cedo. Até foi um determinado espanto pra família, porque aquela visão do trabalho burocrático de você dar certo no mundo. Arte sempre sugere um risco. Na verdade tudo sugere um risco, a meu ver. A arte é uma coisa maravilhosa e “perigosa” de ser feita, porque existe muita quebra de mitos. Com 16 anos eu já tava tocando na noite, já ouvia muito esses compositores brasileiros que te falei, escutava muita música em casa, ainda não desenvolvia pegar música de ouvido, também nunca estudei música, partitura pra mim é grego. Embora saiba que necessito porque já perdi muita música por não ter escrito ou não ter um gravador na hora. As vezes vem um riff e algumas coisas não dá pra você lembrar. O rádio sempre foi presente lá em casa. Eu quando criança acordava muito cedo e o pai sempre tava ouvindo AM, muitas músicas nordestinas eu ouvi. Em 1989 fiz minha primeira incursão no sudeste, pra conhecer uma parte da família que eu não conhecia e trabalhar como operário, e aí comecei a ouvir música estrangeira, rock, heavy metal, trash. Aí passei dois anos em São Paulo, não me adaptei, não era aquilo que eu queria, saudades e tal, volto pra Arcoverde, mas já com a cabeça mexida por conta dessa incursão no sudeste. Aí foi quando nessas férias eu conheci o violão, comecei a me dedicar à música, parei de ouvir um pouco o rock e comecei a me dedicar mais a música do nordeste e do Brasil. Comecei a gostar de bossa nova, a ouvir os compositores lá da região, grandes nomes como Toquinho, Baden. Acho ingrato dizer nomes porque tem um milhão que você não diz. A descoberta foi Jorge Bem, curto muito o trabalho que foi feito em A Tábua de Esmeraldas, aqueles violões são muito bem gravados, a pegada dele é muito fodida, muito boa, embora ele não dedilhe, e sim é um ritmista do samba rock. As harmonias e a pegada me interessam bastante, a forma de compor, embora eu seja mais melodista. Aprendi muito com o Cordel, mas antes eu era muito melodista, ainda sou, tanto é que estou fazendo um disco infantil, que vai se chamar Outros Planetas, tem todas essas coisas que não cabem no Cordel, como letras e algumas inspirações, que são coisas minhas, assim como todos do Cordel tem suas informações pessoais. Mas também estou trazendo nesse disco infantil essas coisas do começo, mais leves e mais suaves, inevitável não trazer o ritmo e a pegada que eu desenvolvo na banda. Não foi um disco programado, foi algo natural.
O Cordel vem fazendo um relativo sucesso, porém mantendo-se independente e sem jabá de gravadora, ou seja, é pela qualidade mesmo da banda.
A gente não tinha grana e a gente não faria isso e nem faremos, porque é a ideologia que construímos juntos e dentro de cada um prevalece esse instinto guerreiro, essa coisa de andar na contramão e não se tornar uma coisa boba.
Aquela edição da Trip que trazia encartado um CD com 10 músicas do Cordel mais uma inédita do Chico Science foi muito importante pra banda ser conhecida nacionalmente.
Essa edição da Trip vendeu 60 mil exemplares no país todo. Logo em seguida sai o primeiro CD, aí depois na própria Trip saiu o CD do RecBeat, com várias bandas, inúmeras coisas aconteceram.
O DILÚVIO também tem atacado nessa área de encartar CDs de bandas independentes por um preço justo.
Eu acho uma pena a Trip não ter feito isso mais. Se vocês puderem, continuem fazendo. Parabéns cara, isso é uma coisa importantíssima. Banda e revista crescem juntas. O problema da independência é distribuição, porque você fica pouco refém, porque as gravadoras tomam conta desse mercado. Nossa distribuição é inferior das gravadoras, que detêm esse domínio. Hoje nós estamos com uma distribuidora independente, que é um anexo de artistas independentes da Trama. Eu confesso que não chegou onde eu queria e esperava. Pensei que ia chegar numa loja e encontrar, e não estou encontrando. Não seria uma queixa, e sim uma expectativa que eu tive e não foi atendida.
O que o Cordel tem a agradecer ao movimento manguebit?
Eles são grandes guerreiros, como foram Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro para abrir portas. A gente chegou aqui no sul por conta de Mundo Livre S/A e Otto, viemos no ônibus com eles, quer dizer, os caras abriram as portas pra nós. Nossos primeiros shows como banda foi viajando com o MLSA. Gutie, nosso produtor e que era produtor do MLSA na época. Temos um grande respeito, já gostávamos dos caras. E eu tenho uma gratidão particular, sou muito amigo de Bactéria, se encontramos em Arcoverde, tomamos uma cerveja, ele é figura ilustríssima, sujeito sangue muito bom, um cara alegre, pra cima. Os caras têm um peito muito forte, são grandes lutadores. Fred 04 está sempre aqui quando rolam o Fórum Social Mundial, é uma figura muito equilibrada, politicamente falando, tem postura e atitude, apesar de atitude ser uma palavra tão desgastada já, mas são pessoas importantíssimas pra música.
O Cordel não chega a ter essa postura política nas letras.
Nós somos mais metafóricos, mas mesmo assim no nosso primeiro disco a gente fala de Xicão, da tribo Xucurú, a gente fala dessa questão da agua em “Chover”, da seca, da alegria de um povo fodido pelos outros. Sabemos que o nordeste elege mal os seus representantes. Existe também uma má construção do nordeste nas outras partes do Brasil. Inúmeras eleições no nordeste são compradas, assistencialismo, paternalismo e coronelismo. Fica difícil mudar essa condição em pouco tempo. E agora mais uma frustração política que estamos vendo no momento. Não me espanta tanto porque sempre achei que o problema não é quem vai sentar lá, o problema é a cadeira, que já ta corrompida, o sistema ta todo corrompido, troca o presidente e entra outro, mas vão negociar com os mesmos de sempre, com o crime organizado. E a gente não pode também ficar esperando que heróis nos salvem. Uma nação que precise de herói ta fodida. A gente precisa aprender a fazer das nossas vidas o melhor possível. São detalhes mínimos, como não jogar lixo no chão, saber lutar, procurar os seus direitos, se informar pra saber como surgiu o seu país e sua cidade. Eu tenho uma admiração muito grande por Eduardo Bueno, o Peninha, um escritor que me abriu muito os olhos. E a gente caminha por aí, com umas letras mais poéticas e metafóricas, existem as panfletárias que a gente admira como Chico Science e Fred 04, também temos essa postura política, mas a gente não utiliza o microfone pra discurso. O texto que está ali no disco já é o nosso discurso.
Falando em herói, Lampião e o cangaço são temas em algumas letras do Cordel, tipo aquela famosa carta que ele enviou ao governador de Pernambuco se intitulando governador do Sertão (utilizadas por mim em meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo: a influencia do cangaço na música nordestina). Você que é de lá pode contar melhor como é essa influência de Lampião no imaginário popular?
O povo é dividido. Não própria cidade dele, Serra Talhada, ergueu-se uma estátua e rolou uma discussão muito grande, porque pra uns ele era um criminoso, pra outros era um grande herói. A figura de Lampião foi despertada por causa da opressão que rolava no nordeste. Ele se tornou cangaceiro por conta do assassinato do pai dele, e se tornou um Robin Hood do nordeste, que influenciou bastante a música, tem até um disco do Volta Seca (cangaceiro do bando de Lampião) cantando músicas dele. Mas eu não diria herói ou bandido, mas um ícone importantíssimo. Eu sou mais para Lampião do que pra Severino Cavalcanti e Lula. Acho que Lula não tem muita culpa nessa merda, não, a galera que está por trás é que está fodendo, mas eu ainda prefiro não a arma em punho, sou contra luta armada, mas acho que a língua, a caneta, a mão, o pensamento, o disco, o microfone são grandes armas que a gente pode utilizar bem.
Compartilhar — copiar, distribuir e transmitir a obra.
Remixar — criar obras derivadas.
Sob as seguintes condições:
Atribuição — Você deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).
Attribute this work:
Compartilhamento pela mesma licença — Se você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.
Ficando claro que:
Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
Domínio Público — Onde a obra ou qualquer de seus elementos estiver em domínio público sob o direito aplicável, esta condição não é, de maneira alguma, afetada pela licença.
Outros Direitos — Os seguintes direitos não são, de maneira alguma, afetados pela licença:
Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
Direitos que outras pessoas podem ter sobre a obra ou sobre a utilização da obra, tais como direitos de imagem ou privacidade.
Aviso — Para qualquer reutilização ou distribuição, você deve deixar claro a terceiros os termos da licença a que se encontra submetida esta obra. A melhor maneira de fazer isso é com um link para esta página.