
# HPP 09 #
O canto contemporâneo de Calíope
txt: João Xavi
pht: Tati Almeida (acima)
phts: HumaitáPraPeixe (abaixo)
U2B: HumaitáPraPeixe
Li na biografia da Clara Nunes (Vagner Fernandes, 2007), um livro bem interessante por sinal, que até a ascensão da carreira da “guerreira da utopia” as mulheres não representavam uma fatia consistente do mercado musical brasileiro. O biografo conta que Clara foi a primeira a vender quantia considerável de discos e que isso aconteceu, dentre outros vários motivos, graças a uma elaborada construção da imagem de musa, de diva da canção popular brasileira. É fato que Clara caiu no gosto do povo quando se enveredou de vez pelo mundo do samba. Mas o uso (até hoje bastante criticado) de signos da cultura popular (que no final das contas construíam uma imagem de diva pop, no sentido Madonna da idéia) foi fundamental pra esse processo.
Elizete Cardoso, Elza Soares, Gal Costa são algumas das cantoras que alimentaram diferentes possibilidades de ser musa. Estas mulheres usavam de aspectos específicos de suas feminilidades para embalar canções de estilos e apelos variados. A maior parte destas cantoras atua na música como interprete, quer dizer, deixam a tarefa da composição na mão de simples mortais. A própria idéia de musa (no sentido grego da palavra) remete a figuras femininas que tinham como missão básica inspirar um mundo mais belo. Calíope, a musa da bela voz, cumpria sua tarefa através da eloqüência, o uso da palavra. Hoje, as musas são responsáveis por inspirar a lírica de marmanjos que, vítimas do pathos/paixão, escrevem canções para suas belas vozes.

O maior desafio desta empreitada é reproduzir no palco o clima caliente do disco. A tecnologia audiovisual entra em cena, literalmente, a favor da brincadeira, projetando o vídeo de Leandra Leal no fundo do palco. A atriz surge loira, vestindo (pouca) roupa, lingerie, cinta-liga e portando acessórios como chicotes e algemas. Primeiro em francês, e depois em língua pátria a menina sussurra com voz rouca: “Eu sei que vai ser muito bom, pois tenho a imaginação fértil e gosto de agradar”. O jogo começa! Com os músicos já devidamente posicionados, Thalma de Freitas abriu os trabalhos em presença física (e que presença) usando e abusando de todo seu talento de atriz para magnetizar o público com a seqüência: “Enladeirada”, “Doce Guia” e “O objeto”. Bola dentro! Em menos de quinze minutos de show o arrumadinho teatro da Sala Baden Powell ganha um leve ar de cabaret.
Musicalmente a estética do projeto pode começar a ser sentida na percussão. Na maior parte da performance Pupilo comanda a batera numa mistura entre o estilo sincopado (aquela levada bossa nova que, segundo Tom Zé, é uma batida “pra dentro”, em sintonia com a fisiologia do sexo feminino) com as típicas levadas de caixa - ao exemplo de como toca com a Nação Zumbi. A grande diferença é que neste projeto tudo soa mais limpo, então é possível escutar a bateria com riqueza de detalhes.

“Preciosa e peralta”, adjetivos novamente creditados ao MC da noite, Karine Carvalho tem o poder mágico de crescer no palco. A pequena se agiganta com o microfone nas mãos e com “Quente como asfalto” na boca. “Morada boa” também marcou presença numa apresentação que chegou ao fim com a já badalada “Tatuí”, parceria afetiva e efetivamente bem sucedida. A essa altura do campeonato as cadeiras do teatro já haviam deixado de ser o suporte ideal para um espetáculo que de fato provoca os pobres mortais em seus aspectos mais nebulosos e bonitos. O baixo de Dengue oferece uma cama vistosa, disponível para o deslumbre dos sonhos cantados pelas musas, à medida que os samplers disparados por Rica (com timbres recheados daquele clima de sacanagem/pornô-chanchada) dão o tempero finale para essa opera dedicada ao prazer.
O golpe fatal foi o retorno das musas ao palco, devidamente apresentadas em duplas (primeiro Thalma + Karine, depois Lurdez + Geanine). Encarnando canções de Roberto Carlos (o Rei branco) e Barry White (o Rei preto). Majestosos compositores na arte da sedução que tiveram seus poderes amplificados pela operação vocal destas musas. Nenhum dos mais de 500 mortais presentes no teatro pra lá de lotado saiu impune desta experiência extra-sensorial. Seria prudente que a produção providenciasse, além do potente ar-condicionado da sala, algumas centenas de leques para minimizar o estrago causado por este time de Calíopes contemporâneas. Numa noite quente como aquela, resistir é um capricho. Deixar-se seduzir é o único e verdadeiro caminho.
2 comentários:
Olá, onde eu posso baixar um cd da banda?
no blog Eu Ovo, tem o link ao lado, á direita.
Postar um comentário