#CADÊ MEU CHINELO?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

[do além] LUZ SEM SOMBRA




::txt::Caravaggio::


Como todo bad boy, sempre gostei mais de jogar do que treinar. Tanto é que deixei poucos estudos e esboços. Preferi sempre partir para a tela final. Talento é algo que combina com preguiça e indisciplina. Não gostamos de pensar dessa maneira. Preferimos enaltecer o esforço dos pouco dotados porque talvez isso conforte a maioria. 

Por falar em esforço, é importante que fique claro que nada do que fiz exigiu me pouco. Pelo contrário, cada quadro que pari exprime com perfeição a intensidade de minha dedicação. A técnica que desenvolvi, batizada de tenebrismo, que contrastava tons terrosos com fortes pontos de luz impunha uma rotina de horas de observação e pinceladas. Tempo que gostaria de ter despendido em salões de baile. Houve esforço também fora das telas. Uma das características mais importantes de minha pintura é retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos. Enfrentei as convenções da época e usei como modelos, no lugar de nobres e altos membros do clero, pessoas comuns das ruas de Roma, como vendedores, músicos ambulantes, ciganos, prostitutas. Coisa que nem a publicidade, em 2012, conseguiu fazer.

Por isso, fico com dois corações quando deparo me com esses aplicativos paratablets e celulares que auxiliam artistas e aspirantes a realizar suas criações. São ferramentas de trabalho fantásticas que oferecem inúmeros instrumentos, simulam as mais diferentes técnicas e realizam tarefas complicadíssimas em questão de segundo. Se Michelangelo tivesse esses recursos, quando esculpiu a estatua de Moisés, ao bater no seu joelho e pronunciar “parla”, teria ouvido como resposta “inquale lingua?”

A maioria desses aplicativos usa como ícone de identificação elementos tradicionais do mundo das artes plásticas. Paletas sujas de tintas, pinceis, brochas, telas de tecido, cavaletes, lápis, canetas. Pergunto-me se, em vinte anos, esses ícones não serão auto-referentes. Você identificará um aplicativo de pintura pela imagem de um aplicativo de pintura.

Não sei se, tivesse oportunidade, usaria alguns desses apps. Sempre levei em consideração o ambiente e a iluminação em que meus quadros seriam exibidos. Acho excessiva a luz das telas dos tablets e dos computadores. O tenebrismo fica tenebroso naqueles retângulos luminosos. Como brincar com a luz e a sombra com todo aquele brilho?

É lógico que as novas gerações tirarão proveito das últimas possibilidades. Não tenho dúvida que novas obras primas estão surgindo. Uma pena que os olhos que consumirão essas obras não se deslumbrarão mais pelas qualidades artesanais e nem pelas técnicas empregadas, uma vez que tudo é possível de ser feito e até com certa facilidade. O fascínio que arte exercia se transferiu para as ferramentas quepopularizam os artistas. Assim como prestígio migrou dos artistas para os engenheiros/programadores, vide Steve Jobs. Não vejo problema com isso. Cada época tem seus personagens e suas questões. Só acho que apps, ao contrário da arte, mexem mais com nossos bolsos do que com nossas almas.
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