#CADÊ MEU CHINELO?

domingo, 30 de setembro de 2012

[nem te conto] NUM FUTURO PRÓXIMO

:: txt :: Paulo Wainberg ::

 A comunidade científica resolveu dividir o Grande Sanatório em alas independentes e incomunicáveis, para evitar más influências.

 A ala do Povão abrigou trabalhadores e operários, nada ou pouco qualificados, desempregados e miseráveis de toda a ordem. As manifestações dos internos são primitivas, não vão além de fantasias dos que pensam ser motoboys, catadores de lixo, um que outro acredita ser mestre de obras.

 Nada há, ali, que interesse a comunidade científica.

 A ala dos Ricos e Classe média poucos problemas causa, os empresários e prestadores de serviços ali internados possuem ambições semelhantes, os ricos querendo mais classe média para gastar e os da classe média querendo ser ricos. Os casos mais graves são os prestadores de serviços, especialmente advogados com surtos agressivos contra juizes e o poder judiciário em geral. Vivem sob fortes tranquilizantes, muitos imobilizados com camisas de força.

 O acompanhamento e tratamento dessa ala está a cargo do baixo clero da comunidade científica.

 A ala dos Intelectuais é de longe a mais interessante e, para ela, a comunidade científica dedica atenção integral, seus expoentes máximos absortos no estudos daquelas mentes extraordinariamente perturbadas.

 O nome da ala – Intelectuais – foi escolhido não pela qualidade pessoal de  internos e sim pelos cargos e funções que exerciam na sociedade, antes dos seus debacles mentais.

 O relatório inicial, preparado pelo presidente da comunidade científica, traz a descrição de alguns casos extremos e foi elaborado a partir da identidade que cada interno julga ter assumido:

 NAPOLEÃO BONAPARTE: Um ex ministro do Supremo Tribunal Federal, querido pelos colegas de toga e de partido político, começou a votar em Francês. Os colegas, nobres e excelentes, atribuiram o fato ao humor que caracterizava o ministro, com suas tiradas engraçadas e carinhosamente corrosivas, durante as sessões de julgamento. Daquela data em diante o ministro passou a votar só em Francês. Mais do que isto, ordenou a cinco de seus vinte ou trinta secretários, que compilassem todos os votos que proferira, durante seus dez anos de atuação na corte suprema do país. Depois disto traduziu todos os votos para o Francês e mandou imprimir. Encadernou o calhamaço e distribuiu entre todos os colegas. O título era: O Novo Código Civil de Napoleão, elaborado por Napoleão Bonaparte. Deu para andar com a mão direita enfiada sob a lapela do casaco ou, quando estava de toga, com a mão direita segurando as costelas esquerdas. Quando lhe perguntaram o motivo de proferir seus votos em Francês, esclareceu que a língua portuguesa era por demais primitiva para abranger os conceitos jurídicos que sua mente imperial concebia. Foi encaminhado para o Sanatório quando chegou à a corte vestido de general, com o chapéu triangular na cabeça e ordenou a imediata invasão da Argentina.Conquistando o país vizinho, daria início à retomada das Ilhas Malvinas, declarando guerra à Inglaterra e, assim vingar-se da derrota em Waterloo. Ainda hoje, em seu gabinete no sanatório, passa o tempo elaborando planos de batalha, rodeado de mapas e maquetes estratégicas. Nunca mais falou português.

 STALIN:  Quando José Dirceu deixou o bigode crescer, o pessoal achou que era apenas mais uma mudança de aparência, das tantas que ele já experimentara. Pelo menos agora não fizera plástica. No início era uma penugem quase imperceptível que foi crescendo até tornar-se um grosso bigode que quase lhe cobria a boca e que ele pintava de preto, religiosamente. Dizem que a degradação mental começou quando fazia as unhas, numa de suas inúmeras residências de luxo em condomínios fechados ainda mais luxuosos. A manicure, ao tirar-lhe uma cutícula, machucou aquele pedacinho que fica entre o dedo e o início da unha. Ele teve um acesso de fúria e ordenou a um dos seus mil e quinhentos seguidores que deportassem imediatamente a incompetente para a Sibéria, onde passaria o resto da vida sob trabalhos forçados. No dia em que enviou emissários pelo mundo até encontrar e eliminar seu inimigo mortal e inimigo mortal dos ideais comunistas, um arrivista radical chamado Trostky, fornecendo a cada um a fotografia de um ex-deputado chamado Jefferson, foi enviado para o Sanatório onde, até hoje, através de e-mails, pergunta se sua ordem foi executada. Nunca mais fez as unhas.

 JOSÉ SARNEY – Um obscuro poeta do Maranhão publicou um livro de poemas chamado Abelhas no Cio. Ninguém leu o livro e ele, então, Reeditou a obra, mudou o título para Marimbondos de Rogo e assinou José Sarnão. Passou a comandar o Brasil, depois de invadir uma residência de luxo, numa ilha de sua propriedade. Nomeou milhares de assessores e declarou, numa matéria paga publicada no Correio de São Luiz, ao que se sabe também de sua propriedade, um manifesto à nação, afirmando que era vítima de conspirações literárias e que, como membro da Academia Brasileira de Letras, não suportava não ser presidente de alguma coisa, nem que fosse do Senado. Descobriu-se que seu nome de batismo é Ribamar e suas atitudes, frases e pensamentos são objeto de um estudo comparado de suas atitudes com as do próprio José Sarney, estudo este que está provocando uma dissidência na comunidade científica, promovida pelo grupo que deseja substituir o falso José Sarney pelo próprio.

 MUSSOLINI – Quando Paulo Maluf revelou ao Jornal Nacional que era a reencarnação de Benito Mussolini e que ia transformar o país numa Itáli moderna, independente, onde o trabalhador teria leis que o garantisse que seus opositores seriam tratados com mãos de ferros e seus seguidores com doçura, nem conseguiu chegar em casa. Saiu dos estúdios numa camisa de força e está, até hoje, fazendo propaganda de seus feitos, nos corredores do Sanatório. Sua última declaração foi que pretende formar um Eixo democrático com Angola, Sérvia e Irã, para extirpar a Coreia do Norte do planeta e alguns outros paises menores, que só incomodam. Nega que a fortuna existente em seu nome seja dele: “De Mussolini, talvez, mas minha não.”

 LULA – O caso mais interessante do Sanatório, Lula, o próprio, está lá internado com o diagnóstico de múltipla personalidade. O que deixa a comunidade científica perplexa é que uma personalidade não tem conhecimento da existência das outras, cada uma age por conta própria como se as demais não existem. Quando a personalidade de torcedor de futebol assume, ele só pensa no Corinthians, xinga o juiz, mesmo que não seja juiz de futebol, e oferece estranhas vantagens se, durante o jogo, o juiz beneficiar o seu time. Quando assume o retirante nordestino, ele afirma o seu orgulho em ser analfabeto, filho e neto de analfabetos. Quando o Doutor Lula assume o comando, ordena medidas econômicas destinadas a enriquecer seu filho e à sua família em geral, além dos colegas de Academia. E, finalmente, a personalidade mais curiosa de Lula, é quando ele afirma ser um cômico de televisão, especializado em imitar Lula. Ele pensa estar num popular programa de humor, onde tudo ao seu redor é cenário, inclusive Brasília e seus palácios. Sua imitação é perfeita, nos mínimos detalhes e trejeitos. Seu bordão que, segundo ele, arranca gargalhadas da platéia e de milhões de telespectadores é: Nunca antes neste País…

 O relatório da comunidade científica possui, ainda muitos outros ítens, um inclusive de um sujeito que afirma ser o maior narrador esportivo do Brasil, seja lá o esporte que for, e que seu melhor amigo é qualquer um que possua programas de auditório na TV Globo.
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