#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

ROMULO FRÓES




# agência pirata #
Samba da Liberdade

txt: André Gomes
phts: Eugênio Vieira



É um dos próximos grandes nomes da música brasileira, não temos dúvidas disso. Romulo Fróes, ao terceiro disco - que é na verdade um disco com duas caras - confirma tudo aquilo que dele se esperava e mais: deixa as expectativas muito altas. Anda em namoro com o samba há muito tempo mas não quer uma relação demasiado estável e por isso anda em constante flirt com a pop, com o rock, com alguma música psicadélica. Em No Chão sem o chão este paulista anda assim, aos ziguezagues, mas absolutamente certo do caminho que quer seguir. É um disco de ruptura, consigo mesmo e com aquilo que imagina da música brasileira. Mas quando entramos em diálogo com Romulo Fróes percebemos que este disco é ele; inquieto e com um pé sempre no futuro, sem tentar remediar um passado que, se calhar, não pode ser remendado. Romulo Fróes em entrevista sumarenta ao Bodyspace diz sem dizer: ponham os olhos em mim que eu tenho muita - tanta - coisa par dar.

Este disco parece um disco claro de mudança. De mudança em relação ao disco anterior, Cão, de mudança que parece ser um lema teu. Isto é tudo verdade?

Se mudança quer dizer estar atento à minha música e seguir com ela os caminhos que ela quiser tomar, ainda que possam parecer antagónicos, sim, mudança é o meu lema. Mas acredito que para quem acompanha o meu trabalho de perto não há uma ruptura muito grande, acho que existe uma linha a ligar os meus três discos.

No Chão Sem o Chão nasceu de uma crise com os músicos que te acompanhavam. Que crise foi essa e qual foi a forma que encontraste para a ultrapassar?

Apesar de serem músicos incríveis e pertencerem à categoria dos inventores, ao menos para mim, a ligação muito forte que eles tinham com a tradição do choro e do samba, impediram-nos de acompanhar as experimentações que eu vinha a fazer com a canção brasileira; eles passaram a sentir uma certa vergonha de tocar comigo. Abandonado por eles, o jeito foi mudar radicalmente a banda e de um momento para outro passei de um regional de choro para um power trio de rock.

Diz-se na contracapa do teu novo disco que querias de certa forma apagar a tua imagem de sambista. Foi por culpa tua ou da imprensa que ela se grudou em ti? O que é que te chateia tanto nessa classificação?

Acho sempre que se algum rótulo gruda no artista, é ele o responsável, a sua música é que está passando uma determinada imagem para o público e os jornalistas são os primeiros a identificar isto. O que me chateava era a imagem do sambista, ligado às tradições do samba, coisa que eu definitivamente não sou, eu lido é com a tradição da canção popular brasileira na sua imensa diversidade. Eu tento dar a minha contribuição à sua história e certamente o samba está inserido neste contexto e é ainda minha maior influência, eu fugi da pecha de sambista, não do samba.

Este No Chão Sem o Chão é um disco duplo. A saída da crise estava em lançar o teu Sandinista?

Acho que inconscientemente até, fiz um disco com tantas canções para escancarar tudo o que penso sobre a música brasileira, para dizer para todo o mundo que não é só o samba que me influencia, que há muito mais na sua história que me diz respeito. Neste sentido já estou a achar que um disco duplo ainda não foi suficiente.



Como é que foram as gravações do disco? Chamaste-lhes sessões. Aconteceram em alturas diferenciadas, com intenções diferentes? O que te levou a lançar todas estas canções ao mesmo tempo? Achas que seria fácil fazer deste disco um disco apenas?

Assim como aconteceu com todos os meus discos, o processo de gravação é sempre muito difícil, muito batalhado. Eu não gravo os meus discos em casa, por isso existe toda uma logística para se conseguir as melhores condições e a principal questão é financeira. Quando comecei a gravá-lo em Julho de 2007 estava de viagem para uma série de shows que fiz no Reino Unido e o dinheiro que ganhei para fazer essa tour apliquei-o todo na gravação do que depois veio a chamar-se Primeira Sessão - Cala Boca Já Morreu. Chamei-a de primeira sessão porque foi gravada toda ao vivo numa semana de estúdio, é claramente mais pesada, com longos solos instrumentais, mais fora da minha mão, já que estava a começar o meu relacionamento com a nova banda e ainda não tinha muito controle sobre ela. Passado o tempo, com o convívio aprendi a pensar sobre este novo som, a compor pensando na sonoridade da banda e o que é mais importante para mim neste álbum, a compor com a banda. Todo este processo resultou numa nova sessão de gravação em Dezembro de 2007 e que veio a chamar Segunda Sessão - Saiba Ficar Quieto. Já disse por aí que se tivesse que lançar apenas um dos discos seria este, por achá-lo melhor resolvido, mas tomei a decisão de lançar os dois por achar mais forte mostrar todo o processo pelo qual passou este disco. Mais do que revelar um certo amadorismo, escancara o que é para mim um modo rico de composição, que vem do meu contacto permanente com a criação e da minha facilidade de fazer canções, compartilhada com os meus parceiros de sempre, Clima e Nuno Ramos.

Pode ser emocionalmente esgotante produzir tantas canções assim de uma só vez e vê-las partir para um disco duplo à mercê do público e da crítica?

O que é esgotante não é compor canções, como já disse, eu e meus parceiros temos muita facilidade em compor, o que é desgastante é botar o disco na rua, fazê-lo chegar ao maior número de ouvintes, é vê-lo na boca do povo, mas não tenho do que reclamar, aos poucos o meu trabalho está a conquistar o seu espaço no coração das pessoas.

Em relação à cidade onde vives, há muito de São Paulo nas tuas canções?

Claro que sim, não no sentido literal, porque não acho São Paulo um lugar fácil de se cantar, assim como o são a Bahia e o Rio de Janeiro, por exemplo. Mas o meu comportamento, a minha relação com a música, acho que vem de um jeito bem paulistano de olhar para o mundo.

Viver em São Paulo poderá de certa forma ser estar longe dos teus objectivos? Como acontece em Londres no Reino Unido ou Nova Iorque nos Estados Unidos, não viver no Rio de Janeiro é prejudicial para ti ou isso não acontece assim no Brasil?

Engraçada a tua pergunta, pareces tratar São Paulo como uma cidade pequena. Sabes que é a maior cidade do Brasil, da América Latina, uma das maiores do mundo? Que pergunta é essa, pá? [risos] Mas procurando entender um pouco o que dizes, é claro que o Rio de Janeiro é mais importante para a história da música no Brasil, é a capital da música brasileira, mas hoje, como já há muito tempo, é São Paulo que detém o poder económico do país, os negócios com música praticamente só se desenvolvem por aqui e talvez seja este o grande problema com o mercado de música no Brasil.

Sentes-te fazer parte de uma nova geração que explora a canção brasileira. Sentes-te à procura de novos caminhos para a música brasileira?

Sim, faço parte de uma das mais ricas gerações da música brasileira em muito tempo, essa geração surgida no final dos anos 90 com o advento da internet e o tempo ainda vai reconhecer isso. Não sei se a procura por novos caminhos para a música brasileira move esta geração, mas definitivamente é o meu objectivo maior, é o que me faz querer continuar a fazer e ainda que eu não consiga achá-los, o trajecto já terá sido muito prazeroso.



Pode a evolução da música brasileira passar pelo reconhecimento do trabalho dos Mutantes, por exemplo? Quando ouço o teu novo disco lembro-me por vezes do trabalho deles. És admirador assumido dos Mutantes?

Mas é claro que sim, os Mutantes são um capítulo importante na nossa história, mas acho ainda maior para minha geração a influência da Tropicália, não só com os Mutantes, mas também Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Jards Macalé, Torquato Neto, Gal Costa e por aí vai. O que eles fizeram nos anos 60 ainda ecoa na cabeça de todos que fazem música hoje e acho particularmente especial que o Caetano tenha gravado nos últimos anos, dois belíssimos discos muito influenciado por esta nova geração que é tão devedora da sua obra. É a história a dar a sua volta completa e estamos só no começo. Um novo começo.

Como explicas a facilidade da música brasileira em chegar a todos os cantos do mundo? Achas que há alguma universalidade na música brasileira, ou talvez o ritmo, algo que faça a ligação com as pessoas instantaneamente?

Acho a música popular americana, cubana e brasileira as mais importantes do mundo e não por acaso, todas tiveram a sua origem na África. Para mim a música negra é que é universal, em qualquer feição que ela se apresente, como na sua face brasileira.

Voltando ao passado, não começaste por ser apenas Romulo Fróes. Começaste a tua carreira na música como integrante da banda Losango Cáqui, com quem gravaste dois álbuns. O que guardas musicalmente e emocionalmente desses tempos?

Foi quando iniciei o ofício de compor, que fiz as primeiras gravações e os meus primeiros shows, neste sentido foi muito importante, mas artisticamente é irrelevante. Por sorte não existia internet nesta época e os meus deslizes de começo de carreira são ainda hoje um segredo bem guardado.

Como e quando é que achas ter atingido a coragem para cantar a solo? Foi um processo complicado assumir essa evolução?

Não foi uma questão de cantar solo, foi uma selecção natural da vida, eu fui o único da banda a continuar na música, a querer lançar-se nesse universo impalpável que é fazer arte. Neste sentido eu fui o único a ter coragem ou o único a não ter juízo.

Fazer da tua vida a música e apenas a música é um objectivo de vida para ti?

Certamente, apesar de ainda não vislumbrar o dia que isso vá acontecer. Mas tudo isso é um processo pelo qual a música está a passar nestes primeiros anos do século XXI. Primeiro libertamo-nos da indústria, a tecnologia trouxe-nos a liberdade de tocar as nossas carreiras da forma que quisermos, gravar os nossos discos no tempo e da maneira que acharmos melhor. Conquistada essa liberdade, que levou a produção a patamares nunca atingidos na história, não demorou muito a surgirem trabalhos de extrema relevância, de novos artistas que já contam com discografias, na minha opinião, brilhantes. Acho que daqui para a frente é preciso organizar o meio de música, ampliar o mercado de trabalho, inventar novas formas de abordar e conquistar o novo público que se forma.
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