#CADÊ MEU CHINELO?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

REVIVAL DO VINIL ?



# agência pirata #
Lado B

txt: Leonardo Foletto


Você, caro cidadão sobrecarregado de informação do século XXI, já deve ter escutado alguma informaçãozinha que seja sobre a onda de revival do disco de vinil, o velho Long Play que muito fez a alegria das (antigas) jovens tardes de domingo e que, com a popularização do CD ali pelo início da década de 1990, passou de produto extremamente popular à artigo de colecionadores, DJs e aficcionados por música em geral. Ouve-se falar seja com saudosismo, recuperando histórias para mostrar o quanto era bom a época em que ninguém nem imaginava o que viria a ser um MP3, seja com entusiasmo, afirmando que o disco de vinil é a redescoberta do universo musical no fim desta década. Os números parecem dar conta de que, sim, há um revival do vinil; só nos Estados Unidos, houve um aumento de 90% da venda de discos entre 2007 e 2008. Em 2007, a receita com a venda de vinil somou US$ 23 milhões, um aumento de 46,2% em relação a 2006, segundo a nossa velha conhecida RIAA. No Brasil, ainda que não existam estatísticas precisas dando conta do fenômeno, presidentes de gravadoras percebem o novo velho mercado como muito promissor, enquanto que, não raro, produtores/jornalistas e o público vêem a questão com uma curiosidade renovada.

Artistas pop, como Pitty, estão gostando da ideia de lançar seus novos álbuns também em vinil, colocando o bolachão no arsenal de formatos de disponibilização de suas músicas (CD, MP3, DVD, LP até pen drive). Mesmo outros mais respeitados do que Pitty – Bruce Springsteen, Radiohead, Elvis Costello, Raconteurs, Cat Power, Los Hermanos, Caetano Veloso, Ed Motta e outros tantos – também adotam o formato como forma de agradar um nicho específico de público, e um nicho que parece crescer tanto não é de ser desprezado por ninguém. Todos estes novos discos, somados às também cada vez mas frequentes reedições de LPs clássicos, formam um espaço em grandes lojas que não se duvide que em pouco tempo seja maior que o dos CDs – se já não o é, como mostra o acervo de mais de 600 discos que a Livraria Cultura têm em suas lojas.

Vendo e analisando todas estas informações e estatísticas, não me canso de pensar que o vinil caiu bem demais no papel (solitário, praticamente) de buscar uma sobrevida para as falidas gravadoras. Leia esta matéria do Globo Online e tente não pensar isso também. Nela, Cris Ashworth, dono da United Record Pressing, uma fábrica de LPs de Nashville que é uma das maiores dos Estados Unidos, fala coisas do tipo: “Meu filho esteve muito preocupado por dez anos. Ele meio que olhava para mim, balançava a cabeça e dizia ‘Pai, você não tem vida’. Agora ele diz ‘Bem, talvez papai seja um pouco mais esperto do que eu pensava“. Outro dono de gravadora, Luke Lewis, presidente do selo de Elvis Costello, Lost Highway, é igualmente cara-de-pau: “É uma revolução? Não. Mas nossas crenças foram um pouco renovadas, sem mencionar que fizemos um pouco mais de dinheiro. É difícil fazer isso na indústria hoje em dia“.

Como é tão fácil baixar música e todo mundo pode ter tudo que quiser a sua disposição em não muitos cliques, o vinil faz seu sucesso porque vai na contramão disso tudo. É um produto que vem com arte caprichada, muito melhor e maior (e também mais difícil de reproduzir) do que nos pobrezinhos dos cds; só pode ser escutado por um seleto grupo de consumo que tem um toca-discos, o que dá um caráter de exclusividade ao produto, em claro contraponto à putaria do MP3, que hoje todo mundo escuta seja num celular ou num player que cada vez custa menos. O fato de ser um produto exclusivo ainda agrega um “conceito” ao vinil, o que instiga o consumo como um ato necessário para se sentir pertecendo a um determinado grupinho.



Falas como “o vinil tem vida, cheiro, imagem, cor. O CD é frio” dão o tom de quem é fã do vinil. O CD e outros formatos digitais como o MP3 são conhecidos por seu áudio límpido mas excessivamente “magro”, enquanto que no vinil o som é mais “gordo” e propenso a nuâncias das mais variadas origens. Segundo Paulo Assis, que trabalha como produtor de áudio e é colaborador de revistas como Cover Guitarra e Teclado & Piano, isso acontece porque o som de um disco de vinil vem de um sulco no plástico; a onda não está representada por cálculos matemáticos ou algo semelhante, mas está lá, fisicamente presente. A agulha vibra nessas lombadas musicais e essa vibração é o som.

Nas mídias digitais como o CD e o MP3, o som é gerado a partir de informações que representam a onda sonora; para fazer isso, a digitalização vai transformar a curva sonora em uma espécie de “escada”, retirando alguns detalhes (ou erros) da gravação, deixando o som mais “quadrado” e “frio” em relação ao do vinil. É o velho embate do analógico X digital; no vinil, o som é real, original, não sofre nenhm processo ligado à computação de dados, enquanto que o CD (e no MP3 ainda mais) é a cópia da cópia, porque o processo de digitalização não é possível ser feito diretamente da gravação, uma vez que o microfone não transforma o som em zero e um (linguagem de computação).

Acontece que, na maioria dos casos, os “detalhes” perdidos do CD e do MP3 em relação ao vinil não são perceptíveis para o ouvido humano, e muito menos reproduzidos pelos aparelhos convencionais de áudio. O que ocorre, então, é que a questão torna-se um embate mais, digamos, subjetivo, entre aqueles saudosistas que escutaram (pela primeira vez) a música em vinil e não toleram os “cortes” inevitáveis na reprodução para o CD e os que acham que as vantagens do digital – como a possibilidade de armazenar mais informação e a reprodução do áudio mais simples – superam e muito o velho Long Play.



Polêmicas à parte, o certo é que o nicho dos que consomem discos de vinil é cada vez maior. Pega desde audiófilos interessados em escutar todos os detalhes da música em aparelhos ultrapotentes até a gurizada nova que não era nascida na época em que todo mundo só tinha o LP e as fitas k7 como opção para escutar música e agora redescobre o velho bolachão como um ótimo produto a ser comprado, difundido, curtido – o que também coloca o vinil como um conceito interessantíssimo a ser explorado, pois é retrô ao mesmo tempo que torna-se cada vez mais moderno, para alegria dos seguidores de tendências profissionais.

Quem ganha com isso? Muita gente, em especial as fábricas de vinil, que em fins da década de 1990 e início de 2000 estavam por fechar e agora ganham uma sobrevida, e, principalmente, as gravadoras, que sustentam mais um pouquinho um modelo de negócio que muito dinheiro deu à elas durante todo o século passado e que, desta forma, adiam a sua (saudável) morte por pelo menos algum tempo.
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