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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

[agência pirata] AS POLPETTAS E A LITERATURA ITALIANA



::txt::Dias Lopes::

Um casal de jovens apaixonados - o honesto e impulsivo operário têxtil e camponês Renzo Tramaglino, a dócil e piedosa tecedeira Lucia Mondella - pretende casar-se. Mas o vigário don Abbondio, um religioso de caráter fraco, não tem coragem de autorizar a união. A noiva é cobiçada pelo implacável don Rodrigo, o senhor feudal que pretende raptá-la. Para escapar da ameaça, Lucia se refugia em um convento, onde enfrenta as intimidações e tentações da Monja de Monza, uma mulher frustrada, e do áspero e hostil Innominato. Por fim, o capuchinho Cristoforo, um frade corajoso, salva Lucia e Renzo, fazendo a história ter final feliz.

Resumido assim, usando adjetivos comuns para traçar a personalidade dos personagens, o enredo de I Promessi Sposi (Os noivos), obra de Alessandro Manzoni (1785-1873), sugere um conto de fadas. Mas não é. Trata-se do mais importante romance da literatura da Itália e o livro mais representativo do Risorgimento - o movimento que unificou o país no século 19, então fracionado em pequenos Estados, cujo sesquicentenário se festeja em 2011. É também a obra mais lida e estudada pelos italianos depois da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321). Manzoni a publicou em 1827 e, apesar de ser milanês, reescreveu-a em 1840 no mais puro florentino, que parecia estar propondo como inspiração para a atual língua da pátria. Na época, havia uma desordem de vozes, cada Estado dispunha da sua. Daí se considerar I Promessi Sposi etapa fundamental na consolidação da língua italiana.

O romance transcorre no início do século 17, durante a ocupação espanhola, e descreve com precisão episódios históricos como a enorme epidemia de peste da época. Mas o cenário é falso. Na verdade, refere-se ao domínio austríaco do norte da Itália. Além disso, apesar de I Promessi Sposi evocar o dilema da fome, seus personagens comem e bebem como gente de carne e osso.

Pela sua importância documental, os historiadores gastronômicos investigam os alimentos citados no romance. A obra-prima La Scienza in Cucina e L’Arte de Mangiar Bene, do emiliano Pellegrino Artusi (1820-1911), que teve para a culinária italiana o mesmo papel agregador e nacionalista de I Promessi Sposi, só foi publicada 64 anos depois. No sétimo capítulo do seu romance, por exemplo, Manzoni faz o herói Renzo entrar em uma taverna com dois amigos e pedir um prato de polpette (almôndegas). "Pode estar certo de que não comeu melhores", garante-lhe o proprietário.

A questão é saber qual foi a receita preparada pelo taverneiro. Segundo a Grande Enciclopedia Illustrata della Gastronomia (Selezione dal Reader’s Digest, Milão, 2000), a polpetta é uma preparação antiquíssima na Itália. Leva carne, peixe ou verdura moída, ligada com ovo e moldada em forma de bola.

A Grande Enciclopédia Illustrata della Gastronomia divide a polpetta em dois tipos: a que leva ingredientes crus e a que os processa cozidos. A segunda categoria era chamada "dos pobres", por reaproveitar alimentos. A receita toscana, também chamada de florentina, recomenda carne cozida e pão dormido. Entretanto, caso Manzoni fosse à cozinha, certamente prepararia a polpetta alla milanese, mais conhecida por mondeghili, típica de sua cidade natal. Com carne cozida, mortadela e salame.

Descendente da aristocracia lombarda, neto do humanista e jurisconsulto Marquês de Beccaria (1738-1794), o romancista foi educado pela mãe, mulher culta, separada do marido. Vestia-se com roupas escuras, gostava de jogar na roleta e a boa mesa. Além de apaixonado pela polpetta, apreciava testina (cabeça) di vitelo glassata, chocolate e panettone. Manzoni se excedia no vinho. Tinha um copo especial, que mandou fazer, duas vezes maior que o normal.

Receita

Mondeghili

4-6 porções
Preparo: 30 min
Muito fácil

Ingredientes

350g de carne bovina moída sem gordura
100g de mortadela bem picadinha
2 fatias de salame bem picadinhas
1 dente de alho amassado
2 ovos inteiros
O miolo de 1 pãozinho banhado no leite e depois apertado em uma peneira para perder o excesso de líquido
1/2 xícara (chá) de salsinha picada
1/4 de casca de limão ralada
1 pitada de noz-moscada; 1 pitada de sal
2 a 3 ovos ligeiramente batidos para empanar; farinha de rosca misturada com farinha de trigo quanto baste; manteiga para fritar; sal a gosto

Preparo

Em uma tigela, junte os ingredientes (exceto os ovos, a farinha de rosca e a manteiga) e misture muito bem, até ficar homogêneo. Faça bolinhas de aproximadamente 4 cm de diâmetro, achatando-as ligeiramente. Passe as bolinhas nos ovos batidos, depois na farinha de rosca misturada à farinha de trigo. Sacuda-as ligeiramente em uma peneira para retirar o excesso de farinha e frite-as, poucas por vez, na manteiga previamente aquecida.
A manteiga estará no ponto certo quando atingir uma leve cor de avelã. Retire as mondeghili e deixe-as escorrer em papel absorvente, para que percam o excesso de gordura.
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