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terça-feira, 2 de agosto de 2011

[agência pirata] SÓ É LOUCO QUEM NÃO É



::txt::Cláudia Lage::

Ao ler o primeiro livro do escritor mineiro Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia, lá por volta de 1956, o escritor baiano Jorge Amado ficou tão impressionado que entrou numa livraria em Salvador e comprou todos os exemplares disponíveis, para presentear os amigos. Entusiasmado, exaltou Campos de Carvalho como uma grande revelação na literatura brasileira, dono de uma voz narrativa inusitada e original. A exaltação, porém, de um escritor longe do regionalismo e da tradição realista não teve muita repercussão em um país que enfrentava graves questões políticas. A prosa alucinada de vôos surrealistas, como a crítica dizia, não encontrou espaço em meio as ditaduras políticas vigentes na época de publicação de seus livros, durante quase uma década.

Nem o primeiro, em 1954, nem o último, O púcaro búlgaro, em 1964. Tampouco teve repercussão no próprio meio literário, voltado para uma literatura demasiadamente conectada com a realidade e as questões sociais. Alguns de seus pares chegaram mesmo a considerar a sua escrita alienada e sem propósito. “E Campos de Carvalho?”, exclamou Mario de Andrade numa carta a Fernando Sabino, “Você já o leu? Mas…o que é aquilo?”. O escritor modernista considerava o texto de Carvalho fora de seu tempo e desconectado das suas principais temáticas. Mais tarde, ciente do isolamento que seu trabalho começou a sofrer, o próprio Carvalho retrucou na voz do narrador em O púcaro búlgaro: “Não sou eu que ando um pouco fora de época: é a época!”.

A narrativa inusitada, delirante, unida ao temperamento contestador e arredio, à franca oposição ao regionalismo vigente e a recusa à militância política cobrada pelos seus pares, assim como os constantes conflitos com os editores levaram Campos de Carvalho a se afastar e, de certa forma, a ser afastado da literatura. Ao não se encaixar nos princípios ideológicos e estéticos nem destes nem daqueles, acabou sendo ignorado, passando ao largo dos grandes escritores da época.

Inconformado, Jorge Amado não entendia como um escritor tão talentoso recebia críticas tão injustas a respeito de sua obra, curta, mas altamente criativa e excepcional. Na intenção de confortá-lo, lhe disse uma vez: “Você só será compreendido daqui a 30 anos”. O escritor baiano quis dizer que a obra de Campos de Carvalho estava além da compreensão do seu tempo, limitada pelas circunstâncias e perspectivas da época. Campos de Carvalho recebeu a declaração porém como uma triste profecia. Décadas depois, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, pouco antes de morrer, declarou amargurado: “Eu não sabia que 30 anos demoravam tanto a passar”.

Mas as palavras de Jorge Amado foram, realmente, proféticas. Em 1995, 31 anos justos após a publicação de seu último livro, O púcaro búlgaro, a José Olympio relançou a obra completa do autor. Foi o profeta baiano o autor do prefácio: “Poucas notícias me alegraram tanto nos últimos tempos quanto esta que recebo por fax da Maria Amélia Mello, gerente editorial da José Olympio Editora: a José Olympio vai reeditar os quatro romances publicados por Campos de Carvalho. Tenho vontade de sair gritando aleluia pelo Rio Vermelho afora: uma das obras maiores da literatura brasileira, por tantos anos esquecida, fora das montras das livrarias, reencontra o caminho do público e do reconhecimento da crítica”.

Mas antes mesmo de os livros voltarem às livrarias, o escritor já tomava novo alento, planejando pôr fim a um silêncio de três décadas. Campos de Carvalho não só havia desaparecido da cena literária, mas havia também parado de escrever. O consolo do padrinho literário se tornara profecia, e a profecia se tornou maldição, a despeito das melhores intenções. “Perdi o tom”, o escritor mineiro explicou em uma entrevista. “Eu tentei várias vezes”, ele diz, “mas de tudo o que eu escrevia saía tragédia. Eu queria escrever humor, mas ficava sério”.

O humor tinha significado profundo para Campos de Carvalho. Ao dar uma entrevista ao escritor Mario Prata, Campos de Carvalho recebeu-o em seu apartamento com um pedaço de papel mal datilografado. Eram as perguntas e as respostas da entrevista já feitas. A rápida autoentrevista terminava justamente com uma pergunta sobre o humor: “O que significa o humor para você?” E a resposta: “Significa o auge de qualquer ficção ou de qualquer outra arte, no sentido de sublimação do sublime, da efervescência do fervor ou da originalidade do original. É um passo à frente de qualquer vanguarda, que se arrisca ao hermetismo da própria linguagem, ao desconhecido, ao inefável. É o caso de Finnegans Wake’ por exemplo, ou do mais nebuloso poema de Mallarmé, cujo humor intrínseco sempre nos escapa (tão-me estranho, tão-me intrínseco) por mais que o tentemos desvendar. É o caso também do extenso poema em prosa Hebdomeros, de Giorgio de Chirico, cuja facilidade aparente é apenas a maneira que o autor encontrou para melhor se disfarçar e não se expor ao ridículo, que nele é apenas o humor verdadeiro e sutil. Note-se que não estou sequer tentando comparar-me a esses luminares da literatura de ontem, mas apenas tentando justificar meu total apreço pelo humor como forma de arte, mesmo partindo de uma pequena experiência como O púcaro búlgaro”.

Não é difícil entender por que, sem conseguir o acesso ao próprio humor nonsense e corrosivo, sem a expressão do narrador desestabilizador assumindo o lugar daquele que comumente organiza o relato, na narrativa convencional, o escritor mineiro tenha preferido o silêncio. Tinha esperanças, entretanto, de voltar à ativa após o relançamento de seus livros. Campos de Carvalho intuía que as novas gerações poderiam compreender melhor o seu trabalho. Repetia e confirmava, talvez sem perceber claramente, as palavras proféticas de Jorge Amado. A sua proposta artística, que o distanciou dos seus contemporâneos, era conscientemente avessa à lógica cartesiana na construção narrativa e às referências realistas, uma experiência literária que permanece inovadora ainda nos dias de hoje. As noções de mensagem, conteúdo, enredo, narrador onisciente, espaço e tempo são totalmente desconstruídas por Campos de Carvalho, por meio do nonsense e do humor. Nas primeiras linhas de A lua vem da Ásia, o autor escreveu: “Aos 16 anos matei meu professor de lógica, invocando legítima defesa. E que defesa seria mais legítima?”. Sim, o que seria mais legítimo do que, morto o professor de lógica, morta a lógica, abrir espaço para a imaginação?
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