#CADÊ MEU CHINELO?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

PENSAR: NEM PENSAR



# águas passadas #
A crise financeira e o consumo de drogas

txt: Arlei "Xuxu Beleza" Arnt

O crescente aumento do número de desempregados nas grandes capitais influenciou até mesmo o mundo das drogas. A maconha, droga mais barata e popular de Porto Alegre, chegou inclusive a baratear o preço nos últimos dez anos. Em 1994, auge do plano real, quando um dólar valia um real, o baseado de maconha era vendido há dois ou três reais. Hoje qualquer drive drugs vende a mesma quantia por um real. Os drive drugs são inclusive um dos símbolos da era do desemprego em massa instalada no governo FHC. A capital gaúcha deve ter mais de uma dezena de ruas onde o usuário nem desce do carro para comprar drogas. Ao longo de uma dessas ruas, a imagem de dezenas de mulheres oferecendo maconha e cocaína parece com a avenida Garibaldi, entre a Voluntários e a Farrapos, ponto 24 horas de fácil acesso às damas do meretrício.

O desemprego em massa também afetou o tipo de drogas que são usadas e o comportamento dos viciados. Em um bar da zona sul da capital, onde o tráfico e consumo de cocaína se faziam constantemente ao despertar da meia-noite, o cenário é outro. Noventa por cento dos freqüentadores trocaram a cocaína pelo crack. Com a triplicada da cotação do dólar em relação à moeda brasileira, o pó também multiplicou o seu preço por três. O crack, custando em média três a quatro vezes mais barato que a cocaína, é a nova onda do momento. Enquanto a classe média continua dando suas cafungadas, quase não existe viciado pobre que não tenha experimentado uma só pedra de crack.

A mudança de droga resulta na mudança de comportamento. Pelo diferente efeito que o crack causa (a sensação da dose é mais pesada que a cocaína, porém a duração é bem menor), os antigos viciados em pó acabam se tornando ainda menos sociais. Eles falam pouco e ficam sérios, suam muito e exalam um cheiro nem sempre agradável. E nunca param de fumar crack, pedra atrás de pedra. Duas profissões foram influenciadas pelo advento do crack. Tiquinho, que sempre vendeu bucha de pó, agora também vende pedra: “não é mais como antigamente, a galera chegava aqui no bar e soltava a grana pra cheirar um bagulho”, revela Tiquinho. “Se eu não vender pedra hoje, é capaz de eu voltar pra baia sem o leite da cria”.

Além dos traficantes, as prostitutas também alteram a rotina. Gláucia aluga o corpo há mais de quinze anos. O dinheiro que ela ganha dificilmente leva embora pra casa onde vive com as seis filhas. Pior, ela tem trabalhado bem menos depois que trocou o pó pela pedra: “antes eu dava uma cafungada na avenida mesmo e tava pronta para trabalhar a noite toda; hoje eu mal consigo levantar uma graninha e já me emburaco aqui fumar a minha pedra e não saio mais até raiar o dia”. A mudança no estilo de vida de Gláucia já trouxe conseqüências: “Milha filha de 14 anos tentou se matar semana passada”, confessa a prostituta. Para finalizar, um outro fato chama a curiosidade. É cada vez maior o número de adolescentes que se prostituem para conseguir o dinheiro de comprar crack. Aonde vamos chegar com tudo isso?

(este texto foi publicado pela primeira vez em 2004, no site Ponto de Vista, quando o crack não era promovido a show dramático. Aliás, pouco se falava sobre o crack, o que não dá pra entender, pois já era super visível os danos sociais. O professor Ungaretti comentou na época: "Acredite, o Jornal do Brasil, edição de 18.04.2004, levantou esta pauta após a leitura do texto que o jornalista e escritor Arlei Arnet enviou, diretamente do submundo, para o sítio pontodevista. O cara fareja os temas jornalísticos, mas passa longe das assessorias de RP.")
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