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sábado, 10 de novembro de 2012

[overmundo] GERALDO VANDRÉ: O MORTO-VIVO DA DITADURA DO BRASIL


:: txt :: Abílio Neto :: 

Só existem dois mitos na música brasileira: Elis Regina e Geraldo Vandré. Elis com a sua morte precoce, aos 36 anos, e Geraldo Vandré com a sua renúncia à vida, na “volta” do exílio em 1973.

Geraldo Vandré se transformou num morto-vivo aos 38 anos de idade. Está atualmente com 77 anos. Como se vê, tem mais anos como morto insepulto do que vivo.

O que teria ocorrido para que esse paraibano de João Pessoa abandonasse uma carreira artística tão promissora que em pouco tempo fez dele o maior compositor brasileiro? A resposta é muito simples e está nestes versos:

“... Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...”

Em 1968, estes versos foram cantados pelo próprio Vandré se acompanhando ao violão para delírio de 30 mil pessoas que lotavam o Maracanãzinho que vaiavam estrepitosamente a música “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque. Vandré pegou o microfone e falou: “A vida não se resume a festivais”.

Gravada logo em seguida, surpreendentemente, por Luiz Gonzaga, a música seria logo proibida depois do advento do AI 5, afinal nenhuma ditadura militar toleraria versos tão provocantes e verdadeiros. Mas essa era a característica marcante das canções de Vandré: ele era um doutrinador, um domador de consciência das massas, e se esse papel já preocupa os regimes democráticos, imagine o estrago que causou na ditadura militar brasileira e depois na chilena! Nenhum outro compositor brasileiro de antanho teve essa incrível capacidade que ele demonstrou.
Sim, Geraldo Vandré foi para o Chile. Iria fazer um show em Brasília em dezembro de 1968 acompanhado por um grupo de músicos no qual estava incluído o pernambucano Geraldo Azevedo, quando foi avisado pela então mulher de Caetano, Dedé Veloso, de que os milicos estavam à sua cata para prendê-lo e quem sabe fazer o que dele?

Disse Vandré a Geneton que voltou para São Paulo guiando seu carro. As coisas não aconteceram bem assim. Ele se refugiou na casa da viúva do escritor Guimarães Rosa e de lá só saiu para embarcar para o Chile devidamente “preparado” para que não fosse reconhecido pela Polícia Federal. Conseguiu fugir do país com um passaporte falso arrumado por amigos. Era fevereiro de 1969.
No final daquele mesmo ano ele gravou um compacto no Chile com duas músicas: 1) Caminhando (na versão em espanhol) e 2) Desacordonar. Esta última canção eu considero a maior que ele fez. Ela trazia mais conscientização de massas e mais problemas para ele com os militares, desta vez os chilenos. Os serviços de inteligência das Forças Armadas de lá passaram a monitorar seus passos.

Em novembro de 1970, Salvador Allende tomou posse na presidência do Chile para desespero de Richard Nixon, da CIA e do regime ditatorial brasileiro.

Geraldo Vandré partiu para a Europa nesse mesmo ano e na França gravou um disco primoroso que somente seria lançado no Brasil em 1973: “Das Terras de Benvirá”. Juntou-se a músicos brasileiros e fez uma turnê por diversos países. Foi por esse tempo que conheceu o músico Marcelo Melo que estudava na Bélgica e em 1971 regressaria ao Brasil fundando com outros músicos o Quinteto Violado. Foi também desse período a sua prisão com um grupo de amigos na França porque faziam uso do haxixe. Ele que era casado com uma chilena, passou a viver um drama pessoal porque a mulher o abandonou e voltou ao seu país. Geraldo, querendo salvar seu casamento, voltou ao Chile em 1972 e nesse mesmo ano participou de um festival de música no Peru. Antes desse disco lançado na França, o Brasil já contabilizava quatro LP seus: 1) Geraldo Vandré – 1964; 2) Hora de Lutar – 1965; 3) 5 Anos de Canção – 1966; 4) Canto Geral – 1968.

No meado de 1973, o Chile era uma agitação sem fim. A CIA financiava os empresários chilenos para que estes fizessem greve paralisando a atividade de comércio, indústria e transporte com o fim de desestabilizar o governo Allende e os militares já se organizavam para dar o bote final pela tomada do poder. No começo de julho de 1973, os militares chilenos puseram a mão em Vandré e comunicaram a seus colegas brasileiros. Não o queriam lá. Um avião da FAB foi destacado para ir buscar o ilustre “fisgado” no Chile.

Foi nesse vôo do Chile para o Brasil que Vandré conheceu o seu santo salvador, ou o seu anjo da guarda. O militar, um coronel aviador da FAB era seu admirador e sabia o que o aguardava no Brasil. Temia até pela sua vida. Com o desembarque em terras brasileiras, o Exército deu sumiço a Vandré por 58 dias, mas o anjo da guarda sempre descobria onde ele estava e não permitia que ele morresse nas sessões de tortura. Apesar dessa intervenção em seu favor, notícias de bastidores militares dão conta de que Vandré sofreu lavagem cerebral, internação em hospital psiquiátrico e até a perda dos testículos! Tudo isso para aprender a não fazer mais canção dizendo que “militar vive sem razão”. Quando ele morrer de fato e de direito, seu cadáver deverá ser examinado para esclarecer sua comentada emasculação perante a história política deste país.

Com o compositor já transformado no trapo que os militares queriam, “apareceu” no aeroporto de Brasília justamente em 11/09/1973, data em que Pinochet deu o golpe fatal, matou Allende e ocupou o poder. Vandré surgiu como se tivesse desembarcado do Chile naquele momento! Como se isso fosse possível naquele fatídico dia 11 de setembro chileno quando ninguém entrava ou saía do país. Por incrível que pareça, estava de plantão no aeroporto um repórter da Rede Globo à espera dele que o entrevistou e ouviu sua “confissão” de que dali em diante somente faria “canções de amor”. Gilberto Gil, em 1972, foi obrigado a dizer coisa parecida! Pronto, a partir dessa entrevista estava morto o grande artista Geraldo Vandré.

Vandré tornou-se até agressivo com seus fãs. Morando no centro de São Paulo, certa vez foi reconhecido por um deles que gritou: Vandré!!! Ele respondeu de modo áspero: “meu nome agora é Geraldo Pedrosa, porra”!

Elba Ramalho, como amiga dele que era, teve que aturar as suas esquisitices por um bom tempo, andando com ele pra cima e pra baixo, até que lhe pediu autorização para gravar “Canção da Despedida” e ele a negou. Inconformada ela ligou para o outro parceiro de Vandré na música, Geraldo Azevedo, que procurou falar com ele. Pra vocês terem uma idéia, Vandré permitiu que a música fosse gravada somente com o nome de Geraldo Azevedo como autor porque ele não queria que o nome dele aparecesse mais em discos gravados no Brasil. Aconteceu em 1983, por ocasião da gravação do LP “Coração Brasileiro”. A música foi composta em dezembro de 1968 quando Vandré pressentiu que não mais poderia ficar no Brasil. Isso demonstra para qualquer ser vivo como Geraldo Pedrosa matou Geraldo Vandré ou o obrigaram a fazer isso. Elba Ramalho, na época, o chamou de louco. Fácil não é, Elba? Você passou por tudo aquilo? Geraldo Azevedo não disse nada porque ele foi preso duas vezes e severamente torturado, chegando a presenciar a morte de um “subversivo” nas mãos dos torturadores.

Voltando ao tema autorização de Vandré, o mesmo aconteceu com Marcelo Melo em 1997 quando o Quinteto Violado lançou um CD em sua homenagem e também com Zé Ramalho, já neste século XXI, que gravou “Fica Mal Com Deus” fazendo um dueto póstumo com Luiz Gonzaga. Vandré não autorizou absolutamente nada!

A conclusão lógica de todo esse mistério é que Vandré foi forçado a essa situação dolorida: ou parava com a sua arte de cantor/compositor ou morria. Ele não teve escolha! Ah, mas antes disso ele fez uma canção para a FAB que se chama “Fabiana”, que foi apresentada aos militares da Aeronáutica em 1976. Não me perguntem por que ele não fez música pro Exército também. Agora o que deveria ser perguntado era o porquê de Geraldo Vandré continuar mudo depois de 1985, quando os milicos deixaram o poder. Ah, ele não tem tempo. Ocupa-se em fazer músicas em espanhol e também compor sinfonias!

Criticar Geraldo Vandré por sua opção para continuar vivo é muito cômodo. Difícil é passar por tudo o que ele sofreu e demonstrar ainda alguma lucidez numa entrevista. Pois ele a mostrou! Se bem que é facilmente perceptível que em alguns momentos ele faz confusão mental, mas em certos trechos da entrevista ele é impressionante! Fiquei besta quando publiquei esta entrevista dele com o Geneton em 2010, no final daquele ano, pois um compositor que tenho em alta conta ocupou a postagem para dizer que Vandré é um fantoche. Que ele nunca existiu para a música brasileira. É imensamente triste constatar que o Brasil perdeu o respeito por Geraldo Vandré!

Entenderam agora o motivo pelo qual ele concedeu a entrevista vestido com uma camisa branca com o distintivo da FAB, compôs uma canção chamada “Fabiana” em sua homenagem e quando vai ao Rio de Janeiro, visitar sua mãe, se hospeda no Clube da Aeronáutica, local onde a entrevista foi realizada?

É muito simples! A FAB o retirou de um país onde certamente seria morto e um seu oficial não permitiu que ele fosse jogado, sem identificação, numa vala clandestina de um cemitério qualquer de São Paulo ou de outro lugar. Se ele é grato por isso, está certíssimo! Como dizia o saudoso Cantinflas, “é preferível um covarde vivo a cem heróis mortos”! Depois dessa entrevista e de conhecer esses fatos, minha admiração por ele cresceu. Ele não cabe em si de tanta grandeza! Ah, tenho o áudio de sua canção “Desacordonar” que me foi presenteado por um oficial da reserva da Aeronáutica. O áudio não estava bom, mas aí apareceu um amigo cibernético que me mandou outro digno de ser ouvido! Fico a escutar os nove minutos da canção e às vezes me pego olhando esta fotografia acima, do Vandré pós 1973 e já no ocaso da vida, não sem algumas lágrimas nos olhos e no coração. Já dizia Fernando Pessoa tomando emprestada dos primeiros navegadores portugueses esta expressão: “Navegar é preciso. Viver, não é preciso”.

A prova de que sepultaram Vandré em vida se compreende com a indesculpável falha da Rede Globo permitindo que se destruísse o vídeo com as imagens do Maracanãzinho lotado em 1968 e Vandré cantando “Caminhando”, tudo para agradar aos milicos. Prestem atenção que na entrevista abaixo ele cobra isso do inquiridor global. As únicas imagens de Geraldo Vandré ao vivo estão aqui, quando ele canta “Aroeira” em companhia de um grupo de músicos bastante conhecido. A gravação é de 1967.

Agora assistam a entrevista completa com o que sobrou do grande artista Geraldo Vandré. Ela é deprimente em alguns momentos, porém bastante elucidativa em outros! Vejam que na abertura do programa, o locutor oficial disse que seria decifrado o enigma Geraldo Vandré. Não foi isso o que aconteceu. A entrevista confundiu mais do que esclareceu. Cotejada com outros fatos omissos, ela ganha uma importância fundamental para que se assimile por completo a figura humana do Geraldo Vandré que chegou aos dias atuais. Concordo com ele em certos pontos: o Brasil de hoje não tem mais cultura para curtir as músicas de Vandré.

Geraldo Pedrosa de Araújo Dias nasceu em João Pessoa/PB em 12 de Setembro de 1935 e já demonstrava forte inclinação musical quando fez o curso ginasial num colégio interno em Nazaré da Mata/PE. O nome Vandré é a abreviatura de Vandregésilo, que é como se chama seu pai. O escritor e crítico musical Ricardo Anísio, seu conterrâneo, é quem cuidará da sua biografia. Acho que terá um trabalho imenso para mostrar ao Brasil que o verdadeiro compositor não é o que deu esta entrevista para Geneton Moraes Neto, famoso jornalista pernambucano, porque o ente político Vandré foi brutalmente assassinado em 1973.
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