#CADÊ MEU CHINELO?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

RASPOU, GANHOU

:txt: Janis Loureiro_



Publicação, que será lançada amanhã, registra os 22 anos de gestão Darcísio Perondi marcada pela participação da comunidade na ampliação e melhoria no atendimento à saúde da população regional

No início dos anos 90, o Brasil vivia o processo de democratização na política e no plano econômico a guerra contra a inflação. Foi nessa época, há 25 anos, que uma mania tomou conta de todo o Estado, além da Lambada, um ritmo que martelava no ouvido. Inclusive na capital gaúcha, era comum a cena de pessoas pararem nas ruas para pegar uma tampa de caneta, uma moeda, ou uma chave para ajudar a raspar a loteria instantânea Bônus da Saúde, sem ficar com aquela raspinha preta embaixo da unha. Você lembra? Pois então, essa mania começou em Ijuí.

O que poucos recordam e muitos nem sabem é que aquela raspadinha foi uma das estratégias criadas pela diretoria do Hospital de Caridade de Ijuí para concluir o projeto de expansão do hospital. O 3° Bloco do HCI foi a obra de maior repercussão na região Noroeste do Rio Grande do Sul. Isso devido aos movimentos de levantamento de recursos para tornar o atendimento hospitalar de Ijuí referência macrorregional. Essa mobilização contou com o apoio da comunidade, contagiada com as ações do novo presidente do hospital, um jovem determinado a empreender mudanças, profissionalizar a gestão, devolver aos associados o poder de decisão sobre os rumos da atenção à saúde da população.

O recém-formado pediatra, Darcísio Perondi, já havia mostrado nos primeiros anos de profissão que não ficaria apenas dentro do consultório e iniciou uma mobilização para a compra de berços aquecidos para a Maternidade e uma campanha pelo aleitamento materno que na época sofria um forte lobby das empresas alimentícias para a compra de leite em pó. Chegou a incentivar a participação dos ijuienses em um concurso fotográfico com mamães amamentando no peito os seus bebês, que rendeu belas imagens.

Em 1986, uma assembleia histórica, em que pela primeira vez duas chapas disputaram o comando da associação, marcou o ingresso de um novo grupo, liderado por Perondi, no comando do hospital. Ijuí, assim como todos os outros municípios brasileiros, precisou unir forças na própria comunidade para garantir o atendimento a um bem fundamental que é a saúde, já que os governos em todas as esferas não dedicam os esforços necessários e não empenham os recursos suficientes. Foi assim que a Associação Hospital de Caridade Ijuí, uma entidade filantrópica, foi criada há 75 anos. Com esse mesmo espírito, foi feita uma retomada da relação com a comunidade para ampliar e qualificar o hospital que passava por um momento de estagnação. “O legado do Perondi é um hospital que é referência macrorregional em um período em que todas as outras casas hospitalares da região fecharam ou enfrentam graves dificuldades”, afirma o atual presidente do Hospital de Caridade de Ijuí, Claudio Matte Martins.

O período também foi marcado pela transição na área da saúde, que deixou de ser gerida pelo Instituto Nacional de Previdência Social, o famoso Inamps. Um dos avanços foi a conquista do certificado de filantropia que aumentaria em 30% as verbas para o hospital. “Quando eu era presidente do Tribunal de Contas da União fui procurado pelo presidente Darcísio Perondi que pediu ajuda para a tramitação do projeto de concessão de filantropia. Era a minha vez de ajudar a instituição que está no coração de todo o ijuiense”, conta Alberto Hoffmann, que aos 90 anos, ainda lembra da inauguração do 1° bloco do hospital em 1940.

Mas a marca mesmo foram as campanhas comunitárias. Em março de 1989, a Campanha da Soja mobilizou os produtores do interior, que ao conhecer o projeto e sua importância, doavam algumas sacas do grão. Foram 12 mil. Na comissão das mulheres surgiu a Campanha do Tijolinho envolvendo a comunidade escolar. Cada aluno recebia uma cartela e oferecia a vizinhos e amigos a compra simbólica de um tijolo ao preço de 10 centavos. Grande parte das cartelas não voltou, mas o sucesso foi garantido pelo propósito. As crianças passavam pela obra e diziam: aquele é o meu tijolo. Um momento inesquecível foi o Bingo da Saúde. Dá para imaginar, o Estádio 19 de Outubro lotado na véspera de Natal com mais de 10 mil pessoas na expectativa do grande prêmio em um calor escaldante. Tudo por um Kadett zerinho. A promoção seguinte ganhou as telinhas da televisão. Foi o Telebingo. Fez história e foi amplamente copiado.

Mas o grande impulso foi possível quando a diretoria do hospital teve a coragem de aceitar a proposta de um representante da Moore Dathagraphics que ofereceu um produto novo: bilhetes com prêmios instantâneos. Da sugestão inicial de 10 mil cartelas, o grupo encomendou 5 milhões. Na época, Perondi já era presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos e para viabilizar o projeto foi formado um grupo de cinco hospitais: Nossa Senhora da Pompéia (Caxias do Sul), Hospital da Cidade (Passo Fundo), Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo (Santa Maria) e a Santa Casa da Misericórdia de Pelotas. Assim foi lançado o primeiro bilhete Raspe e Ganhe no Estado.

Foi uma febre. O ijuiense Dunga foi garoto-propaganda do Bônus. Principalmente entre os moradores da Capital, que ao comprar as raspadinhas, ajudavam os hospitais do interior. Reconhecendo essa contribuição, em fevereiro de 1992, o Hospital Pronto-Socorro de Porto Alegre passou a ser um dos seis hospitais a participar do Bônus. O convênio foi assinado no gabinete do prefeito Olívio Dutra. “A generosidade do povo deve inclusive aumentar para que possamos salvar mais vidas em Porto Alegre e para que o hospital de Ijuí inaugure o seu novo bloco”, disse à época. Com o bom resultado do convênio que contou com a doação de três ambulâncias equipadas e diversos equipamentos, recebidos pelo vice-prefeito Tarso Genro, o atendimento de emergência se qualifica, tendo sido um dos fatores positivos avaliados pela população no primeiro governo petista de Porto Alegre.



Mas o projeto foi questionado pela Receita Federal e iniciou-se uma batalha jurídica. O Bônus foi garantido graças a uma liminar da juíza de Direito Silvia Goraieb, que reconheceu a importância social da iniciativa. A decisão deu uma sobrevida ao projeto, mas não por muito tempo. Em 1994, o Bônus foi cassado pela Associação Brasileira de Loterias Estaduais. A decisão teve efeito imediato nas contas do hospital, que ainda não havia finalizado a obra e utilizava parte dos recursos para financiar os atendimentos à população. O hospital ainda sofreu em seguida uma pesada multa da receita Federal que alegou falta de recolhimento do ICMS. O estrago só não foi maior por ter sido no mesmo ano instituído o Refis, que permitiu o refinanciamento da dívida, que continua sendo paga.

Mas a essa altura o prédio de cinco andares, que muitos consideravam um elefante branco, tornou realidade o atendimento de alta complexidade regional. Foi um acerto. Tanto que depois do Centro Oftalmológico, UTI Neonatal e Pediátrica, Centro de Imagenologia, Radiologia, viriam o Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon), o Instituto do Coração e a Medicina Nuclear. Avanços que tiveram a participação fundamental de Perondi, que foi alçado a deputado federal e hoje é presidente da Frente Parlamentar da Saúde. Foram 22 anos de história, mas ainda há muito o que investir e fazer pela saúde. Esses e outros momentos são relatados pela jornalista Janis Loureiro na obra A Força da Comunidade, que estará sendo lançada amanhã, às 19h, na Estação da Mata em Ijuí.

Um trabalho de longa pesquisa

A ideia de escrever um livro contando a história do HCI surgiu em 2008 com a intenção de homenagear quem havia ficado mais duas décadas na presidência da Associação Hospital de Caridade Ijuí, mas estava saindo por uma obrigação legal, já que acumulava o cargo de deputado e não poderia mais beneficiar a instituição que presidia com recursos governamentais. "A história é bem surpreendente, principalmente o respaldo que as iniciativas de mobilização encontravam na comunidade", conta a autora do livro, Janis Loureiro.
O trabalho de levantamento das informações, seleção de imagens no arquivo da instituição, entrevistas, projeto gráfico, diagramação e finalização somou dois anos. "A pesquisa foi intensa nos jornais de Ijuí, principalmente no Jornal da Manhã, que acompanha todo o período de tempo", relata. Reportagens registram a criação da identidade visual do hospital com o slogan 'O Hospital é da Comunidade e a Comunidade é Você', as campanhas em prol da construção do 3° Bloco, assim como as notícias de caos na saúde na época em que o Sistema Único de Saúde dava os seus primeiros passos. "Foi um período de grande inflação e troca de moeda, um cenário difícil para a ampliação do hospital, o que torna a conquista de Ijuí ainda mais ousada", avalia.
A pesquisa incluiu também o arquivo da associação que dispõe de documentos como atas, relatórios de gestão, releases e publicações internas editadas pela Assessoria de Comunicação Social do HCI. Outra fonte importante foram os depoimentos de pessoas que deixaram a sua marca nessa história como Alberto Hoffmann, Adelar Baggio, Celso Lucchese, Emídio Perondi, Germano Gazolla, Marlene Vontobel, Eulália Klamt, Cláudio Matte Martins, Ivone Wiezbicki Siqueira, João Leone de Sena, entre outros. "Tenho muito orgulho de contar essa história que narra um dos mais importantes momentos de mobilização comunitária e de voluntariado social vivenciados pela comunidade de Ijuí e região Noroeste", comemora.
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