#CADÊ MEU CHINELO?

quarta-feira, 10 de abril de 2013

[do além] BINOMIO NOJENTO/TCHAN


:: txt :: Tião Macalé ::

Foram os críticos franceses da famosa revista Cahiers du Cinema que mostram ao mundo o valor de Alfred Hitchcock. Até então, o famoso cineasta era apenas um funcionário talentoso dos estúdios de Hollywood, um sujeito capaz de fazer excelentes filmes de suspense, destinados apenas a vender ingressos e saquinhos de pipoca. Foi a luz da crítica que deu a dimensão artística do trabalho que Hit fazia comercialmente. Tchan!

Não tive a mesma sorte que o diretor inglês. Não recebi o olhar atento de nenhum observador. As poucas linhas escritas sobre mim perfilam um humorista que reforçava os estereótipos do negro pobre, sem estudo e um pouco malandro. Um mero ator cômico, de poucos recursos, que funcionava como escada para estrelas do humor fazerem piadas preconceituosas. Nojento.

Já que ninguém se mobilizou para reconhecer o caráter premonitório de minha obra, resta a mim realizar esta tarefa. A autopromoção não tem credibilidade, eu sei. Mas o que posso fazer? Esperar que algum estudante de comunicação se debruce sobre o meu legado e abra os olhos de cinco ou seis membro de uma banca examinadora? Me contentar em ver minha contribuição artística transformada em tese de mestrado para ser esquecida na prateleira de uma biblioteca? Isso seria, como se diz em São Paulo, disgusting.

Então vamos lá. Não há exagero algum em afirmar que fiz a mais pungente crítica à era digital, antes mesmo dela acontecer. Através dos meus bordões, satirizei o pensamento reducionista, aquele que procura limitar a complexidade das questões em apenas duas possíveis respostas: like (Tchan!) e dislike (Nojento).

O brilhantismo de meus bordões reside justamente na capacidade que eles têm de encerrar qualquer discussão. Funcionam como um veredito intimidatório e desmoralizante. Funkeiro? Nojento. Pronto, precisa dizer algo mais? Django Livre? Tchan! Isso já basta para qualificar Tarantino como gênio e passar para o próximo assunto.

Você há de objetar dizendo que na Internet há sempre a possibilidade de comentar e aprofundar a opinião. Que nem tudo precisa ser um Fla-Flu. É verdade, mas na prática não é bem assim. Basta frequentar as redes sociais para constatar que o pensamento binário é dominante. Se você critica o STF, logo é classificado como defensor dos corruptos. Se é a favor das privatizações, recebe o rotulo de entreguista de direita. E assim por diante. Ninguém quer debater, todo mundo quer ganhar. Não há meio-termo, nem espaço para nuances. Tudo é preto ou branco. Na era digital, 50 tons de cinza, só no título do best-seller. Nojento.
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