#CADÊ MEU CHINELO?

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

[cc] COMO SER UM CAÇADOR DE TENDÊNCIAS



Um pequeno guia prático com ideias básicas sobre como as modas vão e voltam

::txt::Ronaldo Lemos*::
::ilstrç::Carolin Loebert

Em uma época de permanente excesso de informação, filtros e referências são cada vez mais importantes. Por isso, o papel de curadores ou “caçadores de tendências” nunca foi tão valorizado. Pensando nisso resolvi preparar um pequeno guia prático com ideias básicas sobre como as tendências vão e voltam (baseado nas ideias de um dos meus ídolos, o artista escocês Nick Currie).

Para isso, é preciso dividir o tempo em diferentes segmentos. O primeiro é o presente, que vai de hoje até vários meses atrás. Se você olha para uma foto um pouco mais antiga e pensa “Que cabelo estranho estou nessa foto!” é porque ela já não pertence ao presente e sim a outro segmento bem mais delicado, o presente ansioso.

Esse intervalo é composto de tudo aquilo que bombou e foi tendência antes de agora, mas que neste momento soa meio passé e até mesmo constrangedor. É só pensar no fenômeno da “new rave”, com suas roupas coloridas e a mistura de rock e eletrônica. Há alguns poucos anos, fazia sentido. Hoje, é difícil encontrar um new raver assumido.

Antes do tempo de ansiedade, vem outro trecho que pode ser chamado de o passado amigável. Trata-se do período transcorrido já há algum tempo, que está pronto para voltar e ser revivido (por isso mesmo é para onde olha a maioria dos caçadores de tendência). Nesse momento o passado amigável é representado, por exemplo, por tendências da década de 90, como o indie rock do Pavement, guitarras distorcidas e vocais melódicos da onda shoegazer e assim por diante.

Existe, no entanto, um período que acho o mais interessante para a procura de tendências. Trata-se de um minissegmento entre o passado amigável e o presente ansioso. Vamos chamá-lo de o purgatório.

Esse intervalo é composto daquilo que ainda é novo demais para ser revivido, mas já é velho para fazer parte do presente. Enquanto trabalhar com o passado amigável é fácil, o purgatório é onde dá para encontrar as ideias mais arriscadas e interessantes (diria, por exemplo, que a onda do Eletroclash do início dos anos 2000 está hoje na região do purgatório).

O PASSADO TE CONDENA

Antes daí há mais duas outras zonas. A primeira é o passado ansioso, que nada mais é do que um período que acabou de ser revivido atualmente e que adquiriu ares de constrangimento (por exemplo, as festinhas de anos 80 trash). Depois vem o passado longínquo, que, apesar de não começar tão distante assim, vai embora em direções imemoriais. Essa é a outra área que, obviamente, é das mais interessantes e difíceis de trabalhar, até porque sua influência sobre o nosso tempo é indireta e espectral (um exemplo é a aposta atual na nova série de televisão Boardwalk Empire, que se passa nos anos 20).

É claro que os limites entre cada um desses trechos mudam o tempo todo (por exemplo, o presente está ficando cada vez menor). Claro também que estou falando aqui de apenas um detalhe sobre a dimensão temporal da busca por tendências. Há várias outras dimensões que renderiam boas conversas, como, por exemplo, a dimensão espacial (que envolve uma articulação das ideias de centro e periferia). Mas essa fica para a parte 2 deste texto, a ser escrita em algum lugar do futuro.

*Ronaldo Lemos, 33, é diretor do Centro de Tecnologia da FGV-RJ e fundador do site Overmundo. Seu e-mail é rlemos@trip.com.br

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

[cc] BOA VIAGEM

::txt::China::

Essa música estará no meu próximo disco, Moto Contínuo.


Ainda não tá finalizada, mas meu amigo Pedro Escobar fez esse vídeo tão bem feito, que eu resolvi colocar aqui pra vocês darem uma sacada na música e no processo de gravação. Estas imagens são do dia que eu gravei voz nela.


É apenas um esboço, mas já dá pra sacar alguma coisa.
olhaí, minha pérola...diz se eu não sou limpeza?!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

[cc] CHINA E O ELOGIO DA CRUELDADE



::txt::Bruno Lima Rocha::

A situação do dissidente chinês Liu Xiaobo retrata uma proposta de regime político fechado com expansão capitalista ilimitada. Enquanto o professor é agraciado com o prêmio Nobel da Paz de 2010 e não pôde recebê-lo porque se encontra em prisão domiciliar, o mundo transpira – e se cala - a cada oscilação da taxa de juros do país que é o maior comprador mundial de títulos da dívida pública dos EUA.

Nada disso é à toa. A China inspirada pelo ex-premiê Deng Xiaoping materializa um conceito caro ao neoliberalismo. É um raciocínio simples já expresso abertamente por doutrinadores como Milton Friedman. Trata de conceber as liberdades econômicas como superiores das liberdades políticas. Este Estado não inaugura uma era, mas expande em escala a conjunção de regime autoritário com economia de mercado incentivada por um governo interveniente. O regime “pioneiro” deste conceito foi o de Pinochet. Após o golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile, a equipe econômica foi composta basicamente de ex-alunos de Friedman na Universidade de Chicago, também conhecidos como “Chicago boys”. O apelido destes mesmos operadores político-econômicos, dentro do país, era outro, um tanto mais realista, sendo chamados de “piranhas vorazes”.

Já na terra de Confúcio, os estudos recentes de implantação do capitalismo na década de 1990 apontavam para o nexo político-criminal como a forma de crescer economicamente. O lema “enriqueçam!”, proclamado por Deng ainda em vida, não veio acompanhado de normas e condutas de contenção do animal econômico e menos ainda de ampliação de direitos e garantias. Ao revés, a abundância de mão de obra barata e subserviente é essencial para aumentar as margens de quem lá investe.

Mesmo sabendo destas mazelas, no Brasil vemos economistas, colunistas e empreendedores econômicos demonstrando entusiasmo no modelo chinês como um todo. Já ouvi em programa de TV a notórios conservadores afirmando, após uma visita, a maravilha que é a “economia se desenvolvendo sem a pressão de sindicatos”. Outros se dizem gratamente surpreendidos pela “agilidade do poder Executivo” em tomar decisões fundamentais. Ou seja, sem pressão da sociedade organizada, a aliança entre Estado e Empresas faz o que quer e como quiser.

O elogio aberto da China traz consigo a idéia-guia de que o desenvolvimento produtivo está acima dos direitos fundamentais. Trata-se de pura e simples crueldade.



* Deng Xiaoping (1904-1997), líder inconteste do capitalismo chinês, homem forte da China quando do Massacre de Tian Amen, operador – de forma indireta – de conceitos macro-societários dos degenerados neoliberais de Mont Pèlerin

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

[cc] EFETIVAR O ESTADO LAICO




::txt::Túlio Vianna::

A Constituição estabeleceu um Estado no qual as liberdades de crença e culto são garantidas e a separação entre Estado e instituições religiosas é definida expressamente. Na prática, porém, a permissividade da política com a religião ainda é uma realidade a ser enfrentada

O monoteísmo não é nada democrático. A crença em um deus único pressupõe a negação da existência do deus do vizinho. Pior: pressupõe que os mandamentos do seu deus são mais justos que os do deus do vizinho. E é natural que todos aqueles que se arroguem o direito de falar em nome deste deus único e todo-poderoso não primem muito pelo pluralismo. Quem ousaria contestar alguém que fala em nome de um deus onipotente, onipresente e onisciente?

A história está repleta de casos de políticos que sustentaram seu poder em nome de Deus. A teoria do “Direito Divino dos Reis”, em voga no século XVII, deu a Luiz XIV a necessária fundamentação ideológica para tornar-se o maior monarca absolutista da França: “L`État c`est moi” (O Estado sou eu) é a frase que melhor sintetiza o poder do mandatário de Deus na Terra.

No século seguinte, a mão de Deus não evitou que as cabeças de seus representantes na Terra rolassem e só então os ideais iluministas de separação entre direito e religião começaram a prevalecer. Nascia, assim, a concepção de um Estado laico que viria a nortear as democracias ocidentais até hoje.

No Brasil, durante todo o Império, o catolicismo continuou sendo a religião oficial, e as demais eram apenas toleradas (art.5º da Constituição de 1824). Como Estado confessional, o imperador antes de ser aclamado jurava manter aquela religião (art.103) e cabia a ele nomear os bispos (art.102, XIV). Somente com a proclamação da República, o Brasil se tornou um Estado laico, garantindo assim a separação entre Estado e religião (art.72, §3º a 7º da Constituição de 1891).

A atual Constituição brasileira de 1988 não deixa dúvidas quanto ao caráter laico de nosso Estado, garantindo expressamente a liberdade de crença, a liberdade de culto e a liberdade de organização religiosa (art. 5, VI da CR) e estabelecendo claramente a separação entre Estado e religião (art.19, I, da CR).

E “nunca antes na história deste país” esta separação entre direito e religião foi tão importante. Com a expansão das religiões neo-pentecostais nos últimos anos, o catolicismo, que sempre foi francamente majoritário no Brasil, começou a perder espaço e os brasileiros começaram a deparar com os problemas típicos do pluralismo religioso.

Divergências de crenças de um povo 90% cristão

Pesquisa Datafolha de maio de 2007 mostrou que 64% dos brasileiros se declaram católicos, 17% evangélicos pentecostais ou neo-pentecostais, 5% protestantes não pentecostais, 3% espíritas kardecistas, 1% umbandistas, 3% outra religião e 7% sem religião.

Poderíamos simplificar estes números e afirmar que o Brasil é um país 90% cristão, mas, na verdade, estas religiões divergem sobre pontos significativos de suas doutrinas, a começar por católicos e protestantes. Para os protestantes, a Bíblia é a única fonte de revelação de Deus e eles tendem a interpretá-la em sentido mais literal. Já os católicos acreditam também na Sagrada Tradição, isto é, nos ensinamentos orais transmitidos pelos cristãos ao longo dos séculos, como complementares ao texto bíblico. Daí surgem diferenças importantes: católicos adoram os santos e Maria, mãe de Cristo; os protestantes, não. Os católicos reconhecem o Papa como líder espiritual e acreditam nos sete sacramentos como instrumento para sua salvação; os protestantes creem que somente a fé em Jesus é capaz de salvá-los. Católicos interpretam o livro do Gênesis, que narra a história de Adão e Eva, como uma metáfora; alguns protestantes o interpretam literalmente e defendem o ensino do criacionismo na escola.

Mas há diferenças significativas também entre as Igrejas Protestantes históricas (Batistas, Luteranos, Presbiterianos, Metodistas e outras) e as Pentecostais (conhecidas no Brasil como evangélicas). A principal delas é a de que os pentecostais acreditam que o Espírito Santo continua a se manifestar nos dias de hoje, por meio das práticas de curas milagrosas, profecias e exorcismos, entre outras.

Há diferenças substanciais também entre o Pentecostalismo Clássico (Assembleia de Deus, Congregações Cristãs, Deus é Amor e outras) e o Movimento Neo-Pentecostal (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Renascer em Cristo e outras). A primeira delas é visível: os pentecostais clássicos se vestem com roupas bastante formais por imposição das Igrejas: homens de terno; mulheres de saias longas e cabelos compridos. Outros usos e costumes rígidos normalmente são impostos aos fiéis, como por exemplo, não assistir à TV e não praticar esportes e, para as mulheres, não se depilar ou usar anticonceptivos. O conservadorismo é a tônica da doutrina pentecostal clássica, que se baseia no ascetismo e no sectarismo. Já os neo-pentecostais são bem mais liberais, não se vestem de forma determinada e têm como principal foco a Teologia da Prosperidade, que propugna que os fiéis têm o direito de desfrutar uma vida terrena com saúde e riquezas materiais. Para tanto, precisam demonstrar sua devoção a Deus doando suas economias de modo a se tornarem credores de Deus em uma dívida que será paga com a concessão das dádivas divinas. O sacrifício ascético do corpo é substituído por um sacrifício econômico em honra de Deus.

Finalmente, os neo-pentecostais têm uma divergência inconciliável com os espíritas. Ambos creem em manifestações sobrenaturais na vida cotidiana. Os espíritas acreditam na reencarnação e creem que estas manifestações são causadas por espíritos de pessoas comuns que faleceram e ainda não reencarnaram. Já os neo-pentecostais não acreditam em reencarnação e nem na possibilidade de os mortos se comunicarem com os vivos. Para eles, estes espíritos são na verdade manifestações do demônio e, portanto, precisam ser combatidos. Daí o motivo de tanta hostilidade entre evangélicos e espíritas: enquanto estes creem na possibilidade de conversar com os espíritos de parentes e amigos já falecidos, aqueles os acusam de conversar com demônios.

Neste contexto fervilhante de crenças, nada mais natural que se retomem as discussões sobre a importância do Estado laico. Enquanto o Brasil era um país com população quase que exclusivamente católica, a maioria simplesmente impunha suas crenças sobre a minoria que, de tão pequena, não levantava sua voz para lutar pelo Estado laico.

Basta ver os crucifixos afixados nas paredes dos tribunais e órgãos públicos brasileiros. Se até então o símbolo do predomínio católico em nossos tribunais só incomodava à pequena minoria não-cristã da população, atualmente muitos protestantes já se insurgem contra ele. Infelizmente, em 2007, o Conselho Nacional de Justiça decidiu que os crucifixos nos tribunais não violam o princípio constitucional da laicidade, por se tratar de um costume já arraigado na tradição brasileira. Com este simplório argumento, os conselheiros do CNJ justificariam até mesmo a escravatura que, quando foi abolida em 1888, ainda era costume no Brasil. Se costume fosse fundamento jurídico para justificar o próprio costume, as mulheres ainda teriam que se casar virgens, não haveria o divórcio e o adultério ainda seria crime. Fato é que tribunais e órgãos públicos são mantidos com dinheiro público e não devem expressar as crenças pessoais de seus dirigentes. Os crucifixos não são, pois, apenas um símbolo do predomínio católico, mas antes de tudo de uma apropriação privada da coisa pública para a manifestação de crenças pessoais.

Ensino religioso nas escolas públicas

A questão atualmente mais polêmica que decorre do princípio constitucional da laicidade é a do ensino religioso, de matrícula facultativa, nas escolas públicas, previsto expressamente no art.210, §1º, da Constituição Brasileira.

O Acordo Brasil-Vaticano (Decreto 7.107/10) que em seu art.11, §1º, prevê “o ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas” provocou imediata reação da sociedade civil ao colocar em risco a igualdade de tratamento entre as religiões. A constitucionalidade do dispositivo está sendo contestada atualmente no Supremo Tribunal Federal (ADI 4.439) pela Procuradoria-Geral da República, que defende corretamente que o ensino religioso no Brasil deva ser não-confessional, limitando-se, pois a um apanhado teórico da diversidade de religiões existentes em nosso país.

Melhor seria, porém, que o Estado deixasse cada família decidir sobre a melhor formação religiosa de seus filhos, matriculando-os em cursos fornecidos pelas próprias Igrejas e outras instituições religiosas. Uma emenda constitucional que abolisse o ensino religioso nas escolas públicas resolveria de vez a controvérsia relegando a formação religiosa para a esfera exclusivamente privada.

A meta do Estado laico

O Estado laico ainda é uma meta a ser perseguida pelo Direito brasileiro. Se na questão dos crucifixos e do ensino religioso, a manifestação de cristãos não-católicos tem sido decisiva para colocar em pauta os debates, as violações do princípio da laicidade tendem a ser menosprezadas quando há consenso entre católicos e protestantes.

Veja-se, por exemplo, o art.79, §1º, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, que prevê que “a Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”. Se o Estado é de fato laico e a religião não deve ser fundamento da elaboração das leis, qual sentido há neste dispositivo? Se o deputado é cristão, que compre sua própria Bíblia e a leve consigo.

O nome do deus monoteísta tem sido usado sem maiores pudores na esfera pública, sob o argumento de que contemplaria todas as religiões. Alega-se que o preâmbulo da Constituição de 1988 se refere expressamente à “proteção de Deus” e, portanto, o ateísmo estaria excluído da liberdade de crença. Trata-se de um falso fundamento jurídico, já que o preâmbulo, por sua própria definição, é o texto que antecede a norma e, portanto, não faz parte dela. Em suma: não tem qualquer valor normativo.

A liberdade constitucional de crença é também uma liberdade de descrença, e ateus e agnósticos também são cidadãos brasileiros que devem ter seus direitos constitucionais respeitados. O mesmo se diga em relação aos politeístas, que acreditam em vários deuses e não aceitam a ideia de um deus onipotente, onisciente e onipresente.

Um bom exemplo do uso do nome de Deus com violação do princípio da laicidade é a expressão “Deus seja louvado” no dinheiro brasileiro. Como não incomoda à maioria da população, acaba sendo negligenciada em detrimento dos direitos constitucionais dos ateus, agnósticos e politeístas, que ainda não são bem representados no Brasil. Já se vê, porém, algumas destas expressões riscadas à caneta nas notas brasileiras, o que é uma clara manifestação de descontentamento com o desrespeito à descrença alheia.

O paradoxal desta menção de Deus no dinheiro brasileiro é que a Bíblia narra (Mateus: 22, 21) uma passagem na qual Jesus rechaça uma tentativa de uso político de seus ensinamentos e reconhece a importância do Estado laico, referindo-se justamente à moeda romana: “Dai o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus”. Das duas, uma: ou o Deus cristão mudou de ideia nestes últimos dois mil anos ou seus representantes na Terra andam excedendo os limites da procuração por Ele outorgada.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

[cc] WIKILEAKS E A GUERRA DE 4º GERAÇÃO



::txt::Bruno Lima Rocha::

Julian Assange é o nome do momento e a perseguição pela qual sofre retrata a relevância do personagem. O australiano veio ganhando escala mundial por seu trabalho pioneiro como representante público de uma equipe dedicada a difundir documentos classificados (reservados, confidenciais ou secretos), agindo, segundo as próprias palavras do Wikileaks em seu editorial, em nome da “transparência e da prestação de contas”. Conceitualmente, Assange e os demais membros do portal estão em guerra de 4ª geração, operando – de fato – contra Estados potência e empresas transnacionais. E eles não estão sós no front.

Tampouco a modalidade de conflito é exclusiva dos países desenvolvidos. A primeira vez que escutei o termo foi quando estive na Venezuela (janeiro de 2009), em companhia de ativistas midiáticos e militantes da comunicação popular. Estes homens e mulheres, voluntários em sua maioria, praticam a partir da internet e de emissoras de rádio FM de baixa potência, dois contrapontos simultâneos. Seus alvos permanentes são a chamada mídia escuálida (termo popular para definir os venezuelanos de origem européia) assim como a direita endógena (políticos oligarcas convertidos ao chavismo). Embates semelhantes ocorrem pelo mundo.

O cenário desta guerra varia a cada território, questão em voga ou nicho de interesse. O que há de perene são as diretrizes (informais) de buscar aumentar o poder da cidadania e a capacidade decisória de indivíduos e coletividades diante dos agentes com poderes de incidir sobre a vida do planeta, como os EUA e o complexo industrial, militar e petrolífero, por exemplo. Nesta luta, a rede mundial de computadores é fundamental.

Definitivamente, estamos diante de uma quebra de paradigma para o significado da internet em nossas vidas. O modus operandi do Wikileaks e de seus assemelhados, vem ultrapassando as fronteiras do jornalismo formal (em seu modelo empresarial) e indo além do legalismo na defesa do direito à informação.

A tese levantada é simples. A cidadania necessita de ter informações precisas e fidedignas para poder decidir. Uma vez que hoje somos todos influenciados por decisões tomadas por Estados do centro do capitalismo, a começar pelos EUA (única superpotência bélica em escala planetária) e empresas transnacionais, é necessário saber o que se passa nestes lócus de poder, e também o que pensam e fazem os membros destas as elites dirigentes.

A internet há muito deixou de ser uma atividade de ócio para tornar-se uma das artérias centrais da globalização corporativa (também chamada de mundialização). Explico. Se a informação é central para o processo decisório e a decisão em áreas sensíveis passa por assegurar a defesa de dados, informes, relatos, impressões, pareceres, relatórios e documentos oficiais, portanto, para governar é fundamental manter segredo e dissimular versões

Esta necessidade entra em rota de colisão com os valores atribuídos a toda e qualquer forma de democracia, como a transparência nas ações tomadas por detentores de mandatos ou no exercício de autoridade em nome do bem comum.

O interessante é notar a fragilidade da defesa de informações por parte da superpotência. Não vejo como válida a hipótese de que a equipe do Wikileaks (tanto fixos como voluntários) tenha condições de operar como agência de espionagem. Portanto, se os documentos sensíveis vazam, é porque foram vazados.

Assim, em alguma etapa da hierarquia e do fluxo informacional, alguns estão vazando os conteúdos secretos que dizem respeito à vida de milhões. Uma vez checada a informação (e até onde se sabe a rede do Wikileaks faz a checagem), não há nenhuma razão (legal ou moral) para não difundi-los.

A prisão de Assange e o acionar da parafernália da Interpol em sua captura dão mostras tanto do temor destas instituições como da “letalidade” do risco permanente do vazamento de informações de modo a possibilitar a produção de novos consensos a respeito de temas relevantes para as maiorias. A guerra de 4ª geração está apenas começando.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

[cc] RONALDO LEMOS E O CREATIVE COMMONS



::txt::Internetsegura::

Quem publica textos, fotos ou vídeos na internet sabe como é comum a obra ser reproduzida rapidamente em outros sites, muitas vezes sem concordância do autor. As regras de direitos autorais do mundo offline teoricamente valem também para a internet, mas a dinâmica e as novas possibilidades abertas pela rede levaram a um debate sobre novas formas de tratamento para as criações intelectuais. O Creative Commons (CC) é uma iniciativa que tem por objetivo trazer novos modelos de licenciamento de materiais produzidos por qualquer pessoa. Por meio do CC, o autor pode dizer o que é permitido fazer ou não com suas obras.

Quem dá os detalhes é Ronaldo Lemos, professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual na Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro, mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela Universidade de São Paulo (USP). Ele é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, que responde pela coordenação do Creative Commons no Brasil. Lemos concedeu a seguinte entrevista por e-mail ao Internet Segura.


O que é Creative Commons (CC) e com que objetivo ele fui fundado?

O Creative Commons é um projeto que facilita o licenciamento de obras. Funciona como uma ferramenta que permite a qualquer criador intelectual dizer o que pode ou não ser feito com a sua obra. Além disso, é um tipo de licença que fundamenta a criação colaborativa. Por exemplo, a Wikipedia é licenciada em Creative Commons. Graças à licença do Creative Commons, qualquer pessoa que contribui para ela, melhorando um artigo já existente, não precisa pedir autorização, exatamente porque a autorização já foi concedida por meio da licença. Em outras palavras, sem o Creative Commons ou alguma outra forma de licenciamento similar, seria impossível a existência de um projeto como a Wikipedia.

Um dos principais pontos do Creative Commons é conjugar liberdade de acesso à obra com a possibilidade de gerar receitas. Um artista pode escolher uma licença que permita o acesso à obra apenas para fins não comerciais. Se ela for usada para fins comerciais, os direitos autorais devem ser normalmente pagos. Por exemplo, meu livro Direito, Tecnologia e Cultura é licenciado por Creative Commons. São permitidas a cópia e a distribuição para fins não comerciais. Mas, ao mesmo tempo, o livro é publicado normalmente pela Editora FGV, que o vende em livrarias de todo o País. Com a música, é a mesma coisa. Muitos artistas licenciam suas músicas para serem livremente distribuídas para fins não comerciais. Mas, quando aquela música toca na rádio ou na televisão, os direitos autorais devem ser normalmente recolhidos. Essa possibilidade de conjugar ampla distribuição com a exploração comercial da obra é fruto do Creative Commons.

Qual é a atuação do CC no Brasil?

O Creative Commons no Brasil é coordenado pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas. O trabalho de coordenação envolve dois aspectos: a manutenção jurídica das licenças, que passam por um cuidadoso e longo trabalho de adaptação para o ordenamento jurídico brasileiro, permitindo que sejam integramente válidas no País; e a representação pública do projeto Creative Commons no Brasil, explicando suas muitas possibilidades de utilização.

O Creative Commons está presente em mais de 70 países, em cada um deles em parceria com uma instituição local. Assim, na Itália, a parceria é com o Politécnico de Turim. Na França, com a Universidade de Paris. Na Alemanha, com a Universidade de Karlsruhe e assim por diante.

Quais as principais diferenças entre as licenças CC e as demais existentes?

As oportunidades e as formas de licenciamento se multiplicaram. Antes, quando se falava em negócios envolvendo direito autoral, predominava basicamente apenas um modelo, aquele em que o artista cedia os seus direitos para uma organização empresarial (gravadora, editora, distribuidora, etc.) que, por sua vez, negociava e divulgava a obra do artista. Esse modelo ainda existe e continua tendo sua importância, mas hoje outros inúmeros arranjos são possíveis.

O Creative Commons é uma das novas modalidades de licença existentes, que permitem promover a ampla disseminação de obras, bem como a criação colaborativa. São muitas as modalidades de licenças que fazem isso, como a licença MIT, a licença Mozilla, a licença BSD, dentre várias outras. A principal diferença do Creative Commons é que ele foi feito pensando especificamente no licenciamento de obras autorais, como música, filmes, fotografias, vídeos, livros e assim por diante. Não foi feito, por exemplo, para o licenciamento de software. Para isso, existem licenças específicas, como a GNU GPL e GNU LGPL, que são anteriores à existência do Creative Commons e cujo modelo foi uma importante inspiração para ele.

Qual o papel das licenças CC no fomento da criatividade e da inovação?

O papel das licenças CC no fomento à inovação e criatividade é amplamente reconhecido. Acredito que o melhor resumo desse papel foi escrito pelo diretor jurídico de propriedade intelectual da Microsoft, Tom Rubim (chief counsel for Intellectual Property Strategy). Ele disse o seguinte, em um interessante artigo que pode ser acessado em CyberLaw: "O sistema de direito autoral deveria ser otimizado com relação a um mundo em rede e deveria ser capaz de atender às demandas de rapidez e escala no licenciamento de obras. O Creative Commons atende a essa demanda de velocidade e escala. Uma das razões para a rápida adoção das licenças Creative Commons pelo mundo em rede é o quanto é fácil incluir as licenças nos seus trabalhos criativos na internet".

O artigo de Tom Rubin argumenta que o direito autoral, tal como existe hoje, não consegue atender às demandas de um mundo que funciona conectado. Ele acredita que esse sistema deveria ser modificado para atender à necessidade de rapidez e escala, permitindo a geração de negócios, bem como fomentando a criatividade e a inovação. Dessa forma, ele enxerga no Creative Commons um modelo que prenuncia essa possibilidade de transformação para aprimoramento do direito autoral.

Como fica a propriedade intelectual diante do modelo de licenças CC?

A propriedade intelectual é um elemento fundamental das licenças Creative Commons. Todas as licenças são baseadas nela. É a partir da propriedade intelectual que licenças como o Creative Commons ou a GNU GPL mencionada acima funcionam. Se não houvesse direito autoral, não haveria nem GNU GPL nem Creative Commons.

O que há de sinergia entre o modelo de licenças CC e a internet?

O Creative Commons é uma ferramenta poderosa nas mãos de criadores e produtores de conteúdo. Ele entrega ao artista a capacidade de gerenciar seu próprio trabalho, permitindo dizer o que pode ou não ser feito com ele, de acordo com os termos das licenças. Dessa forma, como o Tom Rubin da Microsoft chama a atenção, ele é uma ferramenta importantíssima para dar agilidade na circulação e licenciamento das obras e também na possibilidade de criação coletiva por meio da internet.

Além disso, o Creative Commons é muito importante para a educação, na medida em que permite modelos de acesso ao conteúdo educacional que podem se adaptar facilmente a qualquer nova mídia ou ferramenta, de redes sociais ao celular. Uma vez que um conteúdo é licenciado em Creative Commons, ele pode não apenas ser amplamente disseminado, mas também pode haver experimentação sobre a forma como ele será usado e disseminado, podendo até mesmo ser integrado com outros conteúdos educacionais. Um exemplo é a Wikipedia, que é totalmente licenciada em Creative Commons. Ela é distribuída em papel, online e no celular. E integrada até mesmo em videogames, como fonte de informação.

Qual a relação entre a CC e o que um internauta deve saber a respeito sobre como publicar ou usar material divulgado na internet, como fotos, imagens e textos?

Um dos principais pontos do Creative Commons é conjugar liberdade de acesso à obra com a possibilidade de gerar receitas. Um artista pode escolher uma licença que permita o acesso à obra apenas para fins não comerciais. Se ela for usada para fins comerciais, os direitos autorais devem ser normalmente pagos. Essa é uma das grandes forças do Creative Commons.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

[cc] WIKILEAKS E A LIBERDADE DE IMPRENSA

::txt::Avaaz::

A campanha de intimidação massiva contra o WikiLeaks está assustando defensores da mídia livre do mundo todo.

Advogados peritos estão dizendo que o WikiLeaks provavelmente não violou nenhuma lei. Mas mesmo assim políticos dos EUA de alto escalão estão chamando o site de grupo terrorista e comentaristas estão pedindo o assassinato de sua equipe. O site vem sofrendo ataques fortes de países e empresas, porém o WikiLeaks só publica informações passadas por delatores. Eles trabalham com os principais jornais (NY Times, Guardian, Spiegel) para cuidadosamente selecionar as informações que eles publicam.

A intimidação extra judicial é um ataque à democracia. Nós precisamos de uma manifestação publica pela liberdade de expressão e de imprensa. Assine a petição pelo fim dos ataques e depois encaminhe este email para todo mundo – vamos conseguir 1 milhão de vozes e publicar anúncios de página inteira em jornais dos EUA esta semana!

O WikiLeaks não age sozinho – eles trabalham em parceria com os principais jornais do mundo (NY Times, Guardian, Der Spiegel, etc) para cuidadosamente revisar 250.000 telegramas (cabos) diplomáticos dos EUA, removendo qualquer informação que seja irresponsável publicar. Somente 800 cabos foram publicados até agora. No passado, a WikiLeaks expôs tortura, assassinato de civis inocentes no Iraque e Afeganistão pelo governo, e corrupção corporativa.

O governo dos EUA está usando todas as vias legais para impedir novas publicações de documentos, porém leis democráticas protegem a liberdade de imprensa. Os EUA e outros governos podem não gostar das leis que protegem a nossa liberdade de expressão, mas é justamente por isso que elas são importantes e porque somente um processo democrático pode alterá-las.

Algumas pessoas podem discordar se o WikiLeaks e seus grandes jornais parceiros estão publicando mais informações que o público deveria ver, se ele compromete a confidencialidade diplomática, ou se o seu fundador Julian Assange é um herói ou vilão. Porém nada disso justifica uma campanha agressiva de governos e empresas para silenciar um canal midiático legal. Clique aqui para se juntar ao chamado contra a perseguição:

Você já se perguntou porque a mídia raramente publica as histórias completas do que acontece nos bastidores? Por que quando o fazem, governos reagem de forma agressiva, Nestas horas, depende do público defender os direitos democráticos de liberdade de imprensa e de expressão. Nunca houve um momento tão necessário de agirmos como agora.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

[cc] EM CADA MORRO UMA HISTÓRIA DIFERENTE E A POLÍCIA MATA GENTE INOCENTE




::txt::Luciano Viegas::

Em 1969 os norte-americanos chegaram à lua e plantaram a sua bandeira. Hoje os militares subiram o morro e reproduziram o gesto. Agora os dois acontecimentos travam uma disputa pelo título da maior farsa da história. “A paz reina no morro”, diz o telejornal.

É o espetáculo da classe média e dos gringos. Os inúmeros fãs de Counter Strike e Call of Duty chegam ao êxtase com o show da vida real. Hoje cheguei a ouvir: “Adoro isso, tem que colocar mesmo os militares pra trabalhar”. Logo depois, a mesma pessoa solta: “Tem que matar toda essa negrada aí”. O autor das frases é homossexual. De certo não sabe o que é ser vítima de preconceito.

Tive que acompanhar o deslumbramento do sujeito com a cobertura ridícula da Globo News, exaltação à maior ação repressiva da história do Rio de Janeiro. O discurso é de libertação. A polícia finalmente trouxe a paz ao morro, libertou a comunidade. A paz nunca virá por alguém que porta um fuzil. O Estado brasileiro esteve ausente do Morro do Alemão durante o ano inteiro. Enquanto isso o esgoto continua correndo a céu aberto.

Vale contextualizar que, no mandato do oligarca Rodrigues Alves, na época do café com leite, o Rio de Janeiro passou por uma “reforma de urbanização”, que expulsou do centro da cidade as pessoas pobres, em grande parte negros, ex-escravos, que foram obrigados a se deslocar para a periferia das cidades. Eis o surgimento das favelas e seu consequente crescimento desordenado. O Governo não só criou o Morro do Alemão, como o largou às moscas. Ainda assim, o julgamento imediato é o de criminalizar e condenar as pessoas envolvidas com o tráfico.

Mas você, Luciano, defende os traficantes.

Não defendo, não. Talvez seja uma leitura muito ousada de minha parte, mas o tráfico surge como uma das poucas alternativas para um povo totalmente fudido. Alguns aproveitam para assumir a posição de liderança e conquistam o apoio da comunidade, mas também são eles que roubam o caminhão do gás e abastecem a casa de todo mundo que precisa, ganhando confiança, fazendo o papel do ausente governo. Nunca botei o pé dentro de uma favela, é verdade. Não aplaudo traficante, mas não condeno. Também sei que o apoio da comunidade, nesse caso, nunca é total, então não quero generalizar. O que eu quero dizer com toda essa lenga-lenga é que o tráfico é produto direto da política de criminalização do Estado.

Mas você, Luciano, é um maconheiro em potencial e só quer fumar sossegado.

É óbvio que eu tenho a noção de que é o consumidor quem financia a existência do comércio de qualquer tipo de produto. Partindo do mesmo princípio, mas por razões diferentes, não como carne, leite, ovos e ainda me esforço pra boicotar um monte de marcas. Nenhuma dessas coisas que eu não compro, no entanto, é proibida de ser comercializada. Pelo contrário, a agropecuária é o orgulho nacional. Com as drogas é diferente. Elas não podem ser comercializadas, nem produzidas para o consumo próprio.

Parto do princípio que cada um faz consigo o que bem entender, desde que não prejudique outras pessoas com suas atitudes. Não é o usuário “quem financia essa porra”, como afirmava a frase emblemática do Tropa de Elite 1, mas quem financia essa porra é a lei. A saída é óbvia, mas não interessa aos chefes dos chefes do crime, que moram no Leblon, no Morumbi ou até mesmo no exterior, por isso o governo prefere o combate temporário ao tráfico a acabar de vez com ele.

Mas, Luciano, não temos condições de saúde pública para legalizar tudo.

Engraçado como não temos dinheiro pra investir em saúde, mas temos pra investir em segurança. O que custa mais, uma arma de última geração produzida com alta tecnologia norte-americana ou um remédio genérico? Os puliça e os milicos estão todos bem equipados pra invadir casa por casa. Sei que não é tão simples assim, mas é preciso uma mudança de prioridades.

Captura-se milhares de traficantes, mas não se acaba com o tráfico. Tudo ilusão.

Concluindo: nunca pisei no Morro do Alemão, mas não tenho dúvidas de que a visão dominante sobre o que acontece lá dentro é completamente enviasada. Até hoje não sei como o Bezerra da Silva um dia já teve exposição midiática. Ele foi um dos maiores porta-vozes dessa multidão de fudidos durante o século XX:

Dizem que eu sou malandro
cantor de bandido e até
revoltado somente porque
canto a realidade de um
povo falido e marginalizado


Recomendo ainda esse documentário sobre a maconha. Não fumem, mas abram as portas da percepção.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

[cc] TURISMO SOCIALISTA

::txt::Ale Lucchese::
::phts::Thais Brandão::



O helicóptero ianque decola na quebrada do rio Yuro em direção a La Higuiera. Em seu bojo, subjugado, sujo de sangue e de terra, está Ernesto Guevara. Voando entre as estrelas da noite sul-americana, sem mais poder lutar, Che adivinha que o fim da sua vida virá em poucas horas, ao romper o dia.

Ao seu lado, soldados norte-americanos sabiam o valor e o peso daquele moribundo troféu que carregavam. O que não poderiam adivinhar, no entanto, é que gerações e gerações de compatriotas, e talvez até mesmo seus netos e bisnetos, percorreriam aquelas densas matas e abissais caminhos para sentir ainda algum suspiro desse prisioneiro que para a morte estavam levando.



O roteiro turístico chamado de “Ruta del Che“, um dos atrativos de visitantes à Bolívia, não é inusitado “apenas” por demonstrar esse choque ideológico-geracional dos primeiro-mundistas, mas também por dois fatores anti-socialistas: messianismo e exploração capitalista.

O rosto do fotogênico Guevara pode ser encontrado em pousadas, bares e restaurantes a serviço da venda de diárias, refrigerantes e hambúrgueres. O revolucionário foi transformado em fetiche tal como Mickey Mouse. A única diferença é que quando você compra o relógio do Mickey Mouse você está comprando um bem-estar relacionado à sua extinta alegria infantil; e quando você escolhe o X-Che-Guevara no cardápio você está comprando uma bem estar relacionado a transformar o mundo e suas relações sociais.

Mas, bem no fundo, você sabe que o relógio do Mickey é tão vagabundo quanto qualquer outro relógio coreano e você não vai voltar e ser criança; e que o X-Che-Guevara é tão gorduroso quanto todos os outros do cardápio e você não vai transformar coisa nenhuma ao comê-lo, a não ser seu peso.



Em Vallegrande, onde começa a Ruta, pode-se tomar um táxi ou ir com um guia até La Higuiera. Por pouco mais de 60 km dirigindo entre precipícios, o taxista irá te cobrar um preço tabelado, pouco menos de 100 reais (um valor absurdamente alto para os padrões de preço do transporte boliviano). Também se pode contratar um guia ou táxi para ver o mausoléu onde foram encontrados os restos mortais do guerrilheiro.

Ao ver as fotos de La Higuiera, uma cruz estava postada ao lado do busto do Che. Cartazes de empresas turísticas também anunciam um roteiro de “luta, morte e ressurreição“. Aí está o outro fator paradoxal: o messianismo. Parecem ter esquecido que os socialistas eram (não sei se ainda são) ateus. O sorridente Guevara é transformado aqui num mero Jesus Cristo com fuzil.

Visitamos Vallegrande, e é de lá que são essas fotos. Lá se pode visitar gratuitamente a lavanderia do hospital onde Che Guevera foi exibido para a imprensa depois de morte. Também há um museu bem meia-boca, com um pouco de história, fotos e objetos. Estrangeiros precisam pagar dez bolivianos (cerca de R$ 3,00) para entrar. Velho Che, que pregava a igualdade, deve se revirar no túmulo ao pensar que estrangeiros interessados em sua história são tratados com diferença em relação aos nativos bolivianos, sendo obrigados a pagar para entrar no seu museu.


A famosa lavanderia, Vallegrande (BO)

Para mim, Che Guevara sempre foi uma entidade etéria, um ícone sem passado nem futuro, um rosto numa camiseta. Nunca senti necessidade de sanar minha ignorância e descobrir quem foi realmente aquele rosto. É como aquela foto do casal se beijando em Paris: não interessa quem eles são, interessa que a cena em si representa um amálgama entre amor e sensualidade. Pois os traços de Che contra o pano vermelho de uma camiseta por si só representavam um força obstinada e transformadora, não interessando se algum dia existiu mesmo um homem com aquele rosto sobre esse planeta.

Portanto, não fomos até Vallegrande para buscar a história desse homem. Para nós, o verdadeiro Guevara está vivo, pendurado nas araras de um camelô que vende camisetas na praça da Alfândega, em Porto Alegre ou em qualquer outra capital. O que fomos lá buscar foi essa bizarra cria entre indústria do turismo e socialismo. E é sobre isso que esse texto e essas fotos tratam.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

[cc] LAN HOUSES: A QUARTA GERAÇÃO




::txt::Ronaldo Lemos::
::ilstrç::Yu-Shu Chan::

A esta altura todo mundo já sabe. As lan houses mudaram a cara da inclusão digital no Brasil. Hoje, 48% de todos os acessos à rede no Brasil acontecem através delas. É só dar uma olhada no Orkut. Ele reflete a diversidade social brasileira, com gente de todos os tipos, tanto do ponto de vista cultural quanto socioeconômico (e, por conta disso, na minha opinião, o Orkut nunca esteve tão legal).

O que pouca gente sabe é que a revolução começada nas lan houses continua. A mais recente tem a ver com mudanças no modelo de negócios. Há algum tempo já vinham funcionando como uma mistura de escritório público e despachante. Através delas dá para pagar contas de água, luz e celular ou fazer declaração de isento no imposto de renda. Algumas vendem passagens aéreas e até mesmo ajudam os clientes a elaborar um currículo, caso estejam procurando emprego.

Dá para dizer que esses são a terceira geração de serviços a aparecer através das lan houses. A primeira foram os games, a segunda o serviço de acesso à internet e agora serviços gerais, incluindo governo eletrônico e e-commerce. No entanto, este artigo é para falar dos primeiros passos de uma quarta geração de serviços, ainda mais inesperada.

Pós-Warcraft

Conversando com donos de lan houses, é visível que existem várias mudanças em andamento. Todas as lan houses estão em busca de novas fontes de receita, a partir da percepção de que os serviços prestados hoje tendem a declinar na medida em que as pessoas vão tendo acesso a computadores em casa.

Em paralelo a isso existe uma mudança no perfil dos games. Antes o mais comum eram jogos que dependiam de instalação prévia e do pagamento de uma licença (como Counter Strike ou Warcraft). Os jogos mais populares atualmente são gratuitos e online (como o Cross Fire, o Ragnarok e o Gunbound). São desenvolvidos na China e na Coreia e possuem outro modelo de remuneração. O game é gratuito, mas para progredir o jogador tem de investir um bom tempo treinando seu personagem e obtendo recursos para comprar armas mais poderosas. Quem não tem tempo pode comprar itens da empresa que faz o game. Ou então de outros usuários.

É aí que entra a nova geração de serviços. Muitos usuários de lan houses estão se especializando na venda de itens virtuais dentro dos games. Até mesmo treinando e vendendo personagens de jogos como Gunbound por até R$ 300 (chamados carinhosamente de "bonecos"). Essa venda dos "bonecos" acontece em sites de leilão inclusive para fora do Brasil e a fila de espera para comprá-los é gigantesca.

Sei que muita gente vai ficar de cabelo em pé ao imaginar que essa prática, comum na Ásia, está chegando ao Brasil via lan houses. Há quem diga que algumas lan houses já começam a encampar o modelo e que a receita com "bonecos" e outros itens virtuais pode chegar a 50% do faturamento. O futuro desse modelo de negócio ainda é incerto. Por ora, dá para dizer apenas que ele prenuncia um momento de transformações profundas no mundo das lans. A ver.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

[CC] MEMÓRIAS SONOLENTAS PARA ELEIÇÕES VIOLENTAS



::txt::Eugênio Bucci::

Nas eleições que correm, alguns veículos declararam seu apoio a um ou a outro candidato ao Planalto. Primeiro foi a revista CartaCapital, que afirmou sua preferência por Dilma Rousseff. O diário O Estado de S.Paulo, no domingo (26/9), manifestou-se favorável ao candidato tucano, José Serra.

Há um frisson em torno do tema. Mais que frisson. Os cabos eleitorais se excitam, exaltam-se, gritam de punhos cerrados, socando o ar. Acreditam que, com seus decibéis a mais, desmascaram as "mídias" tendenciosas que, finalmente, deram nomes a seus próprios bois. Discursam com fúria justiceira.

E vã. Rigorosamente, ninguém deveria perder muito tempo com isso. Desde os tempos da máquina de escrever, ou mesmo antes, desde os tempos do Lívio Xavier, de Rui Barbosa, e mais longe ainda, desde as eras de Hipólito da Costa, jornais no Brasil e no mundo tomam partido num debate ou noutro, às vezes discretamente, outras vezes com alarde. Também em eleições, claro. Há diários que cerram fileiras com um partido e não nominam candidatos. Outros, menos reservados, personalizam a questão e pedem voto num sujeito de carne, osso, nome e sobrenome. O que não contraria em nada a tradição jornalística. Desde que não contamine a cobertura honesta dos fatos, um editorial de apoio a uma campanha (cívica, eleitoral, militar, desportiva, o que for) não mata a credibilidade de ninguém. Antes o contrário: declarar abertamente a preferência partidária, ao menos nas condições normais de temperatura e pressão, é uma forma de jogar mais limpo com o leitor.

Só o que é preciso é saber que não estamos diante de um imperativo incontornável. A imprensa conhece mil maneiras de se posicionar – ou de não se posicionar. Mil maneiras e mais outras mil. Só é preciso saber que os jornais têm o direito de declarar ou de não declarar em quem os seus dirigentes pretendem votar, assim como têm também o direito de não declarar coisa alguma. A declaração de voto não é obrigatória, assim como não é errada. Um diário pode, com toda a legitimidade, preferir não tomar partido – ainda que sua cobertura sugira uma inclinação para esse lado ou aquele lado da disputa. Se essa inclinação ferir ou frustrar a justa expectativa dos leitores, o problema é desse jornal. Ele terá que pagar o preço pelas forçadas de mão.

Não há neutralidade na imprensa, já se sabe desde a invenção da escrita. O que pode haver, se quisermos ser otimistas, é um pouco de objetividade (no sentido de fazer com que o relato decorra mais do objeto que é a pauta e menos do sujeito que a escreve). O que pode haver é boa fé. O que pode haver é transparência. Agora: declarar voto não é sinônimo automático de transparência. Assim como é possível mentir dizendo só (fragmentos d’) a verdade ("a verdade é seu dom de iludir"), é possível ser opaco e traiçoeiro declarando voto a todo momento.

Nessa matéria, vale repetir, não há receita universal. A única receita é o respeito pela autonomia de cada um e pelo público leitor. Cada órgão jornalístico é autônomo para decidir sobre o modo de se conduzir – e a instituição da imprensa será tanto mais saudável quanto mais diversidade comportar. No mais, cada um que resolva o pacto que quer firmar – e respeitar – com o seu público. É assim que funciona. Aliás, é só assim que funciona.

Essa confusão dos diabos

Bem, mas, se é assim, por que o frisson inútil?

Em parte, porque as paixões partidárias, na falta de outras, apimentam o ambiente, e o pessoal se diverte. É mais ou menos como ir brigar num fim de baile na cidade de Igarapava, às três da manhã. Falta de sono. Falta de coisa melhor para fazer. Há uma certa sanha hormonal nessa história, embora as ideologias não se saibam porosas aos hormônios. O sujeito se inflama – e com isso experimenta um gozo que julga ser secreto. O outro fala em golpismo e se vê virando estátua no museu da revolução. Um terceiro se dá ares de indignação santificada, e surge aquele que se pretende imolar nas rotativas. A coisa toda é imaginariamente sangrenta, mas, no fundo, a coisa toda é muito mais simples. É natural, quero dizer, essa gritaria cheia de afetações fundamentalistas de um lado a outro, essa teatralização tanto dos que vêem atentado contra a democracia numa manchete e como dos que vêem golpe de Estado nos desaforos que o presidente da República pronuncia – tudo isso é natural, ainda que artificial. É do jogo, ainda que possa ferir a regra do jogo. Está na conta, ainda que subtraia quando prometa somar. É previsível, ainda que nos pregue sustos.

As ondas de raiva irrompem porque a polarização foi longe demais. Nem tão longe como na Venezuela, mas foi longe demais entre nós. Falta-nos serenidade. Tanto nos falta que, nesse momento, quem defende a serenidade passa por demagogo. Eu, como partidário convicto do movimento minoritário pela serenidade, ainda que demagógico, insisto: nada de novo sob o sol.

As lembranças que nos escapam

Não estou bem certo se já disse isso nos parágrafos anteriores, mas já faz muito tempo que jornais tomam partido em eleições. Deveríamos puxar pela memória, se é que temos alguma, e deveríamos pegar mais leve.

Eu me lembro que, em 2000, o mesmo Estadão que agora vai de Serra, foi de Marta Suplicy quando ela disputou a prefeitura de São Paulo contra Paulo Maluf. O meu ponto forte não é a memória – é o esquecimento. Não obstante, eu me lembro bem desse editorial, e fui buscá-lo em arquivos que estão aí à disposição dos mortais comuns. Era um bom editorial, aquele de dez anos atrás. Vamos a ele, ou, melhor, retornemos a ele. Ou, melhor ainda, retornemos a algumas passagens dele. Foi publicado na edição de 3 de outubro de 2000 de O Estado de S. Paulo.

"Um balanço positivo

"A ida de Paulo Maluf ao segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo – por uma diferença de 7.691 sufrágios, em mais de 5,5 milhões de votos depositados – é apenas uma ofuscante exceção nos resultados que – tomados em conjunto – podem ser considerados auspiciosos do pleito de domingo.

"O primeiro deles foi o pleno êxito da informatização do processo em todo o território eleitoral. Trata-se de uma verdadeira proeza, dadas as dimensões e a diversidade do País e o baixo índice de escolaridade da maioria do eleitorado brasileiro. Graças à votação e à apuração eletrônica, a fraude eleitoral foi, afinal, definitivamente riscada do mapa político brasileiro. Esse, literalmente, é um acontecimento histórico.

"Auspiciosos também podem ser considerados os resultados apurados pelo TSE nos médios e grandes municípios, nos quais se concentra a grande maioria do eleitorado, na medida em que não deixam qualquer dúvida sobre o amadurecimento da sociedade brasileira. Embora tivesse todos os motivos para fazê-lo, o povo não deu as costas à política, nem votou a esmo, apenas por obrigação, como se os candidatos fossem todos ‘farinha do mesmo saco’. Dando uma demonstração de discernimento que desmente os eternos céticos, para os quais ‘o povo não sabe votar’, os eleitores escolheram candidatos e partidos segundo critérios pragmáticos, estritamente vinculados à aspiração de ver melhoradas as condições de vida em suas cidades.

(...)

"Se o PT colheu bons resultados nos municípios com mais de 200 mil eleitores, onde haverá segundo turno, é exatamente porque, em vez de ‘federalizar’ o pleito municipal, os candidatos petistas colocaram a ética no topo de suas propostas eleitorais. Outros partidos também fizeram praça dos compromissos com a moralidade administrativa, mas o PT teve a respaldá-lo uma inequívoca tradição de combate às maracutaias com o dinheiro do contribuinte e de honestidade no exercício de cargos executivos.

"Mais de 2,1 milhões de paulistanos deram à petista Marta Suplicy 38% dos votos válidos porque ela e seu partido passaram a ser percebidos como a encarnação do antimalufismo. Outro não foi o motivo pelo qual o PT acaba de conquistar 16 cadeiras na Câmara Municipal de São Paulo (ante 10 há quatro anos), enquanto o PPB de Maluf, que elegera 19 vereadores em 1996, agora não foi além de 5. É pouco provável, porém, que o PT tivesse se saído como se saiu desta vez, pelo País afora, se o seu empenho em defesa da ética no governo continuasse a coexistir com o sectarismo e o rancor radical que dele sempre afugentaram parcelas ponderáveis do eleitorado.

"O PT vitorioso anteontem, a rigor, é ‘o PT que diz sim’: ao menos na esfera municipal, seus candidatos procuraram abrir-se ao diálogo, prometeram sepultar preconceitos, trataram de apresentar soluções inovadoras e, ao falar em ‘austeridade’, referiam-se não apenas ao manejo honesto dos recursos, mas também à administração responsável das finanças públicas –contra o que se insurgem, em escala nacional, os interesses corporativos cuja expressão política por excelência ainda é o próprio PT.

"Seja como for, o ‘centro civilizado’ de São Paulo, para quem o PT raramente é a primeira escolha eleitoral, só pode dar o seu voto a Marta Suplicy no segundo turno, ainda que nada haja em seu currículo que garanta sua competência como administradora da coisa pública. Entre ela e Maluf, o eleitor preocupado com a moralização dos costumes políticos não pode hesitar. 

(...)

"São Paulo espera do governador Mario Covas e do PSDB a grandeza de uma manifestação imediata em apoio da candidata contra quem o político ‘nefasto’ – a expressão é de Marta Suplicy – recorrerá a tudo nesta segunda campanha."

Além de apoio, voto de confiança

Foi um editorial que marcou meu precaríssimo reservatório de lembranças. Um editorial favorável ao PT. Favorável à defesa da bandeira da ética na política, àquela época encarnada no PT. E a boa vontade dos editorialistas do jornal voltou à carga logo após o segundo turno, no dia 1º de novembro de 2000, num outro texto marcante.

"Crédito de confiança

"Se, por uma fatalidade, o candidato Paulo Maluf – que representa tudo o que este jornal repudia em matéria de costumes políticos e administrativos – tivesse vencido a eleição para prefeito de São Paulo, ainda assim o Estado iria torcer para que ele fizesse um bom governo, apesar dos justificados receios de que essa esperança dificilmente se concretizaria. Isso porque, como já assinalamos outras vezes neste espaço, os princípios pelos quais se orienta a linha do jornal excluem qualquer desejo mórbido de que fracassem os governantes dos quais diverge, descalabro. Se assim é, só cabe fazer votos para que se confirmem as expectativas favoráveis dos eleitores dos novos prefeitos do PT, não obstante as profundas diferenças ideológicas que sempre nos separaram do partido.

(...)

"Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, (...), respondendo a uma pergunta sobre os limites das negociações que manterá com os vereadores paulistanos disse: ‘Não farei nada que não possa sair na imprensa.’ Pode ser – apenas pode ser – que algo de muito novo esteja começando em São Paulo. A nova prefeita de São Paulo vem mostrando boas atitudes."

(Engraçado como o tempo passa e ao mesmo tempo não passa. Enquanto escrevo estas maltraçadas, vejo Maluf, ele mesmo, no horário eleitoral: "Bias abigas e beus abigos". Nada de novo sob o sol.)

Voltando ao ano 2000, pelo que me lembro, naquele tempo, não se falava em "golpe" – embora, como avisei há pouco, se não me falha a memória, a memória não seja exatamente o meu forte. O jornal deu sua opinião. Cravou sua posição. Apoiou uma candidata, apoiou-a resolutamente. Também não me recordo de registros de que tenha sido acusado, por isso, de distorcer seu noticiário. Os tempos mudam. As pessoas mudam. O humano esquece. Eu é que, justamente por não ser bom de memória, às vezes me esqueço de esquecer.

Um post scriptum em sentido inverso

As investidas de Lula contra os jornais foram tão contundentes, tão perfuro-cortantes, que roubaram a cena. Roubaram, digo, com todo o respeito. Por terem roubado (com todo o respeito) a cena, saiu de cena a comparação entre Dilma e Serra, que são os dois concorrentes aptos a receber votos. Mas se a nossa memória nos lembrasse de que são eles, Dilma e Serra, que disputam o voto, nós iríamos comparar um com o outro, também no que se refere ao trato com a imprensa.

O resultado da comparação seria engraçado. Muito se acusa a candidata Dilma Rousseff de querer censurar jornalistas, mas, no plano dos fatos, é José Serra quem briga com repórteres. Ele já interpelou agressivamente jornalistas da TV Brasil, alegando que as perguntas eram orientadas eleitoralmente, como no episódio de falta d’água em São Paulo (foi numa terça-feira, 9 de fevereiro de 2010). Antes e depois disso, foi protagonista de outros atritos.

Em setembro, no dia 15, uma quarta-feira, quem apanhou foi a jornalista Márcia Peltier, na gravação do programa Jogo do Poder, da CNT, se a memória não me sabota. Ela indagava sobre a quebra do sigilo na receita e sobre o mau desempenho do tucano nas pesquisas, e o tucano perdeu as estribeiras. Conforme relato do repórter Marcio Allemand, no site de O Globo, Serra afirmou que estavam "perdendo tempo" ali com a repetição de "argumentos do PT" que são "fajutos". Houve uma interrupção na gravação, que foi retomada em seguida, depois de breve diálogo, sem holofotes nem câmeras.

Apenas para que fique anotado: em matéria de fustigar a imprensa, o presidente da República segue imbatível, mas, quando se compara o candidato do PSDB com a candidata do PT, Serra dá sinais de ser bem menos paciente com entrevistadores que o contrariem. No entanto, é ela quem leva a fama. Ah, sim, a memória me avisa que foi o programa de governo dela, e não o dele, que, nas primeiras versões, atacava o jornalismo. Mas depois o trecho de media criticism do programa de Dilma foi deixado de lado. Foi esquecido. Alguém se lembra?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

[cc] O SERTÃO VAI VIRAR MAR



::txt::Carlos Brickmann::

Dizem que Rudolf Hess, por muitos anos o segundo homem da Alemanha nazista, quando morreu foi logo ao inferno, para encontrar-se com Hitler. Diante da pergunta a respeito das coisas na Terra, respondeu: "Führer, o senhor não vai acreditar. Os alemães estão fazendo negócios e os judeus estão fazendo guerra".

Ou, como diria Sebá, o último exilado, grande personagem de Jô Soares, "vocês não querem que eu volte". Pois não é que o Clube Militar promoveu um encontro sobre liberdade de expressão e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo abrigou uma reunião contra a imprensa?

Está bem, não é "contra a imprensa". É "a favor da democratização da comunicação", contra "a velha mídia", "a imprensa golpista", "os que tentam o golpe midiático", "os jornais que assumiram o papel de partidos políticos de oposição". Em outras palavras, aqueles meios de comunicação que vivem inventando factóides a respeito de irregularidades no governo – factóides tão sem pé nem cabeça que o governo passou uma semana demitindo parentes da ministra-chefe da Casa Civil; factóides tão ridículos que a ministra anterior, Dilma Rousseff, disse que não tinha nada a ver com sua sucessora, e o presidente Lula, além de garantir que foi traído, afirmou que quem tenta se aproveitar de favores oficiais sempre acaba sendo surpreendido e derrubado.

O mais curioso, entretanto, é o que se entende por "democratização da comunicação". O PCdoB, por exemplo, partido comunista que segue a vertente chinesa, será favorável à democratização da comunicação? Há algum país comunista, linha soviética, chinesa, albanesa, norte-coreana, cubana, em que haja essa "comunicação democrática" que nos sirva de exemplo? Dizem que existe comunicação democrática, sim: todos têm acesso à mesma informação. E ai deles se não tiverem.

Mas sigamos o que diz o próprio manifesto que convocou a manifestação: "Vamos dar um basta às baixarias da direita!" Aonde foi parar o arco democrático? PCdoB pode, mas Cláudio Lembo não pode? O evento se proclamou pluripartidário – desde que só participe gente de esquerda. E que é ser de esquerda? Parece que o partido de Marcelinho Carioca, de Gabriel Chalita e de Paulo Skaf é de esquerda, tanto assim que uma representante do PSB fez um discurso muito aplaudido. Parece que o partido de Aldo Rebelo, porta-voz da bancada ruralista no Congresso, é de esquerda, porque foi um dos organizadores da manifestação. Parece que Ney Santos, aquele ex-presidiário que é dono de postos de gasolina, carros Ferrari e patrimônio de R$ 50 milhões, também é de esquerda, porque seu partido, o PSC de Régis de Oliveira (o vice de Celso Pitta), está coligado nacionalmente ao PCdoB e ao PT. Ou talvez não seja, porque em São Paulo apóia o PSDB de Alckmin e Serra. Só mesmo um profundo estudo ideológico poderá resolver o problema.

E, naturalmente, temos o astro maior dessa coligação marxista da linha Groucho: o revolucionário midiático Tiririca, do PR. Seus votos ajudarão a eleger não apenas Valdemar Costa Neto, líder de seu partido, idealizador de sua candidatura, mas também o pessoal do PT, PCdoB, PSC. É isso aí! E Netinho na cabeça, como já comprovaram alguns repórteres e também sua aterrorizada ex-mulher.



O nome das coisas

Há muitos e muitos anos, o grande Saul Galvão dizia que, para saber que o interlocutor era comunista, bastava prestar atenção no que dizia: chamava a Rússia de União Soviética e caboclo de camponês. Hoje a linguagem ficou mais requintada: para identificar um progressista, é preciso observar se chama a imprensa de "mídia", Fernando Henrique de "FHC", oposição de "golpismo", reportagens sobre irregularidades no governo de "factóides" ou "sensacionalismo". Importante: isso vale se as irregularidades ocorrerem no governo federal. Se envolverem governos estaduais de partidos que se opõem ao presidente Lula, não são espúrias: são é escondidas pela mídia, que nada divulga a esse respeito. (A propósito, como é que tomaram conhecimento dessas notícias? Bingo! Pela imprensa).



Cadê o meu?

Alguns colegas foram ainda mais longe do que a "democratização da informação": defenderam, nos acirrados debates provocados pela manifestação contra a imprensa dentro do Sindicato dos Jornalistas, a estatização dos meios de comunicação. OK, para eles deve ser bom: é a melhor maneira de conseguir emprego para quem não o consegue sem QI nem parentes importantes e bem situados na máquina.



Millôr, sempre Millôr

A propósito, a tese de que jornalismo é oposição não é da Associação Nacional de Jornais, nem da "velha mídia golpista": é muito mais antiga. Quem melhor a formulou foi Millôr Fernandes – que enfrentou a ditadura, que não pediu indenização por sua luta, que há muitos e muitos anos é um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros: "Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados". A imprensa tem de ser crítica, e portanto é objetivamente oposicionista. Mas tem de ser crítica seja Fernando Henrique o presidente, ou Lula, Dilma, Serra ou Marina. Um meio de comunicação pode tomar posição, nas eleições, declarando seu candidato. E, se esse candidato for eleito, será crítico do mesmo jeito.

Não, os meios de comunicação não devem se limitar a noticiar. Devem analisar, devem pesquisar, devem descobrir como é que as coisas acontecem, devem ser críticos. Devem ficar perto das autoridades o suficiente para obter informações e tão longe quanto possível para evitar contaminações. Imparcialidade quer dizer que isso se fará com qualquer governo, seja qual for.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

[cc] QUANDO É BOM TER PRESSA




::txt::Ronaldo Lemos::
::lstrç::
Seth Armstrong::


Pânicos com relação à tecnologia têm sido comuns ao longo da década que termina. Dentre eles, gente argumentando que o acesso à internet nos torna mais estúpidos (Andrew Keen) ou até metáforas de que as pessoas estão virando gadgets, perdendo parte de sua "humanidade" (Jaron Lanier). Por mais que esses argumentos sejam falhos, eles prenunciam um anseio humanista com relação à tecnologia: de que ela deveria levar a uma vida melhor. Essa visão vai ganhar força nos próximos anos.

Enquanto isso, chamam a atenção projetos bacanas que ampliam a possibilidade de formação de comunidades (reais, não virtuais!) por causa da rede. Quase sem querer, há iniciativas que mostram que existe espaço para reinventar relações sociais e questões urbanas de forma mais inteligente, divertida e sustentável.

Por exemplo, sempre fico impressionado com os relatos de amigos que viajam o mundo usando o Couchsurfing. Para quem não conhece, é um site que cria uma comunidade de pessoas dispostas a hospedar seus membros, de graça. Como o próprio nome diz, a ideia é o compartilhamento de "sofás" (couch) ao redor do mundo. Além de prático, é uma oportunidade de conhecer pessoas com o mesmo espírito.

Outra área que tem muitas possibilidades de ser reinventada pelo uso da rede é a questão do transporte público. Existe uma ineficiência enorme que poderia ser compensada por esforços comunitários. Por exemplo, grande parte dos carros circula pela cidade ou pela estrada com apenas um passageiro. A partir dessa constatação, surgiram plataformas facilitando encontrar pessoas indo na mesma direção, permitindo criar um coletivo de "caronas" (um exemplo é o site eRideShare.com).

Mas há arranjos ainda mais interessantes. Fiquei surpreso quando vi recentemente em Montreal a popularidade do Communauto.com. É um sistema de carros comunitários. Funciona assim: um ou dois carros da Communauto ficam espalhados por estacionamentos públicos da cidade. Qualquer assinante pode utilizar os carros por até uma hora, a um preço baixíssimo, pagando uma taxa anual. Para usar mais é cobrada uma tarifa mais alta. Depois basta devolver o carro em qualquer estacionamento conveniado. Para evitar frustrações é possível reservar os carros pela internet. Todo mês você recebe um extrato de uso do carro, tal como uma tarifa de telefone.

É claro que para iniciativas assim funcionarem no Brasil enfrentamos questões de fundo, como o problema da insegurança e o medo a ela inerente. Mas acho que isso não serve de desculpa. Temos de usar a tecnologia de forma esperta para repensar questões urbanas desde já. Não dá para esperar que se resolva uma coisa e depois outra. Tem de ser tudo ao mesmo tempo e agora. Pelo menos com relação a isso vale ter pressa.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • AtribuiçãoVocê deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licençaSe você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

  • Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
  • Domínio Público — Onde a obra ou qualquer de seus elementos estiver em domínio público sob o direito aplicável, esta condição não é, de maneira alguma, afetada pela licença.
  • Outros Direitos — Os seguintes direitos não são, de maneira alguma, afetados pela licença:
    • Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
    • Os direitos morais do autor;
    • Direitos que outras pessoas podem ter sobre a obra ou sobre a utilização da obra, tais como direitos de imagem ou privacidade.
  • Aviso — Para qualquer reutilização ou distribuição, você deve deixar claro a terceiros os termos da licença a que se encontra submetida esta obra. A melhor maneira de fazer isso é com um link para esta página.

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