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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

[a vida como ela noé] PAC: SANGUE, SUOR E UM FILME PUBLICITÁRIO

::txt::Pablo Francischelli::
::clbrç::Luana Pagin::

As aparências não enganam. O sangue ainda fresco mancha os postes de luz e forma pequenas poças no chão. Hoje ninguém foi trabalhar: as obras estão paradas e as sequências de tiros cruzando o céu explicam o porquê.

Mesmo assim, a van da equipe de filmagem está parada na cancela de acesso às obras do PAC no complexo de favelas de Manguinhos, no Rio de Janeiro. Dentro do veículo, os assistentes de direção e produção, juntamente com o chefe de segurança, visitam o local pela primeira vez. Cabe a eles a missão de descobrir e selecionar os desejados protagonistas para uma série de filmes publicitários do governo estadual sobre o PAC e as prometidas futuras alterações no (sub)padrão de vida da comunidade. Obras dignas de um filme publicitário cheio de sorrisos. E um pouco mais.

A meia hora de espera tarda em passar e o tiroteio também. O diretor do filme telefona inquieto para sua assistente e reforça o pedido – quer que o filme seja o mais documental possível. Ela desliga o telefone preocupada: como seria um filme publicitário documental naquelas condições? Quem chega para liberar o acesso às obras é um sujeito diminuto e atarracado. Genivaldo Lira dirige a associação de moradores e é mais conhecido como Seu Presidente. “Lá dentro é limpeza. A rapaziada sabe da importância disso aqui pra nós.”

O local está deserto. Os operários do PAC são quase todos habitantes da própria comunidade e não conseguiram chegar até o local de trabalho. Os assistentes de direção e de produção caminham calados, e o suor em seus corpos é o resultado da mistura inquieta do esforço físico e do medo. À essas sensações é somada subitamente um frio cortante na espinha, quando seus olhares avistam a surpreendente presença de duas figuras isoladas entre as imensas vigas de concreto erguidas logo à frente.

É um casal. Ambos mulatos, de uma beleza bem cuidada que se esconde por debaixo dos uniformes oficiais do PAC. Parecem estar desconectados daquela realidade surrealista e demoram algum tempo pra perceber a chegada da equipe. Então, sorriem. Seu Presidente logo toma as rédeas da situação, cumprimentando o casal com tapinhas nas costas. “Esses aqui são da comunidade. Gilmar e Luzia.”

“Saímos de manhã cedo pra levar as crianças na escola e viemos direto pra cá. Chegamos antes do tiroteio começar e ninguém mais apareceu.” Gilmar e Luzia. Ambos trabalham há 8 meses na obra e ganham um salário de R$590,00. Enquanto Seu Presidente e o restante da equipe de filmagem tratam de lhes explicar o objetivo da visita, o tiroteio parece se acalmar. Aos poucos, outros operários começam a chegar e tudo indica que em breve os trabalhos recomeçarão.

Mas a assistente de direção parece já ter achado o que queria. “Acho que encontrei os personagens. É um casal bonito e falam bem. Vou dar uma olhada na casa deles e fazer algumas imagens”, conta pelo telefone ao diretor. A trupe recomeça a sua marcha, agora não mais no campo neutro das obras do PAC e acrescida da presença do casal. As condições de segurança para uma caminhada nas entranhas da comunidade parecem melhorar. Pelo menos é o que diz Seu Presidente, caminhando à frente do grupo e sendo cumprimentado por absolutamente todos os moradores que cruzam o caminho.

As agressões da miséria passeiam por toda a comunidade sempre acompanhadas pelo inescapável cheiro de esgoto. Barracos quebrados, furados, podres. As manchas vermelhas pelo chão não são tinta: uma senhora lava o sangue que restara num carrinho de mão com uma mangueira. No caminho à casa de Gilmar e Luzia, o grupo se depara com ofertas insólitas. “Pó de cinco.” “Pó de dez.” “Ó o crack.”

Aproximadamente trinta traficantes exibem suas armas à tira-colo e empilham pequenas montanhas de drogas sobre algumas simples cangas estendidas no meio das ruelas. Maconha, cocaína e crack vendidos aos berros, ao ar livre. Seu Presidente, tenta amenizar o clima de estranheza de parte a parte, cumprimentando todos os traficantes com o mesmo tapinha nas costas e com a mesma frase. “Ta tranqüilo.” “Ta tranqüilo.”

Tranqüilo ou não, a feira narcótica fica pra trás. Agora, são Gilmar e Luzia quem tomam a frente da caravana, já se aproximando da sua casa. “É muito pequenininha, moça.” A moça diz pro casal não se preocupar. Discretamente, tira a câmera da bolsa e prepara-se para fazer as primeiras imagens, quando um menino de idade pré-adolescente indecifrável, frágil e esquelético, passa por ali completamente alienado à presença da equipe de filmagem. “Cadê meu copo de plástico? Cadê?”

Ele vai em direção à Cracolândia, a não mais de cinqüenta metros da casa de Gilmar e Luzia. Sem o cachimbo, usa um copo de água mineral para fumar a pedra. A figura murcha e definhada do menino deixa todos da equipe estarrecidos e, ao mesmo tempo, paradoxalmente fascinados com aquela realidade trágica e sem sorrisos, extremamente distante do mundo publicitário.

Mas a máquina não pode parar. A assistente de direção finalmente liga a câmera e põe à prova a naturalidade de Gilmar e Luzia diante das lentes. O casal vai bem, rendendo um valioso material de pesquisa para o comercial e encerrando assim o dia da equipe no complexo de Manguinhos. No dia seguinte, o diretor do comercial assiste as imagens e não tem dúvida alguma em chamar Gilmar e Luzia para personagens da campanha do PAC.

A assistente de direção também não tem mais dúvidas. Na véspera da filmagem pede demissão da campanha publicitária. Ela quer fazer um filme documentário.
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