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quarta-feira, 28 de julho de 2010

COLONO NA REDE



::txt::Janis Loureiro::

O acesso às novas tecnologias está modificando a realidade do trabalhador rural das pequenas propriedades. O uso de equipamentos mais modernos e avançados no trabalho diário, a expansão do uso de sementes com tecnologia transgênica e o crescimento do número de usuários de internet no meio rural são sinais de que o “colono” não é mais aquele personagem com uma enxada na mão isolado do mundo. Com esse novo perfil, renasce a esperança dos trabalhadores do campo de que as novas gerações voltem a se interessar em permanecer ligadas à terra

Quem conversa com Alexandre Schalko Holzlechner sobre internet, design gráfico, novas tecnologias não imagina, mas ele mora no interior de Ijuí. Aos 18 anos, já terminou o Ensino Médio e está cursando o Técnico em Gerenciamento de Sistemas de Informação, no 25 de Julho. Mesmo vivendo na colônia, como todos os jovens da sua idade, passa horas por dia ligado na rede mundial de computadores. Grande parte do tempo conectado a redes sociais e canais de bate-papo. Graças a sua internet via modem. Um custo relativamente caro, mas que compensa na opinião da sua mãe Senilda. “A gente paga para ele ter o mesmo que os outros jovens”, conta.

Nos áureos tempos da colonização da região, uma extensa jornada, de muita dificuldade definia o trabalho na agricultura. O maquinário era escasso e precário com o uso da tração animal. Era necessário um verdadeiro exército de homens para fazer brotar da terra o alimento. Octaviana da Cunha Holzlechner, 81 anos, presenciou essa fase, assim que foi morar com o seu saudoso marido Reinoldo na Linha 6 Oeste, em uma colônia de 25 hectares. Na época, o colono precisava ser forte, pois a cada dia, um novo desafio se projetava. “Naquele tempo, a gente plantava milho, mandioca, de tudo um pouco, puxando o arado, tínhamos poucas vacas e a gente esfriava o leite colocando os tachos dentro do açude, tudo era trabalhoso”, relembra.

O filho mais novo do casal, Valmir, 51 anos, presenciou avanços. Quando assumiu a propriedade iniciava-se a fase do plantio direto, a família comprou um trator e com o uso da máquina mudou muito a rotina de trabalho. Veio a soja e uma nova forma de organizar a produção. Com a ajuda da esposa Senilda, Valmir manteve o cultivo da horta e do pomar e até hoje fatura um bom dinheiro com a venda de frutas, verduras, cerveja preta, bolacha, cuca e pão na feira, complementando a renda principal proveniente do cultivo na lavoura.

Nos últimos dois anos, a família passou a plantar sementes transgênicas e a mudança foi mais radical. “Com os transgênicos a gente não precisa mais carpir, eu não preciso mais, nem os meus filhos”, comemora. “Fomos os últimos a adotar a novidade. A gente ainda teimava e carpia, agora a gente paga para passar a semeadeira e a nossa vida melhorou 100%”, relata. Seu Valmir estudou até a 5a série e é o pai do Alexandre, que iniciou esta história.

A tendência de expansão do uso das novas tecnologias é confirmada pelo presidente do Sindicato Rural de Ijuí, Valdir Zardin, Hoje, a mecanização evoluiu e exige do produtor conhecimento tecnológico avançado. Ele cita como exemplo o maquinário que possui controles digitais, que permitem definir áreas com precisão e o uso do GPS. "Mexer em comandos automatizados exige conhecimento de informática e aperfeiçoamento para evitar que o potencial da máquina seja desperdiçado", relata. Tal necessidade fez com que o sindicato investisse e inaugurasse um laboratório de informática. Por ano, são realizados cerca de 60 cursos de aperfeiçoamento. Zardin ressalta também como uma modificação importante o uso das sementes transgênicas que vêm se expandindo, principalmente após a aprovação da Lei da Biotecnologia, que regulamentou o seu uso. "As novas sementes reduziram o uso de agrotóxicos e facilitaram o trabalho do produtor de forma impressionante", destaca Zardin.

Alexandre também, como outros colegas, têm dúvidas sobre a escolha profissional, mas já manifesta certa rejeição pelo trabalho na agricultura. Essa realidade preocupa. Afinal, quem será o colono do futuro. “Estou pensando em fazer faculdade, talvez na área gráfica”, afirma Alexandre, que integrou a equipe que recentemente ganhou prêmio na Mostra Ensino Técnico (MEP) com o trabalho Tecnologia Assistiva: desenvolvimento de browser´s adaptados a pessoas com necessidades especiais.

No caso da família Holzlechner, a esperança está em Luis Carlos, irmão de Alexandre, que gosta de ajudar na lavoura e fala em ficar e continuar o trabalho do pai. “Eu fico feliz que o meu filho mais velho queira trabalhar na terra”, avalia Valmir. “Ninguém mais quer exercer essa profissão, mesmo sendo mais fácil agora, os filhos não querem mais trabalhar no campo. Não querem mais ser colono”, lamenta. Ele conta que toda a vizinhança passa pela mesma situação. “É bom a gente ter internet aqui, assim meu filho fica mais tempo perto da família e não precisa ir para ocentro para tudo”, comemora.

"Hoje em dia, o jovem não tem mais desculpa para deixar o campo, argumentando que não tem conforto", garante Zardin. Para ele, com a evolução tecnológica, o jovem pode fazer a opção de vida que quiser e com certeza o campo está mais atraente do que no passado. "O colono tem acesso a máquinas gabinadas, com ar condicionado e facilidades que muita gente que trabalha na cidade não tem", argumenta. "Aquele trabalhador do campo, que trabalha de sol a sol está ficando mais raro", acrescenta, lembrando que esses avanços que antes estavam disponíveis apenas para os médios e grandes produtores, estão se popularizando e atingindo os pequenos. São novos tempos e a tendência se repete também na suinocultura, atividade leiteira, aviários, atividades em que a tecnologia está cada vez mais presente.

Família Holzlechner tem laptos e conexão à internet via modem e é um exemplo do novo perfil do campo
Mesmo com acesso à rede de computadores, o campo continua com os atrativos de sempre, uma pescaria no açude estão entre as atividades preferidas dos irmãos Alexandre e Luis Carlos Holzlechner
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