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sábado, 29 de setembro de 2012

[agência pirata] TOM ZÉ – TROPICÁLIA LIXO LÓGICO (2012; PASSARINHO, BRASIL)


:: txt :: Ruy Gardnier ::

 Tom Zé é um cantor e compositor brasileiro (Irará, BA, 1936). Estudou música na Universidade Federal da Bahia, fez parte do espetáculo Nós Por Exemplo Nº 2 em Salvador, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa etc., e fez parte do grupo de músicos que criou o álbum Tropicália ou Panis et Circensis em 1968, marco definitivo do tropicalismo musical brasileiro. No mesmo ano foi vencedor do IV Festival da Música Popular Brasileira na TV Record, com “São Paulo, Meu Amor” (depois rebatizada “São São Paulo”), e lançou seu primeiro álbum, epônimo, pelo selo Rozemblit. Seguiram-se dois outros álbuns epônimos (1970 e 1972), Todos os Olhos (1973), Estudando o Samba (1976), Correio da Estação do Brás (1978), Nave Maria (1984), The Hips of Tradition (1992), Com Defeito de Fabricação (1998), Jogos de Armar (2000), Estudando o Pagode (2005), Danç-Êh-Sá (2006) e Estudando a Bossa (2008), além de alguns EPs, discos ao vivo e coletâneas. Praticamente esquecido nos anos 70 e 80, sua carreira teve novo começo a partir da descoberta por David Byrne de Estudando o Samba e pelo lançamento da coletânea The Best of Tom Zé (1990), por seu selo Luaka Bop, nos EUA. Estudando o Samba é hoje considerado um dos maiores discos da musica brasileira. Tropicália Lixo Lógico é o 14º álbum de estúdio de Tom Zé e foi lançado em agosto de 2012 por um selo novo, o Passarinho. (RG)


 Qualquer máscara fixa que se atribuir a Tom Zé será um despropósito à sua multifacetada personalidade. Tropicália Lixo Lógico parece gritar isso à medida que as faixas progridem em evidente contraste, e em flagrante descompromisso com a pompa conceitual que cada álbum de Tom Zé vem assumindo. Ancorado num eixo temático “duro” curto-circuitando música brasileira e sociedade (pagode/sexismo, Bossa Nova e as mudanças modernizantes dos anos 50/60), o “típico” disco de Tom Zé nos últimos anos é ao mesmo tempo um álbum de música e um tratado metaoperístico, quase um audiobook de semiologia da cultura musical brasileira. Vistos no microscópio, no entanto, eles revelam que a imponência do conceito convive muito bem com o humor mais infame e com o lirismo mais singelo. O disco novo também tem um conceito, mas a pouca frequência de faixas que desenvolvem o tema – 5 em 16, ou 3 em 14 se descontarmos a introdução e a pequeníssima coda – torna-o muito mais diluído na comparação com os anteriores, e isso imprime no resultado um arejamento (de ideias, de mudança de atmosferas) bastante salutar. E não perde em conceito: o tema central de Tropicália Lixo Lógico é desenvolvido a contento nas poucas faixas que tratam disso: a ideia de que o tropicalismo nasce da fusão da cultura moura, apreendida intuitivamente pela criança até os dois anos, com a racionalidade aristotélica descoberta nos assentos da escola, e pela fricção dos dois a partir do momento que o rock internacional dos anos 60 e as outras artes sobrecarregam a percepção com um tipo específico de selvageria. “Lixo lógico” seria então algo próximo à “parte maldita” batailliana, esse excedente não-reutilizável nos moldes normais que, estocado até o limite, transborda e produz o novo.

 A tese produz delirantemente insights geniais que dão a pensar um manancial de questões que excedem até a música e a cultura nos anos 60 (vai até a história das mentalidades e volta, por exemplo), mas aqui nos interessa sobretudo o material poético e musical que ela suscita, que não é menos rico. Em “Tropicalea Jacta Est”, Tom Zé brinca com os nomes (“Tinha Pigna, Campos in/Celso Zeopardo” para as influências do tropicalismo na poesia e no teatro) e hibridiza canções (“Domingo no parque sem documento/Com Juliana-vegando contra o vento”, numa colagem verbal das canções de marca registrada de Gilberto Gil e Caetano Veloso, “Domingo no Parque” e “Alegria Alegria”) em arranjo e melodia que lembram inequivocamente “Parque Industrial”, contribuição única do próprio Tom Zé em Tropicália ou Panis et Circensis. E se o concretismo, inspiração do tropicalismo, está presente nessas colagens ou nas curtas composições onomatopaicas do meio do disco (“Jucaju”, “De-de-dei Xá-xá-xá”), no outro lado está a poesia “objet trouvé” do cotidiano, ao musicar avisos de elevador (“Aviso aos passageiros”) ou intervenções poéticas no metrô de Nova York (“NYC Subway Poetry Department”).

 A variedade musical é ainda maior que as variações de impulso lírico: hip-hop com Emicida, balada singela com Mallu Magalhães, marcha-enredo, salsa (“Debaixo da Marquise do Banco Central”), rock com riff de guitarra (“Não Tenha Ódio no Verão”) e vários flertes de pop com regionalismo, com uma desenvoltura e leveza que não víamos em Tom Zé desde 1972 (epônimo, mas apelidado de Se o Caso É Chorar no relançamento), ano de seu último disco anterior ao período mais formalista de Todos os Olhos e Estudando o Samba.  Mas formalista Tom Zé continua a ser, sempre. É de longe, no pop brasileiro (talvez apenas junto com Arrigo Barnabé e Hermeto Pascoal, mas que estão em outro esquadro em termos de gênero), aquele que mais ousa romper a sinuosidade natural da música brasileira, criando riffs e ritmos arestados, passagens angulares de notas e subtrações rítmicas (o samba “inorgânico” que ele continua a estudar, ainda e sempre), e mesmo em moldes menos impositivos, como neste disco, isso ainda é uma característica marcante.

 Ainda assim, apesar da enorme vitalidade poética, do sedutor convite ao pensamento suscitado pelo conceito, da variedade sonora e da coerência estilística do artista, são as melodias e as estruturas das canções o verdadeiro carro-chefe de Tropicália Lixo Lógico. É como se o enfileiramento das máscaras – a máscara-filósofo em pé de igualdade com a máscara-cronista social, com a máscara-cancioneiro lírico, com a máscara-provocador político – desse às melodias um inesperado frescor, produzindo alguns clássicos imediatos e rendendo ao menos um bom gancho a cada música – é, afinal de contas, um duelo cara a cara com o pop, rendendo-se e subvertendo na rendição. Os mini-interlúdios instrumentais/tribais entre uma faixa e outra, nesse sentido, amplificam o amoroso combate entre pop e vanguarda, por vezes quebrando as faixas antes de elas terminarem, sempre provocando contraste entre o áspero e o macio. É nesse sentido que o disco-conceito se fecha: apesar de apenas cinco das 16 faixas desenvolverem a questão do lixo lógico, as outras são aplicações do conceito, renovando sem rigor extremo, apenas com apetite e inspiração, o flerte com o pop corrente. Tropicália Lixo Lógico é o disco mais imediatamente delicioso de Tom Zé em décadas. Sua acessibilidade, em todo caso, não significa perda de densidade, nem sua superioridade absoluta em relação aos outros (dos anos 90 pra cá, pelo menos Hips of Tradition e Estudando o Pagode são no mínimo contendores do mesmo nível). Mas que esse septuagenário de Irará faça, com uma reflexão sobre o tropicalismo – com todos os perigos de auto-indulgência nostálgica que um passo desses poderia provocar –, seu disco mais jovem, no melhor sentido, em eras, é algo que definitivamente não se esperava, e que dá o toque de gênio a mais um disco indispensável desse gênio da música que é Tom Zé.
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