#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

MALDITOS QUEM, CARA PÁLIDA?

# chaves #
Hein?

txt: Rodrigo Jacobus

Cuidemos com as generalizações que excluem e segregam... Barbáries existem em todas as raças, cores, e credos, sempre existiram e sempre existirão, independente da procedência étnica. Estamos falando da natureza humana e inverter preconceitos recai no mesmo erro: o “retorno a mais do mesmo” ou pior, a “involução”. É preciso mais critério nos enfoques para construir uma crítica mais profunda e mais ampla, menos sectarista, mais orientada para valores de cunho universal e irrestrito, que multipliquem forças ao invés de dividir. É comum ouvirmos discursos “alternativos” ou “de esquerda” metendo pau no branco-europeu-ocidental, o cara-pálida matador de índios, ou fazendo apologia a outras etnias e culturas sem o devido conhecimento destas. Ambos os discursos tendem a ser preconceituosos e marcados pela falta de conhecimento, aparentando muitas vezes a intenção da crítica pela crítica ou uma impensada posição a favor de minorias pelo simples fato de serem minorias. Mas que valores estão em jogo nesses discursos? Não sei, não compreendo, desculpem minha ignorância, pois não vou ficar tentando interpretar a intencionalidade de quem o faz... Ao invés disso, vejamos alguns exemplos para ilustrar meu argumento.

Os astecas e os maias faziam sacrifícios a varrer em nome dos seus deuses. Viviam sob duros regimes teocráticos e o rei exercia o poder divino por meio de leis, funcionários e as escolas nobres. Supunham viver a era do quinto sol. As quatro anteriores haviam acabado em catástrofes. Isso constituía uma justificativa ideológica para as contínuas guerras que promoviam, pois era necessário capturar inimigos e sacrificá-los aos deuses, a fim de proporcionar sangue para que o Sol não se apagasse. Vejam que legal as práticas do regime teocrático asteca: o ritual dedicado a Huitzilopochtli (deus da guerra e da tempestade) ou Tezcatlipoca (deus da noite e da magia, deus supremo) consistia em colocar uma vítima em uma pedra segurada por quatro sacerdotes, enquanto um quinto sacerdote extraía, com uma faca, o coração (ainda vivo) para alimentar seu deus. O dedicado a Tlatoc (deus da chuva e da tempestade) consistia em sacrificar diversas crianças no cume de uma montanha. Acreditavam que quanto mais as crianças chorassem, mais chuva o deus proveria. No dedicado a Xite Totec (deus da primavera e do replantio), um jovem era amarrado em uma parede e os sacerdotes atiravam-no flechas até ele morrer. O sangue que escorria de seu corpo era para alimentar a terra. O dedicado a Xiuhtecuhtle (deus do fogo), a vitima era colocada (com intervalos, para queimar aos poucos) sobre um montante de brasas. Quando não havia guerra contra os vizinhos, os astecas declaravam a "guerra florida", uma série de combates individuais que proporcionavam vítimas para os sacrifícios. Os astecas acreditavam que o sol morria todas as noites. Para acordá-lo, era necessário oferecer sangue humano a ele. Por isto, todas as noites, os sacerdotes matavam uma pessoa para o sacrifício. Legal, não? E isso tudo antes dos europeus aparecerem por aqui.

Na China, a mulher era submetida a um processo de deformação dos pés que iniciava-se na infância, quando os dedos dos pés eram literalmente quebrados. Esta tradição reinou por 1000 anos (bem antes dos “ocidentais” aparecerem por lá): a prática de “amarrar” visava limitar fisicamente as mulheres e estava ligada à subordinação feminina. Na literatura erótica chinesa há relatos de homens acariciando, lambendo e beijando pés totalmente atrofiados por causa das amarraduras. Para os Chineses era uma forma de preservar a virgindade das mulheres, marca a ociosidade das mesmas e era tida como uma maneira de mostrar a virilidade dos homens. A menina sem os pés cobertos não poderia percorrer grandes distancia, e, assim não poderia fugir de casa com sucesso. A atrofia dos pés por amarração era feita da seguinte forma: os quatro dedos (menores) eram colocados para baixo e o dedão ficava estendido; o ante pé e o calcanhar ficavam juntos e o dedão ia para baixo do osso do calcanhar. De perfil parecia um sapato de saltos altos. A literatura erótica, mencionada acima, diz que o dedão serve como um substituto fálico e a fenda no pé seria usada como uma pseudovagina.

Querem mais? Ainda hoje, em países como Senegal, Egito, Sudão, Siri Lanka, Somália, Malásia, Serra Leoa, Emirados Árabes Unidos, Índia, Yemen, Indonésia, Omã, Guiné-Bissau, Nigéria, Uganda, Quênia, Tanzânia, Togo, Mauritânia, Gana, Congo, Benim, Camarões, Costa do Marfim, Chade, Gâmbia, Libéria e Mali é comum a extirpação do clitóris, também chamada de clitoridectomia. Pode ser acompanhada da eliminação de parte ou de todo o lábio vaginal, procedimento chamado excisão. De modo generalizado, essas práticas de remoção são chamadas circuncisão feminina. Há uma forma de mutilação chamada infibulação que consiste na costura dos lábios ou do clítoris. Para ter relações sexuais é necessário que o homem force a penetração entre os pontos (ato doloroso ao extremo) e para dar a luz a mulher é descosturada e logo em seguida, costurada novamente (tudo sem anestesia! Que tal?). A idéia é inibir o prazer sexual feminino, já que só os homens podem ter essa privilégio. Em alguns destes lugares a mulher não passa de um bicho de estimação dos homens.

Onde quero chegar? A natureza humana é vil e amoral. Rousseau é um bobalhão com sua teoria do “bom selvagem”. Nossas ambições devem transpassar estes ranços etnológicos para que cheguemos a uma revolução, ou seja, uma transformação evolutiva radical. Não tenho dúvidas de que os navegadores enviados pelos monarcas europeus para “conquistar” novas terras eram em sua grande maioria um bando de saqueadores filhos-da-puta. De que os cruzados eram uns merdas sob a tutela de uma igreja cristã escravista. Mas isso não faz dos europeus uns malditos. Quero apenas mostrar que essas atrocidades culturais são comuns a todas as etnias, independente de raça, cor, credo, etc. Quando o discurso é CONTRA ou A FAVOR (pois criar privilégios para combater privilégios também é um erro) do branco, do negro, do índio, do alemão, do oriental, do judeu, do árabe, do europeu, do baiano, do gaúcho, da mulher, do (ou da) homossexual é certo que estamos recaindo em injustiças e envolvendo uma grande quantidade de inocentes (úteis ou não) e vítimas inúteis. Desvirtua a luta, segrega os oprimidos e creio que não leva a nada: na melhor das hipóteses conduz a polêmicas desnecessárias neste momento tão difícil, com tantas atrocidades à nossa volta que exigem muita união para ser revertida.

Sugiro que gritemos então contra a injustiça, a desigualdade, a intolerância entre os povos, o preconceito, o governo e o Estado, as elites que ditam nossas regras e leis, a igreja parasitária, a “trairagem”, enfim, contra todos aqueles que tentam nos subjugar, escravizar e enganar – estes são nossos inimigos. Pintemos a favor da solidariedade, da liberdade, da coragem dos que lutam por isso e da perseverança dos que não desistem, do entendimento entre os povos e nações, da paz pela qual teremos que lutar, da fraternidade que substituirá o império do capital pelo amor e respeito ao próximo, que possa nos levar a um mundo mais justo e melhor para se viver, sem restrições estúpidas e primitivas amparadas na ignorância.
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