#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

[doc] LITERATURA LIBERTÁRIA



::txt::Tiago Jucá Oliveira::

Pela primeira vez Porto Alegre sedia (neste fim de semana) uma Feira do Livro Anarquista. Um importante evento não somente pra compra e venda de livros, mas uma grande oportunidade para que os libertários da capital possam se encontrar e conversar. A anarquia não é apenas um projeto de auto-gestão social. O caos também se dá dentro do próprio anarquismo (ou pelas suas inúmeras divisões, ou por falta de eventos e/ou locais para encontros e debates). Aqui no estado temos a FAG (Federação Anarquista Gaúcha), sediada na Cidade Baixa, que é bastante ativa dentro de alguns movimentos sociais. A polícia da Yeda, inclusive, já reprimiu os anarcos com invasão na sede, apreensão de materiais e intimação judicial de alguns de seus membros.

Na Europa, enquanto a 'esquerda' vai pra rua com bandeiras e cartazes, os Black Blocs vão pra briga. Quebrar vitrine de bancos multinacionais e atirar pedra na polícia é a diversão deles. E dentro dos Black Bloc já há a facção 'não violenta', mas que também veste capacetes e máscaras para evitar a identificação. Há vários grupos Black Bloc dentro de uma única manifestação, com diferentes táticas. Porém aqueles que mais aprecio são os libertários que nunca leram um livro de Bakunin e nem assumem uma posição anárquica. As favelas cariocas, por exemplo, são a mais legítima representação de uma arquitetura caótica, sem seguir escolas de identidade visual.

Mas retomando à cartola 'cultura' que me é destinada, toco no assunto anarquismo em função desta feira. Além dos livros, há apresentações de peças teatrais, exibições de filmes, palestras e oficinas. Se você não for, aproveito pra deixar dicas. Sempre é bom conhecer uma importante ideologia, e suas subdivisões, de setores que pretendem a total abolição do estado (oposto do socialismo estatal, da social-democracia e neo-liberalismo), a completa liberdade do homem (oposto do comunismo e fascismo totalitários), a não escravidão do trabalho (extremo oposto do capitalismo selvagem).

Nem todas obras se rotulam ou assumem uma posição 'anarquista' ou 'libertária'. Então guarde consigo a frase “mas esse autor nunca disse que é anarquista”. Cabe ao leitor, sempre, a interpretação de um livro. Eu tomei um rumo libertário após ler “Manifesto Contra o Trabalho”, do grupo Krisis, que não toma partido anarquista. Foi a primeira vez que alguém me provou que esquerda e direita nada mais são do que dois lados da mesma moeda. E essa moeda se chama trabalho. O 'trabalho' elevado a categoria divina, cultuado por todos setores, desde o papa até o Bush, de Vargas aos verdes, de Lula a Tony Blair.

Os clássicos autores do anarquismo também merecem um olhar. Mijail Bakunin, Pierre-Joseph Proudhon, William Godwin, Max Stirner, Eliseo Reclus, Piotr Kropotkin são os mais lidos e conhecidos. Todos eles conheci e li num livro em castelhano, “Ideario Anarquista", que reúne alguns textos dos 'bisavós' dos libertários.

Dos mais atuais, não deixe de ler “Distúrbio Eletrônico”, do Critical Art Ensemble, "Provos: Amsterdam e o nascimento da contracultura”, de Matteo Guarnaccia, “TAZ”, de Hakim Bey, “Q” e "54", de Wu Ming. Sobre a revolução espanhola, saiba como foi “O Curto Verão Anarquista – Vida e Morte de Durruti”, de Hans Magnus Enzensberger, e “O Povo em Armas – Buenaventura Durruti e o Anarquismo Espanhol”, de Abel Paz.

Minhas bíblias anarquistas são “A Desobediência Civil”, de Henry Thoreau, e “A Revolução dos Bixos” e “1984”, de George Orwell.

[copyleft] DECLARAÇÃO DOS DIREITOS (E DEVERES) DOS NARRADORES



::txt::Wu Ming::

Preâmbulo

O que é um narrador e quais são os seus deveres e direitos?

É narrador (ou narradora) quem conta histórias e reelabora mitos, conjuntos de referências simbólicas partilhadas — ou de alguma forma conhecidas e, quando for caso disso, questionadas, por uma comunidade.

Contar histórias é uma actividade fundamental para qualquer comunidade. Todos contamos histórias, sem histórias não estaríamos conscientes do nosso passado nem das nossas relações com o próximo. Não existiria qualidade de vida. Mas o narrador faz do contar histórias a sua actividade fundamental, a sua “especialização”; é como a diferença entre o passatempo do bricolage e o trabalho de carpinteiro.

O narrador desempenha — ou deveria desempenhar — uma função social comparável à do griot nas aldeias africanas, do bardo na cultura celta, do aedo no mundo clássico grego.

Contar histórias é um trabalho peculiar que pode trazer vantagens para quem o desenvolve, mas contudo é sempre um trabalho, tão integrado na vida da comunidade quanto o de apagar incêndios, cultivar os campos, assistir os incapacitados, etc..

Por outras palavras, o narrador não é um artista, mas um artesão da narração.

Deveres

O narrador tem o dever de não se considerar superior aos seus semelhantes. É ilegítima qualquer concessão à imagem idealística e romântica do narrador como criatura pressupostamente mais “sensível”, em contacto com dimensões do ser mais elevadas, também quando escreve sobre absolutas banalidades quotidianas.

No fundo também os aspectos mais ridículos e espalhafatosos do ofício de escrever baseiam-se numa versão degradada do mito do artista, que se torna uma “estrela” pelo facto de o considerarem de alguma forma superior aos “comuns mortais”, menos mesquinho, mais interessante e sincero e, num certo sentido, heróico já que suporta os “tormentos” da criação.

Pelo facto do estereótipo do artista “angustiado” e “atormentado” suscitar mais sensacionalismo e possuir mais peso do que a fadiga de quem limpa as fossas biológicas, podemos compreender o quão distorcida está a actual escala de valores.

O narrador tem o dever de não confundir a efabulação, sua principal missão, com um excesso de autobiografismo obsessivo e ostentação narcísica. A renúncia a estas atitudes permite salvar a autenticidade dos momentos, permite que o narrador tenha uma vida para viver sem que seja uma personagem por interpretar sob coacção.

Direitos

O narrador que cumpre o dever de refutar os estereótipos supracitados tem o direito de ser deixado em paz por quem, ao invés, enche os bolsos propagandeando-os (cronistas de costumes, paparazzi culturais, etc.). Qualquer estratégia de defesa contra as intromissões deve basear-se na não sujeição à lógica. Em suma, quem se quer passar por “estrela”, quem posa para estúpidas sessões fotográficas ou quem responde a perguntas sobre todos os assuntos, não tem o direito de se queixar dessas mesmas intromissões.

O narrador tem o direito de não aparecer nos media. Se um canalizador não aparece ninguém lhe pede explicações ou o acusa de snobismo.

O narrador tem o direito de não se tornar numa besta amestrada das soirées ou da coscuvilhice literária.

O narrador tem o direito de não responder a perguntas que não considera pertinentes (sobre a sua vida privada, preferências sexuais, gostos culinários, hábitos quotidianos, etc.).

O narrador tem o direito de não se fingir versado em todos os assuntos.

O narrador tem o direito de se opor, através da desobediência civil, contra as pretensões de quem o tente privar dos seus direitos (incluindo os editores).

quinta-feira, 11 de junho de 2009

NOTAS INÉDITAS SOBRE COPYRIGHT E COPYLEFT




# agência pirata #

Copyright x Copyleft

txt: Wu Ming
trdç: Reuben da Cunha Rocha


1. Os dois lados do falso dilema

Começando pelo fim: o copyleft surge da necessidade de unir duas demandas básicas; podemos dizer duas condições indispensáveis à convivência civil. Se deixássemos de lutar por essas duas necessidades, deixaríamos de sonhar com um mundo melhor.

Não há dúvida de que a cultura e o conhecimento devem circular o mais livremente possível, e de que o acesso às idéias deve ser direto, equânime e livre de discriminações de classe, censura ou nacionalidade. Obras intelectuais não são apenas produtos do intelecto, é preciso que elas também produzam intelecto, disseminem conceitos e idéias, fertilizem mentes de modo que novas formas de pensar e imaginar sejam passadas adiante. Esta é a primeira necessidade. A segunda é que o trabalho seja remunerado, o que inclui o esforço de artistas e narradores. Quem quer que produza arte ou narrativas tem o direito de sobreviver do seu trabalho, de modo não ofensivo à sua própria dignidade. Obviamente, esta é só a melhor das hipóteses.

É conservador acreditar que tais necessidades sejam como dois lados irreconciliáveis de um dilema. “Não dá pra fazer as duas coisas”, dizem os defensores do copyright como se fosse óbvio. Para eles, copiar livremente significa apenas ‘pirataria’, ‘roubo’, ‘plágio’ – e esqueça a remuneração do autor. Se o trabalho circula gratuitamente, menos cópias são vendidas e menos dinheiro ganha o autor. Um silogismo bizarro quando visto de perto. A lógica deveria ser outra: se o trabalho circula gratuitamente, as pessoas gostam e o divulgam, a reputação do autor se beneficia disso e sua influência na indústria cultural (e não apenas nela) cresce. É um ciclo de benefícios. Um autor respeitado é constantemente convidado a fazer apresentações (despesas reembolsadas) e conferências (pagas); ele é entrevistado pela mídia (sendo promovido); cargos acadêmicos (remunerados) são oferecidos; assessorias (remuneradas), cursos de escrita criativa (remunerados); ao autor se torna possível negociar condições mais vantajosas com editores. Como estas coisas poderiam prejudicar a venda de livros?

Vamos falar de música. Ela circula gratuitamente, ela chama a atenção das pessoas; quem quer que a tenha feito passa a ser conhecido, e se o autor souber explorar isto passa então a ter a oportunidade de se apresentar (remunerado) com maior frequência e em mais lugares, conhece mais pessoas e consequentemente tem mais apoio, se ‘construir um nome’ passará a ser convidado para compor trilhas sonoras (remuneradas), fazer festas como DJ (remunerado), trabalhos de design sonoro para eventos – pode até acabar dirigindo festivais (remunerados) etc. Se pensarmos nos artistas pop, podemos incluir o que se ganha com camisetas, vendas on-line etc.

Assim se resolve o ‘dilema’: as necessidades dos consumidores são respeitadas (eles têm acesso à obra), como o são as dos artistas (beneficiados artística e financeiramente) e as da indústria (editores, produtores etc.). O que aconteceu? Por que o velho raciocínio é tão facilmente desmascarado por estes exemplos? Por não levar em consideração a complexidade e a riqueza das redes, das trocas, do incessante boca a boca de um meio para outro, as oportunidades de diversificar a oferta, o fato de que o ‘retorno econômico’ do autor possui diversos níveis, inclusive alguns (aparentemente) tortuosos.

É graças a uma inabilidade para compreender tal complexidade que o setor cultural (especialmente a indústria da música) perdeu anos e anos de inovações. Novas oportunidades que foram encaradas como ameaças ao invés de desafios, e reações histéricas que foram dirigidas ao Napster e a tudo o que se seguiu. Isto começou a mudar quando Steve Jobs mostrou que era possível, mas nesse meio tempo uma guerra foi travada contra exércitos de clientes em potencial, cuja confiança foi perdida para sempre.

Anti-marketing.


Qual a última coisa que alguém que faz e vende música deveria fazer? Certamente criminalizar o público, processando quem os ama. Valeu a pena? Em nossa opinião, não. ‘Direitos do autor’ (cuidado para não levar esta frase semifraudulenta a sério) tais como os conhecemos são um grande freio para o mercado.

Por outro lado, o copyleft (que não é um movimento ou ideologia, mas um termo que abriga uma série de práticas, cenários e licenças comerciais) encarna o que se precisa para reformar e adaptar as leis autorais ao ‘desenvolvimento sustentável’. A ‘pirataria’ é endêmica, inevitável, uma maré que sobe empurrada pelo vento da inovação tecnológica. Obviamente, os poderosos da indústria do entretenimento podem continuar fingindo que nada está acontecendo, como a Casa Branca negando o Greenhouse Effect, o aquecimento global e as mudanças climáticas. Nos dois casos, os que negarem a realidade só podem ser varridos para longe. Se você está determinado a não ratificar o Protocolo de Kyoto, determinado a não investir na renovação das fontes de energia, determinado a não resolver os problemas ambientais, cedo ou tarde um furacão Katrina vai bater à sua porta.





2. Censura e o nascimento do copyright: contra o liberal “mito das origens”


Agora, de volta ao início. Vamos listar os muito conhecidos e normalmente mencionados fatos. A história do copyright começa na Inglaterra do século 16. A difusão da imprensa, a possibilidade de distribuir muitas cópias do mesmo texto é excitante para quem quer que tenha algo a dizer, especialmente algo político. Há uma explosão de jornais e panfletos. A Coroa teme a difusão de idéias subversivas e passa a exercer controle sobre o que se imprime.

Em 1556 surge a Stationers’ Company ["Companhia dos Editores"], um grupo de profissionais que passa a deter com exclusividade o direito de copiar. A companhia possui o monopólio das tecnologias de impressão. Alguém que queira imprimir algo passa necessariamente por ela. Diferente do que ocorria até então, quando qualquer um podia imprimir para si cópias de livros ou peças sem que os autores se importassem, já que eles não detinham os direitos (eles não existiam). Importante era que as obras circulassem e sua fama crescesse, já que assim os autores chamariam a atenção de possíveis protetores (mecenas, corporações culturais etc.). A partir desse ponto só se imprimem obras que possuam autorização (na prática, o selo do censor do estado) e que estejam listadas no registro oficial – note o detalhe! – em nome de um editor. O editor se torna o dono da obra, com a conivência do estado.

A mitologia ‘liberal’ do copyright como um direito natural, nascido espontaneamente com o desenvolvimento e o dinamismo do mercado é…puro conto de fadas! As origens remotas do copyright se encontram na censura preventiva e na necessidade de restringir o acesso aos meios de produção cultural (restringir, portanto, a circulação de idéias). Um século e meio depois e a Coroa sofre ataques nunca vistos: a rebelião escocesa de 1638, a “Grande Representação” parlamentar de 1641, a deflagração da Guerra Civil um ano depois, a revolução de Cromwell e a decapitação do rei. No fim da década de 1650 o país retorna à monarquia, mas a situação permanece instável e finalmente o parlamento impõe à Coroa uma declaração de direitos. A partir disso a monarquia inglesa se torna constitucional.

É preciso listar tais eventos para que se entenda como as coisas dentro da monarquia sofreram mudanças ao longo de um século e meio, e como isto afetou o que se pensava sobre a censura preventiva e os próprios editores. Um grande ressentimento passou a ser direcionado a este grupo, tanto que afinal se decidiu pelo fim do monopólio de impressão.

Os editores são atingidos onde mais dói – o bolso – e reagem de acordo. Eles iniciam uma campanha para assegurar que a nova lei reconheça a legitimidade dos seus interesses e trabalhe em seu favor. Seu argumento é: o copyright pertence ao autor; o autor, no entanto, não possui máquinas de impressão; as máquinas pertencem aos editores; assim o autor necessita do editor. Como regular essa necessidade? Simples: o autor, interessado em que a obra seja publicada, cede os direitos ao editor por um determinado período. Na raiz, a situação permanece mais ou menos a mesma. Só muda a justificativa legal. A justificativa ideológica não se baseia mais em censura, mas na necessidade do mercado. Todos os mitos que daí derivam acerca dos direitos do autor se baseiam no lobby dos editores: autores são forçados a cederem seus direitos…mas isso é pro seu próprio bem. As consequências psicológicas são devastadoras, uma variação da ‘Síndrome de Estocolmo’ (quando o sequestrado se apaixona pelo sequestrador). De agora em diante, autores se mobilizarão em defesa de um status quo que consiste neles próprios esperarem ao pé da mesa pelas migalhas e por um tapinha na cabeça. Pá, pá! Au!

A lei é o famoso Estatuto de Anne, que passa a ter efeito a partir de 1710. Ela antecede todas as leis e acordos internacionais sobre copyright, desde a Convenção de Berna em 1971 até o Digital Millennium Copyright Act e o Decreto Urbani. É a primeira definição legal de copyright tal qual ainda o conhecemos hoje, ou o conhecíamos ontem. Porque hoje mesmo algumas pessoas começaram a ter dúvidas. Dúvidas que nascem do fato de que copiar algo está ao alcance de muito mais pessoas agora, talvez de todos. Um bom punhado de nós tem em casa aquela tecnologia que os editores um dia monopolizaram. Para copiar uma obra não é mais necessário dirigir-se a uma companhia profissional. O espólio dos editores tem sido minado pela revolução micro-eletrônica iniciada nos anos 70 com o advento da tecnologia digital, a ‘democratização’ do acesso à computação. Primeiro a fotocópia e a fita K7, depois o VHS e o sampler, então a gravadora de CD e o P2P, e finalmente os dispositivos de memória portáteis como o iPod…como alguém pode acreditar que a justificativa ideológica do copyright – aquela que inspirou o Estatuto de Anne – ainda é válida?

Está claro que as coisas precisam ser revistas; este processo mudou todo o modo de produção da indústria cultural! Novas definições dos direitos de quem cria, produz e distribui são necessárias. Se uma ‘obra intelectual’ pode chegar ao público sem a mediação de um editor, de uma gravadora, da televisão ou de um produtor, então estas pessoas precisam se perguntar o que fazer agora, chegar a uma solução, redefinir o papel social do seu trabalho. Lutar para manter um monopólio que não se sustenta mais com ameaças de prisão acaba levando a um beco sem saída. É como se comporta o Antigo Regime, é a autocracia czarista. Felizmente, algumas pessoas começaram a perceber isso.




3. Google Print e similares: a web, o gratuito e o ato de reconstruir


Numa biblioteca você tem acesso gratuito a um livro e numa livraria você o compra, mas não há conflito entre as duas opções: os países onde se vendem mais livros são também aqueles com mais pessoas nas bibliotecas. É natural: quanto mais um livro circula, mais ele é lido, maior seu impacto na literatura.

A palavra-chave é ‘biblioteca’. Ela representa uma longa história de liberdade de acesso, posta em questão apenas muito recentemente (uma batalha ainda em curso). Tanto faz falar em bibliotecas feitas de tijolos ou bits, são igualmente bibliotecas. Se, ao contrário, o download for pago, estamos falando de livrarias, simples assim. Dito isto: Seth Godin, um dos maiores pensadores do mercado, diz que se x pessoas compram um e-book, o mesmo livro disponível gratuitamente será baixado por quarenta vezes x pessoas. Inverter a equação pode ser muito útil: a cada quarenta pessoas que baixam um livro de graça há uma que o irá comprar. A soma destes ‘um a cada quarenta’ leitores é garantida. São eles que compram o livro primeiro, e que primeiro falam dele. Eles são as conexões, os ‘evangelistas’, as ‘matracas’. Cada passo deve ser dado com estas pessoas em mente. Esta é a tática de Godin: novas obras (eletrônicas ou de papel) são postas à venda. Mas antes de divulgar o release de uma nova obra, ele disponibiliza a obra anterior para download. É uma estratégia de lançamento formidável.

O download gratuito de um texto e sua visibilidade nas ferramentas de busca têm um fim comum, e confluem para o mesmo objetivo: restituir o acesso on-line de produtos culturais ao público, o que pode encorajar a venda de livros.

Editoras que se opõe ao Google Print são como aqueles estúdios de cinema que, vinte anos atrás, denunciaram os fabricantes de videocassetes e fitas K7 alegando que a cópia doméstica violava o copyright. O famoso caso “Universal x Betamax”. A Universal acabou perdendo na Suprema Corte norte-americana…para sorte dela. Nos anos seguintes, a indústria cinematográfica creditou seu lucro não às salas de cinema, mas ao home video. Sobreviveu a crises graças ao VHS primeiro, e depois ao DVD. A Universal teria fechado caso houvesse ganho aquele processo. Ela perdeu, e terminou salva.

Poderíamos mencionar também a batalha absurda das gravadoras contra a introdução das fitas K7 nos anos 70, um prelúdio da guerra contra o download, travada apesar do fato de que (como mostra o iTunes) a verdadeira questão é oferecer ao público um modo legal de acesso à fonte.

A presente batalha custeada pelas editoras é ela também uma missão suicida contra inovações potencialmente vantajosas. Para o seu próprio bem, elas devem perder. Caso ganhem, as editoras terão encontrado um péssimo jeito de entrar para a história.

domingo, 24 de maio de 2009

MAIS +ou- MENAS #002





+ou-
PORTO ALEGRE, BRAZILIA
DUMINICÃ, DOUÃZECI şi PATRU ŞI MAI, DOUÃ MII şi NOUÃ

Ora, ora. Um fact recent e muit debactid é a coestão sobr a unificação da lengoa portuguesa. Coando o império proibiu o falar tupi aqui na Vera Cruz, na coal foi impost o versar de Camões, perdemos nossa prima e nativa indentidad.

Enton, perché est "sou a favor" versus "sou contra" a unificação? Que se fuckam os matadores do galego, do tupi e do guarani. Est edição de MAIS +ou- MENAS convigda você a desrespeitar coalcoer regramátical, pelo menas uma vez. Tupi or not tupi, já digzia o seo fulano do coal non lembramos o nombre. Ronaldo ?



+ou-

# agência pirata #


by: Laerte




+ou-

# tapa na orelha #
The Hood Internet vs. Likke Li


Um dos melhores sites de mashups, o The Hood, lançou a pouco tempo um super mix com músicas que flertam com canções da melhor cantora revelada nos últimos anos, a surpreendente Likke Li. Destaque pros duelos com o brasileiro Gui Boratto e com o Digitalism. Abaixo o set list e os links pra baixar, dos coais você pode escolher se quer as faixas separadas ou unidas numa só.
DJ Basket

1. I'm Good, I'm Ghost (vs Holy Ghost)
2. Zdarlight Department (vs Digitalism)
3. Dance, Dance, Dance In My Face (vs The Field)
4. Belonging It Up (vs Hercules & Love Affair)
5. Beauty Flies (vs Gui Boratto)
6. Melodies, Desires & Charlotte (vs Booka Shade)

mixtape em mp3
e/ ou
pasta zipada com faixas separadas


Pélico - Babe, Terror


"Babe, Terror é o projeto de pop noise do jornalista paulistano Cláudio Szynkier. Meses antes do lançamento físico, previsto para o fim deste mês (maio), Weekend, seu álbum de estreia, já era notícia. No ano passado, Cláudio enviou um EP para os principais veículos internacionais de música, como Uncut, Pitchfork e Guardian (o que rendeu uma coluna assinada pelo notório Alan McGee). Em 24 de março deste ano, disponibilizou o primeiro álbum para download em seu selo-blog, chamado Perdizes Dream, e foi acolhido pela plataforma Musificando, do MySpace. Musicalmente, o álbum é desafiador e cerebral. São diversas camadas de vozes, orquestradas como um coral experimental, sobrepostas e moduladas por meio de pedaleiras eletrônicas e analógicas. Os efeitos de drone (em que a nota vai ecoando gradativamente) e looping (repetição) sugerem uma aproximação ao pós-rock, mas sua construção é um tanto mais rítmica, relembrando o hip-hop. O álbum transmite uma atmosfera letárgica e ao mesmo tempo colorida – o que rendeu muitas associações à Tropicália –, mas no fundo constitui um interessante exercício de construção, já que as músicas só ganharam corpo no programa de edição do PC."
Carlos Messias, Rolling Stone Brasil



+ou-

# o canal da massa #


Kumbia Dark
Kumbia Queers

Imagine The Cure, em versão a la cumbia. Tae o que você queria. O grupo Kumbia Dark caprichou na adaptação, ficou tropical punk sem deixar de ser escuro. Entendeu? Então excuta, vagabundo!



+ou-

# o canto da ema #



Gui Boratto
Azurra

Um dos melhores artistas da cena eletrônica mundial é... brasileiro. Gui Boratto, que recentemente lançou seu segundo álbum, Take My Breath Away, mostra que nós temos uma coalidad musical diferenciada. Azurra, uma das melhores músicas do novo disco, faz com que até quem não goste de eletronic, dance levemente os bons fluídos que Gui transmite.



+ou-

# noé ae?! #
NOÉ AE?!

Eventos dominicais que a gente indica. Clique no flyer acima e saiba mais. Foda-se amanhã. Segunda é cousa de vascaíno



+ou-

# biblioteca digital #


Wu Ming - Copyright e Maremoto
Saiba quem inspira o nosso pensar. Este pequeno livro é uma de nossas bases teóricas. Por causa dele, entre outros, que somos contra a propriedade intelectual. A versão digital, em PDF, pode ser baixada e lida >AQUI<



+ou-

# os fabulosos anti-heróis #


Homer Simpson
"Álcool... A causa e solução de todos os problemas."



+ou-

# espécie rara #



Beno, típico cidadão de Santo Cristo.
"Pelourinho? Ó pai ó, isto aqui devia se chamar Peneguinho!"



+ou-

# arcademia brasileira de letras #


Vale Tudo
txt: Nelson Motta

Dois dias antes do show, metade do cachê combinado foi pago a Tim em erva viva. Foi contratado o melhor som da cidade, com os técnicos indicados por ele. A noite do show estava quente e estrelada, os ingressos se esgotavam rapidamente, a fila para os bondinhos dava voltas pela Praia Vermelha. Eram dois bondinhos italianos, modernos e envidraçados, que levavam 75 passageiros de cada vez e em cerca de quatro minutos chegavam ao alto do morro.

Meia-noite, a casa fervia, a pista pulava feito pipoca, a Vitória Régia estava pronta, o som em ponto de bala, só faltava Tim Maia.

Depois de vários telefonemas nervosos, com Tim dando cada vez uma desculpa diferente, o produtor Nelson Ordunha, o Duda, que era habilidoso e tinha larga experiência com doidões, foi enviado com urgência ao apartamento de Tim na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, a uns vinte minutos de carro da Urca. Conhecendo Tim, Duda passou pela bilheteria e encheu uma sacola de supermercado com os 50% restantes do cachê em dinheiro vivo.

Na Gávea, encontrou Tim de cuecas samba-canção, camisa pólo e chinelos, muito à vontade. Recebeu-o com simpatia e cordialidade, ofereceu-lhe um baurete, uma carreira de pó ou uma dose de uísque, ou tudo junto. Mas Duda tinha pressa e foi logo entregando a sacola com o levado e dizendo que a casa estava superlotada e nós estávamos esperando por ele ansiosamente.

Tim estava meio chapado, meio travado e meio alcoolizado, e Duda avaliou que as chances de ele ficar completamente inviabilizado para um show eram grandes. Tim olhava com ternura os pacotes de notas espalhados em cima do sofá, alisava-os como se fossem um bicho, tomou mais uma dose de uísque, vestiu uma camisa de cetim azul e uma jardineira de lamê prateado e entrou no carro de Duda como um boi que vai para o matadouro.

"Se passar de 60 eu salto dessa porra e não tem show nenhum", rosnou.
Pela cidade semideserta, o carro de Duda navegava lentamente pela madrugada carioca e Tim tomava pequenas doses de uísque num copinho.

No Morro da Urca lotado, eu roía as unhas e rezava trancado no escritório, enquanto a multidão urrava: "Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!”

Passava de uma da manhã quando finalmente Djalma ligou da estação do bondinho na Praia Vermelha. Mais esperado que um Messias, o homem tinha chegado com Duda, de macacão prateado e garrafa de uísque na mão.

Essa era a ótima notícia. A péssima era que Tim estava dizendo que não entrava no bondinho nem amarrado, só com anestesia geral.

Duda e Djalma ofereceram tudo, drogas, mulheres, dinheiro, um bondinho só para ele, que subiria de olhos vendados, como os cavalos dos picadores nas touradas, para que não se apavorassem com o touro. No caso, com a paisagem deslumbrante 200 metros abaixo.

Embalado por uma brisa leve, o bondinho balançava suavemente nos cabos de aço, aguardando seu ilustre passageiro, enquanto no alto do morro a multidão gritava por Tim Maia. Apavorado, pedi que a Vitória Régia fosse para o palco. Quando o batidão de "Sossego" encheu o ar, o público delirou, mas o groove rolava e nada de Tim Maia, o povo gritava por ele ainda mais forte.

Tim não queria subir de jeito nenhum. Desesperado, telefonei para a estação e mandei chamá-lo: "Pelo amor de Deus, Tim, pela nossa amizade, pelos nossos filhos, se você não estiver aqui em três minutos o povo vai quebrar tudo, vão destruir a casa, ouve só", estendi o telefone na direção da pista para que ele ouvisse a banda tocando e o furor do povo gritando por ele.

"O Nelsomotta, como você é meu amigo, eu vou fazer esse show pra você, mas vamos fazer o seguinte: como esse bondinho não vai agüentar o meu peso, em vez de eu subir, você manda o povo descer que eu faço o show aqui na Praça.”

Soltou uma gargalhada, tomou mais uma talagada de uísque e entrou no bondinho de olhos fechados, se divertindo com o susto que me dera, amparado por Duda e Djalma e cercado por quatro seguranças. Cinco minutos depois Tim entrava no palco e o topo do Morro da Urca quase entrava em erupção. Com Tim Maia, não havia sossego.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • AtribuiçãoVocê deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licençaSe você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

  • Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
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    • Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
    • Os direitos morais do autor;
    • Direitos que outras pessoas podem ter sobre a obra ou sobre a utilização da obra, tais como direitos de imagem ou privacidade.
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