#CADÊ MEU CHINELO?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

P2P

# agência pirata #
Armazenamento, Compartilhamento e The Recording Angel

txt: Eric Harvey
tradução: coletiva


Em seu maravilhoso livro de 1987 The Recording Angel, Evan Eisenberg faz a pergunta: “O que aconteceu exatamente quando a música se tornou uma coisa?” Ele começa a respondê-la nos apresentando Clarence, um excêntrico amante da música que amontoou todos os cantos de sua casa suburbana com discos. Embora ele acumulasse discos obsessivamente, Clarence não via a si mesmo como um “colecionador”. Ele explica: “Minha idéia original … era compartilhar minha coleção com todo mundo. Você sabe, colecionadores – pense em colecionadores de pinturas a óleo – eles não fazem isso, eles compartilham apenas com eles mesmos. Compartilhe com todo mundo!” Para provar, ele acha Shall We Dance e A Damsel in Distress em cima da geladeira Frigidaire e força um Eisenberg inicialmente relutante – que havia mencionado anteriormente que ele era um fã de Astaire/Rogers – a levar os discos pra casa consigo. Clarence não agiria de outra forma. Ele era um acumulador, certo, mas acima de tudo Clarence era um compartilhador. Eisenberg abre seu livro com Clarence porque ele representa as possibilidades sociais da música-como-uma-coisa, tanto quanto as aquisitivas.

Cara, lembra quando pessoas como Clarence eram diferentes? Ele tinha pilhas de discos em seu forno, porque o espaço físico em que ele vivia não conseguia acomodar sua paixão pela música. Ele ganhava menos de US $ 300 por mês, e mesmo assim comprava discos. Duas décadas mais tarde, uma quantidade de músicas 10 vezes maior do que Clarence jamais poderia imaginar, não só não ocupa casas suburbanas inteiras, mas cabe em dispositivos menores do que rádios transistores. Pessoas com esta quantidade de música não só não são estranhas, mas os dispositivos que utilizam para o armazenamento atuam como símbolos de status. Esta pode ser a mudança social mais profunda da era do mp3: o acúmulo e partilha de música passaram de uma atividade de excêntricos para o modo padrão de apreciação musical para milhões. Pessoas como Clarence existiram porque os discos registravam o intangível e efêmero som da música em objetos, permitindo que aquela música fosse vendida, comprada, e colecionada. Os mp3s tiraram a música de objetos, liberando-a para mover-se e reproduzir-se em formas que os objetos físicos, e a indústria que eles apoiavam, nunca permitiriam.

Se deixarmos, as novas tecnologias alteram nossas certezas ao ponto em que tudo que faziamos rapidamente fica bizarro. O anúncio do Radiohead de um novo álbum em outubro de 2007 fez parecer, por pelo menos alguns dias, como se a maior banda da década tivesse encontrado uma forma de misturar a nostalgia dos velhos tempos do mercado unificado (os anos 90) com um inovador modelo econômico que escapava totalmente ao mercado. A façanha “pote de gorjetas” do seu In Rainbows foi um dos poucos momentos nos últimos 10 anos onde honestamente pareceu que todo mundo ficou empolgado por um novo lançamento – um que ninguém tinha ouvido, que a maioria não sabia sequer que estava saindo – exatamente ao mesmo momento. Foi um grande choque porque mp3s há muito haviam aberto o buraco de minhoca temporal no continuum espaço-tempo da música. Em 2007, a maioria de nós estava bastante acostumada a um estado de coisas em que a música intangível adquire valor antes mesmo de ser prensada em CD ou LP – isto é, antes que ela tivesse até mesmo existido, na década anterior.

Estranhamente, esse efeito especial de mp3s e redes de compartilhamento – onde a informação viaja muito mais rapidamente do que os bens materiais – mais se assemelha ao do telégrafo nos mercados de commodities do século 19. Antes dessa inovação – o bisavô da Internet – os mercados individuais com base nas grandes cidades estavam separados por centenas de quilômetros, e mercadorias só viajavam na velocidade das ferrovias. No entanto, porque a informação sobre as condições de colheita podiam chegar através do telégrafo exponencialmente mais rápido do que as colheitas reais, a troca de dinheiro por mercadorias físicas foi amplamente substituída por um mercado de futuros, baseado no que iria acontecer. Em outras palavras, o espaço foi eliminado em favor do tempo, por uma nova rede rápida. As apostas podem ser muito mais baixas no jeito que mp3s e compartilhamento reorganizaram o mercado da música, mas a idéia básica é a mesma. Dentro do mercado de futuros musical os vazamentos são negociados como mp3s através de peer-to-peer e blogs, muitas vezes adquirindo valores inflacionados antes de seus equivalentes físicos chegarem às prateleiras das lojas. Eles estão agregados na Hype Machine, o índice Dow Jones para este novo domínio de valor musical em que as formas primárias de capital são cultural e social, não monetárias.

Este novo sistema de comércio de música digital mais diretamente ameaçou o antigo pela eliminação dos intermediários – varejistas de lojas de CD, críticos musicais da imprensa, distribuidores de independentes, o rádio – substituindo por meios mais baratos e flexíveis como redes interpessoais de compartilhamento peer to peer, blogueiros e sites como Rapidshare, MySpace, Last.fm ou Pandora. O antigo modelo industrial era um sistema fechado, impermeável a infiltrações e projetado para retornar lucros diretamente a si próprio (para mais detalhes, confira o segundo capítulo de Ripped, de Greg Kot, ou todos do excelente Appetite for Self-Destruction, de Steve Knopper). Afora pontos de vendas oficiais como iTunes, eMusic e Amazon, o novo modelo em rede é quase o contrário: radicalmente descentralizado, oferece poucas barreiras à entrada, dispersando qualquer lucro monetário, por menor que seja, entre pessoas e entidades que, em sua maioria, não possuem qualquer interesse em perpetuar o atual modelo da indústria fonográfica.

Ao mesmo tempo, no entanto, a circulação global de mp3 é um dos mais populosos mercados culturais que jamais existiu. Ainda que o mp3 possa ter pulverizado a música em milhões de pequenos pedaços, cada um deles parece ter encontrado um publicitário. O fã musical médio posui agora uma dupla capacidade como promotor e distribuidor numa arena sempre crescente que faz e elimina regras a cada minuto, incluindo a necessidade de novos intermediários críticos (e, muito raramente, mulheres críticas) a se intrometer e fazer sentido das coisas. Não foi, é claro, por acaso que a própria ascensão do site de recomendações Pitchfork coincidiu com a superabundância do mercado mp3, ou que blogs mp3 emergiriam como uma rede eclética de fãs musicais no início da década.

De fato, um dos mais subestimados efeitos do mp3 é sua democratização ostensiva da função crítica. Antes que cada álbum começasse a vazar das fábricas ou arrancado de contas de armazenamento online, resenhadores musicais credenciados eram os únicos fora da indústria com o privilégio de escutar álbuns completos bem antes de suas datas de lançamento – uma necessidade inerente aos igualmente longos ciclos da imprensa e dos calendários promocionais dos selos. Vazamentos incomodam, que fique claro. Acontecerão, todavia, gostemos ou não. Então, se pensou, por que não se tentar torná-los algo produtivo ? Uma das premissas da cultura do vazamento era a possibilidade de que mil novos Greil Marcusese e Robert Christgaus, criticos renomados, florecessem – centenas de novos críticos-fãs, ou fãs-críticos, começando conversações sobre música que fossem acessíveis a qualquer um, mobilizando leitores-ouvintes suficientemente ao ponto de comprarem música do mesmo modo pelo qual o rádio e a imprensa o faziam. Até certo ponto isto aconteceu, e ainda acontece: busca cuidadosa e clicagem curiosa em listas de blogs revelarão muitos blogs musicais maravilhosos, em estilos que variam do pessoal ao acadêmico, com autores dizendo coisas mais pungentes, sofisticadas e engraçadas do que muitos escritores “profissionais”.

No transcorrer da década, entretanto, o grande número de blogs mp3 começou a ultrapassar a quantidade de escrita e conversação sobre música. Se começaram por mesclar zines com rádios pirata, no início de 2005 a cobertura em grandes jornais e revistas musicais levou à maldição de qualquer subcultura: a exposição generalizada. Como resultado, milhares de novos blogs foram criados nos anos seguintes, incluindo os que imitavam os blogs de fofocas, postando uma dúzia de atualizações ao dia e vendendo espaço publicitário. Quando a velha guarda de fontes críticas e promocionais secou, selos e empresas de RP rapidamente desenvolveram estratégias para redirecioná-los em troca de acesso a faixas pré-selecionadas para promoção gratuita. Como resultado, blogs de mp3 se tornaram um dos principais exemplos de modelo promocional curado, em pequena escala, refletindo preferências de blogueiros individuais e o giro incrivelmente rápido da economia de atenção indie. Pode-se argumentar que a primeira era industrial do rock durou exatamente 50 anos, de 1955 a por volta de 2005, o ponto de inflexão do ipacto da Internet, cinco anos após o TRL (”Disk MTV”) e a última bolha pop estourada.

Se, como tantos artigos na imprensa sustentam, o número de “formadores de gosto” proliferou exponencialmente através do acesso irrestrito à música, isto significa que, em média, preferências individuais também estejam em alta. É difícil contestar tal fato a não ser por meio de evidências anedóticas. Conquanto a Internet não represente “o mundo”, havendo ainda muitos sujeitos satisfeitos apenas mantendo seus velhos hábitos, aqueles que acompanham a evolução da música online tem a capacidade de se transformar em pouco tempo em honestos diletantes musicais ou, por vezes, em respeitáveis especialistas. Ampliando-se o olhar ao conjunto, tal tendência se afigura diferente, e menos otimista. O ideal seria que uma nova rede de amantes independentes da música tivesse consagrado diferentes tipos de música, ou mesmo descoberto novos, do mesmo modo que rock’n’roll nascente, honky tonk, bluegrass e R&B se beneficiaram do 45 rpm. Mas online, novos gêneros correm risco de serem estrangulados no berço antes que qualquer um saiba que existam e as pessoas estão “fartas” de novos álbuns antes que suas capas sejam aprovadas. Este aspecto de compressão do tempo da cultura musical baseada no mp3 não advém naturalmente da tecnologia em si – resultando, outrossim, de muitas pessoas deixando publicamente, ao mesmo tempo, de resistir a seus mais básicos impulsos de aquisição. Experimentar música em pequenos e interminaveis goles é, certamente, excitante. Mas está longe de ser sustentável.

Parte de mim quer chorar, como tantos críticos, pelo que “poderia ter sido”. Outra parte sabe, entretanto, que não há por que chorar sobre uma meta utópica. Tal como é, a esfera do público musical criada pelos blogs mp3 e filtrada através da Hype Machine é mais variada e aberta à participação de uma audiência baseada em gosto do que o modelo industrial norte-americano tem sido em anos recentes (apesar de bem distante de como foi durante a maior parte da era do rock) e uma crescente quantidade de musica de todo o mundo vem obtendo mais exposição do que se poderia imaginar há apenas uma década atrás. Então não me entristece que revistas e jornais estejam morrendo; me entristece que crítica musical e jornalismo estejam ameaçados. Me entristece que editores, anunciantes e empresários tenham estado incrivelmente atrasados por tanto tempo, apegando-se cegamente a um modelo crítico ultrapassado, deixando tantos escritores talentosos no limbo. Pessoas expressando suas preferências musicais para uma audiência ávida nas horas de folga de seus empregos diurnos é uma coisa e certamente uma coisa muito boa. Concomitantemente a estes sujeitos, precisamos desesperadamente de pessoas a serem pagas para escutar, discutir, contextualizar e criticar música em tempo integral. Até que alguém descubra como fazer com que isto funcione, uma cultura musical permanecerá machucada. A imprensa está morta: longa vida à crítica.
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