#CADÊ MEU CHINELO?

domingo, 12 de janeiro de 2014

[águas passadas] A LENDA DA ESQUINA MALDITA


:: txt :: Juarez Porto ::
:: psy :: Maurício ::

não!eu vos juro, não era um templo de deuses.nem céu nem inferno.nem lar, nem luz.não era tampouco um palácio.não era Terra.não era espaço.não era sonho.nem mesmo um jardim.era um lugar vulgar.de uma cidade vulgar, onde habitavam pessoas também vulgares.não.vos juro, não estou louco.ou sim?jamais se pensou fazer dali, instituição ou fé.era apenas uma rua comum, não, não se pode chamar aquilo de rua...era uma esquina...uma simples, normal, boba esquina.três bares, não, eram quatro...edifícios, a tabacaria (não a do Pessoa, outra)...a farmácia, pela tela da fruteira, eu roubava bananas...as laranjas...na esquina.um acidente geográfico urbano, cuja ironia dos tolos convencionou chamar Esquina Maldita.acreditem, vos peço, em minhas suaves lembranças.era sómente um refúgio onde, abraçados na noite, tudo se dizia.tudo acontecia.havia também o garçom de nome elias.não, minto, elias era outro, este chamava-se issac.nome bíblico...bom sujeito...isaac!a minha brahma!isaac uma coca!isaac a torrada!a caipa!e seu nome voava sobre as ruas, o parque, as casas e ia esconder-se nas águas mansas do rio.estranhas gentes aquelas!riam.bebiam.fumavam.choravam.viviam.ah, os tempos da esquina!...não sei se foram bons ou maus, se estávamos cansados se tínhamos ilusões ou se era mesmo desespero.sim, talvez fosse um lugar triste.mas quem sabe éramos mesmo felizes?não sei o que pensar, nunca soube...o povo da esquina?eram tantos...tantos nomes e caras, tantas vontades e vozes.lembro-me da nêga lu, a nêga mais nêga do sul do equador, pecaminosa criatura, homem-mulher, como deve ser toda a divindade.suas gargalhadas ainda ecoam nas noites de luar, naquela esquina.os nomes...os nomes...os fantasmas malditos das madrugadas passadas.não sei.náo lembro.eram muitos...beto (ah, velho amigo!), verinha, doce verinha...renato, ricardinho, rosana...zimpeck...os goulart, três irmãos, três rumos virgínia, crescente, khátia. Gente!GENTE! quantos.quantos desaparecidos...não, não sei.eu os vi passar pela esquina, dobraram na avenida, e sumiram nas sombras do tempo.juro que não enlouqueci, não minto não...nem pensam que é uma lenda, é verdade, existiu a esquina maldita.eu vi...

....

Bar Alaska nos anos 1960
....

Garçom estou a morrer.
Não me fale de vinhos.
Eu não devo adormecer.
Um poema por noite
É o que eu quero beber.

Enquanto espero alguém
Eu preciso escrever
um verso pela emoção...
A cadeira fica mais dura
cada instante de solidão.

Meus olhos congestionados
não reconhecem os amigos,
em bebedeira afogados.
Das portas? abertos os postiços.

No ar pairam nuvens de fumaça.
Nos corações nuvens de melancolia.
Inventamos um jogo sem graça
e divertimo-nos com hipocrisia.

Correm os ponteiros do relógio.
Desesperado devoro um bauru.
Bêbado de carne e pão concluo:

SOFRER DE BARRIGA CHEIA É MAIS FÁCIL.
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