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terça-feira, 23 de junho de 2009

CURUMIN



# agência pirata #

Japan Pop Show

txt: Romulo Fróes


JapanPopShow, programa de TV exibido nas manhãs de domingo nos anos de 1980, era um karaokê produzido e protagonizado por imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil. Curumin, neto de japoneses e nesta época ainda criança, se encantava com as performances um tanto cômicas dos anônimos candidatos à cantores de sucesso. Já a atração seguinte ao programa de calouros da comunidade japonesa não despertava o mesmo interesse, se entediava com o culto eletrônico do americano Jimmi Sueger. Talvez já chamasse mais sua atenção a musicalidade dos pregadores negros, que as preces sem swing do branco pastor Jimmy.
JapanPopShow é o nome do segundo disco de Curumin e se o título faz referência à sua descendência, o som do disco traz no seu DNA, o que já conhecíamos de Achados e Perdidos, primeiro álbum de Curumin, uma profusão de ritmos e influências, com matriz fundamentalmente na música negra. Mas há muito mais caldo nesse mocotó.

O disco se abre num Salto com joelhada no vácuo. Somos recebidos com o clássico golpe de Sawamur, herói do animé japonês, que nomeia a vinheta instrumental. A caixa de música de Curumin é acionada, nos revelando parte de seu vasto universo sonoro: uma melodia delicada de timbre oriental, um trompete jazzy e um coro gospel, aliados ao groove de beats graves e enérgicos. Uma mistura de festa e contemplação nos conduz a faixa seguinte, Dançando no escuro, canção de elaborada melodia, interpretada magistralmente pelo mestre do Sambasoul Marku Ribas, que adiciona mais tempero ao caldeirão de Curumin, com seu baixo, bateria e percussões de inspiração no afrobeat. Em Compacto(que tem a participação de RV Salters, tecladista do Honeycut, banda pertecente ao casting da Quannum, gravadora de Curumin nos Estados Unidos) a fusão sonora característica de seu trabalho, toma contornos mais claros. Canção levada por um violão percussivo e teclados de sotaque soul, Compacto une suas influências brasileiraa e americanas. Jorge Ben encontra Stevie Wonder. Na sequência, em Magrela fever, entramos num travelling, embalados por um rock com sabor de jovem guarda e pelas guitarras de Fernando Catatau da banda Cidadão Instigado que parecem tiradas de uma trilha sonora de Enio Morricone para um filme de Sergio Leone. Curumin nos leva na garupa de sua magrela, através de seus pensamentos, com o vento batendo na cara, guidão torto, roda amassada/vou de qualquer maneira/e eu assumo o risco e despisto com meu riso/na maciota, na boa/não vou ficar marcando tôca/que a maldade corre solta. O rock aparece em outro dois momentos no disco, mais ao modo de Curumin, transformado, misturado à suas influências. Em Malstar Card, com seu riff setentista e groove funky e em Saída Bangu, uma construção/desconstrução da grande canção de Jards Macalé e Waly Salomão, Revendo Amigos. O Rock torto de Macalé e a bateria descontrolada de Tuty Moreno, são organizados num beat poderoso que mantém da letra original da canção apenas o verso "volto pra curtir". Curumin traz o gênio de Macalé pra sua festa e o apresenta as suas próprias armas na reinvenção da música popular brasileira.

Em Kyoto, nos damos conta do caminho percorrido por Curumin desde seu primeiro disco até agora. Ele nos mostra sua profunda intimidade com um lado da música americana atual. Sua sucessão de versos em tom de improviso parece tirada de uma sessão de freestyle, talvez este o motivo de Kyoto ser creditada a tantos autores, além de Curumin e Anelis Assumpção, estão entre seus compositores, Chief XCel e Gift of Gab do Blackalicious e Lateef, MC do Dj Shadow, todos estes, artistas e sócios da Quannum. No momento em que aparentemente deixa para trás suas influências brasileiras, Curumin se lança na difícil tarefa de mandar um hip-hop ao lado dos “pais da matéria”, correndo o risco de não passar de um pobre arremedo. Pois corre o risco e se dá muito bem! Sem diminuir a importante participação de seus companheiros de gravadora, muito menos a mixagem pilotada pelo cultuado produtor Scotty Hard, mas ainda que sob a inspiração do modelo de Lateef e seus pares, Curumin adiciona a este, uma ginga estranha, um sotaque, um modo de pronunciar as rimas que o traz de volta ao Brasil. Também na sua construção poética, Kyoto se destaca de seu modelo americano. Seja, por exemplo no cruzamento inventivo do verso ligue Jah, em que o célebre bordão do charlatão Walter Mercado é usado pra evocar a figura de Jah, seja quando recorre às figuras do Pajé e do Paxá, onde talvez mais importante que justapor autoridades de povos muito diferentes, como o indígena e o árabe, na causa pela salvação do planeta terra (tema da canção), seja a similaridade que as duas palavras contém. Ou ainda, quando Curumin explora no canto, a proximidade fonética da palavra-título da canção, Kyoto, repetindo apenas sua primeira sílaba, com o início do verso qué que você tem a ver com isso cabloco. Todas, imagens talvez difíceis de se explicar a um estrangeiro e por isso mesmo muito originais.

Outra apropriação, se é que aqui cabe o termo, de um estilo que talvez não seja natural a Curumin, se dá em Caixa Preta, um funk carioca pesadão em que é acompanhado pelos vocais furiosos de Bnegão, um dos compositores da faixa, ao lado de Curumin, Lucas Santana e Tejo. Também aqui dá a volta. Com um apuro na produção, estranho ao som propositadamente tosco do funk carioca, Curumin se aproxima antes do miami bass, principal influência do estilo. Em Caixa Preta também, acontece algo que se repete ao longo do disco, que é uma estranha e interessante junção de engajamento e diversão. Em canções dançantes, impossível de serem ouvidas sem se mexer, Curumin manda textos contundentes, encharcados de indignação, sobre temas que acredita que precisam ser discutidos. Sob camadas de grooves arrasadores, a agressão ao meio ambiente, a ganância humana, a má distribuição de renda, a corrupção, tudo o que lhe perturba é dito nestas canções. Ainda que o som poderoso de Curumin nos quer balançando as cadeiras, não quer que nossas cabeças parem de funcionar.

Mas todo mundo quer amor e paz na terra, diz a letra de Esperança, canção de Lucas Martins e Deon(da banda sergipana Lacertae) e o disco também tem seus momentos de pura contemplação como em Fumanchu, tema instrumental hipnotizante com a presença de Daniel Ganjaman nos teclados. Românticos também, como não. Mistério Stereo, uma balada de linda melodia e ótimos versos é levada por um violão incrivelmente simples, de acampamento. Curumin declara seu amor: eu fiz um par de brincos pra brincar todo dia / pra vibrar cada canto dominante no seu coração, rodeando, balançando, enfeitando seu ouvido, seu pescoço, seu corpo, sua casa, seus jardins, contrapondo seu ritmo, seu som, tornando sua alma dissonante enfim.
JapanPopshow, a faixa título do disco é uma espécie de reencontro de Curumin com seu passado, como se finalmente subisse ao palco do programa de TV de sua infância para cantar, com algum filme fazendo parte do cenário de sua apresentação, como acontece nos Karaokês. O filme? Um velho e embriagado samurai que nos convida à tomar o chá da sabedoria, sentados em nossa própria sombra debaixo de alguma árvore em uma paisagem ao cair tarde no Japão. A canção? Poderia ser Sambito, sua parceria com Flu, cantada em japonês e o mais próximo que podemos chamar de um samba japonês, com o ritmo construído através de samplers. Sai o batuque, entra teclados e a guitarra de seu parceiro Tommy Guerrero, músico americano autor de aclamados álbuns e uma lenda do skate nos anos de 1980, que retribui a participação de Curumin em seu disco mais recente.

Na biografia de Tim Maia escrita por Nelson Mota, lançada em 2007, é relatado sua angústia com os métodos de gravação no início dos anos de 1970 no Brasil. Recém-chegado dos Estados Unidos, Tim não compreendia como os técnicos não conseguiam tirar o som de baixo e bateria que ele ouvia ali no estúdio, no momento da gravação e nos discos americanos que tanto o influenciavam. Chegou até a importar equipamentos, acreditando ser este o problema. Curumin faz parte de uma geração com total acesso às tecnologias de gravação e tem mesmo, apreço pelo ofício. Pesquisa modos de captação, estilos de produção, equipamentos, instrumentos, novos e antigos. Junto a seus grandes parceiros, Gustavo Lenza e Lucas Martins, é responsável pelo fenomenal som do disco, um dos melhores já produzidos na música brasileira e que certamente virará referência de produção daqui pra frente.

JapanPopShow foi lançado no ano em que se comemorou cem anos da imigração japonesa no Brasil, uma feliz coincidência que nos leva a pensar sobre quanta riqueza provocou nossa miscigenacão, e no caso de nossa música, o quanto essa característica a tornou numa das mais reconhecidas no mundo. No disco de Curumin, essa miscigenação é levada a outro patamar. O brasileiro, nascido na cosmopolita e globalizada São Paulo, o baterista profundamente influenciado por nossas raízes africanas, reencontra seus antepassados vindos do oriente, de uma cultura tão diferente da nossa e de uma música diametralmente oposta, se relaciona com tudo isto à sua maneira, antenado com o modo de produção atual, com a tecnologia existente nestes primeiros anos do século XXI e cria uma nova coisa, a sua música. É curioso, que mesmo depois de todas estas transformações, podemos ainda chamá-la: Música Brasileira. Se a vaga de síndico do condomínio Brasil ainda está vaga, Curumin, eis aqui um forte candidato. Tenho certeza que mestre Tim Maia aprovaria a indicação.
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