#CADÊ MEU CHINELO?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

CARTA PRA XUXA




# agência pirata #
Twitter Training (uma carta aberta à Xuxa)

txt: Ana Carolina Moreno

Querida Xuxa,

Eu nasci em 1982, então faça as contas para ter a certeza de que sim, eu já tive um microfone de chuquinhas, sabia de cor a coreografia das músicas de Super Xuxa contra o baixo astral, cantava “meu verde, que te quero, pro mundo virar mais criança” imitando o sotaque carioca e meu sonho era me enterrar em uma montanha de cartas na minha “casa” no Jardim Botânico. (Demorei demais para me tocar que Jardim Botânico era só o bairro onde ficava o seu estúdio…)

Em nome dos nossos velhos tempos, resolvi te dar duas dicas sobre o que eu aprendi depois de uns 20 meses de Twitter:

1- A grosseria é a regra, e não a exceção.
Construímos no Twitter brasileiro uma comunidade que aproveita a desculpa dos 140 caracteres para deixar de lado a educação. Como não cabe tudo em uma mensagem, preferimos usar o espaço com conteúdo que expressa apenas o nosso lado negativo. Nos acostumamos apenas a falar mal dos outros (busque por #vergonhaalheia ou “Preguiça de gente que…”), como se nós fôssemos perfeitos, nunca cometêssemos erros no trabalho ou alguma mancada com algum amigo. Adoramos diminuir nosso país em relação ao resto mundo (#braziu) como se fôssemos bons demais para ele, e de maneira nenhuma tivéssemos qualquer responsabilidade pelo seu estado atual e futuro. Só rimos de nós mesmos (#faiô) quando é uma situação tragicômica ou um deslize menor, sem importância, que mostra o quanto somos perfeitamente humanos.

Portanto, não estranhe que as pessoas esperem da sua filha um rigor gramático infalível que eles mesmos não possuem. O melhor é se acostumar a isso, e entender que elas só estão praticando o cômodo hábito de seguir o rebanho e engrossar o caldo da intolerância como forma de distração até a próxima passeata de ovelhas. É difícil quebrar a rotina.

2- A culpa é um pouco tua.
Quando eu digo tua, não é especificamente tua, mas sim do sistema midiático, do qual você se beneficia, criado em torno das celebridades que faz com que os “reles mortais” criem um complexo de inferioridade. Que, pelo teor das mensagens que você tem recebido no Twitter, está profundamente enraizado na personalidade de todos nós, que nunca brincamos em uma montanha de cartas, a não ser que elas fossem de mentira, nem marcamos a infância de milhões de pessoas em todo o mundo, ou aparecemos perfeitas em fotos de revistas, nem damos autógrafos diariamente e, ainda menos, tivemos programas infantis simultâneos em vários continentes.

Nós, que deixamos de te idolatrar depois da infância, podemos seguir dois caminhos: sentir compaixão pela maneira tão tipicamente terrível como você foi recebido no Twitter, ou ajudar a fortalecer ainda mais a fama de tratores sem freio que aperfeiçoamos diariamente atrás do monitor. Quase todos seguem o segundo caminho porque é a nossa única oportunidade de nos sentirmos melhores que você. Tenho certeza que você entende como é se sentir mais amada e bem sucedida que os outros. Essa foi a nossa vez.

A tecnologia permite que agora a gente possa fazer mais barulho do que a mera presença em uma montanha de cartinhas. Nossas mensagens não estão mais destinadas ao papel coadjuvante de voar entre seus cabelos e quem sabe raspar nos seus dedos antes de cair no esquecimento. Muito menos a vergonha de ser enterrada lá embaixo e nunca mais ver a luz do dia. Uma piadinha sagaz pode percorrer todo o país em questão de minutos. E o “seu jeitinho” já virou um clássico, é irreversível, achei legal você dizer que não vai processar ninguém porque o sistema judicial e a tecnologia são atualmente incompatíveis.

A melhor maneira de sair dessa é aprender a não se deixar afetar por essa raiva que chega tão mais perto do que a interação com o público à qual você estava acostumada. E, se você me permite essa liberdade, eu diria que a sua filha, se não a quiser preservar de tudo isso, precisa de um treinamento intenso, com especialistas de verdade, para aprender não só a usar essas ferramentas, mas também quais são as suas conseqüências. E, aproveitando essa carta sobre o passado para pensar no futuro, eu te peço que por favor explique à sua filha que, quando ela começar a namorar e o fulano sugerir fazer umas fotos ou vídeos mais “adultos”, que ele nunca mostraria pra ninguém, ela tem que imediatamente chutar o cara de casa. Mostre esse caso e esse outro, mais antigo, pra ela entender que NUNCA esse material permanecerá em segredo. Bom, são só alguns exemplos mais ou menos recentes…
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