#CADÊ MEU CHINELO?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

[nem te conto] RELATOS DE UM SUICIDA

:: txt :: Jacson Faller ::

 Primeiro relato



Não. Não é por acaso que inicio este escrito com uma negativa. Sou negativo. Minha natureza é negativa. E, apesar de tudo, tenho muita sorte. Talvez não. Hoje, logo que acordei, precisei dar uma caminhada, na chuva; digo que precisei, mas, não é necessariamente isso. Era, como sempre, pela ansiedade matutina que me agride. Sempre. Sem falta. E como já foi dito, é ao acordar, ou ao amanhecer, a mais fatal hora do dia. Que é neste momento que a angústia e a ansiedade se alimentam... Pode ser também que ninguém tenha dito. Na verdade o mais importante, no dia de hoje, era dar vazão à loucura. À minha loucura cotidiana. Relatar sem discriminações meus devaneios e razões a qualquer custo. Sinto a necessidade de ao menos tentar entender um pouco de quê, necessariamente, se alimentam estes males que conosco despertam e conosco – vão dormir. Meu insucesso está garantido nesta empreitada; e isto me entristece profundamente. Sei que por mais que ainda viva não terei tempo suficiente para chegar a uma conclusão acerca deste assunto.

Agora deixarei o texto de lado. Hoje à noite irei confraternizar com meus colegas de trabalho, não creio terei alguma satisfação. Estas festinhas onde só se fala sobre o próprio emprego e todos concordam com todos e que aquele que detém a palavra é sempre melhor do que aquele que está a ouvir (claro que depois os papéis se invertem e a tortura continua), nestas festas me desperta um tédio medonho. Mas como, desta vez, fomos autorizados a convidar também amigos e familiares, talvez conheça alguém interessante; já que irei sozinho e não levarei nenhuma vítima, terei oportunidade de encontrar alguma presa. Tenho várias coisas desinteressantes para fazer antes que a noite chegue; vou me aprontar para a festa e – que eu tenha sorte!




 (Três e meia da madrugada)



Bebida de graça. Sexo fácil e sem compromisso. Um porre magnânimo. É! Faço um balanço positivo desta confraternização. Ontem à noite conheci um poeta. Tive muita pena daquela criatura, seu olhar era tão triste, tão vulnerável... (E pensar que um dia desejei poetar!). Relatou-me que em uma manhã de Setembro ele saíra para fazer seus exercícios quando (nunca pensei que intelectuais se exercitassem, que ignorância a minha!) entrou numa rua próxima à sua casa, e que nesta rua havia várias árvores com umas flores quase mortas e quase vivas e quase flores que (isso me deixou confuso) o perfume era, definitivamente, inenarrável... Era impossível para qualquer homem transmitir, em palavras, a beleza, o cheiro e o som daquele momento. Realmente eu tive muita pena dele. Pois eu, quando no dia anterior havia ido, na chuva, andar um pouco, por coincidência entrei nesta mesma rua; senti esse perfume e admirei essa beleza e, acreditem, ouvi aquele som... Porém, não sou escravo de arte alguma, não preciso, nunca, não tenho a necessidade de expressar meus sentimentos. Sou livre. E eu, apenas eu, naquela rua tive o prazer de sentir de maneira única a essência e o sentido da vida. Conhecem Murphy?  Pois é... “Se você estiver se sentindo bem, não se preocupe. Logo passa”. Passou. Acho que durou um minuto. Durou o tempo suficiente para eu me distrair e seguir caminhando enquanto o sinal ainda estava aberto aos carros. Que buzina filha da puta! Quase que causa mais danos que se o automóvel tivesse me atropelado. Mas voltando ao assunto: que tristeza – ser poeta!
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