#CADÊ MEU CHINELO?

sábado, 9 de maio de 2009

PSICODELIA PARA PRINCIPIANTES

# agência pirata #
Em vez de proibir o fumo, que tal liberar as drogas?



txt1: André Forastieri
txt2: André Forastieri e José Augusto Lemos


Sou a favor da descriminalização de todas as drogas. Acho que elas são divertidas e necessárias. Particularmente para espíritos criativos. Boa parte da arte que mais interessa não teria sido produzida sem o auxílio de aditivos químicos.

Minha droga favorita é álcool. Felizmente ela não é ilegal, ainda. Mas me agrada de vez em quando sorver grandes quantidades de álcool em bares, acompanhados de muitos cigarros e comidas gordurosas. E só fumo quando bebo.

Agora, uma nova lei quer me tirar este prazer. Os argumentos são pífios.

Faz todo sentido que alguns estabelecimentos permitam o fumo e outros não. Com uma placa na porta, “Aqui se Fuma”. Aliás podia ter também estabelecimentos com plaquinhas tipo “Aqui se fuma Maconha”, “Aqui se injeta heroína” etc. Quem quiser entrar que entre.

Mas a lei exige que ninguém fume em nenhum lugar fechado, restaurante, bar, casa de show etc. Pretende-se proteger garçons do fumo passivo. Mas a nova lei não vai protegê-los do desemprego. É pra rua que vão os garçons, se realmente a marcação anti-fumo for cerrada. Duvido que seja. Deve acontecer a mesma coisa que com a lei seca: fogo de palha. Mais um factóide sem fiscalização.

Muitíssimo pior que o fumo é a fumaça. São Paulo acorda todo dia tossindo, espirrando, fungando, de olhos vermelhos e com dor de cabeça. Porque? Poluição hardcore, industrial - a Petrobras é a empresa que mais polui no estado de São Paulo, sabia? - e poluição automotiva. Mas a inspeção veicular é só para carros com menos de cinco anos, os que menos fazem estrago. E para ajudar as montadoras, o governo do país baixou os impostos e estimula a compra de mais carros.

O que causa mais problemas respiratórios: a fumaça que todos respiramos, ou a fumaça de segunda mão que alguns garçons iriam respirar?

Mas é difícil ir contra os interesses dos grandes. Muito mais fácil legislar sobre os direitos do indivíduo.

Agora, uma defesa apaixonada do uso de drogas psicodélicas.

O texto a seguir foi escrito a quatro mãos em abril de 1990, dezenove anos atrás. Foi um dos textos mais ambiciosos que eu escrevera até então. José Augusto Lemos tinha acabado de me contratar para a Bizz. Eu era um moleque. Ele não, ou não me parecia. Eu tinha 25, ele menos de trinta, mas com repertório, ambição e elegância que me deixavam no chinelo.

Tive que me esforçar para fazer bonito neste artigo sobre o espírito psicodélico e hoje, relendo, ainda me orgulho do resultado. Foi minha primeira Bizz como editor, capa do Pink Floyd original. Foi meu professor mais importante na arte de fazer revista.

Não tenho mais contato com José Augusto Lemos, obras da vida. Perda minha. Continuo devedor e admirador.

Agradeço publicando, sem pedir autorização, nosso único artigo conjunto.



Psicodelia Para Principiantes: Ligue-se… Sintonize… Caia Fora (do Sistema)



“Turn on, tune in, drop out”, o slogan máximo do psicodelismo criado por Timothy Leary, pode sugerir hoje ranço e hippismo.

Afinal, pós-perestroika, as drogas foram eleitas inimigo número um da civilização ocidental. E entre seus consumidores — um mercado global que movimenta cerca de cem bilhões de dólares ao ano, quase a dívida externa brasileira — as químicas mais procuradas não são mais as alucinógenas, mas as estimulantes: cocaína, crack, anfetaminas diversas. A maconha continua popular, mas seu consumo cai regularmente no mundo inteiro há anos.

Substâncias alteradoras do funcionamento da mente são cada vez mais mal vistas. Para a geração que cresceu sob a ofensiva antidrogas de Reagan, é inimaginável o fato de que há pouco menos de trinta anos a utilização de alucinógenos como expansores da consciência era defendida com unhas e dentes por uma fração razoável da elite científica do planeta.

A psicodelia — “manifestação do espírito”, em grego — tem raízes milenares. Praticamente todas as civilizações de que se tem notícia usaram um ou outro tipo de alucinógeno, quase sempre com fins religiosos. Mas a maneira como o movimento psicodélico floresceu no início dos anos 60, principalmente na costa oeste dos EUA, tem uma base distinta no New Deal, política de realinhamento econômico promovida nos anos 30 e 40 pelo presidente Franklin Roosevelt.

A América pós-New Deal foi pautada por quatro explosivos elementos: o maior desenvolvimento econômico da história, a maior distribuição de renda, a maior expansão da rede de comunicações, a maior explosão demográfica. O termo baby boom é perfeito: entre 1946 e 1964, 86 milhões de crianças foram colocadas numa sociedade superafluente, em meio à uma explosão informacional inédita. A televisão colocou o mundo ao alcance de todos e forneceu a essa geração uma fortíssima ilusão de livre arbítrio.

O material humano para a aventura psicodélica já estava, portanto, a ponto de bala. O material químico também: já em 1938, o bioquímico suíço Albett Hoffman havia sintetizado o vigésimo-quinto derivado do ácido lisérgico, mais conhecido como LSD.25. Em 1958, sintetizou a psilocibina, princípio ativo dos “cogumelos mágicos” mexicanos. E a maconha, claro, já era consumida nos circuitos jazzísticos.

A Califómia dos anos 50 foi um foco privilegiado para o nascimento da chamada “contracultura”, reunindo artistas expatriados como Aldous Huxley e a produção local dos hipsters e beatniks, amantes do jazz e da poesia libertária de Walt Whitman e Thoreau.

Na linha de frente, o grupo de escritores beat, comandado por Jack Kerouac, Alien Ginsberg e a farmácia ambulante, cobaia de si mesmo na experimentação de toda e qualquer droga, William S. Burroughs. Entre eles, o interesse pelo hinduísmo e pelo zen-budismo (disseminados pelos escritores Alan Watts e D.T. Suzuki) lançava as sementes para o movimento hippie da década seguinte.

A primeira bíblia do psicodelismo veio assinada por Aldous Huxley, descrevendo sua experiência com a mescalina, princípio ativo do peiote (cacto mexicano). Editado em 54, “As Portas Da Percepção” adquiria uma credibilidade com que os beatniks não podiam sonhar; seu autor era um romancista e ensaísta inglês consagrado. Em seu leito de morte, em 63, Huxley pediu uma dose de LSD.25, não recusada. (O ácido lisérgico, comercializado em cubinhos de açúcar e depois papel mata-borrão, só foi proibido em outubro de 66)

A coisa toda poderia ter continuado como uma brincadeira de elite, como o ópio entre os poetas românticos ingleses e o haxixe entre os românticos e simbolistas franceses (Théophile Gautier, Baudelaire e Nerval chegaram a fundar um Clube do Haxixe na Paris do século dezenove). As comunicações de massa não deixaram, ajudadas pelo doutor em psicologia clinica Timothy Leaiy, professor da prestigiosa universidade de Harvard que desde 60 pesquisava a psilocibina e o LSD, até ser expulso em 63.\

Perseguido pelo establishment e sem dinheiro para continuar suas pesquisas, Leary viu a saída apontada numa conversa com o mais influente teórico das comunicações dos 60, Marshall McLuhan. O conselho: “Se você realmente acredita no LSD, faça proselitismo, palestras, happenings, shows, coisas criativas. Não perca uma chance de divulgar suas idéias na mídia. Se você ficar sozinho, está ferrado”. Leary seguiu-o à risca — com enorme sucesso. O livro reunindo suas palestras e entrevistas — “The Polítics of Ecstasy” — tornou-se a segunda bíblia psicodélica.

Quando veio a década de 60, São Francisco já cultivava a boemia beatnik como uma tradição e, aos poucos, seu cenário musical começou a refletir isso. O culto ao jazz foi trocado por uma onda de folk de protesto, que por sua vez fez a transição para o rock psicodélico da primeira geração: Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Moby Grape e o maior de todos, o Grateful Dead — com sua legião de seguidores, batizados de “deadheads”.

Comandado por Jerry Garcia, o grupo participou integralmente dos acid tests (festas de som e imagem, a primeira versão das atuais raves inglesas) organizados pelo escritor Ken Kesey e sua turma, os Merry Pranksters. Quem lê inglês, não deve perder “The Eletric Kool-Aid Acid Test”, de Tom Wolfe, que acompanhou todo o trajeto dos Merry Pranksters e, por tabela, escreveu a história definitiva do movimento hippie.

O florescimento do psicodelismo — que teve seu auge entre 65 e 66, e iniciou sua massificação mundial em 67, o chamado “Verão do Amor” logo fez uma ponte com a Europa, através de Londres. Carnaby Street, com suas butiques hippies, passou a ser o equivalente à esquina da rua Haight com a rua Ashbury, o centro do turbilhão em São Francisco. O intercâmbio era feito basicamente através de rock stars em turnê. Segundo a lenda, os Beatles fumaram maconha pela primeira vez com Bob Dylan; e Tom Wolfe descreve, no livro citado, o primeiro contato do quarteto de Liverpool com o underground californiano.

Em pouco tempo, Londres tinha no Pink Floyd o seu Grateful Dead. Com um light show lisérgico e encabeçado pelo freak Syd Barrett, o grupo era a principal atração do underground e não perdeu o séquito de fãs quando, contratado pela Columbia, passou a freqüentar as paradas de sucesso.

A descoberta de que o flower power já contava com uma multidão de adeptos se deu com a organização de um festival de grupos psicodélicos organizado pelos Merry Pranksters e o Grateful Dead: grátis, ao ar livre, o First Human Be-ln reuniu milhares no Golden Gate Park, em janeiro de 67 em São Francisco. A indústria fonográfica — sediada ao lado, em Los Angeles — percebeu o potencial e, em junho do mesmo ano, promoveu o Monterey Pop Festival.

A movimentação era divulgada via satélite para o mundo todo, mas a contracultura criava seus próprios sistemas de divulgação: rádios pirata, fanzines, gibis underground, jornais como o Detroit Free Press, revistas como Rolling Stone, International Times e — na Inglaterra, IT e Oz.

A reação veia a cavalo, com a maioria conservadora dos EUA elegendo Nixon em 68 e as grandes empresas aproveitando a onda — como a Wamer Bros. ao transformar o festival de Woodstock num megaevento de marketing. Morreram Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones, Jim Morrison, e John Lennon arriscou um epitáfio: “O sonho acabou”.

Acabou nada. A contracultura e a psicodelia — mesmo banalizadas em musicais como “Hair” — foram um salto evolutivo no comportamento da raça humana, com um saldo político inegável.

Na música pop nem se fala. Muito antes que o De La Soul sampleasse os ultrapsicodélicos Turtles, e o cenário acid house detonasse o verão londrino de 86 (com a adoção de um novo químico, o ecstasy), sua influência já podia ser sentida, de toda uma safra pós-punk inglesa ao funk de Prince. Boa parte da cultura pop vive hoje da criação de novas embalagens para os mitos dos 60 — para enorme alegria dos executivos das gravadoras e do establishment em geral, que preferem lidar com nostalgia inofensiva do que com novas formas de subversão.

Quem quiser saber mais sobre a movimentação dos 60 tem pelo menos dois bons livros à disposição no mercado brasileiro. “Flashbacks” é a autobiografia de Leary que traça o mapa do sonho psicodélico. “Las Vegas Na Cabeça”, do jornalista gonzo e integrante da equipe original da Rolling Stone, Hunter S. Thompson, mostra com humor negríssimo o outro lado da moeda, a derrocada dos mais altos ideais da contracultura.
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