#CADÊ MEU CHINELO?

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

[do além] QUANDO EU CHOREI

:: txt :: Friedrich Nietzsche ::

Sempre soube que o reconhecimento me aguardava na posteridade. Assim como Zaratustra, eu cheguei cedo demais. Durante a vida, encontrei pouco entendimento. Aquele bigodão anacrônico que cultivei por décadas, minha mãe insistia em chamá-lo de genealogia do mau cheiro em meu nariz, tinha como objetivo deixar bem claro às gerações futuras que um homem do século XIX teve ideias muito à frente do seu tempo.

Meu legado continua sendo, ainda hoje, de difícil e variada compreensão. Cada um me puxa para um lado. Os niilistas me têm como Deus. Para outros, fiz as mais duras críticas ao niilismo. Já para os anarquistas, sou uma autoridade. Até os nazistas se serviram em minhas obras para sustentar seus propósitos, apesar de minha explícita oposição aos movimentos antissemitas. Habituei-me a ver meu nome associado às mais variadas correntes do pensamento.

Mas dia desses fui surpreendido. Um homem à frente de seu mercado me transformou em guru da autoajuda. Há um livro chamado Nietzsche para Estressados que está fazendo enorme sucesso, figura até nas listas dos mais vendidos. Engraçado, nunca me vi como fonte de conforto espiritual e sim como um agente provocador de inquietações. Achei a escolha paradoxal. É como usar o Sarney para dar exemplos de práticas democráticas. O autor, Allan Percy, usa meus pensamentos filosóficos para solucionar problemas pessoais   e profissionais. Em suma, pegaram o Anticristo pra Cristo. A obra, segundo ele, reúne 99 de minhas máximas aplicáveis a várias situações cotidianas. Acompanhe só um pequeno trecho:

 “O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes.”A FELICIDADE É FRÁGIL E VOLÁTIL, pois só é possível senti-la em certos momentos. Na verdade, se pudéssemos vivenciá-la de forma ininterrupta, ela perderia o valor, uma vez que só percebemos que somos felizes por comparação. Após uma semana de céu nublado, um dia de sol nos parece um milagre da Criação.

 Tenho de agradecer ao Allan por ter me tirado da companhia de Schopenhauer e Spinoza e ter me colocado ao lado de MacLaine e Shinyashiki. Algumas pessoas dizem terem me visto chorar quando li o livro em questão. Nada disso, foi apenas uma impressão. Era uma alergia. Essa utilização póstuma de meus aforismos é o que eu chamo de rinite.

Ao contrário do que você imagina, eu não estou indignado. Aquilo que não me destrói fortalece-me. Pensei até em lançar uma continuação desse sucesso. No primeiro fascículo ficaram de fora algumas frases que fariam a festa do pensamento positivo. Olha só alguns exemplos:

“A esperança é o derradeiro mal; é o pior dos males, porquanto prolonga o tormento.” 

“O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.”

“Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.”  

“No matrimônio existem apenas obrigações e alguns direitos.” 

“Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.”


 Desta vez, faria só uma exigência ao editor. Pediria para suprimir o "para" do título.
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