#CADÊ MEU CHINELO?

domingo, 3 de fevereiro de 2013

[nem te conto] NA DISNEYLÂNDIA DOS NEO-PÓS-PROTO-HIPPIES



:: txt :: Macedusss :: 

  Algumas semanas antes do início do F$M, eu já começava a lentamente me coçar em relação ao mesmo. Claro que sem me movimentar muito, afinal de contas os pagos gaúchos com o sol de janeiro ficam algo realmente insuportável, e cada gaúcho sabe dar a verdadeira importância para sua casa, para uma sombra, uma cerveja nevando e um bom ventilador. Depois de enviar uns dois ou três e-mails, já estava com a minha credencial de imprensa garantida. E como uma coisinha destas sabe facilitar a nossa vida. Entrada facilitada em quase todos os picos do Fórum. Acesso à sala de imprensa, com internet, lanchezinho e essas coisinhas frescas de jornalistas. Claro que o que mais me emocionava nesse pedacinho de cartolina vermelha com meu nome era a possibilidade de fazer algum grau com as meninas na hora do xaveco.

  Dois dias antes de começar o evento, rumei a Porto Alegre para retirar a minha credencial e a programação completa de todos os eventos e atividades. Sol a pino. Pele grudando de tanto protetor solar. Sem problema algum retirei tudo que precisava na sala de atendimento a imprensa. Eu era a partir de agora um representante da imprensa no Fórum $ocial Mundial. Oh! A mídia anda realmente mal das pernas. As possibilidades estão por ai.

  O calor pedia uma cervejada, só me restava cumprir; acabei parando em um boteco de quinta categoria próximo ao Acampamento da Juventude. Deu pra chapar e também acordar com uma ressaca do cão. E o Fórum ainda não tinha nem começado. Puta la mierda. Dia 26, quarta-feira, início oficial do F$M. Inicio oficial de minha beberagem no Acampamento da Juventude. Cachaça, confusão e poucas horas de sono, esse seria daqui para a diante o meu roteiro pelos dias de fanfarra politiqueira da pseudo-esquerda, e de centenas e centenas de hippies fedorentos.

  Encurtando a conversa, não vou ficar aqui fazendo papel de babaca contando dia-após-dia de inutilidade de minha pessoa maceduniana pelo Fórum. Comecei tentando, entretanto desisti. Cumpre lembrar, minhas atividades intelectuais e conspiratórias se resumiram ao Acampamento da Juventude. Minha tarefa era participar junto de um grupo de colegas da faculdade na gravação de um documentário sobre o F$M. Beleza pura. O único problema era que se tratava de um projeto de criação coletiva. Ou seja, algo pequeno demais para o meu ego intelectualmente criativo e artístico. Eu, a ultra-vanguarda, sendo castrado por anseios enrustidos de comunismo coletivista. Nem fudendo! Mas fui igual, claro que encarando como um “empreguinho” de jornalista mixuruca. Queria ter a experiência de ter que trabalhar com uma pauta e essas coisas de redações fefelechentas. Resultado: filmei quase nada, não participei de porra de reunião alguma, não dei idéia alguma para o bando do grupo. Mas tava lá, como se fosse alguém muito importante para o projeto. Resultado: me senti como um jornalista profissional e mantive meu deboche muito-bem-obrigado-babaca.

  O que levo como resultado do F$M é que depois de muito trago e inconseqüência na cabeça, acabei nem me utilizando das possibilidades que uma credencial de imprensa podia ter me proporcionado. Não quero participar de marcha de pelado, quero manter meu direito de andar vestido. Quero manter meu direito de poder ir ao F$M para encher a cara e ficar vagabundeando. Não voto no PT e nem sou babaca o suficiente para acreditar que Hugo Chavez faça um governo de esquerda. Aliás, teve gente que brada de oposição de esquerda ao governo Lula e acredita que o mesmo quer destruir o país. Macacos me mastiguem e me cuspam na cara do homem que tem nome de mulher. Ingenuidade? Não. Demagogia pura. Também não acredito na oposição da democracia burguesa. Fórum $ocial Mundial? Piada. E em tempo de circo, quero me manter de cara cheia e alucinado.

  Para salvar os momentos de tédio e tortura intelectual, dia 29 de janeiro, em plena área central do Acampamento da Juventude do 5° F$M, participei de um delicioso evento em homenagem a todo o povo fedido das barracas, que quer mudar o mundo a base de sexo e maconha. Um recadinho para a hippaiada homenageada: banho não faz mal a ninguém. Trata-se de nada-mais nada-menos do que um show especial dos catarinenses afrescalhados da banda Os Legais, lado-a-lado dos gaúchos mirabolantes da Macedusss & Os Desajustados Band. As músicas soavam como temas de novela, o público interagia contagiadamente atirando tudo que era tipo de tralha nos membros das bandas. O ponto forte da festa foi a música “Eu tomo banho e me sinto um verdadeiro revolucionário quando ando acompanhado por 123 mil hippies fedidos e relaxados”, tocada com muito esplendor pela minha própria banda, a Macedusss & Os Desajustados Band, que contava com a participação de membros ilustres do grupo Bleff. Para evitar tumultos maiores e dada a minha sagaz esperteza, deixamos para que Os Legais subissem ao precário e improvisado palco por último. 

  Enquanto os catarinecas comandados por Gustavo Ghewer engatavam sua primeira música, esse ilustre que vós escreve já bebia uma cerveja morna a quarteirões de distância. O que sei é que os queridos e bem pensados elogios aos hippies continuavam, e o tempo fechou rapidamente. Boatos de confronto físico existem. Não tenho muita fé, mas também não duvido de nada. E o 5° F$M, como terminou? Ainda não tive coragem de ler nenhum jornal para saber acerca disso. O que sei que também não os levo a sério. E sobre mudar o mundo? Nem creio nisso.


Dannius Macedusss: entre outras tantas atividades ligadas ao underground, é membro e líder da banda nerde de blues/punx Macedusss & Os Desajustados Band e foi (ou tentou ser) testemunha ocular das diversas doideiras que rolaram durante cinco dias no Acampamento Intercontinental da Juventude, no 5° Fórum Social Mundial em Porto Alegre, janeiro de 2005.
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