#CADÊ MEU CHINELO?

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sexta-feira, 24 de junho de 2011

[cc] O FUTURO DA INTERNET NÃO ESTÁ AQUI



::txt::Laurence Lessig::

Imagine um alcoólatra. Não aquele que não para em pé de tão bêbado ou que frequente os Alcoólicos Anônimos. É só o alcoólatra comum, que luta para controlar o vício. Mas ele tem, além do álcool, outro vício. Não se trata de um vício debilitante. E ele não é um ex-viciado em drogas. Ele apenas tem, também, um outro vício que continua a puxá-lo em outra direção, afastando-o do que ele quer fazer. Uma pessoa com dois vícios, que a puxam em direções diferentes, tornando-a vulnerável, suscetível às tentações de ambos. Para ela, resta aprender a regular esses vícios e ser capaz de mantê-los sob controle.

Sugiro essa imagem porque acredito que ela é uma representação bastante fiel dos governos democráticos modernos. Eles têm dois vícios distintos. São constantemente puxados pela loucura, uma loucura parcial, que emerge quando as pessoas o pressionam a fazer aquilo que não é do interesse público. Pense no peronismo ou no populismo que inflou bolhas nos bancos e no mercado imobiliário dos EUA. Por outro lado, há o vício nos interesses especiais — vamos chamá-los de titulares — que submetem constantemente o governo à tentação de fazer alguma insensatez nas políticas públicas com o objetivo velado de beneficiar esses titulares. E, ao menos nos EUA, esse vício afetou o debate de praticamente todos os grandes temas da administração pública. Diante destas forças submetendo o Estado a uma constante tentação, o governo vê-se numa posição sempre vulnerável.

Inovação. Pois bem, a internet é uma plataforma, uma arquitetura que acarreta consequências, que possibilita a inovação. Pensemos em alguns exemplos da história da inovação na internet: o Netscape foi criado por um desistente da faculdade; o Hotmail, por um imigrante indiano e vendido à Microsoft por US$ 400 milhões; o ICQ, por um garoto israelense cujo pai tentou vender o programa à AOL por US$ 400 milhões; o Google, por dois jovens que pularam fora de Stanford; o Napster, por um desistente e por alguém que nem teve a oportunidade de se tornar um desistente da faculdade, e que está presente aqui hoje; o YouTube, por dois alunos de Stanford; o Kazaa e o Skype, por jovens da Dinamarca e da Suécia; e, finalmente, Facebook e Twitter, inventados por jovens.

O que elas têm em comum? Todas foram criadas por jovens, que largaram os estudos ou não são norte-americanos. Foi para eles que a nova arquitetura abriu as portas. Tratou-se de um convite à inovação vinda de fora. Ora, a inovação vinda de fora é uma ameaça aos titulares.

O Skype ameaça empresas de telefonia; o YouTube, emissoras de TV; o Netflix, operadoras de TV a cabo; o Twitter ameaça à sanidade, mas a sanidade nunca teve titular. E então os ameaçados respondem à ameaça. E sua tática é apelar ao viciado – o governo democrático moderno — e chantageá-lo com sua droga preferida. No caso dos EUA, a oferta ilimitada de recursos para financiar campanhas políticas. A droga garante aos titulares proteção contra as ameaças.

Acredito que foi essa a questão levantada pelo jornalista e ativista Jeff Jarvis ao sugerir que os governos se limitassem a “não causar males” à internet.
Não atrapalhem. O presidente Sarkozy ouviu a sugestão, não a aceitou, mas reconheceu que há neste debate questões importantes de medidas públicas. Mas aí é que está. Já percebemos que há “questões importantes de medidas públicas” em debate. O problema é que não confiamos nas respostas que o governo dá. E temos boas razões para isso, afinal, a resposta dada pelo governo democrático moderno é aquela que por acaso beneficia os titulares. A resposta que poderia encorajar ainda mais a inovação é ignorada.

Pensemos nos direitos autorais: é claro que precisamos de um sistema de direitos autorais que garanta aos criadores a compensação por seu trabalho e também a independência de sua criatividade. A questão não é se os direitos autorais devem ser protegidos ou não. A pergunta é como proteger os direitos autorais na era digital. A arquitetura dos direitos autorais, criada para o século 19, faz sentido no século 21? Como seria uma arquitetura que faria sentido hoje? Será que é esta a pergunta que o governo se faz?

Acho que a resposta é “não”. Em vez disso, a proposta dos governos democráticos modernos de todo o mundo, e em especial da França, pode ser definida pela lógica irracional do limite das três infrações, que por acaso beneficia os titulares.

O potencial inovador que poderia surgir de uma nova arquitetura de proteção aos direitos autorais está sendo ignorado. Não sou só eu que digo isto. O recente relatório Hargreaves, elaborado pelo governo conservador britânico, diz: “Será possível que leis criadas há mais de três séculos com o objetivo claro de proporcionar incentivos econômicos para a inovação por meio da proteção aos direitos dos criadores estariam hoje obstruindo a inovação e o crescimento econômico?” Sim.
O relatório segue: “No caso das políticas para os direitos autorais, não resta dúvida que o poder de persuasão de celebridades e importantes empresas britânicas associadas à criatividade distorceu o resultado das políticas elaboradas.” E isso não ocorre só na Grã-Bretanha.

Pensemos nas políticas para a banda larga. A Europa foi bastante bem sucedida na promoção da concorrência no ramo do acesso de banda larga, e isto impulsionou o crescimento desse mercado. Neste aspecto, os EUA foram um grande fracasso. O país, antes no topo do ranking de difusão do acesso via banda larga, ocupa agora uma posição que varia de 18ª a 28ª, dependendo dos critérios adotados. Essa mudança foi o resultado de políticas que prejudicaram a concorrência entre provedores de banda larga.

A resposta dos provedores de banda larga, trazidas por eles ao governo, fez que as leis os beneficiassem, destruindo os incentivos para que concorressem entre si de uma forma que estimulasse a difusão do acesso de banda larga.

O mínimo. Diante de exemplos como estes, é perfeitamente justo manifestar amplo ceticismo em relação às respostas oferecidas pelos governos democráticos modernos. Devemos alertá-los para que tomem cuidado com as soluções políticas apresentadas pelos titulares. Afinal, o trabalho dos titulares não é o mesmo que o trabalho do governante.

O trabalho deles, titulares, é buscar o lucro individual. O trabalho do governante é garantir o bem público. E é justo que afirmemos o seguinte: enquanto esse vício não for solucionado, devemos insistir no minimalismo em tudo aquilo que o governo fizer. O minimalismo a que Jarvis se referia quando falou em “não causar males”.

Uma internet que adote os princípios do acesso livre e gratuito, uma rede neutra, para proteger o ‘outsider’, o forasteiro. O futuro da internet não está aqui. Não é o Google nem o Facebook. Ele não foi convidado e nem sabe como ser, pois ainda não conhece em fóruns como este. O mínimo que podemos fazer é preservar a arquitetura dessa rede que protege este futuro que não está aqui.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

[agência pirata] A NOVA ERA DO RÁDIO?

Jabá e medo da internet abrem espaço nas rádios para uma nova era de criatividade

::txt::Leonardo Lichote::

Mais com a discrição de locutor clássico do que com o alarde de FM jovem, de forma lenta e gradual, uma mudança vem se afirmando nas ondas do dial nos últimos anos, como se elas estivessem enfim em sintonia com o século XXI - programas originais, novas linguagens se estabelecendo, ousadia e qualidade na seleção musical com os quais o público já se desacostumara. E, apesar de (quase) silenciosa, ela foi percebida. O Ibope aponta um crescimento contínuo no número de ouvintes - 10% desde 2003, uma cifra aparentemente modesta, mas que ganha expressividade quando se pensa que ela se refere a um meio que parecia ultrapassado pelas novas tecnologias. Estatísticas à parte, um levantamento informal com amigos, a observação de conversas nas ruas e nos tweets - e o testemunho de artistas e radialistas - mostra que um público que estava afastado do rádio desde a década de 1990 - não por acaso, o auge da era dos jabás - está voltando a ele.

Figura presente no rádio desde 1982 (com a lendária Fluminense FM), o DJ Mauricio Valladares, apresentador do "roNca roNca" na Oi FM (uma das pontas de lança do atual bom momento), percebe a volta do interesse e a relaciona com outra retomada:

- Posso comparar com a percepção que as pessoas têm mostrado do vinil, que é o único suporte que cresceu na década - conta o DJ. - O vinil foi redescoberto porque as pessoas cansaram de ouvir som ruim, não saber o que é uma capa bonita. O rádio passa pelo mesmo processo. Quando chegou a internet, houve o fascínio pela possibilidade de acesso a todas as informações e músicas. Mas esse fascínio tem uma validade, que expira no momento em que você não tem uma luz te dizendo para onde ir, para onde não ir e para onde ir mesmo sabendo que será uma roubada. É o comunicador o camarada que vai dizer o que você está ouvindo. E só o rádio transporta essa sensação de que, naquele momento, você está incluído num grupo. O cara que ouve meu programa em Porto Alegre se sente irmão gêmeo do cara que está no Alto José do Pinho, em Recife. Outro exemplo: eu odiava samba, mas adorava ouvir o programa do Adelzon Alves. Gostava daquela mágica de ele falar com os motoristas de ônibus, era fisgado pela dinâmica. A internet não vai ter isso nunca. O rádio é algo novo, apesar de muito velho.

Vista a princípio como rival, a internet tem papel importantíssimo para a redefinição do rádio.

- Nos anos 1960, a rádio consegue se levantar depois do baque da televisão, para onde migraram os programas humorísticos, os de auditório, as novelas. E aí vem o ostracismo dos anos 90. E a internet, que foi um susto um pouco menor do que o da TV - avalia Eliana Caruso, presidente da Rádio Roquette Pinto FM.

Eduardo Andrews, gerente de programação da MPB FM, concorda:

- Foi o empurrão que faltava para as rádios acordarem. Ou elas inovavam no formato e conteúdo ou morriam de vez.

Elas decidiram inovar. Hoje, se afirmam reforçando suas marcas pela atuação em diversas frentes, como selo e promoção de shows (a MPB FM seguiu esse caminho e a Oi FM, filha de uma telefônica, já nasceu sob essa égide); apostando na nova música brasileira de uma forma que não se via desde a geração 1980 do rock brasileiro, com Fluminense FM à frente; e explorando as novas ferramentas oferecidas pela internet (novamente ela). Redes sociais como Twitter e Facebook deram nova força ao velho formato de participação de ouvintes. A tecnologia ofereceu outras aberturas, como transmissão ao vivo por streaming, programas disponíveis para serem ouvidos em podcasts, vídeos com os bastidores da rádio, informações mais completas sobre os artistas que ocupam a programação... E há ainda outras possibilidades menos óbvias.

- O celular virou uma espécie de rádio de pilha - nota Eliana Caruso.

Os próprios caminhos da internet a levaram até mais próximo da linguagem do rádio - afinal, a prática de baixar músicas vem perdendo popularidade para a de ouvi-las simplesmente em sites como YouTube e MySpace.

- É uma tendência que vem se consolidando no mercado de música, a priorização do acesso ao conteúdo, no lugar da posse desse conteúdo - diz Flávia da Justa, diretora de Comunicação de Mercado da Oi, falando da versão on-line da rádio.

Além da tecnologia, fatores econômicos ajudam a entender o renascimento do rádio. A prática abusiva do jabá - com os lucros astronômicos das gravadoras pré-pirataria - homogeneizavam as emissoras, lembram radialistas e programadores. A crise da indústria fonográfica, portanto, abriu espaço para a recuperação que se consolida agora.

- O jabá devastador trouxe a perda de credibilidade. E a credibilidade num meio de comunicação vem antes da música. Hoje, como as vacas gordas do mercado fonográfico estão raquíticas, a criatividade e a qualidade podem prevalecer - defende Mauricio Valladares.

Os exemplos de criatividade e qualidade no dial hoje são muitos (alguns deles estão na página 2 desta edição). Mas Pitty - que foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como revelação na categoria Rádio com o programa "Segunda-feira sem lei" (rádio Transamérica Pop), que ela apresenta com Beto Bruno e Daniel Weskler - torce para que sejam muitos mais:

- Existem programas bem legais, mas ainda são pontos de luz nesse oceano imenso. Mas já considero isso algo muito bom e torço pra que se espalhe. Gosto muito de entrar no carro e ligar o rádio, ficar à mercê do shuffle do DJ - diz Pitty, pondo conceitos da cultura digital e do rádio na mesma frequência.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

CALVIN HARRIS



# agência pirata #
Músico furioso por ver um dos seus vídeos removido do YouTube

txt: Miguel Caetano

É verdade que nos moldes dos contratos discográficos tradicionais, os artistas não controlam verdadeiramente o seu trabalho mas sim a editora ou a entidade que representa os interesses das discográficas do seu país. Mas mesmo assim, é sempre desconfortável quando um músico vê um videoclip de um tema ser magicamente removido do YouTube.

Foi o que aconteceu com o britânico Calvin Harris, que mantém um contrato discográfico com a Sony Music Entertainment. Ontem, Harris descobriu que o vídeo do seu tema “Ready For The Weekend – Original Mix” foi eliminado pelo site de partilha de vídeos da Google após uma intimação enviada pela British Phonographic Industry (BPI).

Segundo a associação que representa os interesses das grandes editoras no Reino Unido, o vídeo encontrava-se em violação dos direitos de autor. Contudo, a verdade é que o clip foi filmado e gravado pelo próprio Harris. Assim que descobriu que tinha sido a BPI a responsável pelo sucedido, o músico decidiu lançar uma série de impropérios contra a organização através da sua conta no Twitter.

Chegando a apelar à utilização em massa dos sites de torrents, Harris afirmou que “a BPI é a pior organização alguma vez criada à face da terra” e chamou de “atrasados mentais” todos os seus funcionários. O artista londrino ameaçou mesmo entrar pela janela adentro dos escritórios da BPI com um jipe de tracção às quatro rodas. Mais tarde, Harris admitiu que se deixou levar pelo calor do momento e pediu desculpa a todos os funcionários da BPI que não são atrasados mentais.

E parece que todo este escarcéu acabou por dar resultado: para além do incidente ter sido noticiado pelo TechCrunch e pelo ArsTechnica, não demorou muito para que o vídeo voltasse outra vez a estar disponível online. Segundo a BPI, a remoção ficou a dever-se a um “lamentável acidente” em que o vídeo de Harris foi incorrectamente parar a um lote de outros vídeos a remover. A organização pediu desculpas ao músico mas não me parece que ele tenha aceitado lá muito bem a situação.

Se fosse no meu caso, não aceitaria. Estas entidades apenas actuam da forma como actuam porque se parte do pressuposto que elas agem em nome do criador. Mas não raras vezes o passado recente tem vindo a demonstrar que elas acabam muitas vezes por agir contra a vontade deste. Quando é que isto acabará?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

TRENT REZNOR




# agência pirata #

Tentando singrar na Web sem a ajuda de uma editora? O mestre Trent Reznor ajuda

txt: Miguel Caetano

Deduzo que por esta altura já todos os artistas que são leitores regulares do Remixtures tenham na sua mente alguns dos princípios fundamentais sobre como fazer carreira por si próprio na era da música online. É claro que sobreviver sem um contrato discográfico com uma grande editora discográfica é bastante mais fácil em mercados mais vastos e com um circuito autosustentável de música ao vivo (com festivais, rádios especializadas em música, salas de concertos, etc.) como o brasileiro.

Mesmo assim, isto não significa que nós, portugueses, tenhamos sempre que nos sujeitar aos ditames de um qualquer executivo encafuado algures num escritório de Madrid ou Barcelona. Muito pelo contrário, as possibilidades da vossa música chegar a todo o mundo nunca foram tão grandes como hoje, independentemente do que os “velhos do Restelo” proclamam.

Foi a pensar naqueles que só agora estão a dar os primeiros passos numa carreira por conta própria recorrendo apenas às ferramentas gratuitas – ou quase… – que a Web oferece que Trent Reznor dos Nine Inch Nails decidiu publicar no fórum da banda uma série de dicas de autopromoção online.

Na sua opinião, o modelo de oferecer música grátis sem DRM e cobrar por artigos escassos e de edição limitada pode e deve ser seguido por todos aqueles artistas independentes que não aspiram ao estatuto de super-estrelas como Lady GaGa, Coldplay, U2 ou Justin Timberlake.

Aliás, ele diz que se o que um artista ou uma banda quer mesmo ser uma vedeta desse calibre o que melhor que tem a fazer é mesmo assinar um contrato com uma major. Mas não há bela sem senão: a fama implica inevitavelmente ceder boa parte dos direitos das suas músicas, bem como uma percentagem significativa das suas fontes de receitas, para além – é claro – do controlo criativo sobre o seu trabalho.

Reznor diz para pôrem de lado a ideia de que vão ganhar algum dinheiro decente com as vendas de discos e aconselha os artistas independentes a não gastarem muito dinheiro com a gravação do disco (sem que isto afecte a qualidade) de modo a oferecerem-no sob a forma de MP3s sem DRM e com uma elevada qualidade.

De forma a fazer com que a vossa música chegue a todo o lado, ele aconselha o recurso à distribuidora digital TuneCore, assim como à Amazon e à TopSpin, uma empresa que desenvolve sites e edições especiais – uma das mais recentes foi a reedição do álbum Ill Communication (1994) dos Beastie Boys.

Apesar de recomendar a criação de uma página no MySpace, ele considera que é mais importante manter um site regularmente actualizado com conteúdos multimédia mas livre de todas as animações e fantochadas em Flash de modo a fazer com que as pessoas regressem mais vezes a ele e a criar uma comunidade em seu torno (através de um fórum, por exemplo). Para além disso, ele aconselha ainda que as bandas filmem vídeos baratos e criem páginas pessoais em toda a panóplia de redes sociais (Twitter, YouTube, Flickr, Vimeo e SoundCloud. Por último, ele recomenda ainda que não abusem das suas mailing lists.

Numa actualização recente, o frontman dos Nine Inch Nails aproveitou ainda para criticar o modelo “pague o que quiser” popularizado pelos Radiohead com a sua experiência em Outubro de 2007 aquando do lançamento do seu álbum In Rainbows:

Eu odeio este conceito (…) Alguns argumentaram que oferecer música de borla desvaloriza a música. Eu discordo. Pedir às pessoas a sua opinião a respeito do valor da sua música desvaloriza a música. Não acreditam em mim? Componham e gravem algo que consideram bestial e disponibilizem-no ao público segundo um modelo “pague-o-que-pensa-que-isto-vale” e depois conversamos. Lêem um comentário de um “fã” que tenta justificar porque é que o vosso álbum só vale 50 cêntimos porque ele apenas gosta de cinco músicas. Confiem em mim – vocês ficarão desapontados e acabarão por ficar a odiar uma facção da vossa audiência. Isto é a vossa arte! Isto é a vossa vida! Tem um valor e vocês, os artistas, não deixarão que esse poder passe para as mãos da vossa audiência – fazê-lo cria um grave problema de percepção (…) Não se deixem enganar pelo golpe promocional do In Rainbows dos Radiohead. Isto apenas funciona uma só vez e com uma única banda – e vocês não são os Radiohead.

Realmente, mais uma vez tiro o chapéu ao senhor Reznor. Ele sabe como comunicar directamente com o seu público. Independentemente da coerência das críticas tecidas aos Radiohead, o que é facto é que ele demonstrou ter um discurso muito mais maduro do que a atitude simultaneamente infantil mas típica de um artista em decadência que Robert Smith dos The Cure adoptou.

terça-feira, 30 de junho de 2009

UM NOVÍSSIMO JORNALISMO



# agência pirata #
Jornalismo em um mundo em transição

txt: Ronaldo Lemos
art: Andy Warhol



Em paralelo às notícias da morte do Rei do Pop, outra notícia que ganhou destaque em menor escala foi a de que as TVs, os rádios e os jornais do mundo foram "furados" pelo site TMZ, especializado em fofocas de celebridades.

Enquanto a mídia tradicional lutava contra o tempo para confirmar a morte do astro, o TMZ já proclamava que ele havia sofrido uma parada cardíaca. E, pouco tempo depois, destemidamente afirmava que Jackson havia morrido.

Essa notícia paralela chama a atenção por pelo menos dois pontos. O primeiro é o mais óbvio. A internet, em toda a sua diversidade e complexidade, estabelece um canal direto muito mais rápido para a produção de notícias. Cada vez mais, ela terá impacto mais direto na esfera pública.

A criação de "notícias", antes privilégio da mídia tradicional, tornou-se e irá se tornar cada vez mais descentralizada, valendo-se de Twitter, Facebook, YouTube, blogs, celulares e o que vier depois. Esse fato, em si, chama para a reinvenção da mídia tradicional. É preciso se reinventar para não se tornar caixa de ressonância do que todo mundo já ficou sabendo antes. Já vi teses de doutorado e editores de jornal dizendo que a situação atual é a inversa. Que a internet é a caixa de ressonância da mídia tradicional. Há um quinhão de verdade nisso. Mas a tendência, como o caso Michael Jackson denota, é que a situação se inverta.

O segundo ponto é verificar que o TMZ, que vem sendo apontado como herói das "novas mídias", na verdade é ligado à Time-Warner. Nada mais mídia tradicional do que isso. No entanto, vale notar que seu formato é muito mais próximo de um blog/tablóide do que de um jornal tradicional.

É como se o navio Time-Warner tivesse lançado uma lancha de alta velocidade no oceano das notícias. Essa "lancha" não tem as amarras do jornalismo tradicional, pode se mover a uma velocidade muito maior e, sobretudo, não tem de obedecer aos protocolos de segurança do grande navio.

Em outras palavras, as regras de cautela, apuração e confiabilidade não são as mesmas para o site. Ele pode correr riscos. E, por conta disso, por ser um produto híbrido entre nova e velha mídia, talvez tenha sido destemido ao afirmar com tanta segurança a morte de Michael Jackson.

A morte de Michael Jackson e a forma como foi noticiada simbolizam um mundo em transição. Ninguém sabe ainda para onde irá o jornalismo e como será formada a esfera pública nos próximos anos. E os desafios são enormes. Como reinventar não só as formas de participação, mas também uma ética nova para a rede, uma ética que não seja nem ingênua nem obsoleta? E que não seja imposta, mas sim construída.

O fato é que não existe marcha a ré nesse processo, para desespero dos saudosistas e das viúvas do velho mundo. Vamos ter de aprender a reinventar tudo a 1.000 quilômetros por hora. É hora de experimentação. É hora de renovação de paradigmas. E de lembrar que o mundo em que foi possível existir alguém como Jackson não existe mais.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • Atribuição — Você deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licença — Se você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

  • Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
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  • Outros Direitos — Os seguintes direitos não são, de maneira alguma, afetados pela licença:
    • Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
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