Estudo confirma: partilhadores também pagam pela música
::txt::Miguel Caetano::
No que toca ao efeito da partilha de ficheiros nas vendas de música, existem estudos para todos os gostos. Contudo, o grande inconveniente da grande maioria é que se baseiam em amostras de mil a dois mil – vá lá, por vezes dez mil… – indivíduos. Mas o que diriam se soubessem de uma empresa que se deu ao trabalho de realizar um inquérito online a 64 milhões de internautas?
Tanta gente é de facto de desconfiar mas isso é o que a Interpret, uma empresa de estudos de mercado nas áreas de entretenimento, media e tecnologia alega ter alcançado. E o que é que esta pesquisa nos diz em concreto sobre os hábitos de consumo musicais dos inquiridos?
Algo que será sem dúvida do desagrado das grandes editoras: 24 milhões dos inquiridos, isto é, 36 por cento (de acordo com o TorrentFreak, embora o Hypebot refira 38 por cento), admitiram ter realizado downloads não autorizados de música ao longo dos últimos três meses.
Numa altura em que a imprensa mainstream anglo-saxónica parece ter-se convencido de que ser pirata já não está a dar, estes números representam um sinal evidente de que existem muitos fãs de música que continuam a não se contentar com serviços de streaming como o Spotify ou a Last.fm.
No entanto, a persistência dos downloads ilegais não parece ser incompatível com o pagamento pela música: nove por cento dos partilhadores disseram ter adquirido um álbum completo durante os últimos três meses, ao passo que 16 por cento afirmaram ter comprado um download de um tema individual.
O normal seria que os ‘piratas’ preferissem pagar por música em suporte físico como CDs e discos em vinil – o estudo não parece adiantar grandes pormenores a este respeito – mas esta adesão aos downloads legais e pagos a partir de lojas online como o iTunes é algo de surpreendente. Na volta, talvez isto seja o resultado da decisão das grandes editoras de permitirem a venda de ficheiros sem DRM na Internet.
Aliás, mais estranho ainda é que quase metade (49%) dos partilhadores foram da opinião de que o preço de um álbum individual comprado a partir de um retalhista online deveria ser inferior ao de um CD. É claro que, ao contrário de outros, este estudo peca por não comparar os dados adiantados pelos “piratas” com uma amostra de indivíduos comuns que não costumam aceder regularmente à Internet. Se assim fosse, quanto queriam apostar que os dados acabariam por revelar – mais uma vez.. – que os partilhadores gastam em média mais dinheiro com música do que os restantes?
Miguel Caetano tem 33 anos e possui uma licenciatura em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, para além de um mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação pelo ISCTE. Ele é autor do blog Remixtures, que tem conteúdo licenciado em Creative Commons. Com a pré-autorização, não foi preciso pedir permissão a ele pra publicar o texto aqui.
#CADÊ MEU CHINELO?
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
[agência pirata] A NOVA ERA DO RÁDIO?
Jabá e medo da internet abrem espaço nas rádios para uma nova era de criatividade
::txt::Leonardo Lichote::
Mais com a discrição de locutor clássico do que com o alarde de FM jovem, de forma lenta e gradual, uma mudança vem se afirmando nas ondas do dial nos últimos anos, como se elas estivessem enfim em sintonia com o século XXI - programas originais, novas linguagens se estabelecendo, ousadia e qualidade na seleção musical com os quais o público já se desacostumara. E, apesar de (quase) silenciosa, ela foi percebida. O Ibope aponta um crescimento contínuo no número de ouvintes - 10% desde 2003, uma cifra aparentemente modesta, mas que ganha expressividade quando se pensa que ela se refere a um meio que parecia ultrapassado pelas novas tecnologias. Estatísticas à parte, um levantamento informal com amigos, a observação de conversas nas ruas e nos tweets - e o testemunho de artistas e radialistas - mostra que um público que estava afastado do rádio desde a década de 1990 - não por acaso, o auge da era dos jabás - está voltando a ele.
Figura presente no rádio desde 1982 (com a lendária Fluminense FM), o DJ Mauricio Valladares, apresentador do "roNca roNca" na Oi FM (uma das pontas de lança do atual bom momento), percebe a volta do interesse e a relaciona com outra retomada:
- Posso comparar com a percepção que as pessoas têm mostrado do vinil, que é o único suporte que cresceu na década - conta o DJ. - O vinil foi redescoberto porque as pessoas cansaram de ouvir som ruim, não saber o que é uma capa bonita. O rádio passa pelo mesmo processo. Quando chegou a internet, houve o fascínio pela possibilidade de acesso a todas as informações e músicas. Mas esse fascínio tem uma validade, que expira no momento em que você não tem uma luz te dizendo para onde ir, para onde não ir e para onde ir mesmo sabendo que será uma roubada. É o comunicador o camarada que vai dizer o que você está ouvindo. E só o rádio transporta essa sensação de que, naquele momento, você está incluído num grupo. O cara que ouve meu programa em Porto Alegre se sente irmão gêmeo do cara que está no Alto José do Pinho, em Recife. Outro exemplo: eu odiava samba, mas adorava ouvir o programa do Adelzon Alves. Gostava daquela mágica de ele falar com os motoristas de ônibus, era fisgado pela dinâmica. A internet não vai ter isso nunca. O rádio é algo novo, apesar de muito velho.
Vista a princípio como rival, a internet tem papel importantíssimo para a redefinição do rádio.
- Nos anos 1960, a rádio consegue se levantar depois do baque da televisão, para onde migraram os programas humorísticos, os de auditório, as novelas. E aí vem o ostracismo dos anos 90. E a internet, que foi um susto um pouco menor do que o da TV - avalia Eliana Caruso, presidente da Rádio Roquette Pinto FM.
Eduardo Andrews, gerente de programação da MPB FM, concorda:
- Foi o empurrão que faltava para as rádios acordarem. Ou elas inovavam no formato e conteúdo ou morriam de vez.
Elas decidiram inovar. Hoje, se afirmam reforçando suas marcas pela atuação em diversas frentes, como selo e promoção de shows (a MPB FM seguiu esse caminho e a Oi FM, filha de uma telefônica, já nasceu sob essa égide); apostando na nova música brasileira de uma forma que não se via desde a geração 1980 do rock brasileiro, com Fluminense FM à frente; e explorando as novas ferramentas oferecidas pela internet (novamente ela). Redes sociais como Twitter e Facebook deram nova força ao velho formato de participação de ouvintes. A tecnologia ofereceu outras aberturas, como transmissão ao vivo por streaming, programas disponíveis para serem ouvidos em podcasts, vídeos com os bastidores da rádio, informações mais completas sobre os artistas que ocupam a programação... E há ainda outras possibilidades menos óbvias.
- O celular virou uma espécie de rádio de pilha - nota Eliana Caruso.
Os próprios caminhos da internet a levaram até mais próximo da linguagem do rádio - afinal, a prática de baixar músicas vem perdendo popularidade para a de ouvi-las simplesmente em sites como YouTube e MySpace.
- É uma tendência que vem se consolidando no mercado de música, a priorização do acesso ao conteúdo, no lugar da posse desse conteúdo - diz Flávia da Justa, diretora de Comunicação de Mercado da Oi, falando da versão on-line da rádio.
Além da tecnologia, fatores econômicos ajudam a entender o renascimento do rádio. A prática abusiva do jabá - com os lucros astronômicos das gravadoras pré-pirataria - homogeneizavam as emissoras, lembram radialistas e programadores. A crise da indústria fonográfica, portanto, abriu espaço para a recuperação que se consolida agora.
- O jabá devastador trouxe a perda de credibilidade. E a credibilidade num meio de comunicação vem antes da música. Hoje, como as vacas gordas do mercado fonográfico estão raquíticas, a criatividade e a qualidade podem prevalecer - defende Mauricio Valladares.
Os exemplos de criatividade e qualidade no dial hoje são muitos (alguns deles estão na página 2 desta edição). Mas Pitty - que foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como revelação na categoria Rádio com o programa "Segunda-feira sem lei" (rádio Transamérica Pop), que ela apresenta com Beto Bruno e Daniel Weskler - torce para que sejam muitos mais:
- Existem programas bem legais, mas ainda são pontos de luz nesse oceano imenso. Mas já considero isso algo muito bom e torço pra que se espalhe. Gosto muito de entrar no carro e ligar o rádio, ficar à mercê do shuffle do DJ - diz Pitty, pondo conceitos da cultura digital e do rádio na mesma frequência.
::txt::Leonardo Lichote::
Mais com a discrição de locutor clássico do que com o alarde de FM jovem, de forma lenta e gradual, uma mudança vem se afirmando nas ondas do dial nos últimos anos, como se elas estivessem enfim em sintonia com o século XXI - programas originais, novas linguagens se estabelecendo, ousadia e qualidade na seleção musical com os quais o público já se desacostumara. E, apesar de (quase) silenciosa, ela foi percebida. O Ibope aponta um crescimento contínuo no número de ouvintes - 10% desde 2003, uma cifra aparentemente modesta, mas que ganha expressividade quando se pensa que ela se refere a um meio que parecia ultrapassado pelas novas tecnologias. Estatísticas à parte, um levantamento informal com amigos, a observação de conversas nas ruas e nos tweets - e o testemunho de artistas e radialistas - mostra que um público que estava afastado do rádio desde a década de 1990 - não por acaso, o auge da era dos jabás - está voltando a ele.
Figura presente no rádio desde 1982 (com a lendária Fluminense FM), o DJ Mauricio Valladares, apresentador do "roNca roNca" na Oi FM (uma das pontas de lança do atual bom momento), percebe a volta do interesse e a relaciona com outra retomada:
- Posso comparar com a percepção que as pessoas têm mostrado do vinil, que é o único suporte que cresceu na década - conta o DJ. - O vinil foi redescoberto porque as pessoas cansaram de ouvir som ruim, não saber o que é uma capa bonita. O rádio passa pelo mesmo processo. Quando chegou a internet, houve o fascínio pela possibilidade de acesso a todas as informações e músicas. Mas esse fascínio tem uma validade, que expira no momento em que você não tem uma luz te dizendo para onde ir, para onde não ir e para onde ir mesmo sabendo que será uma roubada. É o comunicador o camarada que vai dizer o que você está ouvindo. E só o rádio transporta essa sensação de que, naquele momento, você está incluído num grupo. O cara que ouve meu programa em Porto Alegre se sente irmão gêmeo do cara que está no Alto José do Pinho, em Recife. Outro exemplo: eu odiava samba, mas adorava ouvir o programa do Adelzon Alves. Gostava daquela mágica de ele falar com os motoristas de ônibus, era fisgado pela dinâmica. A internet não vai ter isso nunca. O rádio é algo novo, apesar de muito velho.
Vista a princípio como rival, a internet tem papel importantíssimo para a redefinição do rádio.
- Nos anos 1960, a rádio consegue se levantar depois do baque da televisão, para onde migraram os programas humorísticos, os de auditório, as novelas. E aí vem o ostracismo dos anos 90. E a internet, que foi um susto um pouco menor do que o da TV - avalia Eliana Caruso, presidente da Rádio Roquette Pinto FM.
Eduardo Andrews, gerente de programação da MPB FM, concorda:
- Foi o empurrão que faltava para as rádios acordarem. Ou elas inovavam no formato e conteúdo ou morriam de vez.
Elas decidiram inovar. Hoje, se afirmam reforçando suas marcas pela atuação em diversas frentes, como selo e promoção de shows (a MPB FM seguiu esse caminho e a Oi FM, filha de uma telefônica, já nasceu sob essa égide); apostando na nova música brasileira de uma forma que não se via desde a geração 1980 do rock brasileiro, com Fluminense FM à frente; e explorando as novas ferramentas oferecidas pela internet (novamente ela). Redes sociais como Twitter e Facebook deram nova força ao velho formato de participação de ouvintes. A tecnologia ofereceu outras aberturas, como transmissão ao vivo por streaming, programas disponíveis para serem ouvidos em podcasts, vídeos com os bastidores da rádio, informações mais completas sobre os artistas que ocupam a programação... E há ainda outras possibilidades menos óbvias.
- O celular virou uma espécie de rádio de pilha - nota Eliana Caruso.
Os próprios caminhos da internet a levaram até mais próximo da linguagem do rádio - afinal, a prática de baixar músicas vem perdendo popularidade para a de ouvi-las simplesmente em sites como YouTube e MySpace.
- É uma tendência que vem se consolidando no mercado de música, a priorização do acesso ao conteúdo, no lugar da posse desse conteúdo - diz Flávia da Justa, diretora de Comunicação de Mercado da Oi, falando da versão on-line da rádio.
Além da tecnologia, fatores econômicos ajudam a entender o renascimento do rádio. A prática abusiva do jabá - com os lucros astronômicos das gravadoras pré-pirataria - homogeneizavam as emissoras, lembram radialistas e programadores. A crise da indústria fonográfica, portanto, abriu espaço para a recuperação que se consolida agora.
- O jabá devastador trouxe a perda de credibilidade. E a credibilidade num meio de comunicação vem antes da música. Hoje, como as vacas gordas do mercado fonográfico estão raquíticas, a criatividade e a qualidade podem prevalecer - defende Mauricio Valladares.
Os exemplos de criatividade e qualidade no dial hoje são muitos (alguns deles estão na página 2 desta edição). Mas Pitty - que foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como revelação na categoria Rádio com o programa "Segunda-feira sem lei" (rádio Transamérica Pop), que ela apresenta com Beto Bruno e Daniel Weskler - torce para que sejam muitos mais:
- Existem programas bem legais, mas ainda são pontos de luz nesse oceano imenso. Mas já considero isso algo muito bom e torço pra que se espalhe. Gosto muito de entrar no carro e ligar o rádio, ficar à mercê do shuffle do DJ - diz Pitty, pondo conceitos da cultura digital e do rádio na mesma frequência.
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009
REVIVAL DO VINIL ?
# agência pirata #
Lado B
txt: Leonardo Foletto
Você, caro cidadão sobrecarregado de informação do século XXI, já deve ter escutado alguma informaçãozinha que seja sobre a onda de revival do disco de vinil, o velho Long Play que muito fez a alegria das (antigas) jovens tardes de domingo e que, com a popularização do CD ali pelo início da década de 1990, passou de produto extremamente popular à artigo de colecionadores, DJs e aficcionados por música em geral. Ouve-se falar seja com saudosismo, recuperando histórias para mostrar o quanto era bom a época em que ninguém nem imaginava o que viria a ser um MP3, seja com entusiasmo, afirmando que o disco de vinil é a redescoberta do universo musical no fim desta década. Os números parecem dar conta de que, sim, há um revival do vinil; só nos Estados Unidos, houve um aumento de 90% da venda de discos entre 2007 e 2008. Em 2007, a receita com a venda de vinil somou US$ 23 milhões, um aumento de 46,2% em relação a 2006, segundo a nossa velha conhecida RIAA. No Brasil, ainda que não existam estatísticas precisas dando conta do fenômeno, presidentes de gravadoras percebem o novo velho mercado como muito promissor, enquanto que, não raro, produtores/jornalistas e o público vêem a questão com uma curiosidade renovada.
Artistas pop, como Pitty, estão gostando da ideia de lançar seus novos álbuns também em vinil, colocando o bolachão no arsenal de formatos de disponibilização de suas músicas (CD, MP3, DVD, LP até pen drive). Mesmo outros mais respeitados do que Pitty – Bruce Springsteen, Radiohead, Elvis Costello, Raconteurs, Cat Power, Los Hermanos, Caetano Veloso, Ed Motta e outros tantos – também adotam o formato como forma de agradar um nicho específico de público, e um nicho que parece crescer tanto não é de ser desprezado por ninguém. Todos estes novos discos, somados às também cada vez mas frequentes reedições de LPs clássicos, formam um espaço em grandes lojas que não se duvide que em pouco tempo seja maior que o dos CDs – se já não o é, como mostra o acervo de mais de 600 discos que a Livraria Cultura têm em suas lojas.
Vendo e analisando todas estas informações e estatísticas, não me canso de pensar que o vinil caiu bem demais no papel (solitário, praticamente) de buscar uma sobrevida para as falidas gravadoras. Leia esta matéria do Globo Online e tente não pensar isso também. Nela, Cris Ashworth, dono da United Record Pressing, uma fábrica de LPs de Nashville que é uma das maiores dos Estados Unidos, fala coisas do tipo: “Meu filho esteve muito preocupado por dez anos. Ele meio que olhava para mim, balançava a cabeça e dizia ‘Pai, você não tem vida’. Agora ele diz ‘Bem, talvez papai seja um pouco mais esperto do que eu pensava“. Outro dono de gravadora, Luke Lewis, presidente do selo de Elvis Costello, Lost Highway, é igualmente cara-de-pau: “É uma revolução? Não. Mas nossas crenças foram um pouco renovadas, sem mencionar que fizemos um pouco mais de dinheiro. É difícil fazer isso na indústria hoje em dia“.
Como é tão fácil baixar música e todo mundo pode ter tudo que quiser a sua disposição em não muitos cliques, o vinil faz seu sucesso porque vai na contramão disso tudo. É um produto que vem com arte caprichada, muito melhor e maior (e também mais difícil de reproduzir) do que nos pobrezinhos dos cds; só pode ser escutado por um seleto grupo de consumo que tem um toca-discos, o que dá um caráter de exclusividade ao produto, em claro contraponto à putaria do MP3, que hoje todo mundo escuta seja num celular ou num player que cada vez custa menos. O fato de ser um produto exclusivo ainda agrega um “conceito” ao vinil, o que instiga o consumo como um ato necessário para se sentir pertecendo a um determinado grupinho.
Falas como “o vinil tem vida, cheiro, imagem, cor. O CD é frio” dão o tom de quem é fã do vinil. O CD e outros formatos digitais como o MP3 são conhecidos por seu áudio límpido mas excessivamente “magro”, enquanto que no vinil o som é mais “gordo” e propenso a nuâncias das mais variadas origens. Segundo Paulo Assis, que trabalha como produtor de áudio e é colaborador de revistas como Cover Guitarra e Teclado & Piano, isso acontece porque o som de um disco de vinil vem de um sulco no plástico; a onda não está representada por cálculos matemáticos ou algo semelhante, mas está lá, fisicamente presente. A agulha vibra nessas lombadas musicais e essa vibração é o som.
Nas mídias digitais como o CD e o MP3, o som é gerado a partir de informações que representam a onda sonora; para fazer isso, a digitalização vai transformar a curva sonora em uma espécie de “escada”, retirando alguns detalhes (ou erros) da gravação, deixando o som mais “quadrado” e “frio” em relação ao do vinil. É o velho embate do analógico X digital; no vinil, o som é real, original, não sofre nenhm processo ligado à computação de dados, enquanto que o CD (e no MP3 ainda mais) é a cópia da cópia, porque o processo de digitalização não é possível ser feito diretamente da gravação, uma vez que o microfone não transforma o som em zero e um (linguagem de computação).
Acontece que, na maioria dos casos, os “detalhes” perdidos do CD e do MP3 em relação ao vinil não são perceptíveis para o ouvido humano, e muito menos reproduzidos pelos aparelhos convencionais de áudio. O que ocorre, então, é que a questão torna-se um embate mais, digamos, subjetivo, entre aqueles saudosistas que escutaram (pela primeira vez) a música em vinil e não toleram os “cortes” inevitáveis na reprodução para o CD e os que acham que as vantagens do digital – como a possibilidade de armazenar mais informação e a reprodução do áudio mais simples – superam e muito o velho Long Play.
Polêmicas à parte, o certo é que o nicho dos que consomem discos de vinil é cada vez maior. Pega desde audiófilos interessados em escutar todos os detalhes da música em aparelhos ultrapotentes até a gurizada nova que não era nascida na época em que todo mundo só tinha o LP e as fitas k7 como opção para escutar música e agora redescobre o velho bolachão como um ótimo produto a ser comprado, difundido, curtido – o que também coloca o vinil como um conceito interessantíssimo a ser explorado, pois é retrô ao mesmo tempo que torna-se cada vez mais moderno, para alegria dos seguidores de tendências profissionais.
Quem ganha com isso? Muita gente, em especial as fábricas de vinil, que em fins da década de 1990 e início de 2000 estavam por fechar e agora ganham uma sobrevida, e, principalmente, as gravadoras, que sustentam mais um pouquinho um modelo de negócio que muito dinheiro deu à elas durante todo o século passado e que, desta forma, adiam a sua (saudável) morte por pelo menos algum tempo.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
VINIL

# noéspecial #
Não tá morto quem peleia
txt: Alexandre Lucchese e Glauber Winck
phts: Alexandre Lucchese e Thais Brandão
Em meio à euforia da “volta do vinil”, um dos maiores colecionadores de discos do Brasil mora em Porto Alegre, vive da marcenaria e de outros bicos, mas não está ligando muito para tudo isso.
Vilmar Cunha me esperava às nove da manhã, com treze mil discos, dois copos brancos de gelo e uma lata de cerveja no congelador. Não se trata de um colecionador de discos à la Tinhorão ou Ed Motta, muito menos de um bebum: a lata só descansava solitária na geladeira por puro senso de bom anfitrião, e os discos só estavam lá porque... porque, sei lá, porque é bom ouvir discos. Há duas semanas liguei:
- Seu Alexandre, não pode vir agora, me dá uns dez dias pra arrumar as coisas.
Tudo deveria estar impecável. Tudo estava impecável. Também pudera:
- De gente estranha, o senhor é o único que entrou aqui pra ver meus discos...

Privilégio de quem trabalha n’O DILÚVIO. A gente ganha pouco, mas vive muito. Mas chega de auto-publicidade, o que interessa é que Vilmar tem uma coleção de bolachões que supera as dez mil unidades do lendário Kid Vinil, e está se aproximando dos 20 mil itens de Ed Motta. Não é nenhum estudioso de música popular, não trabalha no meio musical, nem está atrás de raridades para guardar ou exibir aos amigos, muito menos acessa a internet para acompanhar os lançamentos da indústria gringa. Ele empresta os discos a apenas um conhecido, um companheiro de viagens e outras estripulias que Vilmar apronta aos 58 anos. Volta e meia o cara pega emprestado um disco do Roberto Carlos, mas sofre a vigilância constante do colecionador, que tem uma relação quase paternal com as treze mil crias. “Eu fiz um cartão escrito 'compro e vendo discos', mas na verdade eu só compro, sou apegado a eles”, explica ao mostrar seu cartão pessoal impresso em duas faces: de um lado Vilmar marceneiro, do outro, Vilmar colecionador de discos.
O marceneiro começou a colecionar vinis há aproximadamente uns quinze anos, quando começou a fazer fretes com uma kombi que tem até hoje. Ganhava discos dos clientes que estavam migrando para o cedê e ia guardando tudo. Começou também a comprar. “Mas o que tu curte mesmo, Vilmar?” Música tradicional mexicana, Agnaldo Timóteo, Elvis Presley, Teixeirinha, Roberto Carlos, Altemar Dutra, Trini Lopez, duplas sertanejas antigas, todos aqueles grandes cantores dos anos 60 e 70. Chega a ser deliciosamente curioso o modo como ele simplesmente ignora qualquer rótulo ou gênero musical, apenas ouve artistas que gosta e vai conhecendo outros porque tem o coração aberto a toda musicalidade que lhe cai nas suas mãos.
Galena com um prego na ponta

Envolto por paredes cheias de discos novos vindos do hemisfério norte, Getúlio Costa tem uma importante loja de vinis na capital. Sua “Boca do Disco” é uma vitrine do que acontece pelo mundo na tão apregoada “volta do vinil” que Vilmar já disse ter ouvido falar: discos em sua maioria novos, com preço médio em torno de R$ 80, a maioria deles pesando 180 gramas, o que garante durabilidade e aviva o som dos graves, coisa bem diferente dos vinis que estávamos acostumados a encontrar no Brasil quando essa era a mídia padrão da indústria musical. Lojas virtuais como a Amazon têm dedicado sessões especiais só para os bolachões, tendência que a Livraria Cultura seguiu no Brasil. Além disso a maioria das bandas gringas têm lançado seus álbuns nesse formato, assim como Lenine, Ed Motta e Los Hermanos fizeram por essas terras.
Natural de Butiá, município localizado a 78 km de Porto Alegre, Vilmar veio para a capital aos dezessete anos. Sonhava com a vida agitada da metrópole. Trabalhou em várias lugares e em várias funções, na Borregard de Guaíba, em hotéis do centro, em uma empresa que instalava painéis luminosos, entre outras. Resolveu então aplicar o que tinha aprendido em marcenaria com seu primeiro sogro, e passou a trabalhar como autônomo, mas sentiu a fome chegar bem próxima até conseguir um círculo de clientes fiéis. Autodidata por natureza, foi aprendendo de tudo um pouco, hoje se orgulha ao dizer que faz “tudo numa casa”, é aquele cara que tu pode chamar pra arrumar desde o cano do teu chuveiro até a fiação elétrica da tua casa. “É tudo feitio meu”, vai dizendo Vilmar ao apresentar seu trabalho por todos cômodos: o fogão a lenha, as paredes, os azulejos colocados no capricho, a serpentina que leva água quente para o banheiro, as máquinas com que trabalha a madeira, as grandes estantes transbordantes de discos...
Mas Getúlio emenda: “não adianta o cara estar com uma galena em casa com um prego na ponta e querer qualidade”. Sim, nada é tão simples no mundo do vinil. Esse retorno que traria, em tese, mais qualidade sonora aos nossos ouvidos, depende da boa prensagem do vinil e também de aparelhos que possam reproduzir com fidelidade a música gravada nos sulcos. Como resume o professor de física da UFRGS, Ricardo Francke: “se você quer um bom aparelho de som vai ter que pagar, e, para um dado preço, o cedê é de melhor qualidade que o elepê”.
Tendo a mesa de toca-discos como ambiente de trabalho, DJ Anderson, da banda Ultramen, sabe bem disso. De suas pick-ups, consegue retirar tudo o que o vinil tem para dar: “no áudio, a equalização dele é mais definida, principalmente os graves, ele preserva toda qualidade de som que eu busco na hora da gravação”.
Para diferenciar, em termos físicos, os vinis dos cedês, contamos com o depoimento esclarecedor do professor Francke: “O sinal de áudio que desejamos arquivar num cedê é amostrado 44100 vezes por segundo. Cada um desses valores é digitalizado com 8 bits. Isto quer dizer que um voltagem D é escrito aproximadamente por D = b0x2+b1x2+b2x4+b3x8+ b4x16+b5x32+ b6x64+ b7x128. Observemos que o menor valor é 0 com todos os b0=0, b1=0 b2=0, etc. E o maior valor que podemos escrever é 255 com b0=1, b1=1, b2=1,....e b7=1. O que acontece, então, se o valor que queremos representar é 66,23. Neste caso os 66 podem ser escritos como 2 + 64 isto é b1=1 e b6=1 e todos os outros b igual a zero. Mas o que acontece com o 0,23? Ele é perdido. No caso do elepê, a agulha vibra com a freqüência do sinal de áudio. Essa vibração é captada eletricamente e amplificada.” Entendeu? Eu também não. Mas sente com Vilmar e deixe ele colocar qualquer um dos seus discos em qualquer um de seus onze toca-discos e você vai sacar tudo no ato.
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