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quarta-feira, 11 de abril de 2012

[agência pirata] SÃO PAULO É UMA CALAMIDADE PÚBLICA




::txt::Arnaldo Jabor::

Será que ninguém vai tomar uma providência? Imaginem um terremoto ignorado, sei lá, um tsunami despercebido: "Terremoto, onde? Não estou vendo..." Pois é o que está acontecendo na cidade de São Paulo. Ninguém vê o óbvio: a cidade vai parar com 680 carros entrando por dia nas ruas.

Ou melhor, vê sim, mas com olhos burocráticos, entreabertos, com tédio de trabalhar: "Sim, vamos formar comissões, estamos consultando os técnicos em urbanismo e tal".

É isso - estamos diante de uma calamidade pública e ninguém se toca. Em poucos meses, as cidades japonesas arrasadas já foram limpas.

E aqui? Aqui, "cidade" é considerada uma coisa inferior, "prefeitura", idem. Num país formado pela abstração lusitana, brotam ideologias e teorias que justificam a inação; "prefeitura" só cuida de "coisas menores", como água, esgotos, chuvas, enchentes, transporte, trânsito, ou seja, as coisas mais importante da vida, muito além de votos, de busca de hegemonia política como quer o PT, ou de discursos inflamados pelo poder.

No entanto, São Paulo é um país. São Paulo é o lugar mais importante do Brasil. "Ahhh..., mas vai melhorar", diz o vulgar desejo brasileiro de protelação e autoengano. Não vai melhorar não. Vai piorar; aliás, o pior já aconteceu... "Ah... o Rodoanel vai ficar pronto..." Quando? Por que não ficou antes? Porque, na época do Lula, não mandavam dinheiro federal para o metrô...

Claro que eu reclamo como um burguês; tenho carro, me incomoda levar duas horas para ir ao trabalho. Mas, e a população que sofre agarrada em ganchos de ônibus ou esmagada dentro dos trens? Os milionários compram helicópteros e a classe média muge, reclama com aquele tom de desesperança conformada, tipo: "Ah… isso não tem jeito mesmo… que se há de fazer?" A verdade é que ninguém sabe o que fazer e a cidade está virando um retrato trágico do País; é o inverso da miséria nordestina ou da seca, é a esclerose múltipla da riqueza, é o câncer da pujança econômica, a doença do crescimento desorganizado. Só que essa morte anunciada prejudica o País todo. Calcula-se que o prejuízo anual dos engarrafamentos eternos seja de R$ 30 bilhões/ano. Esses R$ 30 bilhões seriam uma solução. Mas, instalou-se aqui uma nova prática : já que quase nada tem solução, porque o patrimonialismo corrupto não deixa, já que nada se resolve, cuidaremos de "desnecessidades". "Ah... não pode fumar no bar, ah... temos de combater a obesidade, ahh... vamos construir um trem-bala", diz o governo federal. Trem-bala faz vista, causa boa impressão e tem no Japão.. "Ah... vamos gastar uns (exatamente) 30 bilhões para unir São Paulo ao Rio"...

Ninguém quer atacar os problemas principais do País. Aí, os técnicos aparecem na TV: "Temos de terminar o Rodoanel, temos de criar novas linhas de metrô, temos de criar pedágios para o centro da cidade, temos de fazer rodízio no par ou ímpar das chapas, o dia inteiro... temos de tirar os caminhões das ruas, temos de..."

São até boas sugestões, mas elas morrem depois da entrevista, elas somem no dia a dia da preguiça burocrática. Por quê? Porque o poder político no Brasil odeia administrar, porque a coisa mais chata do mundo é cuidar do bem público. O sujeito entra para a política para subir na vida, é eleito vereador e já pensa em ser presidente.

Mas fiquemos no engarrafamento transcendental que nos ronda. A situação de São Paulo precisa despertar um sentimento inexistente entre nós: a urgência. São Paulo não é apenas um problema urbano; é um fato gravíssimo até em termos ecológicos, tão grave como o desmatamento de florestas ou a violência do tráfico. Existem milhares de motoqueiros fazendo o serviço das empresas da cidade. Dizem que morre um por dia. Chego a desejar que esses pobres homens mal pagos, batalhando na "vida lôca", organizem um sindicato para fazer greves de "motoca". A cidade parava. Os escritórios fechavam e talvez aí nossa burguesia alienada percebesse o drama.

Aliás, a grande dificuldade seria desfazer a aura preciosa que atribuímos aos automóveis: poder fálico, quase sexual, como vemos nos anúncios de TV, em que carrões prateados pescam louras e morenas, carros que nos trazem a ilusão de superioridade com que contemplamos com vaga malignidade os passageiros apinhados em ônibus que passam. Vai ser muito difícil convencer as classes médias emergentes a utilizarem transportes coletivos.

Talvez só um engarrafamento definitivo possa conscientizar os cidadãos da bolha brasileira a participar da vida comunitária - temos horror ao coletivo, somos individualistas patéticos, sem causas. Outro dia, vi no filme sobre a Pina Bausch os trens elevados que circulam em Wuppertal, na Alemanha. Movem-se suavemente sobre armações de aço que atravessam a cidade toda e devem ser muito mais baratos que os túneis cavernosos dos metrôs. São soluções civilizadas de países inteligentes. Por que não se podem fazer coisas imaginosas como essa?

Os motoristas de táxi são excelentes projetistas de soluções. Um deles me falou no meio da Marginal do Pinheiros, imprensado entre uma escavadeira e um caminhão de lixo: "Por que não fazem barcas pelos rios da cidade? Acabava esse inferno aí..."

Por que não? Ferrry boats descendo os Rios Tietê e Pinheiros... Talvez seja uma bobagem, mas é um exemplo de imaginação que nos falta. E não é só criatividade, mas também a coragem de contrariar interesses: desapropriar casas e abrir novas ruas, prejudicar, sim, gente como eu mesmo que só anda de carro, criar regras coletivas que choquem os egoístas enfatuados que somos. "Ah... não podemos fazer isso porque a gente perde votos..." Ah... bom, então danemo-nos todos.

A crise de São Paulo não é problema do município apenas; é do governo do Estado e do Planalto. Nos anos 20, o presidente Washington Luis lançou a frase famosa: "Governar o Brasil é abrir estradas". O mesmo vale para São Paulo: governar a cidade é resolver a calamidade do trânsito. Para começar.
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