#CADÊ MEU CHINELO?

quarta-feira, 2 de abril de 2014

[3x4] JUÇARA MARÇAL



::txt::Luciano Viegas::

Lava, combustão

Quando o Metá Metá lançou em 2011 um primeiro disco homônimo de singular simplicidade, pela própria formação enxuta de trio, não se tratava exatamente de uma revelação ou surpresa para a cena musical paulistana, pelo contrário, era a chegada a um ápice de maturidade artística de pessoas plenamente ativas na última década e que, pela lei natural dos encontros, já vinham se envolvendo numa série de projetos muito próximos, o que foi culminar nessa reunião prolífica em que Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França reinventam o lugar da canção na música brasileira, retomando referências do candomblé com uma dedicação aos mínimos detalhes tanto quanto Oxum ao se debruçar sobre a composição do marulhar das águas doces.

O imaginário da mitologia africana é atualizado e, já com um segundo disco lançado, Metal Metal, o som avança em direção a novas potências de celebração e transe que remetem à experiência do terreiro, mas, sobretudo, importa que o corpo esteja em sintonia com a pegada dos arranjos que é a própria assinatura de Kiko Dinucci e que a cabeça esteja suficientemente aberta para os passeios intergalácticos que o sax de Thiago França conduz, tal e qual um cicerone que carrega pela mão um visitante perdido por terras desvirginadas.


E, por fim, a voz acalentadora de Juçara Marçal que reata o cordão com a mãe terra, trovoa se preciso, narra fragmentos de uma humanidade que não se deixou dispersar daquele mesmo arrepio cervical que nossos ancestrais urravam de espanto e êxtase, a descoberta da força vital dos orixás que anima e harmoniza toda a matéria, por mais que São Paulo, por mais que a diáspora africana compulsória tenha arrancado prantos desesperados, sangue negro, substância primordial de resistência que somente na música se cristaliza e implode toda defesa que possa existir e por acaso queira nos afastar.

Rainha das cabeças

Juçara Marçal passou a integrar o quinteto feminino Vesper Vocal, em 1992, cuja estética, mais livre e experimental impossível, sobrepõe voz em cima de voz, devastando os antigos cantos gregorianos com releituras dos mais delicados versos que compositores  paulistanos da estirpe de Luiz Tatit, Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Mano Brown já produziram sobre o existir na selvagem e suave pluma megalópole.

Conversamos por cerca de meia hora sem essa  de agendar com assessor de imprensa, não que eu já não tivesse vasculhado o bastante sobre sua história pessoal, mas porque seria infundado construir um perfil sem que nele ressoassem algumas palavras espontaneamente rebatidas no calor das perguntas, o atrito contra o mundo do fazer artístico que em Juçara Marçal capturamos na tranquilidade das gargalhadas e na seriedade com que dimensiona o lugar no mundo de sua própria música que opera no “esquema de guerrilha”, quando se refere a um show que o Metá Metá vai fazer em Fortaleza, organizado por fãs sem experiência no mercado de produção cultural, o que significa abrir mão de um cachê para que o som atinja lugares do país onde nem mesmo a iniciativa privada tomou conhecimento da penetração que o projeto tem entre novas safras de consumidores de música que só conhecem a realidade do download, enquanto a indústria tradicional agoniza e os produtores seguem apostando as mesmas fichas.

Juçara destaca que foi descobrir a imensidão e as minúcias da música popular brasileira, ampliando irreversivelmente  os horizontes quando rodou o Brasil nos seus interiores com A Barca, a partir de 1998,  e nessas andanças, que também tinham propósito documental, pôde imergir no jongo, nas cantigas e levadas de Orixá, danças circulares e tudo o mais que o Brasil oculta debaixo de tapetes portugueses. Nessa mesma época foi apresentada a Kiko Dinucci, cujas composições lhe impressionaram de cara e, desde então, eles vêm afinando parcerias que teve um primeiro grande momento com o disco Padê, de 2007, em que Juçara interpreta um repertório predominantemente composto por ele, além de clássicos de Candeia e Batatinha.

Exu abre os caminhos, torna possível a comunicação, tudo o que Juçara cria parte das vivências, palavra que prefere usar antes de se considerar uma pesquisadora de música. Ainda que não seja iniciada em terreiro, lhe impressiona o olhar africano para o sagrado e a tradução que essas narrativas milenares alcançam da natureza humana.

Juçara acaba de lançar ENCARNADO, primeiro disco que assina sozinha, passados dois meses já é um clássico, a grande surpresa que não é surpresa do ano. O Metá Metá tem se apresentado com Os Mulheres Negras, além de retrabalhar a obra de Itamar Assumpção, dois enormes faróis da música paulistana década de 80; recentemente gravaram Let's Play That, de Jards Macalé, após convite para participar de coletânea. Thiago França lança mais ou menos um disco por semana, além de tocar com Criolo, Rodrigo Campos, MarginalS, enquanto Kiko encabeça outro grupo de extrema relevância para a mesma cena, que tem a voz de Romulo Fróes, o Passo Torto. A constância e compulsão criativa que os entrelaça não deixa escapar que, aliás, Metá Metá significa, em iorubá, a fusão de três em um.


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