#CADÊ MEU CHINELO?

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

[nem te conto] IDEIA PARA UM FILME DE TERROR

:: txt :: Paulo Wainberg ::

Jorge, trinta anos, dirige tranquilo, à noite, pela avenida, escutando o Noturno número dois de Chopin, um de seus favoritos.

Um caminhão desgovernado atinge sua lateral direita e arrasta o carro contra um poste.

O carro se parte em dois.

(Corta para sala de cirurgia do hospital – “Corta” é a palavra que nós, cineastas, usamos para indicar uma mudança de cena).

Os médicos discutem, são três, com seus tapapós, máscaras e toucas verdes, uma enfermeira com a mesma indumentária, porém branca. Todos usam óculos e só se percebe, do rosto deles, o reflexo da luz nas lentes.

Decidem que as pernas e braços de Jorge, esmagados, deverão ser amputados (expressão usada por nós, médicos).

O cirurgião chefe entra no banheiro. A enfermeira abre duas torneiras e ele estica os braços como se estivesse carregando um balaio, ou um cesto, ou um berço de bebê. Coloca as mãos e os braços sob as torneiras e deixa a água escorrer por um tempo indefinido. Em seguida seca-se sob o aparelho de vento e a enfermeira coloca-lhe as luvas de borracha, num gesto rápido e único, como se elas fossem pré-moldadas para as mãos do médico.

(Corta para o quarto de hospital, claro e arejado)

Sobre a música de fundo, que pode ser uma balada do Gun’s and Roses, ouve-se o ruído de um teclado de computador sendo digitado, enquanto em primeiro plano, na tela, surgem letras que formam as palavras “Cinco dias depois”, método bastante original que nós, cineastas, utilizamos para indicar ao espectador a passagem do tempo.

Sobre a cama repousa Jorge. Dele só aparece o rosto tranquilo que, milagrosamente não sofreu um arranhão, no acidente.

Ele está perfeitamente barbeado.

A câmera afasta-se, verticalmente, para que o pública perceba que, de Jorge resta apenas a cabeça e o tronco, moldado pelo lençol cujas dobras casualmente revelam o formato do corpo do jovem.

Entra Júlia, namorada de Jorge, sorridente como um dia de primavera, linda e gostosa, e acorda Jorge com um beijo na boca.

Ele sorri e levanta da cama.

Está intacto, como se seus membros não tivessem sido amputados. Ele pega Julia pela mão e os dois saem do quarto.

A câmara fixa nos dois, andando pelo corredor calmamente, a bunda de Jorge aparecendo inteira na abertura do avental que ele veste.

Esta cena é uma discreta intervenção do Diretor, que utiliza a metáfora para revelar que caga e anda para a opinião da platéia.

As sequências seguintes são editadas através do recurso, bastante original, que nós cineastas denominamos de flashback and go, de sorte que o espectador não sabe se o que está assistindo se passa no presente, no passado ou no futuro.

Corta para Jorge e Julia transando sob um parreiral de uvas rosas. Os raios de sol contribuem para ressaltar as partes mais gostosas do corpo de Julia, com ênfase nas pernas entrelaçadas e nas mãos de Jorge nos seios de Julia.

(Nota para os roteiristas: Convêm que de repente Jorge fique sem os braços e as pernas? Em caso afirmativo, Julia empurra o tronco de Jorge para longe, com um agudo grito de horror, ou continua transando com o tronco dele, como se fosse tudo muito natural?)

Em uma sequência especialíssima, Director cult’s, aparentemente fica revelado o terrível segredo que deu origem à tragédia: Jorge seria o filho bastardo de um lobisomem com uma vampira. Para seu desespero, nas noites de lua cheia, não consegue decidir se vira lobo ou vira morcego. Tal ambivalência produziu o terrível conflito de identidade que nós, psiquiatras, definimos como hermafroditismo licantrópico, gerados dos traumas psíquicos profundos que o inconsciente nega, mas o consciente não perdoa.

O anticlímax do suspense absoluto surge quando o público toma conhecimento de que Jorge estava lendo o quarto volume de uma Saga ou assistindo ao quarto filme da mesma Saga (Nota para os roteiristas: decidir se é livro ou filme).

As interfaces de Jorge amputado e Jorge intacto sucedem-se com velocidade impressionante, fazendo com que o filme se aproxime do ritmo do thriller, ora passeios de bicicleta noturnos em cemitérios, ora correndo pelos campos dourados de trigo, em tardes de outono. Sempre acompanhado por Julia, cujo sorriso faz qualquer homem suspirar.

É na cena final que tudo se revela. As peças do quebra-cabeças encaixam-se como se fossem massinha de moldar. Neste momento surge o misterioso e sinistro personagem.

Ocupando a tela inteira, a silhueta de um homem de capa e capuz, elementos que nós, cineastas, utilizamos para mostrar ao espectador que aquele personagem é misterioso e sinistro.

Com voz doce e tom didático, ele apresenta um resumo do filme, deixando na obscuridade algumas partes obscuras, sugerindo que a franquia da Saga admite continuações, para quem quiser comprar.
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