#CADÊ MEU CHINELO?

terça-feira, 15 de março de 2011

[a vida como ela noé] A CAGADA

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Sanch Fritz é um pequeno município no noroeste da província petropolitana. Diz a lenda que a cidade só não é o cu do mundo pois a 30 kilômetros dali fica Alecrim, esta sim a porta de saída de alguns bostas que migram pra capital tentar a vida de magrão do bonfa.

Entre meus 15 e 25 anos, ou seja, no auge de minha infância, eu costumava passar minhas férias por lá. Quase sempre ficava na baia de algum amigo, que eu ligava antes pra saber se tinha um colchão pra hospedar minhas costelas.

Certo verão me surpreendeu:

- E aí Rotriba, to colando na área. Onde eu posso ficar?
- Já arrumamos um lugar pra ti lá na fazenda.
- Pode cre!


Desliguei o fone e uma dúvida cruel martelou na cabeça: “puta merda, será que vou acordar cedo pra dar comida pro galo, pras galinhas, pro porco... bah, vou ter que capinar e tirar leite da vaca”, pensei. “Azar, vamos nessa”.

Peguei o bus na estação e me mandei pra Sanch Fritz. Seria o início de minha vida de colono, já tinha me acostumado com a ideia. Porco, galinha, vaca, mato, roça, etc. Mas como eu disse há pouco, seria o início. Não foi.

A tal fazenda consistia num apartamento alugado por um grupo de amigos. Dentro dele tinha um frigobar, um colchão, um aparelho de som e um tijolo de baura. E um banheiro sem porta. Os detalhes tragicômicos: ficava bem no centro da cidade, o apartamento do lado era o escritório de advocacia do pai do Vermei, mas ninguém poderia saber da existência da fazenda, a não ser, é claro, os seus donos.

Pela configuração do apê é possível perceber o seu objetivo de ser: um local pra fumar, beber e levar mulher pros finalmentes. E numa cidade pequena que nem Sanch Fritz, naquela época, fumar baura tinha que ser muito bem escondido, no meio dos matos, pra ninguém saber. Depois de fumar, disfarçava a marofa com muito halls e colírio.

A fazenda solucionou esse problema. O tijolo tava bem guardado, a noite os escritórios estavam todos fechados, era só fumar e curtir a lombra em paz ouvindo um sonzinho maneiro e tomando uma bira gelada.

Em poucos dias percebi meu drama. Acordava relativamente cedo – 10h pra quem está de férias é cedo – e espiava o dia através duma brecha na cortina. Sem relógio, eu não sabia das horas. Nem sempre o sol me dava pistas sobre o andar dos ponteiros. O jeito era cuidar o comércio em frente, pois meio-dia as lojas fechavam. E eu me libertava.

Assim como eu não podia ser visto entrando e saindo do apartamento pelo véio do Vermei, me proibiram de citar o nome 'fazenda' ou fazer qualquer menção ao lugar. E aí vinha o problema. Fui almoçar na casa do Rotriba um dia. Pai dele pergunta:

- E aí, meu, tu está ficando na casa de quem?
- Estou na casa do Bode.


Já em outro lar, onde os pais dum amigo eram amigos do pai do Bode, eu inventava outra mentira: “estou lá na casa do Pingo”. Enfim, eu sempre precisava conferir se os pais se conheciam, pra não correr riscos de ser desmascarado. E quando a pergunta vinha em passos de lebre, a minha resposta vinha no andar duma tartaruga. Algo tão fácil de responder, parecia uma questão de física quântica.

Outro drama era voltar pra fazenda. Eu saia meio-dia do esconderijo, e só poderia voltar depois das seis da tarde. Aí entrava em ação o vagabundo da cidade. Sempre pelos cantos, pelos bares, pelas lojas dos amigos, na casa de alguém, nos clubes, piscinas e sinucas.

Bem, a noite não deixava de ser difícil. Era preciso torcer pelo insucesso amoroso dos amigos pra eu não ficar vagando pelas ruas. Mas o pior das férias foi uma noite que a turma tava quase toda lá na fazenda. E eu lá também, mas louco pra dar uma cagada e aquele maldito banheiro não tinha porta. Não me restou alternativa. Cagar sob aplausos do Beno, Claclecla, Dico, Vandré, Bode, Fábio e etc vai ficar na memória mais alguns anos. A pior cagada da minha vida. Se soubesse, teria ido a Alecrim.
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