#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

PEQUENO BANDIDO

# escrituras marginais #

Um retrato do submundo das drogas
txt: Tiago Jucá Oliveira

V. é um carinha que vive no mundo do narcotráfico desde a adolescência. Passou um tempo na prisão e de lá não esquece algumas lições, do tipo "comia massa a alho e óleo e não podia reclamar". Fomos até a baia do cara, que foi logo tirando as cartas das mangas: "tenho o que tu quiser: maconha, haxixe, cocaína. Tem até umas notas de 50. Pra ti eu faço por 20".

Pra minha surpresa, o cara abriu uma dessasa pastinhas plásticas com mais de uma dezena de folhas de papel ofício, cada uma tendo impressa, bem ao meio, uma nota de 50 pronta pra ser recortada e cambiada nas ruas. As ofertas não param por aí. V. tem também chave pra orelhão e um quartinho de fumo por cem conto de reais.

Disse que tinha um pó violento, do qual me ofereceu uma carreira pra dar um teco. Respondi que não curtia, mas ele insistiu pra eu experimentar a qualidade. Diante de minha recusa, ele pediu pra eu passar uma cara na língua. Em pouquíssimos segundos, minha lingua estava toda dormente.

O som que rolava era Cypers Hill, RZO, Thaíde & DJ Hum. Manifestei meus raps favoritos: Public Enemy, 2 Pac, Snoopy Dogg Doggy, Dr. Dre. Pra este último V. fez cara feia porque é um cantor de funk. Expliquei que o cara também faz um hip hop da hora.

"Emoção é comigo mesmo"

Antes de V. me levar à casa de seu fornecedor, fui obrigado a conhecer as minas que o rodeiam. Observando uma delas, pergunto se ela não havia brigado com outra mina um domingo desses no parque. A resposta deixa V. perplexamente feliz: "tu anda brigando agora, mulher?"

Há um porquinho vigiando a zona. Precavido, V. entra na caranga meia quadra adiante. Quando chegamos na baia do traficante, V. entra sozinho.

Volta com uma bola de pó do tamanho de uma de tênis, junto com umas dez bolinhas de haxixe. "Não te falei que eu sou confirmado com o patrão?".

No caminho, V. conta que recentemente pagou dois mil reais pra uns policiais. Ele foi pego com drogas e não queria voltar pra prisão. De acordo com V., ainda hoje ele tem que dar uma grana pra um policial o deixar em paz.

"Quando saí da prisão, fiquei calmo por um tempo. Não usava nenhuma droga. Mas acabei voltando com tudo de novo. Não adianta, eu sou um criminoso. Mas não sou ruim, sabe? Eu não sou mau, faço isso de vagabundagem, pra gastar em besteira. Aqui no bar eu gasto setenta conto por dia. Esses dias vieram uns porco aqui na baia. Eu corrí os cara com o cano. Disse que sem mandato não podem ir entrando assim. Eu tô ligado, meus peso ficam numa outra baia, não deixo nada aqui em casa, só o de consumir. Não dá pra marcar bobeira, dusmeu. Vivo com o cano na cintura ou debaixo da cama. Aí eu fico a noite inteira acordado cheirando uma branca. Caminho por dentro de casa de um lado pro outro, espiando pela janela e jurando que há alguém lá fora me cuidando. Já teve vez que eu chorava de pavor, escondido atrás do sofá, vendo o demônio. Mas eu rezava pra Deus me proteger. Conheci o Senhor na prisão, e todos os dias eu rezo agradecendo a vida que tenho. Já disse, sou uma boa pessoa, rodeado de amigos e mulheres. Quer mulher e drogas? Fala comigo. Dinheiro falso também. Emoção é comigo mesmo"

Fugindo dos homens da lei

"Eu e o F. era, há bastante tempo, visado pelo polícia. Uma noite a gente pegou alguns quilos de pó e de fumo em outro pico. Alguém entregou a gente. Os homens seguiram nossa caranga até nos alcançarem. Foi aquele tiroteio. O carro ficou totalmente baleado. Tõ vivo porque as bala não atravessaram oo banco, mas o F. foi atingido de raspão. Mesmo assim ele manobrou o carro pra direita e pulou um barranco de cinco metros de altura e fugiu dos homem. Mas no outro dia a gente acabou sendo preso"
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