#CADÊ MEU CHINELO?

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

[agência pirata] E SE UM LOBO SOPRAR A CASA?



::txt::Bruno Nogueira::

Uma das grandes curiosidades da Confraria do Buxexa é que o dono do restaurante, o Buxexa, é pai da Eline. Cantora do Hang The Superstars e uma das maiores trabalhadoras do rock nacional, braço da Construtora comandada por Fabrício Nobre em Goiânia. No fim, acho que o grande e talvez único trunfo do Fora do Eixo foi ter reunido os grandes trabalhadores da música brasileira. Como os construtores, como o casal Foca e Ana, do DoSol, e porque não, também como os próprios Talles, Pablo Capilé. Mesmo não tendo, como falarei a seguir, uma causa em comum.

Quando o FDE entrou no ritmo certo do crescimento muita coisa aconteceu. Os coletivos estiveram envolvidos desde a criação da Rede Música Brasil como em quase todos os debates de música do País que aconteciam em festivais e feiras. Começaram a entrar em áreas como teatro e cineclubes. Até inventaram de criar um site de jornalismo musical chamado N’Agulha. Fui fazer parte da equipe com Alex Antunes e uma turma mais nova e gente boa do FDE. Na época fui pelo acordo financeiro de cobrir meu salário no jornal A Tarde. Nunca recebi. Não sei se o Alex recebeu, mas com ele o acordo também era outro.

Foi uma oportunidade boa de conhecer alguns eventos de perto. No Calango, por exemplo, vi que a polêmica maior feita ao Fora do Eixo não tinha fundamento. Em edição patrocinada em parte pela Petrobras, bandas receberam cachê, outras receberam uma boa ajuda de custo e algumas, principalmente locais, das que conversei, não receberam. Mas também não se importavam com isso pela troca de fazer parte e ajudar a construir algo maior. Honesto, na minha percepção. Todo artista era, antes de tudo, muito bem tratado. Ficou claro que talvez eventos menores, que queriam entrar no circuito intermediário, de fato não pagavam cachê. Mas também nem tinham força para isso. Uma enxurrada de festivais simplesmente deixou de existir nesse período.

Para mim, relembrando toda essa história, me dei conta como na época eles pareciam estar construindo algo sólido em Cuiabá. Faltava música boa ainda. Mas o Vanguart e o Macaco Bong mostravam que eles estavam no caminho certo e que a boa música poderia aparece no futuro próximo.

O que leva a questão que, para mim sim, parece ser polêmica. Porque depois de construir tanto, o Fora do Eixo simplesmente sumiu de Cuiabá? Porque após construir uma marca forte com o mote de estar fora do eixo da produção, eles foram diretamente ao Eixo? Pegando os coletivos mais sólidos do grupo, em Goiânia, Natal e Belo Horizonte, existe um discurso de valorização de auto estima local fantástico. Estão trabalhando para levantar a moral de suas cidades. Então porque sair da base disso tudo? Cuiabá ficou sem festival Calango (alguém se ligou que ele não aconteceu esse ano?), sem Espaço Cubo, sem nem mesmo ninguém para contar a historia? Tudo para São Paulo ganhar um albergue coletivo?

Em 2010 Cuiabá parecia ser o próximo centro cultural interessante do país. No ano seguinte, sumiu do mapa. Bandas desamparadas e que não partiram para o retiro indie a São Paulo reclamam e falam de apoios a políticos locais que não se elegeram. Como toda acusação grave, carece de mais investigação. Mas parece fazer sentido que alguma coisa abalou a zona de segurança do grupo na cidade, de maneira tão forte que gerou essa debandada. E a família Capilé, que veio de Dourados, tem parte de sua historia em Cuiabá envolvida no poder público.

Claro que o discurso da Casa Fora do Eixo em São Paulo é sensacional. Mas historicamente, estabelecer base em São Paulo nunca foi uma grande dificuldade mesmo para o artista iniciante. Conquistar uma pauta no Studio SP (outro espaço que usa música como trampolim político) soa esquisito quando a casa já era um palco comum da música independente. A debandada de Cuiabá demonstra que o coletivo não conseguiu fazer o trabalho fundamental de base na própria casa. As conquistas em São Paulo mostram um exercito sendo formado em torno de objetivos triviais. É tudo tão frágil que mais parece que um lobo pode soprar a porta e a casa Fora do Eixo pode cair.

O medo parece me justificar várias coisas. Mais que uma imagem agressiva, o Fora do Eixo sempre se comporta de forma assustada. Quando o caso China estourou, no gtalk já vinha um ou dois me falar do plano para tirar o cara da MTV. A resposta de um presidente, vice, gestor, líder e demais não são nunca suficiente. Fale mal e 427 pessoas vão floodar seu twitter com ofensas. Acuse, que esse número se multiplica por vinte. Se o ditado popular nos ensina que quem não deve não teme, então tem algo muito errado por trás dessas histórias todas. No fim, não se precisa de muito esforço para deixar claro um sentimento que é comum a quase todo mundo: tem algo de errado nessa história de Fora do Eixo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

[conteúdo livre] TRANQUILA E INFALÍVEL COMO BRUCE LEE



::txt::Luiz Eduardo Soares::

Enquanto a taxa nacional média de esclarecimento de homicídios dolosos é de 8%, o país entope penitenciárias de jovens pobres, não violentos

Os primeiros nove meses do governo Dilma, na segurança pública, foram decepcionantes.
A decepção decorre do contraste entre as expectativas suscitadas pelos excelentes nomes escalados para enfrentar o desafio e a postura da presidente, que prefiro descrever a qualificar, por respeito ao cargo e à sua biografia.

O começo foi alvissareiro, com a nomeação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que encheu de esperança até os céticos.

O primeiro ato do novo ministro justificou o otimismo. Foram convidados Regina Mikki e Pedro Abramovay para as secretarias de segurança e de políticas para as drogas.

Escolhas irretocáveis, cujos significados prenunciavam avanços. Some-se a isso uma vitória do ministro ao obter o deslocamento da secretaria responsável pela política sobre drogas para o Ministério da Justiça. Ainda que o ideal fosse inseri-la no Ministério da Saúde, tratava-se de um passo positivo da maior importância.

Na sequência, mais um alento: em entrevista ao "O Globo", Pedro mostrava quão perversa vinha sendo a escalada do encarceramento no Brasil, cujas taxas de crescimento já eram campeãs mundiais: desde 2006, o tipo penal que concentrava o foco das ações repressivas correspondia à prática da comercialização de drogas ilícitas sem armas, sem violência, sem envolvimento com organizações criminosas.

De meados dos anos 90 até hoje, passamos de 140 mil a mais de 500 mil presos. Em termos absolutos, só perdemos para a China e para os Estados Unidos. Era preciso mudar a abordagem do problema.

Por aí ficou Pedro, mas já era suficiente para disseminar o entusiasmo em tantos de nós.

Enquanto a taxa média nacional de esclarecimento de homicídios dolosos é de 8% (92% dos homicidas permanecem impunes, nem sequer são identificados nas investigações policiais), o país entope penitenciárias de jovens pobres, com baixa escolaridade, não violentos, que negociavam drogas no varejo.

Ao condená-los à privação de liberdade em convívio com grupos profissionais e organizados, que futuro estamos preparando para eles e para a sociedade?

Não há uso mais inteligente para os R$ 1.500 mensais gastos com cada jovem preso que não cometeu violência? É preciso impor limites, mas também ampará-los na construção de alternativas.

Veio a primeira frustração: a presidente ordenou ao ministro que desconvidasse Pedro Abramovay. A ordem presidencial caiu como um raio, fulminando a confiança que se consolidava e expandia.

Enquanto isso, o Brasil continua sendo o segundo país do mundo em números absolutos de homicídios dolosos -em torno de 50 mil por ano-, atrás apenas da Rússia.

Para reverter essa realidade dramática, uma equipe qualificada do ministério trabalhou todo o primeiro semestre na elaboração de um plano de articulação nacional para a redução dos homicídios dolosos, valorizando a prevenção mas com ênfase no aprimoramento das investigações.

Um plano consistente e promissor, que não transferia responsabilidades à União, mas a levava a compartilhar responsabilidades práticas. Em meados de julho, chegou a data tão esperada: o encontro com a presidente. O ministro passou-lhe o documento, enquanto o técnico preparava-se para expô-lo.

Rápida e eficaz, tranquila e infalível como Bruce Lee, a presidente antecipou-se: homicídios? Isso é com os Estados. Pôs de lado o documento e ordenou que se passasse ao próximo ponto da pauta.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

[resenha] #MOTOCONTÍNUO, O NOVO DISCO DO CHINA



::txt::Monsenhor Jucá::

Entre as multifacetadas atuações artísticas de China, sem sombras de dúvidas a que o colocou sob os holofotes foi a música. Desde os tempos do Sheik Tosado, em meados dos anos 90, em plena ebulição do manguebit, que o conhecemos como músico. Depois ele teve suas andanças no cinema, na televisão (o programa Estereo Clip), no jornalismo (como colunista da nossa revista), no seu projeto musical com a galera do Mombojó (a banda Del Rey, que toca ao vivo os grandes clássicos de Roberto Carlos) e, agora recentemente, como apresentador do MTV na Brasa. Acredita-se, enfim, que é com as notas musicais que ele se sente mais em casa, embora em todas as outras áreas tenha se saído bem. Seus textos pr'O DILÚVIO sempre foram bem comentados por nossos leitores e seu programa na MTV é um dos melhores da televisão brasileira.

Vamos ao que interessa: após quatro anos de silêncio desde Simulacro, seu segundo disco solo, China retornou ontem com a novidade aguardada por muitos. Numa primeira audição rápida (em menos de 12 horas ouvi somente três vezes), não há motivos pra desapontamentos. O terceiro álbum está bem elaborado, sem enfeites em demasia, porém, há porém, com uma riqueza de detalhes que lhe confere uma sonoridade bem elegante. Os músicos convidados colaboram para esse clima. E as diversas influências que China absorveu ao longo dos anos, como a Jovem Guarda, os repentes envenenados de hardcore e o indie rock do terceiro milésimo, diluem-se aqui sem ser possível rotular o trabalho. Ou então traduzi-lo para “jóinha músiqui” através de seu inconfundível sotaque.

MotoContínuo abre com “Boa Viagem”, letra em parceria com Jr. Black em homenagem a famosa praia do Recife (“ouço o silêncio de teus tubarões”), que tem guitarras um pouco Klaxons style de André Édipo e Yuri Queiroga e com uma dupla linha de baixo formada por Dengue e Hugo Gila. “Só Serve Pra Dançar”, faixa já conhecida do público, é a que mais lembra as parcerias de China com o Mombojó (Chiquinho é um dos autores da música). Os riffs de guitarra ecoam a surf music resgatada pelos meninos no começo dos anos 2000.

“Overlock” é um dos grandes momentos do disco. A participação especial de Pitty dá o tom certo pros deliciosos solos de guitarra e pra envolvente levada da bateria de Vicente Machado. E traz um China que solta o verbo e mostra que está entre os melhores letristas da nova geração: “segure em minhas mãos/ não me deixe escapar e vamos por aí onde o perigo está”.

Na canção seguinte, “Nem Pensar em Você”, há mais sinais de letras intimistas de China: “eu preciso mesmo crescer pra te deixar no chão”. Já em “Mais um Sucesso Pra Ninguém”, que conta com a voz de Ylana Queiroga, China reclama da querida que “nunca quis ligar o rádio pra me ouvir”, uma “canção que vai morrer no ar” (aqui uma referência a ele mesmo) apesar dele dizer que ainda tem “esperança de fazer tocar essa música no seu coração”.

“Distante Amigo”, outra letra em parceria com Jr. Black, traz cuidadosos diálogos entre as guitarras a la Television e os arranjos de metais assinados por João do Cello. Já “12 Quedas” é talvez a melhor canção do álbum, na qual Lenine assina a letra juntamente com China. A música, de autoria de Bruno Ximarú, é uma delícia. Difícil rotular o estilo, há momentos que lembra a Mula Manca inspirada num Erasmo Carlos. Mas isso é uma análise muito subjetiva pra definir como certa.

Logo depois em “Terminei Indo”, Tiê empresta a voz pra adoçar a balada que não descansa “pra você dormir”. O disco segue pros finalmentes com “Programador Computador”, chega em “Espinhos” (“todo malandro tem seu dia de otário/ abra o olho o próximo é você”), música já gravada por Zé Cafofinho e termina com chave de ouro na linda “Anti-Herói”, composta somente por China e harmonizada num singelo arranjo de cordas. “Quero educar sem medo as crianças que hoje eu sou”.

MotoContínuo é um dos grandes discos de 2011! Coalé minha criança, não baixou ainda? Tomaê o download gratuito.







sexta-feira, 12 de agosto de 2011

[cc] É O MOMENTO DE UMA NOVA ORDEM MUNDIAL?



::txt::Bruno Lima Rocha::

A ameaça de calote da dívida pública dos Estados Unidos vem suscitando uma série de debates a respeito do possível fim de uma era ou ciclo de dominação dentro do capitalismo. Para quem viveu o período da Guerra Fria, o cenário hoje vislumbrado não era sequer imaginável. Hoje, pela primeira vez na história contemporânea, os efeitos da política interna e externa dos EUA pós-11 de setembro de 2001 se vêem como uma possível crise de legitimidade e perda da hegemonia mundial – no médio prazo – do único Estado do planeta que é uma superpotência militar.

Isto se dá por uma série de fatores, mas uma relação de causal de fácil compreensão é que a conta simplesmente não fecha. A equação é simples. Os EUA sozinhos gastam mais com o complexo industrial-militar do que todos os demais Estados existentes no planeta. Isto ajuda a gerar a maior dívida interna do mundo acompanhada de um progressivo corte de gastos públicos e aumento de isenções e repasses de verbas para grandes transnacionais. O efeito é o abismo social, fortalecendo os 1% mais ricos e seus poderosos lobbies. Um Império decadente com supremacia militar e sistemas produtivos dependentes da China não tem condições prolongadas de exercer sua vontade soberana acima de organismos multilaterais, desde que os Estados emergentes assim o desejem.

A gangorra poderia começar a pender para outros lados se blocos regionais ou de países, como a Unasur e o G-20, estabelecessem medidas de proteção mútua, tais como fundos de emergência e índices de risco, por fora das estruturas estabelecidas pela atual hegemonia em franca decadência. Por mais surreal que pareça, o balizador das dívidas dos países são índices de empresas privadas de análise de risco (da possível ausência de pagamento), a saber, Standard & Poors, Moody’s e Fitch. Para os organismos financiadores do capitalismo, a informação produzida através destas empresas é considerada superior a co-produzida pelas autoridades de países como Brasil, Rússia, Índia, Indonésia, China e Coréia do Sul.

Retirar a absurda legitimidade das empresas de “análise” de risco e, ao mesmo tempo, iniciar acordos multilaterais em busca de novos lastros para além do fator dólar-dólar, tal como uma possível moeda cambial dos emergentes, seria um belo primeiro passo. Se a economia do Império decadente é o motor engasgado da locomotiva mundial, romper com esta interdependência em escala planetária é tarefa de todo e qualquer governo minimamente balizado no respeito da soberania de seu país.

terça-feira, 28 de junho de 2011

[agência pirata] ENTREVISTA COM CHINA MAN



::txt y ntrvst::Paulo Marcondes::

China Man, ou China Ina, ou como preferir, vive aos 31 anos de idade um dia lindo de morrer. Depois de despontar para o cenário nacional com o som visceral do Sheik Tosado (1996 – 2001), o pernambucano tomou a rota das atuais gerações e rumou para São Paulo resguardado pelos ótimos trabalhos solo e a desenvoltura de sobra segurando o mic do Del Rey – combo de China + Mombojó que faz o Rei Roberto Carlos rejuvenescer décadas e falar de igual com os mais novos.

Após gravar Simulacro, há quatro anos, China se aperfeiçoou na produção musical e lançou, junto de Chiquinho (Mombojó) e Homero Basílio (Orquestra Sinfônica do Recife), o selo Joínha Records. Enquanto o terceiro disco solo da carreira esquenta mais e mais no forno – China promete que no mês que vem servirá a mesa com o esperado Moto Contínuo -, o cabra se transformou num dos novos rostos da nova Mtv, com o programa sobre música nacional da casa: Mtv Na Brasa (de seg. a sex., às 20h30).

Em meio a atribulada agenda do cantor/produtor/apresentador, conseguimos uma palavrinha do cara sobre o momento na Mtv, o novo álbum e até uma monossilábica solução para os problemas do rubronegro da Ilha do Retiro. Confira abaixo.

Cara, como você foi parar na Mtv? Você sente que ficou conhecido por um público diferente?

Eu recebi um convite pra fazer um teste há uns dois anos atrás. Até então, achei que não tinha dado em nada, mas aí me convidaram pra gravar um piloto de um programa bem parecido com o Na Brasa… gravei e a galera da Mtv curtiu. Daí perguntaram se eu tava afim de ser VJ, e assim rolou. E percebo que muita gente não conhecia a minha carreira musical, mas como eu tô na tv direto agora, essas pessoas estão procurando mais informações sobre mim e aí acabam encontrando a minha música, e eu tô adorando isso.

Como é essa sua nova rotina de apresentador de tv e de que maneira você avalia a reformulada que a Mtv deu na programação e na linguagem?

Cara, agora eu tenho horários a cumprir, chego na tv todo dia, gravo o Na Brasa, discuto as pautas… mas é bem tranquilo. Adoro a Mtv, acho massa trabalhar lá o dia inteiro falando de música, que é o que eu mais gosto na vida, e ainda receber salário por isso? Acho lindo.

Acho que a Mtv precisava dessa mudança. Ao longo dos anos o canal perdeu o foco da música e deixou de apresentar ao Brasil muita gente boa. Agora as coisas são diferentes… a música volta ao seu primeiro plano, e sinto que a Mtv recuperou o prestígio que tinha, de ser um canal que aponta as novas tendências musicais. Fico muito honrado de estar fazendo parte disso.


Capa do single Só Serve Pra Dançar, nova canção de China

Cara, o que falta para seu disco novo sair e no que ele vai diferir do Simulacro (2007) e do Um Só (2004) – que foram elogiados pra caramba?

Meu disco novo vai sair em julho. Agora, o que vai ser diferente dos outros? Bom, acho que o fato de eu mesmo ter produzido esse disco já diz muita coisa. Os outros trabalhos tinham produtores junto, dando pitacos e me ajudando no melhor caminho para cada música. O Moto Contínuo [nome do novo disco de China] sou eu de cabo a rabo. Lógico que tenho vários amigos que me ajudaram um monte – e todos acabaram sugerindo várias coisas – mas curti produzir esse disco. Uma certeza eu tenho: o Moto Contínuo sou eu desde a composição até a gravação dos instrumentos. Isso para mim é diferente, e acho que essa é a grande diferença para os outros discos. Sobre as composições, vou esperar as pessoas dizerem o que acham. Não posso dizer que esse disco é melhor do que os outros… para mim, todos os meus trabalhos são legais. Afinal de contas, são todos crias minhas.

Por que nomes como Ortinho, Cérebro Eletrônico, Tulipa Ruiz e você mesmo, por exemplo, demoraram a estourar? Aliás, dá para dizer que alguém “estourou” na música independente ou só ficou mais conhecido dentro da cena?

Esse lance de estourar é relativo. Eu prefiro uma carreira estável do que fazer sucesso durante seis anos e depois sumir (isso é o que acontece com todas essas bandas pseudo estouradas). O ibope não me preocupa e nem vou pagar para tocar em rádio. Prefiro fazer meus shows do jeito que são, pois cada vez que eu toco, aparece mais um pouco de gente e assim vai. Hoje em dia eu sou bem mais conhecido do que quando comecei… o processo é esse… o processo é lento.

E não acho que a cena independente esteja sedenta para estourar alguém… até porque são outras pessoas que dizem se você tá estourado ou não. Pra mim, o Cérebro e Tulipa estão estourados na minha casa. Ouço direto o som deles e mostro pra todos os meus amigos. (risos)

Como surgiu a ideia do vídeoclipe do Só Serve Pra Dançar?

Eu adoro o Youtube, vejo de tudo lá, e um dia me peguei assistindo garotas dançando em casa uma música de Justin Bieber. Daí eu pensei, será que algumas garotas dançariam uma música minha? Fiz o convite no Twitter e recebi 50 vídeos… achei incrível, nem acreditei. E daí nasceu o clipe.

assista aqui ou abaixo o novo clip de China



Ultimamente eu tenho ouvido muito uma banda instrumental de Recife, o Joseph Tourton, que tá começando a fazer shows pelo sul/sudeste. O que agrada seus ouvidos e que ainda não ganhou o destaque merecido?

Puta, man… gosto de tanta coisa. Eu vi uma banda na Bahia chamada Suinga, e pirei no som deles, lembra Moraes Moreira depois que saiu dos Novos Baianos. Também me amarro no som de Jr. Black, Catarina Dee Jah, tô sempre procurando coisas novas. Vi um vídeo no Youtube de uma banda que toca dentro de uma kombi… acho que chama Test a parada…. fodão. Agora que tenho um programa de música brasileira, tento escutar tudo sem o menor preconceito e estou descobrindo muita coisa bacana. Dá gosto de ver essa cena brasileira.

Pra terminar, o que falta pro glorioso Sport Recife voltar a primeirona?

O Sport é um time de primeira… só esqueceu disso! (risos)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

[cc] BOA VIAGEM

::txt::China::

Essa música estará no meu próximo disco, Moto Contínuo.


Ainda não tá finalizada, mas meu amigo Pedro Escobar fez esse vídeo tão bem feito, que eu resolvi colocar aqui pra vocês darem uma sacada na música e no processo de gravação. Estas imagens são do dia que eu gravei voz nela.


É apenas um esboço, mas já dá pra sacar alguma coisa.
olhaí, minha pérola...diz se eu não sou limpeza?!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

[over12] A IGREJA NA TV



::txt::China::
::ilstrç::Kika Novaes::

Estou aqui na sala da minha casa, de frente pra TV, assistindo a um programa da Igreja Universal. Nada contra os protestantes ou qualquer outro tipo de religião. Eu mesmo já fui coroinha, e todo domingo levava os óleos que o padre usava na missa, apesar de querer mesmo levar o incensário. Gosto da fumaça. Mas, voltando ao assunto... nada contra as religiões, só que fiquei espantado com o que assisti.

O programa já começou com uma sessão de descarrego pesada (mas é madrugada, o horário permite). Tinha uma mulher virando os olhos e se remexendo toda, enquanto três caras seguravam ela. O pastor, gritando feito um louco, apertava o crânio da criatura com tanta força que doía até em mim. Depois de alguns gritos de ordem, como "sai satanás, que este corpo é do senhor" e "deixa essa alma em paz", o pastor deu um empurrão na mulher, que apagou completamente e ainda derrubou um dos caras com ela. Na hora eu pensei: porra, esse cara pode curar minha insônia!

Depois de alguns descarregos e muitos gritos, o pastor se acalmou. Andou bem devagar de um lado para o outro e se colocou atrás da mesa, no altar. Mandou os fiéis sentarem, tomou um gole de água e começou a contar uma passagem da Bíblia. No início a expressão do pastor era serena, mas quando ele falou num tal de Lúcifer, meu velho, o homem pegou ar. Arrancou o paletó, começou a gritar, esbravejar e deu vários tapas na Bíblia. Era cada tapa no livrinho que chegava a atrapalhar o som da sua voz no microfone. Pá, pá... satanás, Lúcifer, pá, pá. Será que esse pastor não sabe que rola a maior campanha para cuidar bem dos livros? E os gritos? Imagino que ali estavam várias pessoas com algum tipo de problema, físico ou psíquico. Com certeza devia ter algum surdo. Mas o pastor tinha que gritar daquele jeito? Um cara que grita para impor suas opiniões, com certeza, não tem uma opinião interessante.

Às vezes ele mudava o tom de voz e falava bem baixinho, para logo depois berrar "PORQUE SATANÁS...", numa altura que chegava a distorcer o som nas caixinhas da TV. Comecei a perceber que era uma artimanha do pastor para trazer de volta os fiéis mais dispersos. Mas me dei conta de que, na verdade, aquele porra tava era sacaneando a turma, pois ninguém conversava. Pense em você num grande galpão, cheio de gente olhando para o teto e rezando, e um cara dando uma caralhada de gritos? Não tinha como alguém ficar disperso. Mas o pastor continuava modulando a sua voz e dando tapas na Bíblia.

A imagem do templo foi cortada. Acho que era só uma “palhinha” do que você vai encontrar se quiser aparecer por lá. Agora estou vendo uma sala branca com uma cascata rolando num cromaqui. Natureza, para ser mais exato. Tudo clean, tudo azul. Adão e Eva no paraíso. A câmera tá andando. Tem uma mesa marrom que parece um caixão, e um cara sentado numa grande poltrona atrás da mesa, que está com alguns livros em cima... e, sim, tem uma Bíblia. Acho que esse cara é pastor também. Vou aumentar o volume para ouvir o que ele diz, pois está falando baixo.

A partir deste momento escrevo em real time, olhando para a TV e transcrevendo para vocês o que vejo. Ele fala sobre o valor da vida. Papo água da porra! Só conversa mole. Coloca a mão em cima da Bíblia bem devagar. Parece estar acariciando a palavra do senhor. Agora ele pega outro livro e mostra a capa para as câmeras. Continua falando da vida e insere o livro no contexto.

Claro! Como eu não me liguei nisso. O pastor manso está vendendo o livro. E não só ele, mas a série toda. Quatro volumes por 58 reais. É o que está escrito na tela. O pastor agora diz que, depois dos comerciais, voltará para dar uma benção na gente. Vou esperar.

Engraçado esse sistema que eles usam. No culto gritam, e no marketing falam baixo. Devia ser o contrário. Mas se eles conseguem vender mesmo esses livros, os ambulantes da cidade deveriam pegar umas aulas, pois nem se esguelando, os coitados apuram algum no fim do dia. Opa, volta a transmissão. O pastor manso tá com a Bíblia nas mãos. Pede pra gente levantar e colocar as mãos pro céu (a gente, que eu falo, são todas as pessoas que, como eu, estão assistindo esse programa). Vou ter que parar de escrever. 6 minutos depois...

Pronto. Fui benzido via NTSC, ou PAL-M, não sei ao certo. Tomara que tenha funcionado. Queria ligar pra saber quanto tempo dura essa benção, mas na tela só aparece um telefone para pedidos de oração. Porra! Se eu quiser rezar por alguém, eu mesmo faço isso, né? Vou economizar essa grana e tentar dormir. No domingo de manhã assistirei a missa do padre Marcelo Rossi, na rede globo, para fazer uma comparação mais embasada. Aleluia, irmão!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

[cc] CHINA E O ELOGIO DA CRUELDADE



::txt::Bruno Lima Rocha::

A situação do dissidente chinês Liu Xiaobo retrata uma proposta de regime político fechado com expansão capitalista ilimitada. Enquanto o professor é agraciado com o prêmio Nobel da Paz de 2010 e não pôde recebê-lo porque se encontra em prisão domiciliar, o mundo transpira – e se cala - a cada oscilação da taxa de juros do país que é o maior comprador mundial de títulos da dívida pública dos EUA.

Nada disso é à toa. A China inspirada pelo ex-premiê Deng Xiaoping materializa um conceito caro ao neoliberalismo. É um raciocínio simples já expresso abertamente por doutrinadores como Milton Friedman. Trata de conceber as liberdades econômicas como superiores das liberdades políticas. Este Estado não inaugura uma era, mas expande em escala a conjunção de regime autoritário com economia de mercado incentivada por um governo interveniente. O regime “pioneiro” deste conceito foi o de Pinochet. Após o golpe de 11 de setembro de 1973 no Chile, a equipe econômica foi composta basicamente de ex-alunos de Friedman na Universidade de Chicago, também conhecidos como “Chicago boys”. O apelido destes mesmos operadores político-econômicos, dentro do país, era outro, um tanto mais realista, sendo chamados de “piranhas vorazes”.

Já na terra de Confúcio, os estudos recentes de implantação do capitalismo na década de 1990 apontavam para o nexo político-criminal como a forma de crescer economicamente. O lema “enriqueçam!”, proclamado por Deng ainda em vida, não veio acompanhado de normas e condutas de contenção do animal econômico e menos ainda de ampliação de direitos e garantias. Ao revés, a abundância de mão de obra barata e subserviente é essencial para aumentar as margens de quem lá investe.

Mesmo sabendo destas mazelas, no Brasil vemos economistas, colunistas e empreendedores econômicos demonstrando entusiasmo no modelo chinês como um todo. Já ouvi em programa de TV a notórios conservadores afirmando, após uma visita, a maravilha que é a “economia se desenvolvendo sem a pressão de sindicatos”. Outros se dizem gratamente surpreendidos pela “agilidade do poder Executivo” em tomar decisões fundamentais. Ou seja, sem pressão da sociedade organizada, a aliança entre Estado e Empresas faz o que quer e como quiser.

O elogio aberto da China traz consigo a idéia-guia de que o desenvolvimento produtivo está acima dos direitos fundamentais. Trata-se de pura e simples crueldade.



* Deng Xiaoping (1904-1997), líder inconteste do capitalismo chinês, homem forte da China quando do Massacre de Tian Amen, operador – de forma indireta – de conceitos macro-societários dos degenerados neoliberais de Mont Pèlerin

domingo, 26 de dezembro de 2010

[agência pirata] DAR UMA CHANCE À PAZ

::txt::Ricardo Noblat::

Há sempre a esperança de que, nesta época do ano, o espírito do Natal consiga infiltrar-se pelas veias esclerosadas do mundo. Ele é bem necessário, num momento em que toda uma fileira de países sofre o impacto de uma crise econômica brutal. Pode ser ainda mais necessário, um pouco adiante, quando tensões políticas e econômicas ressuscitarem o espectro do confronto direto entre nações.

Desde o final do último conflito global, o mundo tem sido palco de guerras localizadas — a do Vietnam, a da Bósnia, a do Iraque, a do Afeganistão. Surgem, agora, novos motivos de tensão. Há quem se lembre, contemplando este cenário, do período que antecedeu a I Guerra Mundial.

Naquele início de século XX, a civilização europeia conhecera algumas décadas de paz. Por conta disso, havia progressos econômicos e científicos, um clima geral de prosperidade, de vitalidade. Mas, nesse aumento da riqueza e do poder, alguns países sentiam-se prejudicados na divisão do bolo — por exemplo, a Alemanha imperial e o Japão. Sem que houvesse motivo concreto para isso, esse crescimento de energia levou à primeira guerra mundial, que foi também a preparação da segunda.

O mundo tem hoje pontos de estagnação e de crise. Mas, a partir do leste da Ásia, propaga-se uma onda inédita de crescimento e de enriquecimento. A China de agora é uma potência que se candidata a mais poder e a maiores espaços na geopolítica mundial. Isso lança ondas de choque por toda a vizinhança — inclusive porque o poderio militar chinês tem aumentado muito além do que seria necessário para fins defensivos.

As reações não se fazem esperar. O Japão, depois de ter sido humilhado num conflito sobre águas territoriais, já modifica os seus mecanismos de defesa — sem alterar totalmente a política pacifista com que emergiu da II Guerra Mundial. A India endurece suas posições em relação à China — com a qual já teve um conflito sério nos anos 60. A China, por sua vez, incrementa seus laços com o Paquistão, inimigo da India. Poucos dias atrás, Estados Unidos e Vietnam elaboraram um projeto comum de defesa (quem podia achar isso possível, há não muito tempo?). A Coreia do Sul reforça sua política de segurança, tendo ao lado a ameaça de um regime alucinado.

O pano de fundo deste cenário é que se projeta, a médio prazo, uma mudança de posição relativa entre as grandes potências, sendo a China candidata ao número um. Isso também aconteceu antes da I Guerra Mundial, envolvendo, ali, Inglaterra e Estados Unidos. Faz parte da psicologia nacional americana a identificação de adversários. Se, nesse contexto, a China passa a ser vista como adversária, isso prejudicaria profundamente o relacionamento entre os dois gigantes.

Nenhum dos dois tem tradição de diplomacia sofisticada — e a China vem de um período de profundo isolamento, seguido, agora, por acessos de insegurança que alimentam um nacionalismo mal resolvido. Neste cenário, quem poderia atuar como mediador no caso de um agravamento das tensões? Talvez, só mesmo o medo do pior — de um conflito incrivelmente devastador, com armas nucleares.

terça-feira, 27 de julho de 2010

DADO VILLA LOBOS

::txt:: Oscar Vasconcelos::

Dado Villa Lobos integrou uma das bandas mais importantes da música brasileira, a Legião Urbana. Isso todo mundo já sabe, e ele poderia tranquilamente ficar vivendo desse glorioso passado. Justamente aí reside o grande barato, Dado não se acomodou, seguiu adiante. Cuidou de seu próprio negócio, produziu bandas novas, tocou com os amigos, tornou-se um premiado compositor de trilhas para o cinema nacional e lançou um inspiradíssimo trabalho solo (o próximo já está a caminho!). Recentemente, a partir de uma intervenção uruguaia, resolveu matar as saudades de palco com o antigo parceiro legionário e dessa forma presentear todos nós.

Dado, vamos começar falando sobre a Rock It. Era um selo e depois virou gravadora?

Começou como uma loja, virou um selo e gravadora.

Como surgiu a idéia? Qual era a proposta inicial, quais as metas atingidas e a razão da suspensão das atividades?

Isso começou numa conversa com o produtor da Legião na época, o Mayrton Bahia. Era um cara super visionário, na verdade foi quem nos manteve dentro da EMI porque a gente estava com um pé fora, queria ir embora, não ia fazer disco coisa nenhuma... E ele teve uma conversa decisiva com a gente, explicando como as coisas andavam ali no eixo cultural RJ-SP, a indústria e a coisa toda... Enfim, anos depois produzindo nosso terceiro disco (Que País É Este?) ele virou e falou: “Se eu fosse vocês eu abria uma editora, agora! Vocês têm que ser donos do seu patrimônio e seu patrimônio é a sua música.” Pensei, “boa dica”. Abrimos a “Corações Perfeitos”. Então do “Quatro Estações”(1989) em diante, é tudo nosso. Não está encalhado numa editora de terceiros que administra a música, entendeu? Ta na nossa mão. E logo depois, no ano seguinte, ele virou pra mim: “Olha, abre uma gravadora. Está chegando a hora de segmentar mais, ter e dar mais oportunidade ao mercado da música, pro artista ser absorvido.” Porque ficar focado só no grande “mainstream” das gravadoras... Você ramifica e consegue de repente estabelecer um bom acordo com as distribuidoras. Foi dito e feito. Esse mesmo cara em 92, quando a gente gravava nosso quinto disco (“V”), era diretor artístico da Polygram. Num congresso dentro da empresa, onde estavam funcionários de todos os departamentos do Brasil inteiro ele virou pros vendedores e falou: “Vocês estão com os dias contados”. Assim, a música digital já estava sendo pensada, já havia o surgimento do cd, pro tools chegando e o Mayrton já estava na frente.

É o período que a convergência digital que ganhava força lá fora.

Exatamente! Foi um pouco “pré mp3”, até então os arquivos eram enormes e não havia capacidade de tanta velocidade.
Bom, por conta desse cara a gente abriu essa loja, “Rock It”. Eu, Fernanda (nota: esposa do Dado), André Muller (baixista da Plebe Rude) e a mulher dele, a Martha. A idéia era vender a “cultura rock”, e tudo que pudesse gravitar em torno dela. Camisetas, discos, revistas, cintos, badges... E ao mesmo tempo, a gente botava ali uma banquinha de fitas k7 demo. As bandas que estavam começando desovavam ali e a gente ouvia e vendia também. Passaram por ali nomes como Planet Hemp e Pato Fu. A gente inaugurou em 91, mas a “Era Collor” destruiu a economia desse país e a indústria fonográfica foi pro buraco. As gravadoras começaram a se reestruturar e fechar estúdios. E já existiam estúdios independentes que, com esse estouro do Collor, também ficaram às moscas. Aí eu cheguei no cara com quem a gente tinha acabado de gravar nosso quinto disco, no estúdio Mega (que também estava ocioso), e falei “vamos fazer um acordo, eu tenho uma banda, to afim de gravar, tenho a distribuição da EMI e a gente racha os lucros” e foi o que fizemos. A banda era a “Second Come”, primeiro disco deles. Gravamos e assim nasceu o selo.
Depois o André saiu fora. Eu fiquei sozinho e, como péssimo administrador, na verdade o comércio do disco começou a emburacar, né? Começou a chegar o mp3... Acabou se tornando um péssimo negócio.

O início da mudança de paradigma?

Isso! Vai mudando o paradigma e ali não deu. E o Brasil é um lugar bem inóspito, cara, pra quem tem um pequeno comércio. Você é jogado à margem sempre. Você vai ter que sempre “quebrar” o Fisco e aí é impossível, é inviável. A carga tributária do disco, pra sair da gravadora e chegar até você, é absurda. Um péssimo negócio até hoje. Foi assim que surgiu a Rock It, que hoje é a minha pessoa jurídica e lancei por ali meu último projeto na MTV, licenciado pela EMI. E você continua sendo o dono do seu catálogo.

Já que falamos um pouco sobre a mudança de paradigma, você acha que com a popularização da internet, trocas de arquivos digitais, há um caminho possível pra indústria fonográfica?

O que eu sinto é que hoje o meio mais eficaz de propagação da música é a internet. Só que ainda estamos no download gratuito. Outro dia eu saí da minha terapia, entrei no carro, tava ouvindo a CBN e era um programa que falava sobre novos lançamentos. O apresentador começou a falar bem do disco novo da Sade, e que ela levou 10 anos desde o último trabalho. Foi super bem recebido pelo mercado americano, mas aí o cara fez uma ressalva, “não é tão maravilhoso assim, ela está no top da Billboard, mas só vendeu 190 mil CDs, que é pouquíssimo”. E isso representava uma retração de 40% em relação ao ano anterior. Veio a interlocutora e disse “é mas isso é o disco, o download agora é que está arrebentando, é o novo caminho...”, o cara vira e fala “olha, eu não tenho tão boas notícias assim... há uma retração do download pago de 23% em relação ao ano passado.” Então é aquela coisa, se você é cliente e vai no iTunes baixar, bacana!

É uma possibilidade, né?

Sim, você ter a regalia de ser cliente daquela loja e receber o lançamento antes, poder comprar, baixar, ouvir com exclusividade... Eu seria um cliente em potencial se a gente pudesse comprar no iTunes, coisa que o brasileiro ainda não pode. Então a gente continua baixando de graça. Mas é um processo irreversível. Você não vai voltar atrás. É como o cinema mudo quando ficou falado. Você não vai continuar fazendo cinema mudo! A questão é “como” equilibrar e adaptar esse novo paradigma à produção. “Como” fazer isso ser rentável de novo, porque o produtor tem que ganhar, o compositor tem que ganhar e o artista tem que ganhar. Mas eu acho que dentro desse ambiente estão se encontrando pequenas soluções... Às vezes eu penso que falta realmente os canalhas chegarem pra tomar conta do negócio. Como eram os produtores de disco e as multinacionais, eles tomaram conta da parada e a coisa funcionava. Ta meio “largado”...

Você tem o hábito de baixar?

Tenho! Quando eu to afim. E eu acho fabuloso! Mas eu gosto de ter o disco dos meus artistas favoritos, de ler... Às vezes baixar o álbum inteiro (encarte completo, faixas...) também dá trabalho.

E ainda há demanda pelo formato físico do produto.

Sim, de você ter ele na sua mão, ver, folhear o encarte... Mas isso vai acabar... A galera da nova geração não ta nem aí pra coleção de disco, mas você vai ver no computador deles e lá tem milhares e milhares de músicas. Provavelmente nada foi pago por nenhuma delas.

Mas é complicado pagar 40 reais num cd que é lançamento. Creio que os poucos interessados normalmente esperam o preço cair. Não é?

O CD tinha que custar R$20, R$23 no máximo... Podia ser igual a livro, não paga imposto! É zero! Mas não passa no congresso a lei...

Me fala um pouco sobre o seu trabalho com trilha pra filmes. Começou com o Bufo (filme baseado no livro de Rubem Fonseca), certo?

Sim, primeiro foi o Bufo. Veio num momento bem bacana, em 2000. Um amigo meu que tinha trabalhado na Rock It, era amigo do diretor (Flávio Tambellini) e fez a ponte. Era o primeiro filme do Flávio como diretor e foi incrível. Era um novo universo a ser explorado. Fazer a abertura, temas dos personagens, música de fundo...

Como funciona o processo, você vê a cena antes? Alguém te situa?

O cara primeiro te situa. Você lê o livro, lê o roteiro, vê o perfil de cada personagem e já entra naquele ambiente todo.

Tem um envolvimento total então.

Com certeza. O diretor vem e conversa o que ele pensa da música, vem o editor, o cara que monta... Geralmente ele já monta em cima de música. Então já vem um andamento ali, você às vezes fica preso a uma música referência do cara que editou. Pelo menos preso ao andamento. E são várias motivações ali dentro, a cena, o ator, a expectativa geral... Você está dando um suporte dramático ao vídeo/imagem, ao diálogo e à trama.

Sobre o “Jardim de Cactus”, quando surgiu a idéia do primeiro solo e quanto tempo levou a “gestação” dele?

Foi justamente depois de fazer algumas trilhas. Depois de ter meio que ter encerrado o processo dentro da gravadora, de produzir e lançar artistas novos, foi uma série. Desde o começo foram mais de 30. Nos anos 2000 eu terminei com Comunidade Nin Jitsu e Ultramen. Foi quando a coisa foi pro buraco. Pirataria. Quando eu fui a Porto Alegre eu vi aqueles discos que eu tinha produzido, e que sabia quanto tinha custado ao caixa da gravadora, sendo vendidos a R$2,50 na banca do pirata, eu falei “ah, agora chega! Parei”. Porque era justamente o lugar onde a gente ia recuperar, Rio Grande do Sul.
Aí tinha uma série de temas que eu vinha fazendo até por conta dos filmes. Eu tava sempre no estúdio e apareciam idéias. Então comecei a buscar parceiros musicais. Veio a Paula Toller (compositora da letra de “Jardim de Cactus”, “Dias”...), chamei o Fausto, o Toni Platão, Humberto Effe, China – de quem eu tinha produzido um trabalho um ano antes... E por aí foi. O projeto foi tomando uma forma, as músicas foram aparecendo e acabou virando uma coisa, tipo, orgânica mesmo. A idéia era sempre dividir os vocais com o parceiro. Foi bacana. E ali está um resumo, ou retrato de todas as influências que eu tive o tempo todo, desde que eu nasci. Meu pai tocando uma peça do Chopin, por exemplo, finalizando o disco. Coisas experimentais, tem o Chico Buarque cantando uma música, tem uma do Caetano Veloso e Beto Guedes... E todos os parceiros são companheiros, cúmplices de uma geração.

Como surgiu a idéia de lançar pela MTV o trabalho “ao vivo” antes da versão em estúdio?

Foi uma coisa de louco isso aí... Era essa coisa do “disco”, ninguém entendia mais o mercado do “disco”... O cd era uma coisa quase abominável e existe o fato de que o Brasil é um dos maiores mercados consumidores de dvd musical. Uma coisa louca. Você pega o DVD da Ivete Sangalo e foram vendidas 600, 500 mil cópias no país, que pro mercado hoje é algo incrível. A Madonna com essa última turnê parece que vendeu 120 mil DVDs no mundo inteiro. Então esse lance de DVD aqui é uma coisa de doido. As pessoas gostam mesmo. Adoram. Eles botam o DVD da Ivete Sangalo, do Calypso, aí vêem a coreografia e dançam juntos, aprendem os passos pra ir ao show e fazer tudo certo. Essas coisas...
Enfim, eu tinha mostrado a master do cd pro pessoal da diretoria da MTV e eles vieram com a idéia, “porque você não lança aqui esse projeto ao vivo?” Eu pensei “putz, vai custar uma grana, mas é uma boa idéia!” Você faz o lance e já divulga na televisão, um veículo de massa, e é como o Brasil funciona, o consumidor compra o dvd ao vivo de música.

Mas nesse momento você tinha o disco de estúdio pronto?

Disco pronto! Mas como eu tinha licenciado na EMI, eu não licenciei o cd que originou essa idéia toda, o de estúdio. Porque saiu o DVD e o cd do DVD ao vivo. Fizeram 8 mil DVDs e 5 mil CDs, venderam tudo e acabou. Foi muito bom.
Ano passado um amigo meu que está abrindo um selo em São Paulo, “Black Records”, pediu pra lançar o cd de estúdio.

Esse cd de estúdio ficou disponível no teu site, né?

Ficou uma época, e quando esse cara resolveu lançar eu pedi pra tirar do site. Foi bom porque ele ia ficar “perdido”...

Seu próximo solo vai seguir o mesmo formato? Já está em andamento?

Já. Eu tinha começado ano passado e o “mote” dele, o conceito básico, era o “colapso”. Colapso em todos os sentidos. Seria a idéia central. Mas como a coisa do “colapso” não vingou tanto aqui no Brasil, o Lula falou que era a marolinha, né? Na verdade está tudo mascarado, continua tudo colapsando... Tem um amigo meu que fala que o mundo está passando por um processo de “mulambalização”, uma coisa irreversível também.
Mas temos vários temas e canções já. Canções de amor que eu queria botar pra tocar na novela. Da Record, se possível. “Temas de novela”, “Tele-temas”, taí, um bom título! (risos) Olha, acabei de ter essa idéia, botar o nome do disco de “Tele-temas”. Porque é bem isso, tudo que vem da televisão, que gera o colapso, degradação, mulambalização da cultura.

Esse próximo trabalho tem novos colaboradores?

Tenho, no sentido de que agora eu estou fazendo música com o Nenung (Darma Lóvers), eu tinha gravado duas dele, mas agora eu fiz a música e ele encaixou a letra. Continua o mesmo cara de sempre, fabuloso. Tem o Marcelo que é do sul e tem uma banda de samba rock violento, se chama “Robô Gigante”. Marcelo Gigante. É um som pesado. E ele faz de tudo, é compositor também. Tem o André Mendes, da Bahia, de uma banda que eu lancei chamada “Maria Bacana”. Ele também ta lançando um disco solo agora, é um cara bem interessante.

Como rolou essa volta aos palcos com o Bonfá e qual foi o envolvimento dos uruguaios nisso? A Legião já tinha tocado fora do país?

Então, foi surreal... A Legião tinha tocado uma vez em 1986, no 1º Festival de Rock de Montevidéu. Foi assim, há 2 anos o Hermano Vianna, irmão do Herbert, me mandou um email falando de um amigo dele que queria me conhecer porque tinha um projeto e tal. Eu falei “tudo bem!” Marcamos na Pizzaria Braz e chegou esse uruguaio com essa idéia que era o seguinte “olha, tem uns caras lá no Uruguai que estão organizando um tributo, uma homenagem à Legião Urbana e eles queriam muito que você e Bonfá fossem lá.” Eu pensei, “cara, como é que é? Que coisa esquisita...” Ele explicou e depois ele mandou um email detalhando tudo. Então tinha os caras do Bajofondo, La Vuelapuerca que é a maior banda de rock da América Latina hoje em dia e vários outros artistas. E assim a coisa foi tomando um jeito. Eu falei “Bonfas, vamos nessa? Parece que é bacana! Vamos ver o que é isso.” Era um repertório de 20 músicas da Legião e os caras entre eles tocavam as 10 primeiras. Foi a primeira vez que aquelas bandas todas se reuniram pra fazer algo juntas. E ali se juntaram pra tocar Legião Urbana. Na 11ª música eu e Bonfá entramos e fomos até o fim do show. Isso foi num clube chamado “La Trastienda” (filial uruguaia, a matriz fica em Buenos Aires) e tinha mais de mil pessoas, completamente lotado. Tivemos que fazer o dia seguinte, foram 2 dias igualmente lotados só de gente dali mesmo. Foi sensacional!

E existe a possibilidade de shows assim no Brasil?

Sim, a partir dessa experiência, resolvemos migrar a idéia pra cá, com essa banda. É engraçado porque a música chegou até lá, então bateu lá dentro nos caras, eles se identificam com aquilo. É bem bacana.
Bom, a idéia é fazer uma excursão mínima, tipo 7 ou 8 cidades. Dependemos do “show business”, da indústria do entretenimento absorver isso e executar. Porque não é uma coisa fácil, é um projeto que precisa de uma captação bacana. Tem que trazer os caras do Uruguai, ensaios, em cada praça ter o cara do local pra cantar algumas músicas... A gente fez Brasília e Fortaleza, esse do reveillon em Fortaleza foi foda!

Esse show de Brasília, no Porão do Rock, teve alguma sensação diferente? Considerando que última passagem da Legião por lá foi o show mais conturbado da trajetória da banda.

Esquisito, né? Na verdade essa dúvida bateu. Pensei “na última vez que a gente esteve aqui foi “aquele”... mas hoje...” Enfim, era 88, quase 22 anos atrás. Agora o povo tinha crescido, os jovens não eram os caras que estavam naquele show, fiquei bem mais tranquilo (risos)... Mas cara, foi incrível, super emocionante mesmo! Eu tinha tocado lá uma vez, solo, um ano antes num festival e tinha sido ótimo também. Um mar de gente e foi muito bom. Lá foi o André Gonzáles do Móveis Coloniais de Acaju que cantou com a gente.

Teve mais uma galera participando?

Teve o Herbert (Paralamas), Philippe (Plebe Rude)...

E vocês escolheram antes os convidados?

Escolhemos antes, ensaiamos só com o André, eu acho... Com o Philippe é na hora mesmo, “Geração Coca Cola, vai!” Em Fortaleza foi o Catatau do Cidadão Instigado, bem legal. Então a idéia é essa, fazer uma grande festa em cada lugar, pra lembrar eu e Bonfá, relembrar o repertório...

Vocês pensam em alguma celebração em relação aos 25 anos do lançamento do primeiro disco?

Não. Não pensamos em absolutamente nada.

Nem a gravadora?

A gravadora praticamente não existe. E é acéfala pra pensar nessas coisas. Estão pensando provavelmente em lançar o “Rebolation”, ou alguma coisa assim que faça “sentido” nos dias de hoje.

Como está hoje o diálogo com a família do Renato?

Está melhorando, pelo menos com a entrada desse uruguaio existe uma interlocução. Porque não existia mais. O que existia eram eles me processando na justiça e coisas do gênero. Na real, na minha opinião, eles são mal assessorados. A família peca nesse sentido.

E quanto a novos lançamentos de outtakes e registros ao vivo?

Tava até na pauta, mas agora não vai ter mais. Isso vai ser colocado na geladeira. Justamente por esses conflitos envolvendo os “assessores”. Mas nada de mais.

Você tem idéia da quantidade de material que pode ser lançado? O Renato falava de uma caixa que se chamaria “Material”, não é?

Exatamente, “Material”. Seria mais ou menos nos moldes da antologia dos Beatles. Outtakes, coisas que a gente gravou em programas de televisão lá dentro, com qualidade, coisas que não saíram, como “Juízo Final” que era pra estar no segundo disco e ficou fora por falta de espaço físico no vinil. Músicas instrumentais que a gente nunca lançou e essas coisas que às vezes são bizarras dentro de um estúdio de gravação.

Seria um projeto mais voltado para os fãs?

Sim, para suprir essa demanda final.

O que você acha desses registros solo, póstumos, do Renato?

Eu acho que eles conseguiram transformar dois discos, um em inglês e um em italiano, em sete. Isso é um milagre da natureza! Eu me surpreendi uma vez quando ouvi takes de uma fita cassete que foi gravada lá na minha casa pelo irmão do Dinho, o Ico, depois rodou direto entre os amigos e eu até tinha ouvido há uns 20 anos na rádio Transamérica, virou cd também.

O “Trovador Solitário”.

Deve ser isso. Esse que saiu agora eu ainda não ouvi, acho esquisito... Mas se você for ver a qualidade artística da coisa, ter um Caetano Veloso fazendo um dueto com ele deve ser interessante, a Fernanda Takai, Adriana Calcanhoto... O da Marisa Monte parece que é deplorável, né? Esse dueto parece que não é muito bom não...

É um rascunho...

É um rascunho de “Soul Parsifal” que entrou no “A Tempestade”. Mas também não dá pra acreditar em tudo que o jornalista escreve, cada tem que chegar às suas próprias conclusões.

Você acredita que por conta desses novos lançamentos, essa massificação do Renato, pode surgir uma confusão na cabeça dos novos fãs em relação ao que é “do Renato” e o que é “da Legião Urbana”?

Assim, é muito simples decodificar isso. Renato solo canta em língua estrangeira, inglês e italiano. O Renato com a Legião canta em português. Isso “ele” falava, “eu não quero misturar o que eu faço aqui com o que eu faço sozinho”. E foi cantar em língua estrangeira. Ponto. Agora, claro, ele fez duetos na televisão com Dorival Caymmi, Adriana Calcanhoto... Participações especiais nos discos do Paulo Ricardo, Plebe Rude... Um clássico da Plebe, “Pressão Social” e ele tava bebasso no estúdio, só gritava, foi terrível (risos).

Você está acompanhando o desenvolvimento do filme “Somos Tão Jovens”?

Estou, de certa forma, porque o idealizador, que chamou o Fontoura pra dirigir, era um grande amigo do Renato, o Luis Fernando Borges. Então eles desenvolveram a coisa toda e eu li o roteiro. Cara, o roteiro é fabuloso, estão de parabéns! É sensacional a dinâmica da história. O Renato é um cara super incrível, do bem, pra cima... Isso é muito bom. Eu espero que seja filmado de acordo.

A história passa por você?

Passa, mas passa rápido. Ali no final. Na verdade é o Renato pré-adolescente até acontecer a Legião Urbana. Passa pelo problema na perna, Aborto Elétrico, ele sozinho, a Legião se formando e o primeiro show no Rio de Janeiro, aí tem eu. Então apareço muito rápido, ainda bem... (risos) Mas fiquei muito contente com o que li.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

MOMBOJÓ



# conection #
Mombojó no Ponto.Ce

txt n' phts: Keka


Foi assim que na sexta-feira, seis de novembro de dois mil e love. Um dia cheio de ansiedade e um festival rolando no fim-de-semana. Há mais de dois anos a cidade esperava por esse dia. O show começou mais ou menos às 1h15 da madrugada do dia sete. As bandas anteriores não eram nada empolgantes, não muito boas, essa é a verdade, mas deu até pra rir.

Depois de tanta espera, Mombojó entrou no palco para o delírio da maioria dos presentes. Confesso, até a metade o show estava meio desanimado. Acho que o Felipe S. estava com preguiça ou agoniado com tanto calor dessa cidade. Aí, mandou entrar, nada mais nada menos, do que o onipresente, o cara do gingado, o China! Foi nessa parte que a galera começou a se animar também. Uma energia do caramba.

O novo álbum, Amigo do Tempo, ainda não saiu, mas tocaram algumas faixas como "Casa Caiada" (que, definitivamente, não é música para se dançar), "Amigo do Tempo" (que além de ser faixa título do álbum, eu escutei quinhentas vezes para aprender a letra!) e "Papapa" (talvez a hora mais divertida da noite, já que Felipe chamou ao palco algumas meninas da plateia para ser dançarinas).

As músicas do Nadadenovo soaram um pouco estranhas sem a melodia da doce flauta dO Rafa, mas o público improvisou uma com um assovio coletivo. Um dos momentos mais esperados foi, com certeza, quando tocaram "Deixe-se Acreditar". Nessa hora, fiquei ali no pé do palco. E, meudeusdocéu, a gente tira energia até de onde não tem mais só para ver esses músicos absurdos tocarem suas músicas absurdas e pulsantes.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

CTRL-Z DA REALIDADE

# que conversa é essa?! #
À venda num futuro próximo



txt: China
ilstr: Kila Novaes


A tecnologia trouxe benefícios e comodidades até para quem reside no terceiro mundo. Hoje, temos diversos serviços para "adiantar" a nossa vida e, na real, estamos começando a ficar sem utilidade, pois, no mundo moderno, só precisamos pensar e mover alguns dedos. Até a fala está sendo deixada de lado. Se precisamos de novos amigos, Orkut neles, mas sem voz, só palavras escritas numa tela. Enviar uma carta? Sair de casa? Não. Email! Aquele cafezinho rápido? A cafeteira elétrica faz. Mas ainda faltam algumas invenções que, nesses tempos nebulosos, ajudariam muito.

Imagine se existisse um CTRL + Z para a realidade? Tudo seria mais fácil. Com um simples toque voltaríamos as nossas ações ao ponto anterior, ou, sendo mais claro, desfaríamos as merdas que fizemos. Desde um copo que escorregou da mão a um assassinato. O poder de voltar atrás as decisões mal acertadas ou até mesmo o que não tem concerto. Se existisse um negócio desse em 1995, a Parati marrom da minha mãe não teria batido em três carros e eu não estaria dirigindo sem carteira de motorista. Depois que eu visse o estrago, apertaria meu CTRL+Z de pulso e, como mágica, tudo voltaria à mais perfeita ordem. E aquela namorada que escorregou das minhas mãos depois do par de chifres que botei nela com a menina mais feia da minha rua? Que merda! Ops, que merda não, CTRL+Z!

Para os políticos essa tecnologia seria um artefato de extrema necessidade. E consequentemente haveria mais honestidade nesse país, pois, se a cada vacilo eles ativassem o CTRL+Z, menos estragos fariam na desafortunada fortuna do Brasil. E melhor que isso, o nosso voto nas eleições poderia ser alterado. O senador roubou? CTRL+Z! A ministra está esbanjando com cartão corporativo? Volta! Será que a Apple ou a Microsoft já estão preparando essa revolução tecnológica? Se já podemos usar chips em nosso sistema nervoso, por que não inserir outras vantagens nesse negócio? "Implante um chip Intel, volte a andar, e leve de graça uma versão demo do novo CTRL+Z, um sistema que desfaz atos indesejados". Que mundo perfeito!

O meu único receio a esse produto são os efeitos colaterais. Acho que teríamos um "bug" humano, uma falha no sistema operacional real. Viveríamos no limiar entre a verdade e a mentira, o ato e a consequência. Estaríamos sempre em cima do muro, mesmo tendo pisado nos dois lados que a muralha do arrependimento separa. Não daria para descobrir o que é real. As pessoas seriam mais falsas, pois, com apenas um click, alterariam as ações a seu favor e nunca saberíamos a verdade dos fatos. Nos meios de comunicação haveria um caos generalizado. A cada minuto as manchetes mudariam e não teria como a imprensa acompanhar a velocidade das mudanças. Certamente passariam por mentirosos.

Já me disseram uma vez que "para cada tecnologia existe uma guerra, para cada progresso uma degradação". Resumindo, iriamos acabar nos acostumando com os novos tempos e, claro, continuaríamos nossa caminhada em busca da solidão total, real e virtual! Por enquanto, a tecnologia do CTRL+Z humano ainda não está disponível, mas temos o modelo analógico: a nossa consciência!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

RAFAEL CRESPO

# que conversa é essa ?! #



De outro planeta

txt: China
pht: arquivo pessoal



Rafael Crespo, 35, guitarrista. Foi o responsável pelos hits mais importantes do Planet Hemp. Hoje em dia ele é sócio de um estúdio no Humaitá-RJ, e tenta montar uma banda de country/folk/rock no Rio de Janeiro. “A tarefa mais árdua que Deus me deu”.

Porque é tão difícil montar banda no Rio de Janeiro? Os músicos estão impregnados de clichês?

Primeiro porque tem pouco músico, mas rola um pouco disso que você falou também. Já ouvi não mais de uma vez que o Rio é o túmulo do rock, assim como dizem que São Paulo é o túmulo do samba, mas não acredite nas coisas que você ouve.

Eu acho que os cariocas num são bons pra cantar rock. Acaba sempre com aquela sonoridade B rock, anos oitenta.

Pode ser. Tem umas coisas boas mas o que se sobressai é mais isso mesmo. Talvez pelo fato de todas as grandes gravadoras, as emissoras de tv e rádio estarem concentradas aqui, criou-se essa cultura pop no Rio de Janeiro, enquanto São Paulo sempre foi mais underground, e os estados estavam muito distantes para se preocuparem com isso.

Tu acha que os anos 80 fizeram mal a cena rock que se criou depois?


A que veio depois não porque quem veio depois, veio puto com o que rolava antes. Falo de Raimundos, Planet Hemp, Chico Science...foi uma ruptura com aquela coisa de Blitz, Barão Vermelho Kid Abelha, o rock de mauricinho.

Nessa época tu já tinha banda ou foi no Planet Hemp que começou tua carreira?

Não. Comecei a tocar razoavelmente, o suficiente para ser aceito numa banda, lá pelo meio dos anos 80.

Guitarra?

Isso, guitarra. Lembro até hoje do Rock in Rio I, o Herbet Vianna chamando o Angus Young (ACDC) de mão dura. Me deu uma raiva, mas hoje eu entendo.

Porque ele disse isso?

Porque ele achava que o Angus Young só sabia tocar aquele som, que ele não tinha swingue para tocar um reggae ou um ska. Mas quem disse que o Angus precisa tocar ska, o cara tocava numa das maiores bandas de rock da época, era um guitarrista showmen, o cara não tava nem aí. Cada um faz o seu som.

Tu acha que o cara pra viver de música tem que ser, digamos assim, versátil?

Aqui no Brasil, sim. Já ouvi uma definição de malandragem que era o seguinte: Malandro era o cara que conseguia viver bem e se divertir sem dinheiro, ou seja, foi o jeito que o pobre inventou para viver melhor. Foi aí que surgiu a malandragem. Acho que o músico brasileiro é meio assim, se vira como pode para fazer o que gosta.

É, tu poderia ter feito parte de outras bandas rentáveis, mas você sempre investiu no underground.

É, eu fiz parte de uma banda que acho que vai ficar marcada na história de algum jeito, não sei se bom ou ruim. Podia ter me acomodado com o que tinha conseguido, mas não ia me sentir feliz e realizado enquanto visse tantas bandas boas e de qualidade serem desprezadas e subestimadas.

Porque tu saiu do Planet no meio do caminho? Só pra não ser preso? (Os músicos do Planet Hemp foram presos pela polícia em 1997, época em que Rafael se afastou da banda).

Pois é, você já viu aquele filme, Matchpoint, do Woody Allen?

Não.

Então vai ver! Ele diz que na vida tudo é uma questão de sorte. Acho que foi isso. Saí num momento em que não concordava com os rumos musicais que a banda tava tomando. Não consigo fazer uma coisa e olhar na cara das pessoas se eu não tiver tendo prazer no que faço e no convívio com eles. Então rolou aquilo, mas depois a gente amadurece, cresce e...sei lá, morre um dia, né?

Mas tu voltou pela grana ou porque se entendeu com os caras?

Eu me entendi com os caras no momento que eu tava mais duro, essas coincidências são foda, né?

Tu tem muita composição nos discos do Planet, mas ao mesmo tempo, você tem essa coisa de colocar os teus sons na internet . Aqui em Recife, os compositores que ganham bem com direito autoral, não querem botar as músicas na rede por medo de perder grana. O que tu acha? O cara perde, ou ganha na frente liberando as músicas?

Bom, eu não vejo música por esse ângulo. É como se o Picasso cobrasse pelo número de vezes que alguém visse um quadro dele. Acho que primeiro, música é uma arte(mas pode ser que eu esteja enganado), logo me considero um artista, e o que eu mais quero é que as pessoas ouçam minhas músicas, conheçam a minha arte. Dinheiro é conseqüência de vários fatores. Não é nisso que eu penso quando faço um som, nem quando tento achar um meio para que as pessoas possam, ter acesso. Acho que quem vive de música, quem tem um nível de vida elevado, não quer perder nunca o que conquistou. Desse ponto de vista eu ate entendo(embora não concorde), mas para o artista que ta começando, que não tem porra nenhuma, não faz diferença. É uma questão complicada, não é tão simples assim.

Gostei da analogia com os quadros de Picasso. Se ele cobrasse ia ser complicado mesmo. Tu agora tá tocando em quantas bandas? Quando eu te conheci, você tinha pelo menos umas seis.

Pois é, eu era jovem, né? Cheio de energia. Agora eu só toco com o Polara, e faço umas músicas que eu tô tentando divulgar sob o nome de Poniboy. Acho que é isso, não tenho mais nenhum plano ambicioso para conquistar o mundo, mas também não me contento com o que tenho. Então a questão é: Enquanto eu tiver criatividade para fazer música, enquanto não me provarem que o que eu faço e ruim, eu vou continuar fazendo e divulgando da maneira mais ética possível o meu trabalho.

Tu já se vendeu (ou se rendeu) a pressões de gravadora alguma vez?

Depende.

Como assim?

O q isso significa? Assinar um contrato e se render? Não. Nunca.

Fazer coisas que a gravadora insistiu e que não eram legais para a banda, essas coisas.


Eu já quebrei um disco de ouro uma vez na festa de entrega do nosso disco de ouro, acho que depois disso os caras ficaram meio com medo de mim.

Porque tu fez isso?

Pra começar porque eu tava completamente embriagado. E depois porque o nosso primeiro disco de ouro era igual aqueles que você vê em filme. Era um lp de 12 polegadas dourado, lindo. Tenho ate hoje. O segundo era um cdzinho mixuruca, e ainda por cima com um design de muito mau gosto. Como eu já tava insatisfeito por varias coisas que vinham ocorrendo. Acho que isso ficou no inconsciente, e a bebida ajudou a trazer tudo isso a tona. Na época eu achei engraçado. Hoje em dia eu acho muito mais engraçado ainda.

Pelo menos vai ter história pra contar pros netos.

Bom, algumas é melhor eles não saberem.

Hahahahahahahahahaha. E agora dono de estúdio? Deve ser chato ficar alugando equipamento pra galera destruir.

Até que não. Eu tenho me aprimorado bastante gravando, mixando, fazendo algumas experiências. Mas eu to me concentrando nessa história de tirar bons timbres, de tentar ser original, sei lá. Coisas que eu sempre questionei também quando era músico. Lembro que na gravação do nosso primeiro cd, ninguém sacava muito de estúdio nem nada, aí eu levei um cd de uma banda para o engenheiro de som e mostrei pra ele um som que começava parecendo que você tava ouvindo um ensaio da banda, e de repente entrava a gravação porrada. Eu achei aquilo foda. Falei pro cara que queria fazer igual. O cara ficou olhando pra mim e achando que eu tava brincando ou que eu era maluco, até que ele sacou que era sério, que ele ia ter que fazer aquilo mesmo. Ele ficou umas três horas para descobrir como fazia aquilo, e eu não tinha a menor idéia...só sei que depois que ele descobriu, eu disse que ia gravar a musica inteira daquele jeito.
Bom, depois que gravamos o som, o cara me chamou de canto e falou bem sério comigo. “Olha, quando você mostrar isso pros caras da gravadora, você explica pra eles que a intenção que você queria era essa mesmo. Fala aquilo que você falou pra mim, diz que não é defeito e nem que foi má qualidade do estúdio”. Hahahahahahahaha. Eu fiquei rindo da cara dele.
Não tava entendendo porque ele tava se preocupando, tinha ficado do caralho, fodasse o resto.
Hoje em dia eu me dou conta, de como as pessoas eram atrasadas e retrógradas naquela época. Nesse mundo de gravadoras e produtores ainda são, mas hoje as pessoas ousam mais. Naquela época era proibido você fazer alguma coisa diferente. Depois disso eu comecei a me interessar por produção e por todos os recursos que um estúdio oferece e que não é aproveitado.

Qual era essa música?

Skank. Era uma música instrumental. E tem uma escondida também, a última do cd que rola isso. Por mim, eu teria gravado o disco inteiro desse jeito.
Pega pra ouvir o primeiro disco do Defalla. O som é muito foda. O disco é de 1984, sei lá, por ai. Quando eu fui tocar com os caras perguntei pra eles como que os caras da gravadora deixaram eles fazer aquilo. O Edu K me contou história. Disse que o técnico de som, que também era o produtor do disco, era um porra louca e curtiu as idéias da banda, então fez tudo do jeito que eles queriam. Eles só mostraram o disco pra gravadora quando já tava tudo pronto.

Então, o primeiro disco deles lembra muito o usuário, do Planet, até os rifffs de guitarra são parecidos. Tu vivia ouvindo isso, né?

Esse disco me marcou muito. Foi a primeira vez que eu vi alguém fazer rock de verdade na minha frente, a um metro de distância, fazendo loucura, tirando uns sons loucos. Aquilo mudou minha vida de verdade, tipo, eu devia ter uns 15 anos. Eu falei isso pra eles depois porque eu entendi que você não precisava ser nenhum virtuoso pra fazer um som bom, bastava ter bom gosto, atitude...é isso aí.

Tu acha que o Brasil pode se tornar referência mundial no quesito rock?

Acho, de verdade. Aqui é o único país do mundo que tem banda de tudo quanto é estilo, tudo mesmo, e com talento. O que falta é incentivo e estrutura. Nenhum lugar do mundo tem a variedade que tem no Brasil.
Aqui você tem desde country a black metal, desde forró, a milonga, ou seja, tem de tudo, é só incentivar.
Eu li uma entrevista do Millencollin (banda de hardcore melódico da Suécia) quando eles vieram ao Brasil a primeira vez. O jornalista perguntou se foi muito difícil para eles, porque eles não eram americanos e tal. Eles disseram que não. Eles montaram a banda e ganharam do governo os instrumentos, e depois que eles tinham gravado disco, o governo patrocinou a tour deles pelos EUA e Europa. Ele disse que lá isso é comum.

Tu concorda com a postura de Marcelo D2? Meter o pau em Faustão e Gugu e depois ir lá cantar. Tu iria no Faustão?

Olha, a gente uma vez ia no Ratinho, ai eu fui lá no apartamento do Marcelo e do Lobato (empresário do Planet Hemp) e disse que não queria ir.Disse que eu não concordava com ele, não apoiava aquele programa dele, não deixava minha filha assistir aquele tipo de programa, porque aquilo é um desserviço a cultura. Então eu não podia ir lá porque era contra meus ideais. Não sei o que eles acharam, mas a gente não foi.
Agora sobre o D2, acho que ele é dono do nariz dele, ele sabe o que é melhor pra ele. Não cabe a mim dizer se eu acho certo ou não.

Se tua filha quiser seguir carreira musical tu vai achar bom?

Lógico. Mas ela tem mais jeito para desenhar. Puxou a mãe.

Garota sensata.

Hehehehe. Mas uma coisa hoje eu me arrependo: De não ter estudado mais
Antes. Achava besteira, mas hoje acho que me faz falta.

Conhecimentos gerais?

Não, conhecimento específico mesmo. Eu estudei jornalismo, mas queria ser musico. Hoje em dia acho que poderia escrever melhor se tivesse levado mais a serio os meus estudos. Isso é uma coisa que eu sinto falta.

É, o ruim é ver tanto jornalista que estudou escrevendo besteira por aí...

Pois é, isso é o que mais tem.

Tem previsão pra sair esse disquinho de Poniboy?

Não. Um dia.

Não se sente seguro pra lançar esse material ainda?

Eu tô fazendo músicas novas. Aquelas músicas que estão no site da trama...aquilo foi só um retrato de um momento que eu passei. Nunca tinha pensado em fazer nada além daquilo. Hoje eu tenho feito muito mais músicas, e as músicas estão mais consistentes, mas ainda não tenho os arranjos prontos, queria gravar com uma estrutura, uma banda, tipo violino, piano, banjo, acordeom. Isso leva tempo, e sem dinheiro...leva mais ainda.
Primeiro, preciso montar a banda, mas tá clareando aqui a situação, dia 17 agora vou fazer o meu primeiro show.

Tu devia catar esses caras em faculdades de música. Gente nova, sangue novo.

Essa foi a idéia inicial, mas músico de faculdade, músico que estuda, tem outra filosofia. Eles põem notas demais. Prefiro pegar a molecada que tem mais o espírito punk mesmo. É só domar um pouco a testosterona deles que rola.

Tu gosta do Rio de Janeiro? Sempre achei que você odiava esse lugar. Até por tu ter ido morar em São Paulo um tempo.

Eu já odiei muito o Rio. Hahahahahaha. É sério, mas hoje em dia eu não odeio mais nada. Se pudesse escolher moraria em SP, acho que tem mais haver comigo. A cidade, as pessoas, o clima, tudo. Na verdade o fato é que eu não odeio o Rio, mas eu amo São Paulo. Mas pelo menos aqui eu tô perto da minha família, da minha filha, isso é importante também.

Tu acha que o Planet Hemp tem volta?

Não. Só se for daqui a uns 25 anos, tipo encontro de amigos.

Só pra ganhar uma grana.

Cara, espero que não. Espero resolver esse problema muito antes disso.

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