#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 26 de março de 2021

[noé ae] BANDIDOS NA TV

:: txt :: Tiago Jucá ::

É possível fazer jornalismo fora dos padrões comuns de reportagem. Usei muito este argumento quando defendia a não obrigatoriedade do diploma de jornalista para os debates que me convidavam a participar. A maior reportagem escrita até hoje, por exemplo, é Os Sertôes, livro de Euclides da Cunha, um clássico da literatura nacional.

Quando se trata de jornalismo filmado, considero dois filmes como o que de melhor já foi feito no Brasil. E se trata de cinema e não telejornalismo: Ônibus 174, de José Padilha, e Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund.

Bem, considerava os melhores até assistir à Bandidos na TV, série do Netflix, dirigido por Daniel Bogado. A reportagem é sobre um programa de televisão que se passa em Manaus. Canal Livre traz à tela aquelas matérias sangrentas de assassinatos muito costumeiras em várias emissoras do país. Líder de audiência, o programa acaba por consagrar seu apresentador Wallace Souza como um ícone manauara.

Não vou me aprofundar mais no enredo para não dar spoiller. No fim do primeiro episódio você já se surpreenderá com algumas revelações. E perguntará a si mesmo, assim como eu também fiz pra mim, como pude ficar surpreso com tamanha obviedade. É filmado em Manaus, mas poderia se passar num condomínio na Barra da Tijuca. É melhor jair fazendo a pipoca.

 

sábado, 4 de dezembro de 2010

[noéspecial] TERRORISMO E PROPAGANDA



::txt::Tiago Jucá Oliveira::

Lampião e seus irmãos entraram para o cangaço para vingar a morte do pai assassinado pela poderosa família Nogueira. Somente no bando dos cangaceiros de Sinhô Pereira é que Virgolino Lampião teve proteção contra futura represálias dos coronéis e, principalmente, seria comeste grupo de homens armados que ele poderia dar o troco.

O paralelo entre o cangaço sertanejo com o tráfico carioca fica bem ilustrado no filme “Cidade de Deus”, do diretor Fernando Meirelles. Em determinada cena, o “patrão” está sentado à mesa de seu “quartel”, e uma fila de homens e meninos que, de um em, chegam e justificam a decisão de entrar pro mundo do crime: “mataram o meu pai”, “estupraram minha mulher”, etc. Assim como Lampião pegou em armas por causa da morte do pai, Labareda entrou para o cangaço depois que sua irmã foi “deflorada” por um soldado.

Quando o poder político rechaçou isolados crimes com extrema violência o humilhação, o que se viu foi a formação do crime organizado, e esta, em resposta àquela, reagiu em proporções iguais de crueldade. É a bola de neve que o ex-capitão da BOPE do Rio de Janeiro, Rodrigo Pimentel, explicou em depoimento para o filme documentário de João Moreira Salles, “Notícias de uma Guerra Particular”. A guerrilha urbana das favelas cariocas chegou a um nível tão absurdo que o único motivo para matar é vingança: policiais matam traficantes devido a morte de um colega, e traficantes matam os tiras em represália aos comparsas assassinados. Como afirma o historiador Eric Hobsbawm, em “Bandidos”, “onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”.

Como entender a brutal vingança dos cangaceiros? Segundo Hobsbawm, “é impossível fazer o opressor pagar a humilhação imposta à vítima em sua própria moeda, pois o opressor atua dentro de uma estrutura de riqueza, poder e superioridade social que a vítima não pode usar. A vítima só dispõe de seus próprios recursos, e entre estes, a violência e crueldade são os de eficiência mais visível”.

Hobsbawm acredita que os cangaceiros “não só praticam o terror e a crueldade numa medida que não podem ser explicada como simples retaliação, mas cujo terror na verdade faz parte de sua imagem pública”. Os principais motivos que levavam Lampião a cometer brutalidades eram dois. “Ia às raias do barbarismo contra o delator ou contra a volante, aquele por causa da traição, e esta, porque representava a autoridade que, na sua compreensão, ajudava sempre o coronel contra os pequenos, relata Maria Christina Matta Machado, no envolvente livro “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”.

Desse mesmo livro podemos tirar várias situações ocorridas durante o reinado de Lampião. Numa dela, Virgolino foi dar exemplo a um homem que havia avisado aos “macacos” de sua presença pela redondezas. O capitão ordenou seus homens a tirarem as roupas do traidor e de sua esposa e os levaram amarrados até um lugarejo mais próximo. Chegando ao local, Lampião mandou seus habitantes saírem às ruas e presenciarem a barbaridade que estava por vir: “chegavam homens, mulheres e crianças, conduzidas a coice de armas pelos cangaceiros. Expostos nus completamente os dois infelizes, ante aquela gente assombrada, Virgolino desembainhou o longo punhal e, devagarinho, como a saborear a sua torpe vingança, sangrou o desgraçado, cujos gritos provocaram risos dos “cabras” e lágrimas dos pobres sertanejos, espantados com tanta maldade”.

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