#CADÊ MEU CHINELO?

sexta-feira, 24 de maio de 2013

[tabaré] O REFÚGIO DOS TRABALHADORES


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Em busca de consolo



 Inverno em Porto Alegre. O dia morre. O concreto esfria feito um defunto. A noite parece uma viúva: veste o luto da escuridão e chora uma fina garoa. No centro da cidade, os postes de luz se acendem feito as velas do velório mais profano. Lá, o sepulto do dia é frenético, tumultuoso e barulhento. Nos bares, nos terminais de ônibus e nas calçadas, todos anseiam por consolo. Consolo do trabalho exaustivo, do salário baixíssimo, da violência urbana, da fria solidão, do casamento infeliz, das contas para pagar, do ar poluído, da tosse rouca… do rosto erodido pela vida. No entanto, quem há de consolar a existência desses trabalhadores? O Estado? Nossa Senhora Aparecida? A atriz da novela das oito? Não. Esses proletários encontram alívio no divã dos arredores da Avenida Farrapos. Ali, alguns operários se revigoram na psicologia guardada entre as pernas das prostitutas. Outros vão aos botecos para desinfetar com cachaça suas gargalhadas sujas de cansaço. E existe ainda outra categoria: os peões que moram nos hotéis e, simplesmente, dormem um sono de uma tonelada nas camas democráticas.
Embora eu não passe de um Gregor Samsa, também procuro um hotel barato. Quero pôr em cheque a infâmia da hotelaria daquela área. Por isso, sigo a correnteza de alguns trabalhadores boêmios. Primeiro, percorro a Coronel Vicente. Avisto várias placas de hotéis. Trata-se de edifícios antigos com dois andares – provavelmente são da década de 1930. Apesar de estarem bem conservados, os prédios parecem anciões maquiados: por fora, exibem pintura vivaz e luzes de cores quentes; por dentro, o assoalho e as paredes mostram o desgaste do tempo. Escolho um. Abro a porta. Subo as escadas. Chego à portaria. A luz é parca e o ar enfumaçado. No rádio, uma música sertaneja. Uma mulher quarentona, baixa e robusta me atende. Atrás dela, num corredor escuro, vejo a silueta de uma jovem. A sombra de mulher fuma um cigarro, escorada na parede.

– Quanto custa a diária?

– Querido, não trabalhamos com cama de solteiro. Só com cama de casal – me responde com um sorriso irônico. Apesar de a placa anunciar um hotel, fica evidente que não se trata de uma pensão, mas sim uma casa para os desconsolados.
Saio dali, passo por baixo do Viaduto da Conceição e chego à Avenida Farrapos. O fluxo de automóveis é intenso. Ônibus transportam operários de volta para casa. Carros estacionam nas esquinas. Jovens afoitos e velhos humildes perambulam pelas calçadas. Mulheres de curvas perigosas desgovernam o pensamento dos transeuntes. Apesar do frio, vestem-se com pouca roupa: decotes largos, calças justíssimas, barrigas expostas. Os olhos dessas jovens são tão cinzas quanto os prédios em volta – como se tivessem encardido o olhar assistindo às situações mais sujas. Conversam com os rapazes e com os senhores. Conversam com os motoristas. Às vezes, desvirtuam um moço. Às vezes, pegam uma “carona”. Esse é outro tipo de consolo encontrado na Farrapos, que geralmente se consuma num motel da localidade.
Sigo adiante. Gasto uma fortuna de passos até chegar a Praça Bartolomeu de Gusmão. Ao longo da Farrapos, tanto os hotéis quanto os motéis parecem ser de alto nível. No entanto, não são dos mais baratos. Dentre a hotelaria que consulto, os preços vão de 35 a 60 reais a diária mais simples. Entretanto, já nas ruas paralelas e transversais, as hospedagens carregam a fama de “inferninhos”. Ali, a história da Coronel Vicente se repete: “Só trabalhamos com cama de casal”. Ou então: “Está tudo lotado”. Assim, retorno até o Viaduto da Conceição. Pergunto-me como deve ser a relação entre as estalagens mais refinadas e a vida na avenida. E como eram em 1940, quando Getúlio Vargas inaugurou a avenida como um símbolo de modernização da capital? Enquanto divago, avisto uma placa na Rua da Conceição. Hotel Avenida.

Um parêntesis histórico


 Os donos do Hotel Avenida estimam que o edifício tenha sido construído nos anos de 1920. Antes da modernização da Capital – sobretudo, nos anos 1940 e depois nos anos 1970. Em vez de grandes centros comerciais, havia armazéns de secos e molhados. Em vez de viadutos e rodovias, o Centro tinha linhas férreas e bonde. Em vez de terminal de ônibus, a Rua da Conceição alojava uma feira de frutas.

– Antes da construção do viaduto, que começou em 1969 e terminou em 1972, esse prédio era o Hotel Florida. Aqui se hospedavam os caminhoneiros que traziam do interior as frutas e legumes que abasteciam a feira. Naquela época, o hotel Avenida ficava na esquina dessa rua com a Alberto Bins – conta um dos donos do Avenida, Onesto Bringhenti, 76 anos, há 55 trabalhando com hotelaria.

A mudança de endereço do Hotel Avenida ocorreu justamente por conta da edificação da elevada. Isso porque, para executar tal obra, foi preciso alargar a Rua da Conceição e demolir vários prédios. Os habitantes mais antigos afirmam que a via foi estendida cerca de dez metros em cada lado. Por isso, alguns edifícios tiveram que ser derrubados, como a antiga sede do Avenida. Outros tiveram apenas parte da sua estrutura destruída, como foi o caso do Florida – que perdeu a fachada.

– Quando o Hotel Avenida ficava ali na esquina com a Alberto Bins, muitos dos nossos clientes eram famílias que vinham do interior para passear em Porto Alegre. Com a implosão do edifício, os nossos hóspedes não tinham mais onde ficar. E nos cobravam que abríssemos a hospedagem em outro lugar. Aí, como o Florida tinha perdido a clientela porque não acontecia mais a feira, eu e meu sócio juntamos o dinheiro da indenização e compramos esse prédio onde estamos agora. Desde 1972, estamos nessa sede – explica Bringhenti.

Hoje, quem freqüenta a estalagem são basicamente trabalhadores modestos: pedreiros, jardineiros, guardadores de carro, caixeiros viajantes… As visitas das famílias tornaram-se mais esparsas. Até porque, nos arrabaldes da Farrapos, tanto a arquitetura quanto o comportamento mudaram. Contudo, às vezes ainda aparece algum remanescente dos tempos áureos no Hotel Avenida: “Vocês lembram de mim? Minha família se hospedava aqui quando vínhamos do interior…”

Uma noite no Avenida


– Com licença, vocês têm quarto de solteiro?

– Claro que sim. Custa 25 reais a diária. Mas tem que acertar na entrada – adverte o senhor de idade, na portaria.
Preencho a ficha de entrada no Hotel Avenida. Escrevo alguns dados pessoais e o contato de alguns parentes. “É que, se acontecer alguma coisa, nós temos para quem avisar”, explica o porteiro chamado Pedro. Recebo uma toalha carcomida e um pedaço de sabão. O homem idoso, falante e boa-praça, me conduz por um corredor do andar térreo. A luz é crepuscular. Pára em frente ao quarto 54. Abre a porta. “Aqui está a chave, fica à vontade”. Depois, volta ao balcão de entrada, enquanto me acomodo nos aposentos.

O quarto é espaçoso e o teto é alto. Tudo é surpreendentemente limpo – apesar da organização aleatória dos móveis. Ali dentro, cabe um beliche, uma cama de casal, uma estante, uma televisão, uma geladeira antiga e um bidê. No canto, há uma grande janela com persianas de madeira. Como se trata de um quarto de fundo, fico curioso: como deve ser a vista? Tento abrir. A falange se dobra poucos centímetros e esbarra numa parede. Como está chovendo, a mureta absorve a umidade. O ar entra por ali e sai por um buraco na parede do banheiro. É uma abertura rústica, com cerca de dez centímetros de diâmetro. O banheiro – de azulejos azuis – também é higienizado.

Deito na cama de casal. Não tem lençóis. Não me importo. Fico observando as memórias manchadas no colchão. Algumas são amarronzadas, outras são brancas. Fico imaginando quantas pessoas já debruçaram uma noite de sua existência sobre a maciez daquela cama. Cem? Mil? Dez mil? Cem mil? Quantas horas de sono foram dormidas sobre aquele leito? Um milhão? Um trilhão? Um quadrilhão? E os sonhos, quantos foram? Com certeza, muitos hóspedes sonharam com imagens de uma Porto Alegre que não existe mais. A cidade se transformou. A Rua da Conceição se transformou. O próprio Hotel Avenida se transformou. Mas aquele quarto, aquela cama ainda acolhem em silêncio as angústias e as alegrias dos viajantes que por ali passaram. Assim, durmo lentamente e deixo mais uma recordação na atmosfera do quarto…

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