#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 30 de março de 2012

[over12] NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM CARNE SECA



::txt::Luciano Viegas::

Nesta fotografia 3x4 feita especiamente para documento de identificação, comprovante de cidadania brasileira, está representado José Pacheco Teixeira, na lente de uma Kodak 835af-dx, no clique de Paulo Vieira Veloso, que não aparece na foto, pois estava encarregado de apertar o botão - bem na hora da foto!

A data de nascimento demasiada antiga que se pode verificar no documento denuncia uma verdade inconveniente para todos que amam José (no caso, apenas o seu filho único, órfão de berço): ele não mais se encontra de corpo presente em nossa desenvolvida sociedade contemporânea.

José perdeu-se da experiência de ser humano nos tempos idos de 1972, quando perdeu-se em sua self-made caravela no meio do Oceano Índico e só foi avistar terra firme onde o céu flambado derretia as nuvens em mel, tal qual uma profecia - vulgo Vietnã.

Logo que ancorou, ingênuo, teve a caravela roubada por alguns nativos que tentavam fugir do mel e ainda fora convencido a lutar pela democracia - que o matou com um tiro na testa.

Depois de fazer esta foto, Paulo ainda apertou o botão de sua Kodak outras 234 vezes e não se lembra o nome de nenhum dos modelos, nem mesmo de José, que involuntariamente o carregou para sempre no bolso - gesto que tampouco continha afeto. O ofício garantiu a Paulo barriga cheia até o dia em que, por questões de barriga vazia, fora filmado por uma Kodak sobrinha da sua, roubando carne seca num supermercado das redes Wal-Mart.

Paulo perdeu-se da experiência de fotógrafo quando o juiz, em nome da democracia, bateu o martelo sobre a carne seca e, a despeito de sua fome, condenou-o a um regime: fechado, 2 anos de reclusão.

O afeto aparece nesta história pelo coração sofrido do órfão de José, vulgo Kiko, que não chegou a conhecer o pai, mas ouviu durante toda a infância, pela mãe, as aventuras de um marinheiro destemido. O afeto toma proporções devastadoras à medida em que as engrenagens da Kodak 835af-dx, querida câmera de Paulo, aceleram seu processo de oxidação pela ausência do toque do dono, outrora tão frequente e rejuvenescedor para uma máquina solitária.

Kiko nunca compreendeu a morte do pai, mas, por via das dúvidas, esta foto endossa a lista dos 379 desaparecidos da Ditadura Militar brasileira. Kiko é jovem, tem convicções bem resolvidas e frequenta passeatas em nome da democracia. Na divisão do trabalho entre os operários do protesto, foi designado para registrar a revolução nas lentes sua Kodak digital, bem mais prática e eficiente que a de Paulo.

Este, por sua vez, de tanto ser enrabado na cadeia pelo martelo do juiz, engravidou e não vê a hora do sol nascer redondo novamente, para enfim matar o seu desejo de comer carne seca.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

[over12] SARNEY INOCENTA PALOCCI



::txt::Monseñor Jacá::

Quem viveu a década de 80 sabe o que significa o prezado senhor Ribamar. Pensando nas eleições pra governador/senador/deputados de 1986, Sarney criou o plano cruzado, congelou os preços de tudo e nos convocou para ser os seus fiscais no combate a inflação. Dos 22 governadores eleitos na época, 21 eram do PMDB, seu partido, e apenas 1 do PFL, seu aliado (entre os governadores eleitos estavam os queridos Moreira Franco, Pedro Simon, Orestes Quércia). Dias depois os preços voltaram a explodir e a inflação voltou aos seus passos de lebre. Lembro bem de meu pai gastando todo salário no supermercado no dia em que recebia, pois no outro dia já estaria mais caro.

Para ficar mais um ano no poder, Sarney deu inúmeras concessões de emissoras de rádio e televisão para dezenas de deputados. O latifúndio midiático de hoje é obra dele, o dito cujo, o carcará. Naquele tempo eu ainda acreditava em alguns políticos, e todos eles o tratavam como o diabo da política brasileira. Brizola, Gabeira, Roberto Freire, Mário Covas, Lula, Collares, Olívio Dutra, Fernando Henrique Cardoso, enfim, todos aqueles que pediram Diretas Já e apoiaram Lula contra Collor em 1989, eram taxativos sobre Sarney: "se ele está de um lado, nós estamos do outro".

Pois bem, fiz as contas, e notei que Sarney está no poder, com poucas e raras exceções, desde 1º de abril de 1964, fato que coloca todos os presidentes de lá pra cá no mesmo saco. Isso sem falar do Maranhão, onde ele e seus filhos e netos e sobrinhos mandam, comandam e desmandam também há décadas, e do Amapá, estado que o Godfather comprou pra ele.

Mas eu quero chegar é num fato atual. Não sei se Palocci está certo ou não, se é ilegal, imoral ou engorda. Tenho medo é de dois coisos: se Sarney diz que Palocci é inocente, é indício de ser exatamente o contrário. Dois: se Sarney diz que inocenta Palocci, é sinal que Palocci já está inocentado. E não discutimos mais isso.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

[over12] BOLSO É VOTO



::txt::Arlei Arnt::

Num desses dias, numa conversa pelo getalco com nosso editor @omandachuva, ele disse: "vai te fodê!". Bem, isso não vem ao caso. O que eu realmente queria contar a você, e-leitor, é sobre a tarde em areias catarinas, que @omandachuva assava a própria pele em tons de camarão numa caminhada pro Siriú. Atucanado com o sol que pintava o couro dele sem trégua, o magrão tentava lembrar de algo que não virava palavra.

- Porra, Arlei, como é o nome daquele negócio?
- Que negócio, man?
- Aquele bagulho quadrado que tem na parede, cacildiz!

Enquanto eu chutava diversas coisas - quadro?, poster? espelho? -, e o neurônio tostado pela energia solar e aromatizado pela erva do @omandachuva não recordava do esquecido objeto, eu falei quieto em pensamentos baixos. Viajei no bolso, e que ele nessas horas quentes é bom pra não queimar as mãos. Imagine, xirú, você sem o bolso? Quando saímos de casa e vamos à rua, é no bolso onde nos escondemos. Não levamos somente um simples número de RG que nos identifica como cidadão. Mas lá também estão os coisos & cousas que nos caracterizam como pessoa.

O brasileiro é conservador quando se trata do bolso. E vota de acordo com ele. Podem encher o bolso de santinho, mas o importante pro e-leitor é a questão financeira. Elegeu e reelegeu FHC em virtude do Plano Real, que estancou a inflação com paridade monetária. Nosso dinheiro não perdia mais o valor dum dia pro outro, e, nivelado ao dólar, comprava e importava tudo aquilo oferecido pelo mercado mundial.

Quando o mercado de trabalho nacional despediu "voluntariamente" por causa da concorrência estrangeira, num país acostumado a monópolios estatais e cartéis oligárquicos com atrasadas ofertas de livre concorrência, o Real despencou e não fez sucessor. Lula é eleito com um discurso até então inédito no palanque do PT. Ruim não era o Real, e sim quem (mal) o administrava. Reeleito em 2006, Lula deve fazer a sucessora, financiada pelo bolsa banqueiro e endossada pelo bolsa família.

E assim sempre foi. Desde a ditadura Vargas, quando o filho esqueceu as memórias do cárcere e elegeu o pai dos pobres. Calou-se novamente quando o milagre econômico falava mais alto, fazendo vista grossa aos gritos que (não) ecoavam dos porões militares do AI-5. E assim sempre seremos, fiscais do Sarney.

A oposição hoje engana-se que vai conquistar votos ao prever a volta do mensalão e Zé Dirceu, ou com denúncias de espionagem na Receita Federal, ou com indagações sobre as amizades fraternas com os ditadores do Irã. Desde que o nosso bolso não fique furado, não importa a nós, brasileiros, que a sujeira do poder apareça na cueca de governantes, secretários e empreiteiros.

Então pensei em voz alta pro @omandachuva ouvir minha filosofia alucinada:

- No bolso vai a mão suja que carrega o dinheiro lavado pelo tráfico, mas que não tirou o fedor do bagulho que tu leva contigo. Afinal, a mão no bolso é pra não se queimar ou pra esconder o queimado?
- Lembrei, cabron! - gritou ele.
- Cuma?
- Daquele coiso quadrado que tem na parede. É janela!

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