#CADÊ MEU CHINELO?

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domingo, 14 de março de 2021

[noé ae] FUTEBOL TAMBÉM É POLÍTICA

 

:: txt :: Tiago Jucá ::

English Game é uma série de apenas seis episódios que te fisga pela história do nascimento do esporte bretão em meados do longo século XIX na Inglaterra. Meu interesse é despertado pela pequena sinopse que o Netflix oferece: "com nada em comum, exceto o amor ao esporte, eles deixaram um legado que transformou o futebol no esporte das multidões".
 
Equivoca-se, como eu me enganei, quem espera uma produção com temática exclusiva no futebol, embora ele seja o gancho para elencar a efervescência da Revolução Industrial à pleno vapor e seu grande (d)efeito colateral: os insurgentes conflitos entre burguesia e proletariado que começam a surgir e a esquentar. Não é preciso gostar de futebol para assistir à English Game. Mas pra quem gosta de política social é um prato cheio.
 
A história conta a vida de Fergus Suter, pioneiro como jogador profissional e que vem a se tornar também o primeiro craque dentro das quatro linhas. Junto com seu inseparável amigo Jimmy Love, Fergie tinha outro atributo. Ele comandava seus companheiros não apenas pela liderança técnica em campo, mas pela leitura tática da partida que passava aos colegas de time, criando assim o primeiro esquema de jogo para um esporte até então disputado caoticamente, no cada um por si e todos embolados correndo atrás da bola. 
 
Suter e Love são contratados pelo Darwen, time de operários de uma usina de algodão que tem como objetivo ser o primeiro clube de trabalhadores a ser campeão da Copa da Inglaterra, antes somente vencida por clubes de fidalgos e aristocratas. A prática de pagar salários, ilegal, é mal vista por adversários e também pelos próprios companheiros. Mas pra Fergie era essencial como sustento familiar.
 
Paralelo ao mundo da bola, os jogadores, inclusive Suter e Love, sobrevivem a longas jornadas de 16 horas de trabalho e a constantes reduções de salário. Insatisfeita, a classe operária parte para o conflito até a ebulição de uma greve. A série conta também o drama do universo das mulheres trabalhadoras e as emergentes causas feministas. Demissões por gravidez e a marginalização de mães solteiras são uma constante ao longo dos episódios.
 
A burguesia fez de tudo pra impedir o sucesso e as vitórias dos times proletários, inclusive apelando para o "tapetão". E o espetacular nisso tudo é saber que a paixão típica do esporte mais popular do planeta é fruto justamente de um confronto de classes ocorrido há 140 anos.
 
Uma pena que a série tenha cometido um erro histórico. O primeiro clube operário a se tornar campeão é o Blackburn Olympic, em 1883, derrotando por 2x1 o Old Etonians, time do outro protagonista da série, o fidalgo Arthur Kinnaird, que viria a presidir a FA anos depois. E não o rival do Olympic, o Blackburn Rovers, também proletário e pelo qual Fergus seria tricampeão de 1884 a 1886. 
 
Apesar da falha, vale a pena conhecer como o futebol e os conflitos de classes caminham de mãos dadas desde os primórdios. Futebol, além de arte, também é política.

sábado, 20 de agosto de 2011

[agência pirata] UMA COISA E OUTRA

::txt::Cora Rónai::

Na semana passada, dei meu pitaco sobre os saques na Inglaterra. Não tenho credenciais "científicas", digamos assim, para tecer maiores julgamentos; não sou psicóloga nem socióloga, apenas uma observadora à distância, como a maioria de nós. Escrevi o que me parecia óbvio: "O que a publicidade nos apresenta como passaporte para a felicidade é, no seu avesso, o caminho para uma desilusão e uma frustração tão grandes que, um dia, podem explodir sem mais nem menos na rua."

No sábado, o jornal publicou uma ótima entrevista com Zygmunt Bauman, feita pelo Fernando Duarte, em Londres. Aos 85 anos, Bauman é considerado um dos sociólogos mais importantes do planeta. O que ele disse confirmou o que eu havia intuído: o quebra-quebra inglês foi o motim dos consumidores excluídos.

Não tenho a menor idéia de como podemos sair da roda-viva doentia do consumo, sobre a qual construímos a nossa economia, e da qual todos somos vítimas, em maior ou menor grau; mas é fundamental que algo se faça nesse sentido, ou estaremos condenados à infelicidade perpétua.

Bauman diz que, além disso, precisamos repensar a maneira como medimos o bem-estar:

"A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material, e isso só tende a criar mais problemas."

Nada mais verdadeiro. Andei pela Índia, país reconhecidamente pobre, e percebi muitos sinais de contentamento e alegria. No seu exato oposto, a Península Escandinava, que não podia ser mais rica e bem resolvida materialmente, notei muita cortesia, educação e gentileza, mas alegria é palavra que não consigo associar à região. Em nenhum dos casos, porém, me atreveria a falar em felicidade, sensação sutil e difícil de interpretar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

[agência pirata] DAR UMA CHANCE À PAZ

::txt::Ricardo Noblat::

Há sempre a esperança de que, nesta época do ano, o espírito do Natal consiga infiltrar-se pelas veias esclerosadas do mundo. Ele é bem necessário, num momento em que toda uma fileira de países sofre o impacto de uma crise econômica brutal. Pode ser ainda mais necessário, um pouco adiante, quando tensões políticas e econômicas ressuscitarem o espectro do confronto direto entre nações.

Desde o final do último conflito global, o mundo tem sido palco de guerras localizadas — a do Vietnam, a da Bósnia, a do Iraque, a do Afeganistão. Surgem, agora, novos motivos de tensão. Há quem se lembre, contemplando este cenário, do período que antecedeu a I Guerra Mundial.

Naquele início de século XX, a civilização europeia conhecera algumas décadas de paz. Por conta disso, havia progressos econômicos e científicos, um clima geral de prosperidade, de vitalidade. Mas, nesse aumento da riqueza e do poder, alguns países sentiam-se prejudicados na divisão do bolo — por exemplo, a Alemanha imperial e o Japão. Sem que houvesse motivo concreto para isso, esse crescimento de energia levou à primeira guerra mundial, que foi também a preparação da segunda.

O mundo tem hoje pontos de estagnação e de crise. Mas, a partir do leste da Ásia, propaga-se uma onda inédita de crescimento e de enriquecimento. A China de agora é uma potência que se candidata a mais poder e a maiores espaços na geopolítica mundial. Isso lança ondas de choque por toda a vizinhança — inclusive porque o poderio militar chinês tem aumentado muito além do que seria necessário para fins defensivos.

As reações não se fazem esperar. O Japão, depois de ter sido humilhado num conflito sobre águas territoriais, já modifica os seus mecanismos de defesa — sem alterar totalmente a política pacifista com que emergiu da II Guerra Mundial. A India endurece suas posições em relação à China — com a qual já teve um conflito sério nos anos 60. A China, por sua vez, incrementa seus laços com o Paquistão, inimigo da India. Poucos dias atrás, Estados Unidos e Vietnam elaboraram um projeto comum de defesa (quem podia achar isso possível, há não muito tempo?). A Coreia do Sul reforça sua política de segurança, tendo ao lado a ameaça de um regime alucinado.

O pano de fundo deste cenário é que se projeta, a médio prazo, uma mudança de posição relativa entre as grandes potências, sendo a China candidata ao número um. Isso também aconteceu antes da I Guerra Mundial, envolvendo, ali, Inglaterra e Estados Unidos. Faz parte da psicologia nacional americana a identificação de adversários. Se, nesse contexto, a China passa a ser vista como adversária, isso prejudicaria profundamente o relacionamento entre os dois gigantes.

Nenhum dos dois tem tradição de diplomacia sofisticada — e a China vem de um período de profundo isolamento, seguido, agora, por acessos de insegurança que alimentam um nacionalismo mal resolvido. Neste cenário, quem poderia atuar como mediador no caso de um agravamento das tensões? Talvez, só mesmo o medo do pior — de um conflito incrivelmente devastador, com armas nucleares.

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