#CADÊ MEU CHINELO?

Mostrando postagens com marcador Netflix. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Netflix. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de março de 2021

[noé ae] BANDIDOS NA TV

:: txt :: Tiago Jucá ::

É possível fazer jornalismo fora dos padrões comuns de reportagem. Usei muito este argumento quando defendia a não obrigatoriedade do diploma de jornalista para os debates que me convidavam a participar. A maior reportagem escrita até hoje, por exemplo, é Os Sertôes, livro de Euclides da Cunha, um clássico da literatura nacional.

Quando se trata de jornalismo filmado, considero dois filmes como o que de melhor já foi feito no Brasil. E se trata de cinema e não telejornalismo: Ônibus 174, de José Padilha, e Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund.

Bem, considerava os melhores até assistir à Bandidos na TV, série do Netflix, dirigido por Daniel Bogado. A reportagem é sobre um programa de televisão que se passa em Manaus. Canal Livre traz à tela aquelas matérias sangrentas de assassinatos muito costumeiras em várias emissoras do país. Líder de audiência, o programa acaba por consagrar seu apresentador Wallace Souza como um ícone manauara.

Não vou me aprofundar mais no enredo para não dar spoiller. No fim do primeiro episódio você já se surpreenderá com algumas revelações. E perguntará a si mesmo, assim como eu também fiz pra mim, como pude ficar surpreso com tamanha obviedade. É filmado em Manaus, mas poderia se passar num condomínio na Barra da Tijuca. É melhor jair fazendo a pipoca.

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

[noé ae] ASSUNTO DE FAMÍLIA

 

:: txt :: Tiago Jucá ::

Das crueldades do capitalismo, a mais paradoxal é a competição e rivalidade entre aqueles trabalhadores que deveriam estar unidos. Para manter o emprego e sobreviver, o colega de trabalho vira inimigo. Intrigas, fofocas e até mesmo "amizade" com o patrão passam a ser rotineiros em muitos ambientes de trabalho. A individualização do ser que evita a coletivização da classe.
Isso é somente um dos vários dramas impactantes do emblemático Assunto de Família, filme de Hirokazu Koreeda, de 2019, que se passa na periferia de Tokyo. 
 
Os Shibatas são uma família não consanguínea que para resistir à miséria praticam pequenos furtos em grandes e pequenos mercados. Osamu, o "pai", vive de bicos. Nobuyo, a "mãe", luta para manter um precário emprego numa lavanderia. Aki, a "tia", é prostituta. Shota, o "filho", é o furtador de comida. E Hatsue, a "vó", recebe uma pensão misteriosa.
 
O destino dessa família nada convencional muda a partir do momento que encontram Yuri, uma garotinha que sofre violência doméstica dos pais. Yuri é levada para o casebre dos Shibatas, onde passa a viver, comer e dormir junto com todos numa única e minúscula peça. E, claro, a furtar com Shota. Quase uma condição, embora não imposta, para ela continuar morando numa casa que não tem condições de alimentar uma boca a mais.
 
Um acidente provocado pelo menino passa a desvendar muitos mistérios. Até então a película passeia entre a delicadeza dos personagens e a angústia das pobres vidas. Mesmo com todas adversidades, os Shibatas são alegres, unidos e solidários. O clima antes meigo dos personagens toma um ar tenso e traz suspense para o enredo.
 
Assunto de Família é uma crítica social contundente sem ser panfletária. O Japão, visto como uma das grandes potências econômicas, é um exemplo que até países desenvolvidos não estão livres da selvageria capitalista. Abaixo um diálogo entre os "pais" ilustra a situação desumana na lavanderia:
 
- Está atrasada pro trabalho.
- É meio período hoje.
- Como assim?
- Não podem pagar todos, então dez entram meio-dia.
- E todos ficam mais pobres...
 
Um filme doce e amargo. Emocionante. Tá no Netflix.

domingo, 14 de março de 2021

[noé ae] FUTEBOL TAMBÉM É POLÍTICA

 

:: txt :: Tiago Jucá ::

English Game é uma série de apenas seis episódios que te fisga pela história do nascimento do esporte bretão em meados do longo século XIX na Inglaterra. Meu interesse é despertado pela pequena sinopse que o Netflix oferece: "com nada em comum, exceto o amor ao esporte, eles deixaram um legado que transformou o futebol no esporte das multidões".
 
Equivoca-se, como eu me enganei, quem espera uma produção com temática exclusiva no futebol, embora ele seja o gancho para elencar a efervescência da Revolução Industrial à pleno vapor e seu grande (d)efeito colateral: os insurgentes conflitos entre burguesia e proletariado que começam a surgir e a esquentar. Não é preciso gostar de futebol para assistir à English Game. Mas pra quem gosta de política social é um prato cheio.
 
A história conta a vida de Fergus Suter, pioneiro como jogador profissional e que vem a se tornar também o primeiro craque dentro das quatro linhas. Junto com seu inseparável amigo Jimmy Love, Fergie tinha outro atributo. Ele comandava seus companheiros não apenas pela liderança técnica em campo, mas pela leitura tática da partida que passava aos colegas de time, criando assim o primeiro esquema de jogo para um esporte até então disputado caoticamente, no cada um por si e todos embolados correndo atrás da bola. 
 
Suter e Love são contratados pelo Darwen, time de operários de uma usina de algodão que tem como objetivo ser o primeiro clube de trabalhadores a ser campeão da Copa da Inglaterra, antes somente vencida por clubes de fidalgos e aristocratas. A prática de pagar salários, ilegal, é mal vista por adversários e também pelos próprios companheiros. Mas pra Fergie era essencial como sustento familiar.
 
Paralelo ao mundo da bola, os jogadores, inclusive Suter e Love, sobrevivem a longas jornadas de 16 horas de trabalho e a constantes reduções de salário. Insatisfeita, a classe operária parte para o conflito até a ebulição de uma greve. A série conta também o drama do universo das mulheres trabalhadoras e as emergentes causas feministas. Demissões por gravidez e a marginalização de mães solteiras são uma constante ao longo dos episódios.
 
A burguesia fez de tudo pra impedir o sucesso e as vitórias dos times proletários, inclusive apelando para o "tapetão". E o espetacular nisso tudo é saber que a paixão típica do esporte mais popular do planeta é fruto justamente de um confronto de classes ocorrido há 140 anos.
 
Uma pena que a série tenha cometido um erro histórico. O primeiro clube operário a se tornar campeão é o Blackburn Olympic, em 1883, derrotando por 2x1 o Old Etonians, time do outro protagonista da série, o fidalgo Arthur Kinnaird, que viria a presidir a FA anos depois. E não o rival do Olympic, o Blackburn Rovers, também proletário e pelo qual Fergus seria tricampeão de 1884 a 1886. 
 
Apesar da falha, vale a pena conhecer como o futebol e os conflitos de classes caminham de mãos dadas desde os primórdios. Futebol, além de arte, também é política.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

[cc] O FUTURO DA INTERNET NÃO ESTÁ AQUI



::txt::Laurence Lessig::

Imagine um alcoólatra. Não aquele que não para em pé de tão bêbado ou que frequente os Alcoólicos Anônimos. É só o alcoólatra comum, que luta para controlar o vício. Mas ele tem, além do álcool, outro vício. Não se trata de um vício debilitante. E ele não é um ex-viciado em drogas. Ele apenas tem, também, um outro vício que continua a puxá-lo em outra direção, afastando-o do que ele quer fazer. Uma pessoa com dois vícios, que a puxam em direções diferentes, tornando-a vulnerável, suscetível às tentações de ambos. Para ela, resta aprender a regular esses vícios e ser capaz de mantê-los sob controle.

Sugiro essa imagem porque acredito que ela é uma representação bastante fiel dos governos democráticos modernos. Eles têm dois vícios distintos. São constantemente puxados pela loucura, uma loucura parcial, que emerge quando as pessoas o pressionam a fazer aquilo que não é do interesse público. Pense no peronismo ou no populismo que inflou bolhas nos bancos e no mercado imobiliário dos EUA. Por outro lado, há o vício nos interesses especiais — vamos chamá-los de titulares — que submetem constantemente o governo à tentação de fazer alguma insensatez nas políticas públicas com o objetivo velado de beneficiar esses titulares. E, ao menos nos EUA, esse vício afetou o debate de praticamente todos os grandes temas da administração pública. Diante destas forças submetendo o Estado a uma constante tentação, o governo vê-se numa posição sempre vulnerável.

Inovação. Pois bem, a internet é uma plataforma, uma arquitetura que acarreta consequências, que possibilita a inovação. Pensemos em alguns exemplos da história da inovação na internet: o Netscape foi criado por um desistente da faculdade; o Hotmail, por um imigrante indiano e vendido à Microsoft por US$ 400 milhões; o ICQ, por um garoto israelense cujo pai tentou vender o programa à AOL por US$ 400 milhões; o Google, por dois jovens que pularam fora de Stanford; o Napster, por um desistente e por alguém que nem teve a oportunidade de se tornar um desistente da faculdade, e que está presente aqui hoje; o YouTube, por dois alunos de Stanford; o Kazaa e o Skype, por jovens da Dinamarca e da Suécia; e, finalmente, Facebook e Twitter, inventados por jovens.

O que elas têm em comum? Todas foram criadas por jovens, que largaram os estudos ou não são norte-americanos. Foi para eles que a nova arquitetura abriu as portas. Tratou-se de um convite à inovação vinda de fora. Ora, a inovação vinda de fora é uma ameaça aos titulares.

O Skype ameaça empresas de telefonia; o YouTube, emissoras de TV; o Netflix, operadoras de TV a cabo; o Twitter ameaça à sanidade, mas a sanidade nunca teve titular. E então os ameaçados respondem à ameaça. E sua tática é apelar ao viciado – o governo democrático moderno — e chantageá-lo com sua droga preferida. No caso dos EUA, a oferta ilimitada de recursos para financiar campanhas políticas. A droga garante aos titulares proteção contra as ameaças.

Acredito que foi essa a questão levantada pelo jornalista e ativista Jeff Jarvis ao sugerir que os governos se limitassem a “não causar males” à internet.
Não atrapalhem. O presidente Sarkozy ouviu a sugestão, não a aceitou, mas reconheceu que há neste debate questões importantes de medidas públicas. Mas aí é que está. Já percebemos que há “questões importantes de medidas públicas” em debate. O problema é que não confiamos nas respostas que o governo dá. E temos boas razões para isso, afinal, a resposta dada pelo governo democrático moderno é aquela que por acaso beneficia os titulares. A resposta que poderia encorajar ainda mais a inovação é ignorada.

Pensemos nos direitos autorais: é claro que precisamos de um sistema de direitos autorais que garanta aos criadores a compensação por seu trabalho e também a independência de sua criatividade. A questão não é se os direitos autorais devem ser protegidos ou não. A pergunta é como proteger os direitos autorais na era digital. A arquitetura dos direitos autorais, criada para o século 19, faz sentido no século 21? Como seria uma arquitetura que faria sentido hoje? Será que é esta a pergunta que o governo se faz?

Acho que a resposta é “não”. Em vez disso, a proposta dos governos democráticos modernos de todo o mundo, e em especial da França, pode ser definida pela lógica irracional do limite das três infrações, que por acaso beneficia os titulares.

O potencial inovador que poderia surgir de uma nova arquitetura de proteção aos direitos autorais está sendo ignorado. Não sou só eu que digo isto. O recente relatório Hargreaves, elaborado pelo governo conservador britânico, diz: “Será possível que leis criadas há mais de três séculos com o objetivo claro de proporcionar incentivos econômicos para a inovação por meio da proteção aos direitos dos criadores estariam hoje obstruindo a inovação e o crescimento econômico?” Sim.
O relatório segue: “No caso das políticas para os direitos autorais, não resta dúvida que o poder de persuasão de celebridades e importantes empresas britânicas associadas à criatividade distorceu o resultado das políticas elaboradas.” E isso não ocorre só na Grã-Bretanha.

Pensemos nas políticas para a banda larga. A Europa foi bastante bem sucedida na promoção da concorrência no ramo do acesso de banda larga, e isto impulsionou o crescimento desse mercado. Neste aspecto, os EUA foram um grande fracasso. O país, antes no topo do ranking de difusão do acesso via banda larga, ocupa agora uma posição que varia de 18ª a 28ª, dependendo dos critérios adotados. Essa mudança foi o resultado de políticas que prejudicaram a concorrência entre provedores de banda larga.

A resposta dos provedores de banda larga, trazidas por eles ao governo, fez que as leis os beneficiassem, destruindo os incentivos para que concorressem entre si de uma forma que estimulasse a difusão do acesso de banda larga.

O mínimo. Diante de exemplos como estes, é perfeitamente justo manifestar amplo ceticismo em relação às respostas oferecidas pelos governos democráticos modernos. Devemos alertá-los para que tomem cuidado com as soluções políticas apresentadas pelos titulares. Afinal, o trabalho dos titulares não é o mesmo que o trabalho do governante.

O trabalho deles, titulares, é buscar o lucro individual. O trabalho do governante é garantir o bem público. E é justo que afirmemos o seguinte: enquanto esse vício não for solucionado, devemos insistir no minimalismo em tudo aquilo que o governo fizer. O minimalismo a que Jarvis se referia quando falou em “não causar males”.

Uma internet que adote os princípios do acesso livre e gratuito, uma rede neutra, para proteger o ‘outsider’, o forasteiro. O futuro da internet não está aqui. Não é o Google nem o Facebook. Ele não foi convidado e nem sabe como ser, pois ainda não conhece em fóruns como este. O mínimo que podemos fazer é preservar a arquitetura dessa rede que protege este futuro que não está aqui.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • AtribuiçãoVocê deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licençaSe você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

  • Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
  • Domínio Público — Onde a obra ou qualquer de seus elementos estiver em domínio público sob o direito aplicável, esta condição não é, de maneira alguma, afetada pela licença.
  • Outros Direitos — Os seguintes direitos não são, de maneira alguma, afetados pela licença:
    • Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
    • Os direitos morais do autor;
    • Direitos que outras pessoas podem ter sobre a obra ou sobre a utilização da obra, tais como direitos de imagem ou privacidade.
  • Aviso — Para qualquer reutilização ou distribuição, você deve deixar claro a terceiros os termos da licença a que se encontra submetida esta obra. A melhor maneira de fazer isso é com um link para esta página.

.

@

@