:: txt :: Tiago Jucá ::
English Game é uma série de apenas seis episódios que te fisga pela história do nascimento do esporte bretão em meados do longo século XIX na Inglaterra. Meu interesse é despertado pela pequena sinopse que o Netflix oferece: "com nada em comum, exceto o amor ao esporte, eles deixaram um legado que transformou o futebol no esporte das multidões".
Equivoca-se, como eu me enganei, quem espera uma produção com temática exclusiva no futebol, embora ele seja o gancho para elencar a efervescência da Revolução Industrial à pleno vapor e seu grande (d)efeito colateral: os insurgentes conflitos entre burguesia e proletariado que começam a surgir e a esquentar. Não é preciso gostar de futebol para assistir à English Game. Mas pra quem gosta de política social é um prato cheio.
A história conta a vida de Fergus Suter, pioneiro como jogador profissional e que vem a se tornar também o primeiro craque dentro das quatro linhas. Junto com seu inseparável amigo Jimmy Love, Fergie tinha outro atributo. Ele comandava seus companheiros não apenas pela liderança técnica em campo, mas pela leitura tática da partida que passava aos colegas de time, criando assim o primeiro esquema de jogo para um esporte até então disputado caoticamente, no cada um por si e todos embolados correndo atrás da bola.
Suter e Love são contratados pelo Darwen, time de operários de uma usina de algodão que tem como objetivo ser o primeiro clube de trabalhadores a ser campeão da Copa da Inglaterra, antes somente vencida por clubes de fidalgos e aristocratas. A prática de pagar salários, ilegal, é mal vista por adversários e também pelos próprios companheiros. Mas pra Fergie era essencial como sustento familiar.
Paralelo ao mundo da bola, os jogadores, inclusive Suter e Love, sobrevivem a longas jornadas de 16 horas de trabalho e a constantes reduções de salário. Insatisfeita, a classe operária parte para o conflito até a ebulição de uma greve. A série conta também o drama do universo das mulheres trabalhadoras e as emergentes causas feministas. Demissões por gravidez e a marginalização de mães solteiras são uma constante ao longo dos episódios.
A burguesia fez de tudo pra impedir o sucesso e as vitórias dos times proletários, inclusive apelando para o "tapetão". E o espetacular nisso tudo é saber que a paixão típica do esporte mais popular do planeta é fruto justamente de um confronto de classes ocorrido há 140 anos.
Uma pena que a série tenha cometido um erro histórico. O primeiro clube operário a se tornar campeão é o Blackburn Olympic, em 1883, derrotando por 2x1 o Old Etonians, time do outro protagonista da série, o fidalgo Arthur Kinnaird, que viria a presidir a FA anos depois. E não o rival do Olympic, o Blackburn Rovers, também proletário e pelo qual Fergus seria tricampeão de 1884 a 1886.
Apesar da falha, vale a pena conhecer como o futebol e os conflitos de classes caminham de mãos dadas desde os primórdios. Futebol, além de arte, também é política.
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