#CADÊ MEU CHINELO?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

[do além] TOLSTOY STORY



:: txt :: Liev Tolstói ::

Há algumas batalhas que compramos que, passado algum tempo, se tornam completamente estéreis. Eu, por exemplo, rompi com minha esposa e saí de casa aos 82 anos de idade por uma divergência que hoje não faria sentido. Você deve saber do que estou falando. É público e notório que Sonia se opunha à minha intenção de doar para a humanidade os direitos autorais de parte de minha obra. Ela alegava que os nossos muitos filhos eram um bom pedaço da humanidade e que precisavam dessa fonte de receita para continuar vivendo dignamente. Realmente era complicado discutir o conceito de common rights em 1910.

Eu entendia que meus livros tardios eram um presente para a humanidade porque neles eu pregava contra a propriedade privada e a favor da liberdade de indignação e devoção. Minhas ideias investiam contra governos e igreja e propunham como método de luta a resistência pacífica e uma dieta vegetariana. Algo que poderia ser definido como uma espécie de anarquismo cristão hippie, sem a parte da sacanagem, já que eu defendia o celibato também. Entendam, vasectomia naquela época estava fora de questão.

O fato é que antes de partir, à revelia de minha condessa, modifiquei meu testamento e fiz a doação. Quatro anos depois, Sonia recuperou os direitos sobre minha obra na Justiça. Três anos após essa infeliz decisão judicial, eclodiu a revolução soviética que acabou com a propriedade privada. Pensei até em escrever outra saga intitulada Guerra e Guerra.

Fosse hoje, eu não perderia tempo ou energia tentando convencer a Sonia. Eu simplesmente vazaria os arquivos na rede. E se eu não fizesse isso, alguém faria. E outros se encarregariam de traduzir meus textos para os mais diversos idiomas e assim minha mensagem atingiria toda a humanidade. Lindo, não?

No papel, sim; no byte, nem tanto. O problema é que a humanidade é presenteada com um volume enorme de informações a cada segundo. Estamos anestesiados e enfastiados com tanta oferta. Somos crianças no dia seguinte à festa de aniversário. São tantos brinquedos novos que não conseguimos nos deter em nenhum por mais de cinco minutos. Anna Karenina, acabei de conferir, está disponível gratuitamente em várias línguas, mas a facilidade de ter esse clássico nas mãos não atrai multidões, só alguns curiosos ou estudantes de Letras, interessados em entender como viviam as mulheres ricas e adúlteras antes do Prozac.

Por isso, concluí que a melhor maneira de difundir o pensamento tolstoiano não é utilizar a rede. Esse blog é apenas mais uma das minhas contradições. Acredito que hoje, se você deseja tocar o coração de uma grande quantidade de adultos, é preciso fazer um bom filme infantil. Explico: os filmes adultos viraram filmes infantis. Essa semana, por exemplo, está em cartaz um filme de terror baseado em Chapeuzinho Vermelho. Os filmes infantis, em contrapartida, ganharam temáticas adultas. E, diga-se de passagem, são os que lideram as bilheterias e carregam nas costas a indústria do cinema. Eles praticam aquilo que eu fazia nos meus romances e que confessei num diário: "Conversa fiada de feirantes para atrair fregueses com o objetivo de lhes vender depois outra coisa bem diferente". Pegue o último Oscar e faça um exame sincero. Quem apresenta uma abordagem mais profunda e reflexiva sobre a vida? O oscarizado e previsível O Discurso do Rei ou o comovente e surpreendente Toy Story 3? De minha parte não há dúvida. Se algum produtor desses grandes estúdios de animação se interessar em adaptar meus escritos tardios, tudo que eu tenho a dizer a ele é: amigo estou aqui.
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