#CADÊ MEU CHINELO?

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

[agência pirata] A GRANDE CHANCE DE RODRIGO AMARANTE



::txt::Tiago Agostini::

É engraçado: gostar de Los Hermanos hoje em dia virou quase uma vergonha. Perceba em qualquer conversa que aborde o grupo e que envolva mais dos que quatro ou cinco pessoas: automaticamente os detratores falarão mais alto, ridicularizando a banda e seus fãs fiéis. Será inevitável que os dois ou três que gostem do quarteto a defendam, mas geralmente sem muita convicção. Uma situação que pode mudar com o provável lançamento do disco solo de Rodrigo Amarante em 2012.

Convenhamos, no entanto, que nos últimos anos os fãs de Los Hermanos não têm realmente muito do que se orgulhar. “4”, derradeiro disco da banda, era extremamente irregular e mostrava a dupla central criativa cada vez mais distante: enquanto os bons momentos vinham do ensolarado Amarante – como em “O Vento” –, Camelo estava cada vez mais introspectivo – como em “Dois Barcos”. O abismo era tão aparente que os próprios perceberam e, ao se unirem para gravar o quinto disco, em 2007, preferiram separar a banda por tempo indeterminado a lançar um trabalho ruim.

Cada um seguiu seu caminho sem ressentimentos e mantendo a amizade – os shows de reunião, tanto no SWU como abrindo para o Radiohead, mostram isso. Camelo demorou um pouco, mas lançou seu aguardado primeiro disco solo, “Sou”, que comprovou o que todos temiam: as músicas eram ainda mais arrastadas e herméticas que as composições do “4” – em outras palavras, era um disco chato. Ele ainda lançou um “MTV Ao Vivo” que ninguém deu bola e veio com “Toque Dela”, um álbum mais fácil, porém esquecível, no início deste ano. Por mais que ainda mantenha sua relevância na música nacional, Camelo foi mais importante no noticiário nestes anos fora do Los Hermanos devido às comparações com Polanski.

Amarante, artisticamente, também não fez muita coisa. Lançou um disco com a Orquestra Imperial e outro com o Little Joy, além de manter viva sua colaboração com Devendra Banhart. Nada que realmente demonstrasse a que veio: “Carnaval Só Ano que Vem”, o registro da Orquestra, é um belo disco, mas resultado de um enorme trabalho coletivo; “Little Joy”, a parceria com o baterista Fabrizio Moretti, do Strokes, une um monte de musiquinhas bonitas e agradáveis, mas completamente inofensivas.

O disco que deve sair em 2012 é, de fato, o momento em que Amarante mostrará finalmente suas ideias musicais. Não adianta especular sobre como o disco virá: os trabalhos pós-“4” pouco trazem pistas estéticas atuais de Amarante. De acordo com o Mauricio Valladares, no programa Ronca Ronca, da OiFM, o cantor volta ao Brasil no início do ano que vem e deve liberar o disco em março. Uma vez anunciado, porém, ele já se torna um dos lançamentos mais aguardados de 2012.

Afinal, por mais que hoje o grupo seja ridicularizado por seus detratores, o Los Hermanos é a banda mais importante da década 00 no Brasil. Excluindo Emicida, os tecnobregas e o CSS e seus sub-filhotes, absolutamente todo mundo que surgiu no cenário independente após 2001 deve algo ao Los Hermanos. “Bloco do Eu Sozinho” é um marco histórico: foi o disco que fez toda uma geração perder a vergonha de ouvir samba e música popular brasileira.

A revolução involuntária hermânica só foi possível, é óbvio, porque tanto “Bloco” quanto o disco seguinte, “Ventura”, eram duas obras sensacionais – o disco de estreia, homônimo e mais esporrento, também é brilhante –, unindo lirismo com peso e vigor, melodias doces com letras acima da média. Além disso, o quarteto soube criar uma relação íntima e direta com o público, uma equação que gerou fãs tão fieis que as apresentações da banda sempre foram marcadas pela plateia cantando mais alto que a banda.

O culto ainda existe. No show do SWU do ano passado, mesmo separados do palco pela área VIP, os fãs se faziam escutar durante músicas como “O Vencedor” e “Cara Estranho” – os confetes e serpentinas usuais foram poucos, mas estiveram presentes. A claudicante apresentação de Camelo no Rock in Rio deste ano só foi salva por “Além do que se Vê”, uma das grandes músicas de “Ventura”. E, desde o começo do ano, Rodrigo Barba tem tocado o “Bloco” na íntegra com uma banda que inclui os metais da época dos Hermanos e Gabriel Bubu, que acompanhava a banda, na guitarra. Os relatos são de que shows no Teatro Odisseia, no Rio, têm filas enormes do lado de fora. Quem não consegue entrar fica cantando na porta, junto – o vídeo abaixo mostra um pouco da comoção.

Depois do estouro de “Anna Julia”, o Los Hermanos nunca voltou a ser mainstream, mas se tornou a maior banda do underground, sendo responsável direta pelo aumento de público dele. Durante uma conversa no ano passado, Fabrício Ofuji, produtor do Móveis Coloniais de Acaju, comentava a ausência do Los Hermanos do cenário. “Teria sido melhor se eles tivessem continuado. Muita gente parou de ouvir coisas novas quando eles acabaram”, disse, frente à questão de se o Móveis teria “herdado” muitos fãs do quarteto.

Muito se questiona hoje sobre qual o próximo estágio da atual geração do independente brasileiro. Há uma percepção de que o público existe, mas a pergunta é: o tamanho da cena e a popularidade dos artistas são suficientes? Ou é necessário um passo adiante em termos de visibilidade? Mais ainda: como dar esse próximo passo em busca de um público maior? Dependendo da qualidade e do desempenho, talvez a resposta para o dilema esteja no disco solo de Amarante. Agora é esperar as águas de março…

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

[zipmusic] OS 10 MELHORES ARTISTAS BRASILEIROS DA DÉCADA

::txt::Monsenhor Jacá::

Uns dizem que a década terminou em 2009, outros juram que ela recém acabou. Pra evitar confusão, minha década tem onze anos (de 1º janeiro de 2000 a 31 de dezembro de 2010). E nesses onze anos tivemos o melhor momento de toda história da música brasileira, em qualidade e quantidade, sem esquecer que tudo isso está disponível pra ouvir através dum simples click.

Tenho certeza absoluta que vocês vão discordar, que fulano não poderia estar entre os dez melhores, e que beltrana ficou injustamente de fora. Mas mané, a lista é minha, de acordo com o que ouvi e gosto de ouvir. Não concorda? Crie seu blog, faça sua lista e não me encha o saco.

1. IVETE SANGALO

É a rainha da música brasileira. Dinâmica fábrica de hits, que ecoam até nos estádios de futebol. Atrai milhões de foliões atrás de seu carro elétrico. Cantora e compositora extraordinária. Única artista brasileira capaz de lotar o Maracanã. Nesta década, não teve ninguém melhor. Salve Ivete!

2. LÚCIO MAIA

O melhor guitarrista do mundo, que toca na melhor banda brasileira dos '90 e da atualidade (Nação Zumbi). Prêmio Uirapuru ele faturou oito vezes, todas seguidas, de 2000 a 2008. Termina a década flutuando seus riffs na banda Almaz, projeto de Seu Jorge.

3. CHIMBINHA

Ok, a Calypso tem letras horríveis e a voz da mulher dele é ruim. Mas o cara toca guitarra como ninguém. Mas, no entanto, o que também o qualifica a estar nesta lista é a ousadia de montar um negócio fantástico na business musical: quem vende seus discos são os camelôs, que pirateiam o original pela vontade do próprio Chimbinha. Ficou rico. Inventou um modelo de negócio na música.

4. MARCELO D2

Um dos 'pais' dos anos 90, também foi paizão desta década, praticamente o pai do samba-rap. Encerra o ciclo com uma justa e bela homenagem a Bezerra da Silva, unindo a malandragem e o samba do mestre com o rap e hemp do pupilo.

5. ARNALDO ANTUNES

Outro nome de nossa música que fez da década um ciclo. Iniciou como Tribalista, ao lado de craques musicais (Marisa Monte e Carlinhos Brown), um dos melhores discos daquele ano e da década, e finaliza com uma obra-prima que resgata o iê-iê-iê. O maior poeta vivo do Brasil, uma das melhores vozes do cancioneiro nacional. AA UU!

6. MARCELO CAMELO e RODRIGO AMARANTE

Impossível não coloca-los no mesmo patamar. Fundaram a maior banda dos duemille, fizeram fantásticas carreiras paralelas.

8. SEU JORGE

Começou os anos 2000 como ator em "Cidade de Deus", emblemático filme nacional, e termina cantando no projeto Almaz. O grande cantor da década, mesmo quando desafina.

9. ZECA PAGODINHO

Disco de samba sem participação dele pode não ser samba. Verifique com cuidado. Embalou o penta, então deixe o Zeca nos levar!

10. TOM ZÉ ou OTTO

Em época de cantores bem comportados, ainda nos restam alguns doidos pra seguir a maluquice beleza de Raulzito e viver no condomínio do síndico Tim Maia.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

3 na MASSA



# HPP 09 #
O canto contemporâneo de Calíope

txt: João Xavi
pht: Tati Almeida
(acima)
phts: HumaitáPraPeixe (abaixo)
U2B: HumaitáPraPeixe

Li na biografia da Clara Nunes (Vagner Fernandes, 2007), um livro bem interessante por sinal, que até a ascensão da carreira da “guerreira da utopia” as mulheres não representavam uma fatia consistente do mercado musical brasileiro. O biografo conta que Clara foi a primeira a vender quantia considerável de discos e que isso aconteceu, dentre outros vários motivos, graças a uma elaborada construção da imagem de musa, de diva da canção popular brasileira. É fato que Clara caiu no gosto do povo quando se enveredou de vez pelo mundo do samba. Mas o uso (até hoje bastante criticado) de signos da cultura popular (que no final das contas construíam uma imagem de diva pop, no sentido Madonna da idéia) foi fundamental pra esse processo.

Elizete Cardoso, Elza Soares, Gal Costa são algumas das cantoras que alimentaram diferentes possibilidades de ser musa. Estas mulheres usavam de aspectos específicos de suas feminilidades para embalar canções de estilos e apelos variados. A maior parte destas cantoras atua na música como interprete, quer dizer, deixam a tarefa da composição na mão de simples mortais. A própria idéia de musa (no sentido grego da palavra) remete a figuras femininas que tinham como missão básica inspirar um mundo mais belo. Calíope, a musa da bela voz, cumpria sua tarefa através da eloqüência, o uso da palavra. Hoje, as musas são responsáveis por inspirar a lírica de marmanjos que, vítimas do pathos/paixão, escrevem canções para suas belas vozes.

Chico Buarque e Carlos Zéfiro são dois dos poucos heróis contemporâneos que se aventuraram com destreza pelos labirintos do universo feminino. O time de corajosos está engrossando com o desenvolvimento do projeto batizado de 3namassa. Rica Amabis (produtor do coletivo paulistano Instituto), Pupilo e Dengue (respectivamente baterista e baixista da Nação Zumbi) buscaram referências nas letras de Chico e nos traços de Zéfiro para bancar uma verdadeira epopéia por um universo feminino temperado com luxúria. Para isso, um time de letristas (gente do quilate de: Jorge du Peixe, Junio Barreto, Rodrigo Brandão, Rodrigo Amarante, China) se associou ao trio na composição de um álbum que traria em cada música a voz de uma legítima representante contemporânea de Calíope. Músicas compostas, letras escritas, musas convocadas e “Na confraria das sedutoras”, disco de estréia do projeto, chegou as ruas. A missão agora é promover o ataque das sedutoras ao vivo e a cores, pelos palcos de todo Brasil. Já no comecinho de 2009 o clássico festival Humaitá Pra Peixe (que acaba de completar 15 anos de atividades, parabéns!) trouxe o 3namassa pela segunda vez aos palcos cariocas. O trio, aditivado da presença do guitarrista Boca, esquentou ainda mais uma típica noite de verão carioca. O cenário não poderia ser mais adequado: o bairro de Copacabana.

O maior desafio desta empreitada é reproduzir no palco o clima caliente do disco. A tecnologia audiovisual entra em cena, literalmente, a favor da brincadeira, projetando o vídeo de Leandra Leal no fundo do palco. A atriz surge loira, vestindo (pouca) roupa, lingerie, cinta-liga e portando acessórios como chicotes e algemas. Primeiro em francês, e depois em língua pátria a menina sussurra com voz rouca: “Eu sei que vai ser muito bom, pois tenho a imaginação fértil e gosto de agradar”. O jogo começa! Com os músicos já devidamente posicionados, Thalma de Freitas abriu os trabalhos em presença física (e que presença) usando e abusando de todo seu talento de atriz para magnetizar o público com a seqüência: “Enladeirada”, “Doce Guia” e “O objeto”. Bola dentro! Em menos de quinze minutos de show o arrumadinho teatro da Sala Baden Powell ganha um leve ar de cabaret.

Musicalmente a estética do projeto pode começar a ser sentida na percussão. Na maior parte da performance Pupilo comanda a batera numa mistura entre o estilo sincopado (aquela levada bossa nova que, segundo Tom Zé, é uma batida “pra dentro”, em sintonia com a fisiologia do sexo feminino) com as típicas levadas de caixa - ao exemplo de como toca com a Nação Zumbi. A grande diferença é que neste projeto tudo soa mais limpo, então é possível escutar a bateria com riqueza de detalhes.


A segunda sedutora a subir no palco foi Geanine Marques. Com sua voz “Ice hot”, como anunciada pelo invisível Mestre de Cerimônias da noite, a cantora atacou de “Estrondo” e “Lágrimas pretas”. Ousada a proposta de lançar assim, numa só tacada, a mais sutil e a mais agressiva das canções. Os dois pontos extremos do repertório estavam deflagrados, mas a noite ainda guardava surpresas. Desta vez é Simone Spoladore que surge projetada; sentada nas pedras de alguma praia qualquer a atriz declama “Pecadora”: “Eu não consigo me controlar, tenho um demônio na carne, no corpo...”. O descontrole do pecado é a deixa perfeita para a entrada da próxima musa. Do lado de dentro de um longo vestido preto e verde, de pulseiras douradas e pele tatuada, Lurdez da Luz deixou o público sem fôlego. A cantora tem papel ímpar no contexto das sedutoras, é a única que compôs a letra que canta no disco. Essa experiência diferenciada é fruto da vivência musical da moça, que comanda o microfone do grupo de hip-hop afro-futurista Mamelo Sound System. Além de rimar sua própria rima, Lurdez ainda cantou o calor em “Certa noite”.

“Preciosa e peralta”, adjetivos novamente creditados ao MC da noite, Karine Carvalho tem o poder mágico de crescer no palco. A pequena se agiganta com o microfone nas mãos e com “Quente como asfalto” na boca. “Morada boa” também marcou presença numa apresentação que chegou ao fim com a já badalada “Tatuí”, parceria afetiva e efetivamente bem sucedida. A essa altura do campeonato as cadeiras do teatro já haviam deixado de ser o suporte ideal para um espetáculo que de fato provoca os pobres mortais em seus aspectos mais nebulosos e bonitos. O baixo de Dengue oferece uma cama vistosa, disponível para o deslumbre dos sonhos cantados pelas musas, à medida que os samplers disparados por Rica (com timbres recheados daquele clima de sacanagem/pornô-chanchada) dão o tempero finale para essa opera dedicada ao prazer.

O golpe fatal foi o retorno das musas ao palco, devidamente apresentadas em duplas (primeiro Thalma + Karine, depois Lurdez + Geanine). Encarnando canções de Roberto Carlos (o Rei branco) e Barry White (o Rei preto). Majestosos compositores na arte da sedução que tiveram seus poderes amplificados pela operação vocal destas musas. Nenhum dos mais de 500 mortais presentes no teatro pra lá de lotado saiu impune desta experiência extra-sensorial. Seria prudente que a produção providenciasse, além do potente ar-condicionado da sala, algumas centenas de leques para minimizar o estrago causado por este time de Calíopes contemporâneas. Numa noite quente como aquela, resistir é um capricho. Deixar-se seduzir é o único e verdadeiro caminho.

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