#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 29 de março de 2010

ROCK GAÚCHO É UM TERNO MOFADO

#agência pirata
Novo demais pra isso

txt: Leo Felipe

Assim me vejo diante da desgastada cena do tal do Rock Gaúcho. Causa espanto observar essa – pra usar um termo bem sulista – gurizada ouvindo Beatles como se fosse a última novidade musical do planeta. Não que eu seja louco (ou idiota) a ponto de questionar a importância e a influência do famoso quarteto, ambas gigantescas e incontestáveis, mas a questão é que soa tão anacrônico. Isso a que se convencionou chamar de Rock Gaúcho, esse tipo de música inspirada na sonoridade dos anos 60 e embalada em terninhos de brechó mofados, não tem mais saída. Assim como os “sixties” terminaram naquele melancólico “dream is over” de guerras, golpes, overdoses e assassinatos, o seu pastiche também tem seus dias contados. Até a Cachorro Grande já percebeu isso. O clichê do “garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” (não por acaso, um sucesso sessentista requentado pelos conterrâneos Engenheiros do Hawaii) começa, no discurso da banda, a ceder espaço para referências um pouco mais contemporâneas (20 anos depois, pelo menos). Refiro-me à citação do vocalista Beto Bruno aos Stone Roses como influência no último trabalho do grupo. Só falta agora trocar os terninhos por umas roupas mais descontraídas. Não digo aquelas camisas folgadas e coloridas estilo Manchester, mas quem sabe uns casaquinhos de tecido sintético.

O tecido sintético dos timbres eletrônicos raramente veste o Rock Gaúcho, ele é quase sempre valvulado. Ou acústico. Ou vice-versa. Ok, têm o incansável Edu K e o DJ Chernobyl, mas esses já estão numa esfera internacional e não cabem mais na redução regionalista. E por falar nesse legítimo camaleão do rock brasileiro, o Edu sempre traçou um caminho torto em relação à turma dos que amavam Beatles e etc. Lá nos anos 80, ele andava com o Miranda e o Flu e ouvia, (muito) além de Beatles & Stones, pós-punk, funk, new wave. Referências quase alienígenas para os roqueiros de TNT, Cascavelletes e congêneres. Ou genéricos, como se diz por aqui.

Em termos não de culpa, já que um verdadeiro criador nunca pode ser acusado de gerar imitadores, mas origem, esse espírito sessentista que assombra o Rock Gaúcho tem na figura de Flávio Basso uma referência fundamental. Nos anos 1980, o sujeito esteve à frente do TNT e dos Cascavelletes, bandas definidoras do gênero. Na década seguinte, Flávio inventou o Júpiter Maçã, uma persona psicodélica diretamente relacionada com a estética da lisergia e do amor livre. Mas o homem é da estirpe dos malditos, de modo que coube aos discípulos (filhotes?) trazer de volta os anos 1960 em cadeia nacional, via Music Television, bem debaixo dos chapéus tipo Bob Dylan.

Os anos 1960 sempre ocuparam um lugar especial no imaginário dos roqueiros nativos. Estão presentes no ié-ié-ié malicioso do TNT e dos Cascavelletes, nas composições dylanescas de Júpiter Maçã, no delírio sydbarretiano de Plato Divorak, na Jovem Guarda atonal da Graforréia Xilarmônica. A música produzida nos anos 1960 é uma das mais influentes da história. Mas, desde l á , muita coisa aconteceu e é no mínimo limitante buscar referências apenas naquele universo. Especialmente depois de tantas – usando uma expressão bem a ver com aqueles anos – revoluções que ocorreram na música pop nas últimas décadas. Não há problema em buscar inspiração em algo feito 40 anos atrás, o erro é a reverência conservadora e excludente que olha o passado sem de fato compreendêlo. Um exemplo: imagine Jimi Hendrix vivo. É bem provável que andasse às voltas com samplers, softwares e ruídos digitais. No entanto, a maioria dos fãs de Hendrix que conheço torce o nariz só de ouvir a expressão “música eletrônica”. É que esse pessoal do Rock Gaúcho é muito conservador. Troque os terninhos por bombachas e dá no mesmo.

Lembro quando ouvi o álbum Revolver pela primeira vez, ainda nos teens. Que descoberta! Na época, um amigo mais velho, o Roberto, um sujeito que viveu a explosão do punk na Europa dos anos 1970, costumava dizer: “Odeio Beatles”. Mesmo perplexo, eu podia compreender o sentido da afirmação: os Fab Four representavam pro Roberto um passado distante e gasto, preso em escombros de sonhos frustrados, deixado pra trás pela velocidade da História em transformação. Hoje em dia, ando pensando no Roberto com freqüência. Sempre que fico sabendo do show de uma banda de covers dos Beatles. Ou quando entro num clube e escuto “ I want to hold your hand” na pista de dança. Ou nas conversas de jovens roqueiros em ternos de brechó apertados: John, Paul, George e Ringo.

Velho demais pra isso, quem sabe.
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