#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 19 de março de 2021

[noé ae] ASSUNTO DE FAMÍLIA

 

:: txt :: Tiago Jucá ::

Das crueldades do capitalismo, a mais paradoxal é a competição e rivalidade entre aqueles trabalhadores que deveriam estar unidos. Para manter o emprego e sobreviver, o colega de trabalho vira inimigo. Intrigas, fofocas e até mesmo "amizade" com o patrão passam a ser rotineiros em muitos ambientes de trabalho. A individualização do ser que evita a coletivização da classe.
Isso é somente um dos vários dramas impactantes do emblemático Assunto de Família, filme de Hirokazu Koreeda, de 2019, que se passa na periferia de Tokyo. 
 
Os Shibatas são uma família não consanguínea que para resistir à miséria praticam pequenos furtos em grandes e pequenos mercados. Osamu, o "pai", vive de bicos. Nobuyo, a "mãe", luta para manter um precário emprego numa lavanderia. Aki, a "tia", é prostituta. Shota, o "filho", é o furtador de comida. E Hatsue, a "vó", recebe uma pensão misteriosa.
 
O destino dessa família nada convencional muda a partir do momento que encontram Yuri, uma garotinha que sofre violência doméstica dos pais. Yuri é levada para o casebre dos Shibatas, onde passa a viver, comer e dormir junto com todos numa única e minúscula peça. E, claro, a furtar com Shota. Quase uma condição, embora não imposta, para ela continuar morando numa casa que não tem condições de alimentar uma boca a mais.
 
Um acidente provocado pelo menino passa a desvendar muitos mistérios. Até então a película passeia entre a delicadeza dos personagens e a angústia das pobres vidas. Mesmo com todas adversidades, os Shibatas são alegres, unidos e solidários. O clima antes meigo dos personagens toma um ar tenso e traz suspense para o enredo.
 
Assunto de Família é uma crítica social contundente sem ser panfletária. O Japão, visto como uma das grandes potências econômicas, é um exemplo que até países desenvolvidos não estão livres da selvageria capitalista. Abaixo um diálogo entre os "pais" ilustra a situação desumana na lavanderia:
 
- Está atrasada pro trabalho.
- É meio período hoje.
- Como assim?
- Não podem pagar todos, então dez entram meio-dia.
- E todos ficam mais pobres...
 
Um filme doce e amargo. Emocionante. Tá no Netflix.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

[cc] TSUNAMI E OS JORNAIS ESCRITOS À MÃO

::txt::Andrew Higgins::

Ninguém se comunica pelo Twitter, blogs ou e-mail. As pessoas também não usam telefone. Sem eletricidade, gasolina e gás, a cidade, traumatizada pelo tsunami, está fazendo as coisas realmente à maneira antiga: usando papel e caneta. Incapaz de operar sua impressora do século 20 – os computadores, então, nem pensar –, website ou celulares 3G, os jornalistas do único jornal de Ishinomaki, o Hibi Shimbun, escrevem seus artigos à mão com canetas hidrográficas em grandes folhas de papel branco. Ao contrário do que ocorre com a mídia moderna, o método tem funcionado. "As pessoas que sofrem uma tragédia como essa precisam de alimentos, água, mas também de informação", disse Hiroyuki Takeuchi, chefe de reportagem do Hibi Shimbun. "Elas estavam habituadas a se informar pela TV e pela internet, mas quando não há eletricidade, a única coisa que têm é o nosso jornal."

Embora a recente agitação política que toma conta do mundo árabe tenha realçado o poder das novas mídias, a miséria no Japão, um dos países mais conectados do mundo, fez a comunicação retroceder no tempo. Durante alguns dias, pelo menos, a palavra escrita à mão e impressa atingiu o auge. Depois de escrever e editar os artigos, Takeuchi e outros da equipe copiam suas matérias à mão em folhas de papel para distribuí-las em centros de ajuda de emergência que acolhem os sobreviventes do pior terremoto sofrido pelo país e do tsunami que se seguiu. "Eles estavam desesperados por informações", disse Takeuchi, que durante dez dias após o tsunami dormiu na redação do jornal, uma vez que as águas inundaram o andar térreo de sua casa. Com a eletricidade de volta para um terço dos 160 mil moradores da cidade, o jornal deixou de lado a caneta e voltou a ser impresso.

Informações vitais

O acesso à internet, porém, ainda não está disponível. Na segunda-feira (21/3), a capa do jornal elogiava um "resgate milagroso": a história de uma senhora de 80 anos e de seu neto de 16, retirados de sua casa destroçada.

Na costa, em Sendai, uma cidade antes próspera de mais de 1 milhão de habitantes, a irresistível força digital também ficou interrompida. "Em condições como essas, nada tem o poder do papel", disse Masahiko Ichiriki, presidente e dono do Kahoku Shimpo, principal jornal da cidade.

Edição especial. Com muitas lojas fechadas, as pessoas não conseguem comprar baterias para seus rádios. O colapso do sistema elétrico provocou o desligamento de computadores e aparelhos de TV, mas o jornal continua sendo publicado o tempo todo. Chegou até a trazer uma edição especial, de uma página, na noite do tsunami. "Os moradores, famintos por informação, dependem do nosso jornal como um salva-vidas", disse. O Kahoku Shimpo fornece não apenas notícias sobre a catástrofe, mas também informações vitais sobre que lojas têm alimentos, quais estradas já estão transitáveis, que bancos têm dinheiro em caixa e quais filiais de uma conhecida loja de bebidas foram reabertas.

"O pior é não ter nenhuma informação"

Em Ishinomaki, cidade menor do que Sendai, porém mais destruída, o Hibi Shimbun não foi publicado por dois dias após o tsunami. Um dos seis jornalistas foi arrastado dentro do carro pelas águas quando voltava de um compromisso. Ele sobreviveu e, depois de alguns dias no hospital, voltou ao trabalho. Hiroyuki Takeuchi estava em seu escritório na hora do terremoto, às 14h46n do dia 11 de março. Tinha acabado de concluir a edição do dia, que trazia um artigo de capa sobre os "encantos ocultos" de Ishinomaki e as promessas das autoridades para a reforma do hospital e outras instalações. O terremoto sacudiu de maneira tão forte os dois andares do prédio do jornal que as lâmpadas fluorescentes caíram do teto e os armários tombaram no chão.

A primeira edição escrita à mão, preparada no dia 13 de março, trouxe como manchete a promessa de "tentar e obter informações mais precisas possíveis sobre a tragédia". E informou sobre a chegada de equipes de socorro de todo o Japão e sobre a extensão da devastação. Casas e empresas situadas à beira-mar foram destruídas. Mais de 30 mil pessoas procuraram refúgio em abrigos. "Agora, conhecemos a extensão total dos danos", era um dos títulos da edição.

No dia seguinte, o jornal trouxe o nome e a idade de 34 moradores da área cujos corpos haviam sido identificados. Informou também sobre um roubo em um supermercado, um sinal do desespero da cidade. "Os jornalistas, porém, procuraram levantar o ânimo da população", disse Takeuchi. "Procuramos coisas que dessem esperança. Essa é a nossa filosofia." Segundo ele, o jornal deixou de publicar nomes de pessoas mortas porque o número de vítimas continuou crescendo. Mais de 1,3 mil corpos foram encontrados. Todo o esforço ajudou a preencher o vazio deixado pela ausência da mídia eletrônica. "Viver sem eletricidade ou água e pouca comida é muito duro", disse Yutaka Iwasava, de 25 anos, morador de Ishinomaki. "Mas o pior é não ter nenhuma informação." Iwasava disse que, desde o tsunami, não conseguiu mais acessar seu e-mail nem navegar na internet.

domingo, 26 de dezembro de 2010

[agência pirata] DAR UMA CHANCE À PAZ

::txt::Ricardo Noblat::

Há sempre a esperança de que, nesta época do ano, o espírito do Natal consiga infiltrar-se pelas veias esclerosadas do mundo. Ele é bem necessário, num momento em que toda uma fileira de países sofre o impacto de uma crise econômica brutal. Pode ser ainda mais necessário, um pouco adiante, quando tensões políticas e econômicas ressuscitarem o espectro do confronto direto entre nações.

Desde o final do último conflito global, o mundo tem sido palco de guerras localizadas — a do Vietnam, a da Bósnia, a do Iraque, a do Afeganistão. Surgem, agora, novos motivos de tensão. Há quem se lembre, contemplando este cenário, do período que antecedeu a I Guerra Mundial.

Naquele início de século XX, a civilização europeia conhecera algumas décadas de paz. Por conta disso, havia progressos econômicos e científicos, um clima geral de prosperidade, de vitalidade. Mas, nesse aumento da riqueza e do poder, alguns países sentiam-se prejudicados na divisão do bolo — por exemplo, a Alemanha imperial e o Japão. Sem que houvesse motivo concreto para isso, esse crescimento de energia levou à primeira guerra mundial, que foi também a preparação da segunda.

O mundo tem hoje pontos de estagnação e de crise. Mas, a partir do leste da Ásia, propaga-se uma onda inédita de crescimento e de enriquecimento. A China de agora é uma potência que se candidata a mais poder e a maiores espaços na geopolítica mundial. Isso lança ondas de choque por toda a vizinhança — inclusive porque o poderio militar chinês tem aumentado muito além do que seria necessário para fins defensivos.

As reações não se fazem esperar. O Japão, depois de ter sido humilhado num conflito sobre águas territoriais, já modifica os seus mecanismos de defesa — sem alterar totalmente a política pacifista com que emergiu da II Guerra Mundial. A India endurece suas posições em relação à China — com a qual já teve um conflito sério nos anos 60. A China, por sua vez, incrementa seus laços com o Paquistão, inimigo da India. Poucos dias atrás, Estados Unidos e Vietnam elaboraram um projeto comum de defesa (quem podia achar isso possível, há não muito tempo?). A Coreia do Sul reforça sua política de segurança, tendo ao lado a ameaça de um regime alucinado.

O pano de fundo deste cenário é que se projeta, a médio prazo, uma mudança de posição relativa entre as grandes potências, sendo a China candidata ao número um. Isso também aconteceu antes da I Guerra Mundial, envolvendo, ali, Inglaterra e Estados Unidos. Faz parte da psicologia nacional americana a identificação de adversários. Se, nesse contexto, a China passa a ser vista como adversária, isso prejudicaria profundamente o relacionamento entre os dois gigantes.

Nenhum dos dois tem tradição de diplomacia sofisticada — e a China vem de um período de profundo isolamento, seguido, agora, por acessos de insegurança que alimentam um nacionalismo mal resolvido. Neste cenário, quem poderia atuar como mediador no caso de um agravamento das tensões? Talvez, só mesmo o medo do pior — de um conflito incrivelmente devastador, com armas nucleares.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A MOTOCICLETA É JAPONESA




O futebol do País Baixo trouxe ao mundo na década de 70 o famoso e envolvente carrossel holandês, comandado por Johan Cruyff. A seleção japonesa, nesta Copa da África do Sul, até então tava mediana. Não a partida contra Camarões, e contra a Holanda jogaram mal. Ontem tive a oportunidade de ver os nipônicos, e dei sorte.

O Japão nasceu pro futebol após a ida de Zico pra jogar bola no campeonato deles. Mostrou como tratar a bola com carinho. Depois veio a Copa do Japão/Coréia (do Sul, óbvio, pois na do Norte só tem mísseis apontados pros inimigos imaginários da ditadura comunista), e os japoneses sentiram como é bom e bonito o esporte bretão quando é disputado pelos melhores jogadores do mundo.

Enfim, Zico retornou pra ser técnico da seleção nippon pra Copa de 2006. O time não passou da primeira fase, mas, sem rimar rimando, Zico montou uma base. E, pelo visto, ensinou alguns fundamentos a eles. E, você leitor, sabe, que não é difícil ensinar aos japas, pois eles aprendem rápido. Semelhante a eles no quesito ensinou-aprendeu, somente os portugueses. Dizem que os portugas só praticam basquete uma vez por semana, pois alguém falou pra eles que o objetivo desse esporte é jogar bola na cesta. Observe a tradição do país no basquete, e você verá que o aprendizado teve efeito.

Pois bem. Contra a Dinamarca, o Japão jogou como Zico. Numa Copa em que a Jabulani tem atrapalhado os gols de falta, os caras foram lá e fizeram dois golaços, a la Galinho de Quintino em seus melhores momentos com o Mengão ou com a Canarinho.

E um de seus jogadores me chamou a atenção. Minha não, do mundo todo. Keisuke Honda. Fez gol de falta, driblou, armou, só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol. Deu uma finta no zagueiro dinamarquês, olhou prum lado, enganou o goleiro, sem ser fominha, e deu de bandeja pro colega só meter pro fundo das redes. Melhor definição pro Honda não há: o cara tem muitas cilindradas!

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