#CADÊ MEU CHINELO?

domingo, 23 de janeiro de 2011

[agência pirata] CONHECE A MALDIÇÃO DO HOMEM-ARANHA?



::txt::Zeca Camargo::

Titubeei algumas vezes antes de comprar o ingresso para ver uma “pré-estréia” de “Spider-man: turn off the dark” . Afinal, o espetáculo mais comentado da Broadway (escrevo de Nova York hoje) nos últimos anos, como já indiquei, ainda não estreou – o que eu assistiria era uma espécie de “ensaio aberto”. A possibilidade de alguma coisa dar errado – e ela era grande (já falo mais sobre isso) – estaria sempre presente. E o ingresso para assistir a esse “esboço” é o de uma performance “oficial”: cerca de R$ 350! Por outro lado, a música é assinada por Bono e The Edge (mas, curiosamente, não pelos outros dois companheiros da dupla no U2) – o que, obviamente, para um fã como eu, é algo muito atraente. E o nome por trás dessa mega produção é o de Julie Taymor, uma artista (diretora, cenógrafa, mente criativa) – que ficou famosa, entre outras coisas, com a montagem revolucionária, também na Broadway, de “O rei leão”. Enfim, debatendo entre prós e contras, gastei um bom tempo decidindo se deveria ou não pegar a matinê de quarta-feira e arriscar. Ou melhor, conferir como toda a produção de “Spider-man” está se arriscando…

A “maldição” a qual me referi no título do post de hoje não é brincadeira. Desde que o espetáculo foi aberto ao público (ainda que não oficialmente), não foram poucos os acidentes em cena com alguns atores – alguns deles, bem graves. Entre outros problemas, os efeitos especiais “revolucionários” que fazem o Homem-aranha (ou melhor “os Homens-aranhas”) voar pelo palco e em cima da platéia envolvem uma tecnologia sofisticada – e que jamais foi usada num musical da Broadway (o teatro Foxwood, na rua 42, foi especialmente adaptado para isso). E envolve também risco… Os tais acidentes viraram uma das notícias mais “saborosas” na imprensa local nova-iorquina – uma onda de maledicência e ironia, que gerou até uma capa bem sacada na “The New Yorker”, com uma enfermaria cheia de “Spider-men”!

Mas esse não é único problema de “Turn off the dark”. Os “ensaios abertos” – que aqui recebem o nome de “previews” começaram em novembro. Eles se estendem geralmente pelo menos por algumas semanas, para dar tempo de o elenco – e o próprio espetáculo – “esquentar”, antes da estréia oficial. Ocorre que a tal estréia já foi adiada várias vezes – e agora está marcada para 15 de março (possivelmente…). Por conta disso, os custos de produção já foram para a estratosfera! “Spider-man” já está sendo chamada de “a produção mais cara da história da Broadway”, e as piores previsões de retorno dizem que o musical vai ter de conseguir lotar o teatro por três anos consecutivos para pelo menos sair do vermelho – e isso com o ingresso por aquele “precinho camarada” que citei anteriormente…

Será que “Spider-man” na Broadway vai dar certo? Será que os fãs – de um dos super-heróis mais amados da Marvel, diga-se – vão gostar da adaptação? E os fãs do U2 – será que eles vão achar que Bono e The Edge foram longe demais? Os efeitos são mesmo de arrepiar? O frisson de saber que alguma coisa de errado pode acontecer durante a performance – será que isso vai espantar ou atrair o público?

Todas essas perguntas – e tantas derivadas dessas – estão na cabeça de muita gente aqui em Nova York. E elas passaram também pela minha enquanto eu decidia se ia ou não assistir ao musical. Como já expus rapidamente os motivos para querer ir pesavam tanto quanto os para não ir – e, isto aqui sendo Nova York, poder investir umas três ou quatro horas em um outro passatempo cultural (MoMA, P.S.1, New Museum – todos me esperando…). Mas no meio dessa argumentação pessoal, tinha uma coisa que me atraía acima de tudo: o fato de todo mundo ali envolvido com “Spider-man” estar apostando numa ousadia – em algo que, em mais de um aspecto, nunca havia sido feito antes…

Já vou retomar o “Turn off the dark”, mas antes preciso dar uma satisfação a quem acompanhou (e palpitou sobre) meu último post. Por que ele também falava de ousadia e algo que nunca havia sido feito antes – no caso, numa novela de TV, no final de “Passione”, de Silvio de Abreu. Relembrando rapidamente, convidei você a “descobrir” o que o final tinha de bastante original – a ponto de surpreender este noveleiro “de carteirinha” que vos escreve.

Ninguém – pelo menos nos comentários enviados – acertou exatamente o que eu estava querendo dizer. Ou melhor, a Raiza, que mandou um dos últimos comentários, chegou perto, ao falar sobre “o ponto de vista de quem assiste” – o raciocínio dela pegou carona na dica que eu dei sobre o desfecho de “Passione” ter me lembrado o de “Sopranos”. E é mais ou menos isso…

O que eu achei fascinante na solução de Silvio de Abreu foi que, pela primeira vez – pelo menos que eu me lembre – a novela terminou sem que todos os mistérios fossem desvendados… para os personagens da história! Só quem ficou sabendo o que realmente aconteceu – quem matou o Saulo, o pai de Saulo, e as razões para esses crimes terem acontecido – foi o público! Achei isso fascinante – e bato palmas para Silvio de Abreu por isso. De maneira inédita, o autor estabeleceu ali uma cumplicidade com o telespectador, que para mim foi novidade!

Enquanto a família Gouveia celebrava mais um aniversário da matriarca Bete (Fernanda Montenegro) – sem saber ao certo quem havia cometido os crimes, uma vez que Fred (Reinaldo Gianechinni) negou até o final ter sido o autor deles –, o final que se desenhava era feliz, mas de uma felicidade que vinha da ignorância (a de não saber o que aconteceu e não se preocupar mais em ir atrás da verdade). Enquanto isso, Fred recebe, na cadeia, um postal de Clara (Mariana Ximenes), a verdadeira assassina de Saulo (mas não de seu pai, como logo vamos saber num flashback), que, ao contrário do que todo mundo pensava, não estava morta, mas numa “ilha do pacífico”, mais uma vez fingindo que era enfermeira (como no início da novela) de um idoso milionário… Com isso, claro, Fred “descobre” que ela é a verdadeira culpada, mas isso não é nem metade da história… Só quem ficou sabendo mesmo de tudo foi quem estava assistindo de casa, do conforto de sua poltrona… E isso eu achei genial!

Isso é o que eu chamo de ousadia – de experimentar com um formato tão batido quanto uma novela de televisão. Essa provocação – uma característica essencial para os artistas – é o que realmente me seduz. E aí pode ser em qualquer forma de expressão que você quiser escolher: cinema, literatura, música, dança, teatro, performance – até mesmo uma novela. Ou quem sabe um musical da Broadway… E foi pensando nisso que eu resolvi comprar o ingresso para ver “Spider-man: turn off the dark”!

O que eu achei da experiência? Bem… É meu último dia dessa viagem rápida a Nova York – e “a rua” está me chamando para sair da frente deste computador onde escrevo e aproveitar um pouco mais da cidade. Resistir será inútil…

Segunda-feira então, temos um encontro marcado aqui com o “Homem-aranha”, fechado?
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