#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

[agência pirata] EM DESENVOLVIMENTO




::txt::Leandro Demori::

Minha história com a WikiLeaks vem de outro carnaval, um tanto distante do #cablegate das últimas duas semanas. Em 2008, recebi documentação que predizia uma bomba em um setor econômico importante no Brasil. Sondei alguns jornais e algumas revistas buscando saber sobre a possibilidade de investigação aprofundada em cima do que eu tinha em mãos. Estava basicamente atrás de uma parceria: algum jornalista brasileiro que ajudasse com a reportagem no Brasil, já que moro na Itália. Não encontrei.

Fiquei pensando em um modo de fazer a reportagem, mas sobretudo em uma forma de vendê-la para alguém que segurasse a barra em possíveis processos judiciais (que eu tinha certeza, viriam). Como eu disse, é um setor econômico importante, anuncia pesadamente em rádios, TV e impresso, tem boa participação no PIB e penetração nos governos. Quer dizer: é um tipo de reportagem que não interessa a ninguém mesmo, exceto ao público. Esse setor já matou gente.

Busquei pela rede possíveis projetos que investissem em reportagens como aquela que eu queria fazer. Existem vários fundos — sobretudo americanos mas também europeus — que tutelam esse tipo de trabalho e pagam para que você o faça. Vivo disso, afinal, e jamais arriscaria postar nada daquilo em um blog, de graça, correndo altos riscos por isso.

Foi por essas buscas que conheci o WikiLeaks, que na época atuava através de uma organização chamada Sunshine Press. Havia várias formas de entrar em contato com eles, usei um chat criptografado que garantiria minha privacidade. Conversei por cerca de 20 minutos com alguém na outra ponta, que disse que o site tinha interesse no material, que o considerava importante e prioritário, mas que havia um problema: os pagamentos por reportagens estavam suspensos por seis meses. E de graça eu não estava disposto a trabalhar.

O que o Sr. Sunshine me explicou é que os fundos que os financiavam tinham secado por conta da crise nos EUA, e que temiam, inclusive, que o WikiLeaks fosse fechar por falta de grana. Fiquei com o contato para enviar o material, e ele ficou de me avisar quando (e se) a grana recomeçasse a entrar. Nunca mais obtive resposta.

Quando o WikiLeaks voltou com força divulgado dados sobre a guerra infinita e um vídeo de militares matando gente a esmo, entendi tudo. O foco, que antes era regionalizar investigações, tinha sido ampliado e restrito ao mesmo tempo: a metralhadora fora apontada para os EUA em particular.

Não sei quem é Julian Assange e nem de onde veio a grana que manteve o WikiLeaks em pé. Estamos no meio de um processo importante para a informação, mesmo que eu acredite que seja utópico um mundo onde toda e qualquer movimentação diplomática seja pública. País algum fará isso, jamais.

No mesmo ano de 2008, eu e uns amigos investigamos a movimentação financeira das contas de publicidade do governo do Rio Grande do Sul por termos certeza de que algo cheirava mal. Mais tarde se “descobriu” que fedia. Conversamos com políticos, promotores, procuradores, jornalistas. Queríamos ver os contratos, quem pagava e quem recebia, quanto recebia e, sobretudo, qual era a medida para avaliar o mérito dos gastos.

As dúvidas eram simples: o que faz o governo gastar dinheiro público, o meu dinheiro, com publicidade? Um governo que precisou pedir 1,1 bilhão de dólares emprestado para não falir e gasta 168 milhões de reais com anúncios. Por que isso é tão prioritário assim? Como se mede o quanto vale um banner em um site, por exemplo? Audiência? Relevância? Público-alvo?

Este post explica um pouco a situação que fotografamos na época.

O valor bruto de um banner em um site no RS era de 60 mil reais por ano. Um site. Um banner. Eram (e são ainda) vários e insignificantes sites, como você pode ler no post acima. Tempos depois, o valor foi retirado do ar (os banners não). Como a gente volta e meia usa Tico & Teco, fizemos print screen de tudo e deixamos aqui, público, novamente, no melhor espírito WikiLeaks.




O que conseguimos arrancar da “Transparência” oficial na época? Nada. Nem mesmo os deputados do PT com quem conversamos se mostraram dispostos e colaborar. Eram da oposição, deveriam querer alguma transparência, certo? Não seria na base do governo, no PSDB, que conseguiríamos as coisas. Demoramos para entender que o modus operandi que hoje beneficia Chico amanhã pode ser usado por Francisco.

Para terminar de modo leve, deixamos aqui algumas dicas culturais para você. Dicas patrocinadas pela bondade do dinheiro público, esse lindão. Caso a página saia do ar, podem pegar o print. Mas confiamos que ficará onde está há 3 anos, exatamente da mesma forma, “em desenvolvimento” eterno. Igualzinho à transparência no Braziu.
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