#CADÊ MEU CHINELO?

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quarta-feira, 30 de março de 2011

[agência pirata] O DIREITO DOS IDIOTAS



::txt::Afonso Vieira::

Há algum tempo ando afastado do meu hobby da escrita. Na semana passada acompanhei uma discussão sobre uns impropérios tecidos por um ator ao estado do Piauí. Logo em seguida, fiquei sabendo de outra asneira proferida por um “cantor” adolescente sobre a região amazônica.

Até ai nada demais, oras, ambos os falantes têm o direito de deslizarem nas palavras. Mas a reação da turba - supostamente ofendida - foi algo completamente desproporcional. Ambos tiveram eventos marcados por aquelas regiões, cancelados.

Quem é que nunca disse uma asneira, daquelas bem cabeludas? Isso é normal que ocorra, e o disparate é inversamente proporcional à quantidade de massa encefálica que possuímos. Pelo que vi, ambos têm deficiência com neurônios.

O ator eu desconhecia, a “banda” eu nunca ouvi – evito rádios e a mídia convencional -, só vi algumas vezes, pois o visual esquisito que me chamou atenção, que não considero algo adequado para meus padrões de vestimentas. Mas o problema é deles, se querem se vestir assim, têm o direito!

Nunca entendi essa relação doentia entre o bairrismo e os idiotas. Começo a enxergar algo além. É comum que os menos favorecidos intelectual, financeira e moralmente, busquem formas de escape para suas frustrações. Daí a explicação do alarde ao que “pensa” ou diz alguém que nem merece muita atenção. Na verdade – para os casos em questão -, ganharam cartaz e visibilidade além do que mereciam.

Há uma frase atribuída ao escritor Paul Johnson: “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Acredito que a referência é justamente para casos como os supracitados. Desculpem-me meus caros, mas as assembléias legislativas, os programas de TV, entre outros, deveriam ter coisas mais importantes do que se incomodar com biltres saltitantes. Deveriam . . .

Eu, assim como qualquer pessoa normal, também tenho meus momentos de idiotia – um deles foi em um comentário infeliz semana passada em meu ambiente de trabalho, mas isso é outra história.

A récua de algozes é pior, muito pior que os novos “inimigos” do Norte e Nordeste. Afinal, eles tiveram tempo para pensar e planejar suas ações. Recordei-me do episódio que ocorreu com o colunista Diogo Mainardi e Cuiabá – cidade lotada de bairristas, frise-se! O que foi escrito foi mal interpretado, mas a manada não raciocina muito quando o assunto fere o “decoro” da terra natal. Mas não dá para pensar em interpretação de texto em uma terra que até o sertanejo é “universitário”.

Temos exemplos diários de babaquices, só que é difícil entender o que move os corações abarrotados de ódio, como o dos “ofendidos”. Acredito que se o comentário fosse o inverso, oriundo de um morador daquelas plagas contra São Paulo ou Rio de Janeiro, passaria completamente despercebido. Mas o coitadismo, o politicamente correto resolveu triunfar na cultura brasilis. Não dá para esperar muito de uma terra onde idiotas criam leis racistas para combater, pasmem, o racismo.

A defesa das liberdades individuais, do direito de sermos idiotas, pode parecer mais uma tolice, mas não é! O patrulhamento tosco e sem fundamento, pode virar algo muito pior que meras churumelas de apresentadores e políticos oportunistas. A história está repleta de exemplos, que o digam os idiotas religiosos de nossa antiguidade, e até mesmo de um passado recente.

O que pensa ou deixa de pensar um ator desconhecido e um “aborrescente” emo, pouco me importa, mas quando formadores de opinião, parlamentares e pessoas influentes se sentem ofendidos por algo banal, começo a me preocupar. É, estamos mal, muito mal.

Já morei em diversos locais pelo país, conheço o Brasil muito melhor que considerável parcela da população. Cada local possui seus encantos, suas particularidades e defeitos. Não é censurando, calando e atacando ignorantes que vamos resolver problemas de autoestima, de egolatria e de carência de afetividade.

Eu, por exemplo, aprendi a amar cada cidade que morei, mas jamais deixei de enxergar suas peculiaridades e deficiências. Afinal, idiotas existem em todos os cantos, seja no meio artístico, político, social ou intelectual. Falta-lhes apenas a hombridade de aceitarem isso.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

[agência pirata] HASHTAGS NÃO DERRUBAM GOVERNOS

::txt::Tiago Dória::



Acreditar que a internet, por si só, fortalece a democracia é uma ideia tão simplória quanto achar que a queda de um governo autoritário sempre dá lugar a um democrático.

E mais, ao contrário do consenso geral, governos totalitários perceberam que o mundo mudou. Notaram que estão em um mundo de abundância de informação e que bloquear urls é coisa do passado. Hoje, usam formas bem mais sutis de censurar as vozes dissidentes.

Nessa história toda, o governo do Egito é uma exceção. Percebeu muito tarde que é mais eficiente monitorar a internet a bloquear o seu acesso.

A melhor forma de censurar a internet é não a censurar, explica o pesquisador em política e internet Evgeny Morozov, em seu polêmico e recém-lançado livro The Net Delusion (432 páginas/Editora PublicAffairs).

A leitura do livro de Morozov chegou em boa hora para mim. Não apenas por que o autor está presente na mídia, ficando assim mais fácil acompanhar a sua linha de pensamento, mas também por Net Delusion funcionar como um contraponto necessário em meio à certa histeria sobre o papel da internet nos recentes conflitos no Egito.

Segundo Morozov, nossa noção de censura na internet ainda tem como base a ideia de “bloquear/não bloquear”, lógica que, a rigor, não faz mais sentido hoje em dia. Cada vez mais, governos como os da China, Irã e Síria estão respondendo à internet de maneira diferente, utilizando-a em seu favor, para fortalecer os seus governos.

O que é natural acontecer, pois quando a censura à rede se torna impraticável ou politicamente indefensável, governos autoritários passam a usá-la para propaganda ou, em casos mais extremos, como uma ferramenta de monitoramento da população.

Um exemplo dessa mudança de postura é o venezuelano Hugo Chavez, que até abril de 2010 considerava a internet e o Twitter “ferramentas terroristas contra-revolucionárias dos EUA”. Mas, depois, ao perceber o potencial da internet para promoção pessoal e propaganda de seu governo, passou a aceitá-la, chegando a montar um perfil no Twitter.

Do mesmo modo, censurar blogs está virando coisa do passado na China e no Irã. É mais negócio criar um exército de blogueiros pró-governo e contratar pessoas para entupir blogs e redes de microblogs com perfis falsos e comentários a favor do governo (50 Cent Party).

Os efeitos são parecidos. E o objetivo é sufocar a oposição na web por meio de uma avalanche de conteúdo. Combater conteúdo com conteúdo e não com escassez de informações.

Não é sem motivos que os governos da China e do Irã estão por trás de investimentos em diversos sites e blogs de gosto duvidoso, que, claro, apóiam os respectivos governos.

Para os olhos internacionais é uma solução amigável, mantém-se uma aparência de liberalização; mas, na verdade, sufoca as vozes dissidentes no plano interno.

“Terceirizar a censura” também tem se tornado prática comum. Forçar as empresas de internet a se autocensurar ou, aceitando a censura oficial, praticá-la diretamente. Vide a Google forçada a filtrar resultados da busca na China, em 2009. Empresas internacionais oferecem resistência a essa prática, mas com medo de perderem mercado acabam cedendo. Com empresas locais não há com o que se preocupar. Muitas recebem subsídios estatais e acatam as ordens.

Conforme Morozov, isso é um problema, pois em muitos países totalitários há preferência pela utilização de serviços locais.



Uma das novas formas mais simples de sufocar as vozes dissidentes é justamente se aproveitar das características da web, como a descentralização. Em ambientes descentralizados é bem mais fácil espalhar boatos.

Durante os protestos em Teerã, em 2009, por exemplo, o governo iraniano usou o Twitter para propagar boatos e dessa maneira colocar a população em pânico e passar uma visão de que os protestos não eram tão populares. Enquanto a imprensa no Ocidente glorificava o papel do Twitter, ativistas no país pediam que não se usasse o serviço de microblogging como fonte de informação, devido à enorme quantidade de boatos.

Ainda durante os mesmos conflitos, o governo iraniano colocou no ar um site com fotos dos protestos e pediu que a população ajudasse a identificar as pessoas nas imagens. Crowdsourcing a favor da repressão.

O que Morozov mais destaca é o quanto os governos estão percebendo o enorme valor das informações publicadas espontaneamente nas redes sociais. Nisso, o monitoramento desses espaços é constante.

Informações que, antigamente, os serviços secretos do Irã e da China demoravam dias para filtrar, hoje facilmente podem ser encontradas nessas plataformas.

Com a onda do botão “curtir” no Facebook então, a navegação ficou menos anônima. Basta entrar no perfil de uma pessoa para saber por onde ela andou navegando (ou “curtindo”) nos últimos dias. Na Síria, já se fala que o Facebook é um grande banco de dados para o governo.

Em janeiro de 2010, Ahmadi Maghaddam, chefe da polícia iraniana, disse que “as novas tecnologias permitem identificar conspiradores sem a necessidade de controlar individualmente cada pessoa”

E, no próprio Egito, na semana passada, ativistas da oposição orientaram as pessoas a parar de utilizar o Facebook e o Twitter e priorizar o email, mais difícil de ser monitorado.

O governo da China, por sua vez, já está flertando com técnicas de data mining para analisar tendências em um nível macro nas redes sociais.

Por isso, na visão de Morozov, ao contrário do que os fundadores do Facebook e do Twitter dão a entender, as plataformas de redes sociais são uma faca de dois gumes para quem é dissidente.

Por um lado, dá mais visibilidade internacional. Mas, por outro, deixa mais vulnerável quem as utiliza.

É comum as pessoas serem presas no Irã, Nigéria e China com base em informações publicadas em seus perfis em redes sociais.

Em suma, Morozov mostra o que as “Wireds” e os “Mashables da vida” não costumam revelar – o lado B da internet, o que acontece quando a rede é utilizada para fortalecer a propaganda, censurar e vigiar a população em governos autoritários.

Por tal motivo, o pesquisador acredita que a internet não é inerentemente democrática. Tudo depende em qual contexto a tecnologia é usada. Em um país que tem uma base política e cultural democrática, ela tenderá a ser usada para fortalecer a democracia. Em um país que não possui nada disso, ela poderá reforçar o autoritarismo.

Enfim, para compreender o raciocínio de Morozov é necessário entender que ele vai contra o chamado “determinismo tecnológico”, linha de pensamento atual muito comum. Para o pesquisador, é a política, e principalmente a cultura e a economia, que moldam como usaremos uma tecnologia, e não o contrário. A internet não é algo autônomo, com vida própria e acima dos indivíduos. Ela, na verdade, está inserida dentro de um contexto que define os seus usos e os seus efeitos na sociedade.

E é exatamente essa visão que dá combustível para Morozov criticar a recente política externa americana, que, segundo ele, assume uma postura errada ao posicionar a internet como solução para todos os males e ao utilizar Facebook, Google e Twitter como ferramentas dessa política (vide a última capa da Foreign Affairs sobre o “poder político das mídias sociais” e os últimos discursos de Barack Obama e Hillary Clinton).

Morozov entende que essa politização da Web 2.0 mais atrapalha do que ajuda. Quanto mais Facebook, Twitter e Google forem vistos como ferramentas da política externa americana, maior o risco de serem censurados em países com governos ditatoriais.

Além disso, para Morozov, esse tipo de política é simplória, pois, no desejo de tornar menos complexo o discurso (internet vs ditaduras), acaba tentando resolver um problema político, cultural e econômico (governos autoritários) com uma solução tecnológica (acesso a Twitter e Facebook).

Ou seja, trata um grande problema como se fosse pequeno.

O pesquisador acredita que, em parte, isso acontece por que a política externa americana ainda é pautada por padrões da Guerra Fria – quanto mais acesso à informação, pior para governos autoritários. Tipo de leitura que o pesquisador considera imprecisa, mas presente em todas as análises sobre a internet, principalmente nas produzidas pela imprensa ocidental.

Nem sempre acesso à informação torna as pessoas mais politizadas. Na China, a maioria dos usuários usa a rede para baixar filmes pirateados dos EUA e não para acessar informações políticas. Na Rússia, os blogs mais visitados não são os políticos. Pelo contrário, são os de humor e sexo.

Na Alemanha Oriental, as poucas pessoas que tinham acesso a redes de TV ocidentais usavam-nas, principalmente, para assistir seriados como Dallas e Miami Vice. (Até hoje, nos círculos de pensadores americanos, acredita-se que o Muro de Berlim caiu por causa da TV e não em razão de um processo, fruto de anos de descontentamento político e econômico).



Um dos muitos destaques de Net Delusion se dá quando Morozov analisa por que, muitas vezes, o ativismo facilitado pelas redes sociais faz muito barulho, mas resulta em quase nada. Haja vista aqui, no Brasil, o #forasarney (Sarney está mais presente do que nunca na política brasileira).

É interessante essa parte do livro, pois Morozov fala da sua própria experiência. O autor acompanhou de perto o ativismo online na Bielorrússia, sua terra natal.

Segundo ele, existem exceções, mas muitas vezes esse tipo de ciberativismo não apresenta resultados, visto que se preocupa muito com a mobilização (juntar seguidores no Twitter e amigos no Facebook) e pouco com a ação (depois de conseguir 10 mil seguidores e fãs na página do Facebook, o que vai fazer? Enviar spam com conteúdo político para todo mundo?).

A capacidade de mobilizar ainda está encantando os ciberativistas, embora a capacidade de agir seja bem mais importante.

Outra questão exposta é a de que, na maioria das vezes, esse tipo de ativismo acontece por motivos que nada têm a ver com ideais ou causas políticas, mas sobretudo para impressionar os amigos e criar uma identidade online. A rede social favorece isso. Vou participar por que os meus amigos estão participando. Vou participar para mostrar que não sou alienado, e não falo apenas bobagens no Twitter.

Para Morozov (foto acima), o resultado é uma baixa taxa de comprometimento e uma alta quantidade de participantes. Combinação nociva para qualquer movimento.

Quanto maior o grupo, menor a pressão para apresentar resultados (se eu não fizer nada, ninguém vai perceber já que tem tanta gente mesmo). Ou seja, se não existem meios de mensurar a participação de cada em um movimento, os efeitos são mínimos.

Por essa razão, nas plataformas de redes sociais, é muito fácil você “fazer a sua parte”, basta usar uma hashtag, mudar a cor da foto em seu perfil, e pronto!

De acordo com o pesquisador, revoluções exigem 3 coisas – disciplina, líderes e comprometimento. E isso você não encontra nas redes sociais que nivelam todo mundo na horizontal.

Em questão de segundos e de forma indolor, você pode deixar de apoiar uma causa no Facebook, sem qualquer comprometimento ou remorso. As plataformas de redes sociais são um dos poucos ambientes onde, ao mesmo tempo, você pode apoiar todas ou nenhuma causa, conclui Morozov.

Pelo que tenho percebido, por tratar de temas polêmicos, Net Delusion caminha para o mesmo fim de Free, de Chris Anderson – tornar-se um livro mal compreendido.

Em nenhum momento, Morozov afirma que a internet não tem capacidade de fortalecer a democracia. Pelo contrário, ele acredita que os dissidentes devem sim utilizar Twitter e Facebook, mas desde que estejam familiarizados com os riscos. A tecnologia de “cloud computing”, por exemplo, é algo que Morozov acredita estar ajudando os opositores.

Em essência, o livro não vai de encontro a este ou aquele país, mas sim contra o “determinismo tecnológico” (de achar que a internet tem um papel determinante em tudo). Para Morozov, essa linha de pensamento pode ter efeitos nocivos para a democracia, ao tentar resolver problemas que são muito mais sociais, culturais e econômicos com uma mera solução tecnológica.

Esse “determinismo” estaria afastando-nos das questões essenciais, como a de que governos autoritários morrem por causa de problemas políticos e econômicos. Em regra, se a economia está boa, dificilmente um governo cai.

Para quem é da área de tecnologia, Net Delusion tem uma lição sutil e interessante.

Constitui um erro descontextualizar uma tecnologia, quando se analisa seus efeitos e seu poder de gerar mudanças. Em certos contextos, algumas tecnologias podem causar mais efeitos, e outros, não.

Muitas vezes, por acharmos que uma tecnologia é autônoma, com vida própria, não compreendemos por que ela dá resultados em uma empresa e em outras não. Por que os blogs em alguns países servem mais para polarizar do que informar. Por que uma “ação genial” dá certo com um cliente e com outro não. Por que a internet fortalece a democracia em alguns países, ao contrário de outros.

Não é por que uma tecnologia produziu um efeito em um dado ambiente que, necessariamente, ele se reproduzirá em outros. Enfim, o que define os efeitos de uma tecnologia é o contexto no qual ela é utilizada, e não “poderes mágicos” que supostamente lhe sejam atribuídos.

Compreender isso é importante para utilizar a internet não somente com fins comerciais, mas também como meio efetivo de fortalecimento da democracia.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

[agência pirata] O ROCK É O NOVO JAZZ



::txt::Gustavo Brigatti::

Um amigo da minha namorada abriu um bar. E nesse bar tem um palco, onde ele quer botar bandas para tocar _ e, de quebra, faturar umas caixas de cerveja a mais. Na semana de inauguração da birosca, ele veio me perguntar se eu não conhecia umas bandas boas pra passar um som ali. Eu disse que sim, que conhecia umas bandas e elas eram muito boas. Só que não para o que ele queria.

Explico: eu gosto de rock. E rock _ rock mesmo, você sabe do que eu tô falando _ não dá dinheiro. E não dá dinheiro porque não tem público, porque não vende, porque não tem quem invista, é um gênero vivendo à base de soro num leito de UTI esperando que alguém puxe a tomada de vez. E longe de mim querer prejudicar o negócio do camarada…

Mas sem essa de profeta do apocalipse. Quem faz rock, sabe da situação. Quem ouve, também. E nem estou falando de ideais, de conduta, de postura, de conceito _ tudo isso foi engarrafado faz tempo e virou roupinha de brechó, calça colorida e pomada capilar. Estou falando de números.

Pega a lista dos 10 discos mais vendidos do ano passado no EUA: começa com Eminem e termina com Ke$ha, sem nenhum solo de guitarra entre eles. No Reino Unido, a faixa mais vendida em 2010 que se aproxima de um rock foi Don’t Stop Believin’, uma balada de 30 anos dos coxinhas do Journey _ e graças ao seriado Glee, veja bem. Na real, apenas 3% dos singles vendidos nas terras da rainha foram de rock no ano que finou-se.

Ainda na Inglaterra, Rihanna acabou de se igualar a Elvis Presley como artista solo a emplacar cinco singles consecutivos no primeiro lugar das paradas. Alguém duvida que ela vai ultrapassar o Rei?

No Brasil ainda não foi liberada a lista de mais vendidos de 2010, mas eu te digo que vai ser mais ou menos assim: um padre, uma dupla sertaneja, uma cantora de axé, outra dupla sertaneja, um cantor brega e uma coletânea de novela. O máximo de rock que pode haver é um grupo de guris que parecem gurias. E eu não estou falando do Mötley Crüe…

Em entrevista ao Guardian, Paul Gambaccini, DJ da BBC e conhecido como Professor do Pop, afirmou que “é o fim da era do rock. Acabou, da mesma forma que a era do jazz acabou”. Perfeito. Eu não poderia ter feito analogia melhor.

Em breve, nós, que pagamos pequenas fortunas por um White Album em vinil e discutimos se é Bon Scott ou se é Brian Johnson, vamos ser encarados como os tiozinhos fãs de Dizzy Gillespie e Thelonious Monk, peças de museu na mesma proporção respeitadas e ignoradas.

Nesse tempo que se aproxima, o debut do Black Sabbath será tão estimado, reverenciado e digno de estudos acadêmicos (e versões deluxe) quanto Kind of Blue, as primeiras apresentações ao vivo do Van Halen serão item de colecionador e qualquer menção a Joey Ramone virá acompanhada de um suspiro pesado.

E nos lembraremos de quando brigávamos por uma tomada para plugar pedais numa espelunca qualquer e tocar para meia dúzia de amigos. Éramos jazzistas. E não sabíamos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

[agência pirata] MOVIMENTOS RECHAÇAM LICENÇA PARCIAL DE BELO MONTE CONCEDIDA PELO IBAMA



::txt::Karol Assunção::

Movimentos e organizações que lutam contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (PA), receberam, nesta semana, mais um golpe do Governo brasileiro. Na última quarta-feira (26), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu uma "Licença de Instalação Específica” que autoriza a construção de canteiros pioneiros e acampamentos da usina de Belo Monte.

A reação das organizações contrárias à usina não poderia ter sido outra: indignação. Antonia Melo, coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, define a licença como "uma desgraça que o Governo assinou”. "A licença de instalação parcial é uma manobra do Governo para burlar a lei e avançar com as obras de construção”, afirma.

Uma nota emita pelo Ibama revela que a licença, além de permitir a construção dos canteiros pioneiros e acampamentos dos sítios Belo Monte e Pimental da usina de Belo Monte, autoriza ainda a empresa Norte Energia a "realizar outras atividades como implantar e melhorar as estradas de acesso e áreas para estoque de solo e madeira e realizar terraplanagem”. Outra ação permitida pela licença é a "supressão de vegetação de 238 hectares para a implantação do canteiro e acampamento do sítio Belo Monte”.

A indignação dos movimentos sociais não é exagero. A licença parcial concedida pelo Ibama não está formalmente prevista no licenciamento ambiental e, portanto, é considerada ilegal. Para a coordenadora do Movimento Xingu Vivo para Sempre, o documento é uma maneira de já começarem a construir a usina na ilegalidade. "Na verdade, eles já começam a construir a obra; iniciam a construção ilegalmente”, comenta.

O Ministério Público Federal no Pará (MPF/PA) também compartilha da opinião de que a autorização não respeita as leis brasileiras. Ontem (27), o órgão entrou com uma civil pública pedindo "a suspensão imediata” de tal licença. O MPF ainda pediu à Justiça Federal que suspenda a permissão de desmatamento concedida pelo Ibama e que impeça o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de "repassar qualquer tipo de recurso enquanto as ações civis públicas contra o empreendimento estejam tramitando, ou pelo menos enquanto as condicionantes não sejam cumpridas”.

Em nota, o MPF afirma que a licença "é totalmente ilegal porque não foram atendidas pré-condições estabelecidas pelo próprio Ibama para o licenciamento do projeto”. De acordo com o Ministério, até a última quarta-feira – data da emissão da licença -, pelo menos 29 condicionantes não tinham sido cumpridas.

Ações

Os movimentos sociais não ficaram calados diante da concessão da licença parcial. Ontem, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) divulgou uma nota de repúdio à autorização. Mais de 60 organizações denunciam, também através de nota, os problemas que serão gerados por causa da construção de Belo Monte.

"Denunciamos a liberação de Belo Monte como um ato ditatorial da pior espécie. O Ibama afirma que se reuniu com ‘organizações da sociedade civil da região', mencionando nossos nomes. Nestas reuniões, deixamos claro o que pensamos da usina. Deixamos claro que não queremos seu lixo, seus tratores, sua poluição, sua violência, sua exploração, seu trabalho escravo, suas doenças, sua prostituição, suas poças de água podre e seu desmatamento nos nossos quintais (ou naquilo que nos restará de nossas terras e não nos for roubado pelo governo)”, apresentam.

De acordo com Antonia Melo, a ideia é que as ações cheguem a todos os lugares, principalmente às autoridades em Brasília. Segundo ela, no próximo dia 4, os movimentos sociais da Amazônia terão uma audiência com o ministro da Casa Civil para entregar documentos com as principais reivindicações.

Nos próximos dias, participarão de seminários e mobilizações para chamar atenção da sociedade para a questão de Belo Monte. "Queremos pedir que todos digam para o Governo brasileiro para parar com esse modelo de desenvolvimento”, solicita, chamando ainda a população a conhecer e a divulgar as consequências dos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) voltados para a Amazônia. "Esses projetos trazem miséria, morte, todo tipo de violência e destruição”, afirma.

Além das notas, circulam na internet duas petições contra Belo Monte. Até agora, mais de 390 mil pessoas já firmaram os documentos. Para assinar, acesse aqui e aqui.

domingo, 23 de janeiro de 2011

[agência pirata] CONHECE A MALDIÇÃO DO HOMEM-ARANHA?



::txt::Zeca Camargo::

Titubeei algumas vezes antes de comprar o ingresso para ver uma “pré-estréia” de “Spider-man: turn off the dark” . Afinal, o espetáculo mais comentado da Broadway (escrevo de Nova York hoje) nos últimos anos, como já indiquei, ainda não estreou – o que eu assistiria era uma espécie de “ensaio aberto”. A possibilidade de alguma coisa dar errado – e ela era grande (já falo mais sobre isso) – estaria sempre presente. E o ingresso para assistir a esse “esboço” é o de uma performance “oficial”: cerca de R$ 350! Por outro lado, a música é assinada por Bono e The Edge (mas, curiosamente, não pelos outros dois companheiros da dupla no U2) – o que, obviamente, para um fã como eu, é algo muito atraente. E o nome por trás dessa mega produção é o de Julie Taymor, uma artista (diretora, cenógrafa, mente criativa) – que ficou famosa, entre outras coisas, com a montagem revolucionária, também na Broadway, de “O rei leão”. Enfim, debatendo entre prós e contras, gastei um bom tempo decidindo se deveria ou não pegar a matinê de quarta-feira e arriscar. Ou melhor, conferir como toda a produção de “Spider-man” está se arriscando…

A “maldição” a qual me referi no título do post de hoje não é brincadeira. Desde que o espetáculo foi aberto ao público (ainda que não oficialmente), não foram poucos os acidentes em cena com alguns atores – alguns deles, bem graves. Entre outros problemas, os efeitos especiais “revolucionários” que fazem o Homem-aranha (ou melhor “os Homens-aranhas”) voar pelo palco e em cima da platéia envolvem uma tecnologia sofisticada – e que jamais foi usada num musical da Broadway (o teatro Foxwood, na rua 42, foi especialmente adaptado para isso). E envolve também risco… Os tais acidentes viraram uma das notícias mais “saborosas” na imprensa local nova-iorquina – uma onda de maledicência e ironia, que gerou até uma capa bem sacada na “The New Yorker”, com uma enfermaria cheia de “Spider-men”!

Mas esse não é único problema de “Turn off the dark”. Os “ensaios abertos” – que aqui recebem o nome de “previews” começaram em novembro. Eles se estendem geralmente pelo menos por algumas semanas, para dar tempo de o elenco – e o próprio espetáculo – “esquentar”, antes da estréia oficial. Ocorre que a tal estréia já foi adiada várias vezes – e agora está marcada para 15 de março (possivelmente…). Por conta disso, os custos de produção já foram para a estratosfera! “Spider-man” já está sendo chamada de “a produção mais cara da história da Broadway”, e as piores previsões de retorno dizem que o musical vai ter de conseguir lotar o teatro por três anos consecutivos para pelo menos sair do vermelho – e isso com o ingresso por aquele “precinho camarada” que citei anteriormente…

Será que “Spider-man” na Broadway vai dar certo? Será que os fãs – de um dos super-heróis mais amados da Marvel, diga-se – vão gostar da adaptação? E os fãs do U2 – será que eles vão achar que Bono e The Edge foram longe demais? Os efeitos são mesmo de arrepiar? O frisson de saber que alguma coisa de errado pode acontecer durante a performance – será que isso vai espantar ou atrair o público?

Todas essas perguntas – e tantas derivadas dessas – estão na cabeça de muita gente aqui em Nova York. E elas passaram também pela minha enquanto eu decidia se ia ou não assistir ao musical. Como já expus rapidamente os motivos para querer ir pesavam tanto quanto os para não ir – e, isto aqui sendo Nova York, poder investir umas três ou quatro horas em um outro passatempo cultural (MoMA, P.S.1, New Museum – todos me esperando…). Mas no meio dessa argumentação pessoal, tinha uma coisa que me atraía acima de tudo: o fato de todo mundo ali envolvido com “Spider-man” estar apostando numa ousadia – em algo que, em mais de um aspecto, nunca havia sido feito antes…

Já vou retomar o “Turn off the dark”, mas antes preciso dar uma satisfação a quem acompanhou (e palpitou sobre) meu último post. Por que ele também falava de ousadia e algo que nunca havia sido feito antes – no caso, numa novela de TV, no final de “Passione”, de Silvio de Abreu. Relembrando rapidamente, convidei você a “descobrir” o que o final tinha de bastante original – a ponto de surpreender este noveleiro “de carteirinha” que vos escreve.

Ninguém – pelo menos nos comentários enviados – acertou exatamente o que eu estava querendo dizer. Ou melhor, a Raiza, que mandou um dos últimos comentários, chegou perto, ao falar sobre “o ponto de vista de quem assiste” – o raciocínio dela pegou carona na dica que eu dei sobre o desfecho de “Passione” ter me lembrado o de “Sopranos”. E é mais ou menos isso…

O que eu achei fascinante na solução de Silvio de Abreu foi que, pela primeira vez – pelo menos que eu me lembre – a novela terminou sem que todos os mistérios fossem desvendados… para os personagens da história! Só quem ficou sabendo o que realmente aconteceu – quem matou o Saulo, o pai de Saulo, e as razões para esses crimes terem acontecido – foi o público! Achei isso fascinante – e bato palmas para Silvio de Abreu por isso. De maneira inédita, o autor estabeleceu ali uma cumplicidade com o telespectador, que para mim foi novidade!

Enquanto a família Gouveia celebrava mais um aniversário da matriarca Bete (Fernanda Montenegro) – sem saber ao certo quem havia cometido os crimes, uma vez que Fred (Reinaldo Gianechinni) negou até o final ter sido o autor deles –, o final que se desenhava era feliz, mas de uma felicidade que vinha da ignorância (a de não saber o que aconteceu e não se preocupar mais em ir atrás da verdade). Enquanto isso, Fred recebe, na cadeia, um postal de Clara (Mariana Ximenes), a verdadeira assassina de Saulo (mas não de seu pai, como logo vamos saber num flashback), que, ao contrário do que todo mundo pensava, não estava morta, mas numa “ilha do pacífico”, mais uma vez fingindo que era enfermeira (como no início da novela) de um idoso milionário… Com isso, claro, Fred “descobre” que ela é a verdadeira culpada, mas isso não é nem metade da história… Só quem ficou sabendo mesmo de tudo foi quem estava assistindo de casa, do conforto de sua poltrona… E isso eu achei genial!

Isso é o que eu chamo de ousadia – de experimentar com um formato tão batido quanto uma novela de televisão. Essa provocação – uma característica essencial para os artistas – é o que realmente me seduz. E aí pode ser em qualquer forma de expressão que você quiser escolher: cinema, literatura, música, dança, teatro, performance – até mesmo uma novela. Ou quem sabe um musical da Broadway… E foi pensando nisso que eu resolvi comprar o ingresso para ver “Spider-man: turn off the dark”!

O que eu achei da experiência? Bem… É meu último dia dessa viagem rápida a Nova York – e “a rua” está me chamando para sair da frente deste computador onde escrevo e aproveitar um pouco mais da cidade. Resistir será inútil…

Segunda-feira então, temos um encontro marcado aqui com o “Homem-aranha”, fechado?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

[agência pirata] A NOVA ERA DO RÁDIO?

Jabá e medo da internet abrem espaço nas rádios para uma nova era de criatividade

::txt::Leonardo Lichote::

Mais com a discrição de locutor clássico do que com o alarde de FM jovem, de forma lenta e gradual, uma mudança vem se afirmando nas ondas do dial nos últimos anos, como se elas estivessem enfim em sintonia com o século XXI - programas originais, novas linguagens se estabelecendo, ousadia e qualidade na seleção musical com os quais o público já se desacostumara. E, apesar de (quase) silenciosa, ela foi percebida. O Ibope aponta um crescimento contínuo no número de ouvintes - 10% desde 2003, uma cifra aparentemente modesta, mas que ganha expressividade quando se pensa que ela se refere a um meio que parecia ultrapassado pelas novas tecnologias. Estatísticas à parte, um levantamento informal com amigos, a observação de conversas nas ruas e nos tweets - e o testemunho de artistas e radialistas - mostra que um público que estava afastado do rádio desde a década de 1990 - não por acaso, o auge da era dos jabás - está voltando a ele.

Figura presente no rádio desde 1982 (com a lendária Fluminense FM), o DJ Mauricio Valladares, apresentador do "roNca roNca" na Oi FM (uma das pontas de lança do atual bom momento), percebe a volta do interesse e a relaciona com outra retomada:

- Posso comparar com a percepção que as pessoas têm mostrado do vinil, que é o único suporte que cresceu na década - conta o DJ. - O vinil foi redescoberto porque as pessoas cansaram de ouvir som ruim, não saber o que é uma capa bonita. O rádio passa pelo mesmo processo. Quando chegou a internet, houve o fascínio pela possibilidade de acesso a todas as informações e músicas. Mas esse fascínio tem uma validade, que expira no momento em que você não tem uma luz te dizendo para onde ir, para onde não ir e para onde ir mesmo sabendo que será uma roubada. É o comunicador o camarada que vai dizer o que você está ouvindo. E só o rádio transporta essa sensação de que, naquele momento, você está incluído num grupo. O cara que ouve meu programa em Porto Alegre se sente irmão gêmeo do cara que está no Alto José do Pinho, em Recife. Outro exemplo: eu odiava samba, mas adorava ouvir o programa do Adelzon Alves. Gostava daquela mágica de ele falar com os motoristas de ônibus, era fisgado pela dinâmica. A internet não vai ter isso nunca. O rádio é algo novo, apesar de muito velho.

Vista a princípio como rival, a internet tem papel importantíssimo para a redefinição do rádio.

- Nos anos 1960, a rádio consegue se levantar depois do baque da televisão, para onde migraram os programas humorísticos, os de auditório, as novelas. E aí vem o ostracismo dos anos 90. E a internet, que foi um susto um pouco menor do que o da TV - avalia Eliana Caruso, presidente da Rádio Roquette Pinto FM.

Eduardo Andrews, gerente de programação da MPB FM, concorda:

- Foi o empurrão que faltava para as rádios acordarem. Ou elas inovavam no formato e conteúdo ou morriam de vez.

Elas decidiram inovar. Hoje, se afirmam reforçando suas marcas pela atuação em diversas frentes, como selo e promoção de shows (a MPB FM seguiu esse caminho e a Oi FM, filha de uma telefônica, já nasceu sob essa égide); apostando na nova música brasileira de uma forma que não se via desde a geração 1980 do rock brasileiro, com Fluminense FM à frente; e explorando as novas ferramentas oferecidas pela internet (novamente ela). Redes sociais como Twitter e Facebook deram nova força ao velho formato de participação de ouvintes. A tecnologia ofereceu outras aberturas, como transmissão ao vivo por streaming, programas disponíveis para serem ouvidos em podcasts, vídeos com os bastidores da rádio, informações mais completas sobre os artistas que ocupam a programação... E há ainda outras possibilidades menos óbvias.

- O celular virou uma espécie de rádio de pilha - nota Eliana Caruso.

Os próprios caminhos da internet a levaram até mais próximo da linguagem do rádio - afinal, a prática de baixar músicas vem perdendo popularidade para a de ouvi-las simplesmente em sites como YouTube e MySpace.

- É uma tendência que vem se consolidando no mercado de música, a priorização do acesso ao conteúdo, no lugar da posse desse conteúdo - diz Flávia da Justa, diretora de Comunicação de Mercado da Oi, falando da versão on-line da rádio.

Além da tecnologia, fatores econômicos ajudam a entender o renascimento do rádio. A prática abusiva do jabá - com os lucros astronômicos das gravadoras pré-pirataria - homogeneizavam as emissoras, lembram radialistas e programadores. A crise da indústria fonográfica, portanto, abriu espaço para a recuperação que se consolida agora.

- O jabá devastador trouxe a perda de credibilidade. E a credibilidade num meio de comunicação vem antes da música. Hoje, como as vacas gordas do mercado fonográfico estão raquíticas, a criatividade e a qualidade podem prevalecer - defende Mauricio Valladares.

Os exemplos de criatividade e qualidade no dial hoje são muitos (alguns deles estão na página 2 desta edição). Mas Pitty - que foi premiada pela Associação Paulista dos Críticos de Arte como revelação na categoria Rádio com o programa "Segunda-feira sem lei" (rádio Transamérica Pop), que ela apresenta com Beto Bruno e Daniel Weskler - torce para que sejam muitos mais:

- Existem programas bem legais, mas ainda são pontos de luz nesse oceano imenso. Mas já considero isso algo muito bom e torço pra que se espalhe. Gosto muito de entrar no carro e ligar o rádio, ficar à mercê do shuffle do DJ - diz Pitty, pondo conceitos da cultura digital e do rádio na mesma frequência.

domingo, 2 de janeiro de 2011

[agência pirata] LULA: R$ 10 BI EM PUBLICIDADE

::txt::Amanda Costa::

Em oito anos, Lula gastou quase R$ 10 bilhões em publicidade

Se propaganda é a alma do negócio, não à toa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrará o mandato com uma aprovação popular recorde de 83%, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Em oito anos de mandato, Lula gastou pouco mais de R$ 9,3 bilhões dos cofres públicos no intuito de manter a sociedade informada sobre os atos de governo – em valores corrigidos pela inflação. Um balanço preliminar da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), divulgado na última semana, informa aplicações de R$ 1,1 bilhão em publicidade neste ano, apenas até o início de dezembro, uma média diária de R$ 3 milhões. A cifra refere-se a todos os ministérios, autarquias, fundações, empresas estatais e sociedades de economia mista.

A mídia mais procurada pelos órgãos públicos federais foi, mais uma vez, a televisão, que respondeu por R$ 707,2 milhões, ou 64% de todos os anúncios feitos neste ano (veja tabela). A publicidade nos jornais obteve investimentos de R$ 100,1 milhões, o que representa 9% dos gastos com propaganda. Bem próximo, os anúncios em rádios chegaram a quase R$ 100 milhões.

As revistas foram responsáveis por R$ 83 milhões. A Internet e os outdoors receberam anúncios de R$ 36,6 milhões e R$ 5,8 milhões, respectivamente. Já a publicidade governamental em cinema, mobiliário urbano, carro de som, telas digitais em shopping, elevadores, supermercados e aeroportos respondeu por R$ 68,4 milhões, ou 6% do total investido no período.

O órgão que mais desembolsou recursos neste ano com publicidade foi o Ministério da Saúde, que dispensou R$ 137,8 milhões para anúncios. Já as aplicações da Secom chegaram a R$ 100,8 milhões. Ministério das Cidades dispensou R$ 60,3 milhões. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aparece na quarta colocação, tendo um consumo publicitário de R$ 23 milhões. Um pouco mais abaixo na lista dos maiores investidores em mídia, a Infraero aplicou R$ 842,3 mil.

Na outra ponta, o Ministério do Trabalho e Emprego desembolsou R$ 363,2 mil, seguido do Banco Central com R$ 328,9 mil e da Eletrobras Eletronuclear com R$ 48 mil (veja tabela). O governo federal não divulga individualmente os gastos publicitários das estatais que concorrem no mercado sob o argumento de que a divulgação faria com que empresas como a Petrobras e o Banco do Brasil perdessem competitividade.

Apesar de não constarem os valores individuais, no cálculo global estão incluídas as aplicações em campanhas publicitárias de todos os órgãos da administração direta e indireta em ações de publicidade institucional e de utilidade pública. Os dados, contudo, não computam informações sobre publicidade legal, produção e patrocínio.

A publicidade institucional e a de utilidade pública, objetos do levantamento da Secom, diferenciam-se nos fins almejados. Enquanto a publicidade de utilidade pública prevê informar, orientar, prevenir ou alertar a população para que adote um comportamento específico, visando benefícios sociais, a publicidade institucional se limita a divulgar informações sobre atos, obras, programas, metas e resultados do órgão público.
Década

Em 10 anos, o maior valor registrado em anúncio publicitário foi no ano passado, quando o governo aplicou quase R$ 1,7 bilhão em campanhas. A média diária de investimentos chegou a R$ 4,6 milhões, recorde desde o início da década. A cifra representa um incremento de R$ 519,7 milhões na comparação com 2008, quando foi aplicado R$ 1,2 bilhão em propaganda. O principal responsável pelo acréscimo foi a Internet, que teve aumento de 101% no ano passado em relação a 2008. Em números, a Internet recebeu R$ 30,3 milhões a mais de investimentos em 2009.

A TV, por outro lado, teve um incremento de apenas 46% na comparação com 2008. Apesar do baixo crescimento se comparado a outros veículos, a televisão continuou sendo o carro-chefe da propaganda pública, com R$ 1,1 bilhão gasto, o que representou 63% do valor aplicado em publicidade no ano passado.

Na comparação entre os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a atual gestão sai ligeiramente na frente. Entre 2000 e 2002, FHC aplicou R$ 3,1 bilhões em publicidade, uma média de pouco mais de R$ 1 bilhão por ano. Já o presidente Lula, que dispensou R$ 9,3 bilhões durante oito anos, teve média anual de gastos estimada em quase R$ 1,2 bilhão.

Os dados sobre os investimentos em mídia do governo federal são fornecidos gratuitamente à Secretaria de Comunicação da Presidência pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP). O IAP, instituição sem fins lucrativos, é constituído por empresas de comunicação que prestam serviço de publicidade a órgãos e entidades do Poder Executivo Federal.

O balanço final dos anúncios publicitários referentes a 2010, de acordo com a Secom, só será divulgado em janeiro do próximo ano.

Expansão

De acordo com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, 7.047 veículos – entre rádios, jornais, TVs e revistas – de 2.184 municípios estão incluídos no plano de mídia do governo federal e, portanto, aptos a divulgarem campanhas. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, a quantidade de veículos estava limitada a 499 em 182 cidades brasileiras.

Ao longo de seu mandato, o presidente Lula inovou e estabeleceu contatos diários com a imprensa, enviando recados a todos o país. Entre as criações midiáticas de Lula está o programa semanal de rádio “Café com o Presidente”, a coluna impressa “O presidente Responde”, além da publicação bimestral “Caderno Destaques” e o boletim diário “Em Questão”, que visa orientar a sociedade sobre as políticas públicas do Poder Executivo.

O cientista político e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo, Fernando Azevedo ressalta que um dos princípios que rege as democracias modernas é a transparência e a prestação de contas do governo perante o cidadão. Neste sentido, portanto, a publicidade seria um instrumento de transparência governamental. Por outro lado, Azevedo não descarta a possibilidade de autopromoção de autoridades públicas. “A tendência é que os governos ampliem seus investimentos nessa área porque a divulgação governamental beneficia o partido ou a coalizão partidária que controla o governo”, avalia.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

[agência pirata] SHAKESPEARE, MENOS A POESIA

::txt::Zeca Camargo::

Desta vez, achei melhor disfarçar… Da última vez em que estampei a frase "o melhor filme do ano" no título de um post, provoquei, digamos, um certo desconforto… Era o ano de 2008 – e minha escolha não foi exatamente este filme que você está pensando. Que filme? Bem, a julgar pela ira que despertei nos fãs – quando, no lugar desse previsível (e ligeiramente confuso) sucesso, escolhi um (o horror!) um filme de arte (“Hunger”, de Steve McQueen) –, sinto-me até constrangido em ter de refrescar sua memória. Afinal, o tal filme era supostamente tão bom, teria marcado tanto uma geração, que à menção do ano de 2008, essa produção deveria imediatamente pipocar nas lembranças dos fãs de cinema…

Assim, para você que tem um bom registro cinematográfico – e que, como eu, admirou esse filme nas suas modestas qualidades, sem se influenciar pelo afã coletivo que seu tema despertava –, acho que não preciso falar de novo seu nome. E como é para você que escrevo – você, que tem uma opinião equilibrada e sabe separar sua opinião de um modismo – vamos em frente: vamos falar do filme do ano. Do ano de 2010, claro.

Para ser transparente, vi tão poucos filmes nos últimos doze meses, que tenho que admitir que minha lista de melhores títulos é quase idêntica à relação de produções a que assisti… E, pelo jeito, dei sorte – já que quase tudo foi muito bom. Minha escolha de “filme do ano” é modesta – talvez mais idiossincrática ainda do que a minha relação dos “melhores discos que você não ouviu em 2010” . Mas ela é honesta, de coração – uma vez que poucos filmes mexeram comigo como esse que vou citar em breve.

Reconheço que é uma petulância escolher uma produção tão pequena e despretensiosa – que certamente não vai figurar em nenhuma lista de “melhores do ano” de nenhuma publicação importante (talvez nem mesmo de um blog relevante). Mas nenhum filme que vi este ano falou tanto comigo como esse. Talvez “Toy story 3”, já que esse é o filme “teoricamente” feito para crianças mais cruel que um adulto poderia assistir. Como escrevi em junho, o desenho é uma grande parábola sobre rejeição, mas elaborada de maneira tão brilhante, que ninguém sai do cinema achando que passou por uma lição de moral. Pela sutileza com que essa mensagem é passada, pelas boas risadas, e pela esperança de que as crianças que hoje se divertiram com ele vão, no futuro rever “Toy story 3” com outra perspectiva – quem sabe junto com seus filhos? –, esse filme entra, com louvor, na minha lista de melhores do ano.

(Uma rápida satisfação: ao contrário do que fiz com os discos, não vou separar minhas escolhas por itens. Eu já deveria saber disso, mas fui lembrado – pelos comentários mais superficiais – que algumas pessoas têm preguiça de ler um texto completo, e preferem julgar minhas preferências apenas pelas primeiras linhas, ou mesmo, apenas por um título. Vários foram os que escreveram sobre o post anterior deixando claro que desconsideravam minha lista, sem sequer ter se dado o trabalho de saber as razões daquelas escolhas… Magoei… E por isso resolvi adotar outra estratégia: falar dos meus filmes favoritos do ano em texto corrido. Quem sabe isso não assusta o leitor mais desavisado? Será que divago? Bem, de volta à sala de cinema!).

Deixar de fora a produção brasileira mais bem sucedida de todos os tempos, seria uma desconsideração muito grande. Incluir “Tropa de elite 2” na minha seleção, porém, não é mero protocolo. Como escrevi em outubro, os méritos dessa “continuação” de uma história de sucesso são muitos: um roteiro melhor, um tema maior, interpretações ainda mais memoráveis que as do primeiro filme – e uma incrível sintonia com o que está acontecendo no nosso país nesse momento. O recorde de bilheteria é mais do que merecido – e empresta um certo prestígio à lista de melhores performances para uma produção nacional… Esclareço: fui só eu que achou curioso que os dois “campeões de venda de ingressos” antes de “Tropa 2” eram “pornochanchadas” ligeiramente confeitadas, tentando disfarçar seu, hum, apelo popular escorados em histórias de grandes escritores (Jorge Amado e Nélson Rodrigues, claro)? Bem, adiante!

Duas preciosidades do começo do ano merecem ser lembradas também. Ambas são de 2009, mas chegaram às nossas telas só em 2010 – então, estão valendo. A primeira é uma das histórias de amor mais tristes que já vi no cinema, que se destaca pela originalidade de ser contada como uma comédia: “500 dias com ela”. Joseph-Gordon Levitt dá nesse filme um salto maior do que todas suas peripécias de desafio à gravidade em “A origem”, e me convenceu de que dentro de todo “mané” existe um coração… A segunda é “O segredo dos seus olhos” , o título argentino que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, mas cujos méritos vão muito além de uma estatueta. Seu retrato de uma Argentina claustrofóbica e assustada é estampado numa trama sofisticada e com um desfecho surpreendente – ligeiramente boicotado pelo epílogo deveras longo. “Segredo” é tão bem elaborado que eu tenho vontade de mandar para uma meia-dúzia de roteiristas para eles perceberem que não precisa ir estudar na Califórnia para vir com um bom script – aqui do lado mesmo, nosso “hermanos” dão o exemplo de que basta gostar da linguagem de cinema para fazer um produto de qualidade.

Por falar em roteiro de qualidade, em maio elogiei – e agora reforço – o trabalho de adaptação de “Os homens que não amavam as mulheres”. Sou um fã relutante dos livros de Steig Larsson, mas mesmo assim estava preocupado com o que poderia se perder nessa transição. Mas a produção sueca – de um diretor desconhecido para o grande público, e com um elenco idem – me deixou mais que satisfeito. E apavorado. A personalidade de Lisbeth Salander (a bizarra heroína da saga) foi encarnada com precisão por Noomi Repace – e Rooney Mara, que brilhou em “A rede social” (já chego lá), tem uma responsabilidade e tanto em segurar essa onda quando vier a versão hollywoodiana da história. Mas, como quem vai encarar o desafio de dirigir essa versão é David Fincher, respiro aliviado. Falando nele…

Tinha tudo para ser muito chato: uma história de dois garotos que inventaram um novo negócio multibilionário na internet? Não obrigado! Mundo virtual e cinema raramente combinam, mas em “A rede social” essa união deu muito certo. E a direção de Fincher, certamente, tem parte nisso. Não sei do que gostei mais: dos diálogos disparados como metralhadoras, das performances precisas e sem exageros, da estrutura desafiadora do roteiro, da construção de um personagem quase “demoníaco” (Eisenberg)… Só sei que o filme é quase perfeito – e vai ser um prazer ver ele colecionando estatuetas nessa temporada de prêmios.

Nos documentários – gênero do qual fomos bem servidos este ano –, dois destaques. Um inédito ainda por aqui (no circuito comercial), mas que tive a chance de ver numa viagem recente a Nova York: “Waiting for Superman” LINKI PARA http://www.waitingforsuperman.com/. Há semanas procuro uma brecha para falar dele no blog, mas acho que vou ter que deixar para 2001 – quem sabe quando (e se) ele estrear por aqui. É – para usar uma expressão que crítico de cinema gosta muito – um “retrato devastador” de como funciona a educação pública nos Estados Unidos. Para nós, brasileiros, que temos pouquíssimos motivos para nos orgulhar do nosso próprio sistema de educação – a professora Mirza, que é o personagem central de uma série que estou fazendo no “Fantástico”, é uma delas (perdão pela “cabotinagem”) – o filme é ainda mais chocante: se lá a situação é trágica, que esperança podemos ter? Mas vamos discutir isso melhor em outra ocasião…

O outro bom documentário do ano é “Uma noite em 67”. Um registro único – e não estou falando, claro, dos clipes musicais, que todo mundo já viu à beça, mas das entrevistas nos bastidores do festival de música daquele ano. Um ótimo retrato, não só de um momento musical único na história da MPB, mas também de uma geração – e até de uma fase muito peculiar da evolução da TV. Vi que ele acaba de sair em DVD – e, como sei que as chances de você ter visto no cinema (por conta do lançamento limitado) são poucas, eu recomendo fortemente que você o coloque na lista de sugestão de presentes para ganhar do seu amigo secreto (ou “oculto”…).

Com “67”, minha lista está quase completa. Mas falta, sei bem, o tal “filme” do ano para mim. E ele é… “Você vai encontrar o homem dos seus sonhos”, de Woody Allen. Eu sei, você já torceu o nariz. Vou tentar me explicar, mas sei que não vai ser fácil. Desde que o vi, na terça-feira passada, já tive sete discussões fortes em torno disso. E consegui vencer apenas duas argumentações, com pessoas que gosto e respeito – e mesmo assim, uma delas, não sei se convenci por inteiro. Ocorre que eu acredito mesmo que esse filme é brilhante. Sensacional. Quase um Shakespeare – só que sem a poesia. Deixe-me prosseguir…

Primeiro, encare “Você vai encontrar” como a obra final de uma trilogia – que começou com “Vicky Cristina Barcelona”, e continuou com “Tudo pode dar certo” . Esses filmes, mais “Você vai encontrar”, é fruto de um Woody Allen enlouquecido, mais velho, mas não exatamente mais maduro, que, finalmente, convenceu-se (e quer nos convencer também) de que nós, pobres humanos, não temos controle algum sobre nossas vidas – nem mesmo sobre o que quer nossos corações. E as consequências desse desvario são sempre imprevisíveis – quando não trágicas…

As relações (perigosas) de “Você vai conhecer” são tão rocambólicas que seria leviano detalhá-las em apenas um parágrafo. Vou apenas “pincelar”: Alfie (Anthony Hopkins) separa-se de Helena (Gemma Jones), para ter uma vida de playboy – que inclui um casamento com uma, hum, atriz… A filha do casal que se separou (Sally, vivida por Naomi Watts) tem um casamento sem graça com um escritor fracassado (Roy, Josh Brolin). Ela se apaixona pelo dono da galeria de arte onde trabalha (Greg, Antonio Banderas), e ele pela vizinha que troca de roupa com a janela aberta (Dia, Freida Pinto). Helena, desesperada, procura uma vidente – na sua opinião, muito mais eficiente do que os terapeutas que ela vinha frequentando. E as “previsões” que ela faz se desdobram – ainda que de maneira indireta – na vida desses personagens maravilhosos.

O que acontece depois que você entende todas essas relações, é o teatro do acaso. Todas as paixões são possíveis, assim como todas as decepções – e acompanhar cada reviravolta dessas histórias é simplesmente fascinante. Esse desgoverno das ações e emoções humanas, só reforçando, começou a ser exposta em “Vicky” – onde, como você bem lembra, nada funciona muito bem… Ou ainda: todas as mudanças propostas pelo destino não são bem aceitas – e o mundo retoma seu curso, com as mesmas manias e loucuras de dantes. “Tudo pode dar certo” tem o mesmo “moto” – mas é, a meu ver, o mais fraco da trilogia, justamente porque Woody Allen, como o título indica, força o roteiro para que tudo termine bonitinho. Os corações também estão a mil nesse filme, e as regras são quebradas todo o tempo. Mas a conclusão é “arrumadinha” demais. As coisas, como aprendemos sempre na prática, nunca são assim… E é com “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos” que ele retoma a “Natureza” das coisas – com “N” maiúsculo mesmo, não nossa fauna e flora (e reino mineral!), mas a Natureza dos homes, o acaso, o destino.

Não dá para contar nada desse filme sem tirar o seu prazer de acompanhar cada cena. Porém, no intuito de te preparar melhor, chamo sua atenção para alguns detalhes. Como o diálogo final entre Greg e Sally; ou as visitas “inesperadas” de Helena à casa da filha; a interpretação de Pauline Collins, que faz a “atriz” que se “apaixona” por Alfie, Charmaine (interpretada pela sensacional Lucy Punch, onde Allen arruma atrizes e atores assim???); a confusão quando duas famílias brigam por conta de uma cerimônia de casamento; a sessão esotérica de “conversa com os mortos”; e tantas outras coisas…

Com uma realidade absurda – exatamente a que vivemos e relutamos em admitir que ela é absurda, na tentativa tola de fazer com que as coisas façam sentido (um raciocínio teimoso que talvez impeça as pessoas de apreciar o filme) – não me espanta que o único desfecho feliz possível no filme seja justamente aquele que depende de fantasia.

Releio o parágrafo anterior e percebo que ele é vago demais – quase abstrato. Mas é isso que me encantou no filme. E é por isso que achei esse filme tão genial. Ri, chorei, passei por momentos aflitos, outros graves, levei sustos, reconheci situações vividas por mim etc. etc. etc. Não é isso que faz da Shakespeare algo tão universal? Ah se Woody Allen soubesse colocar tudo em versos…

E com o encantamento de “Você vai conhecer o homem da sua vida”, digo que o ano cinematográfico fecha bem. Os lançamentos de fim de ano – como “Cisne negro”, que estou louco para ver –, ficam, quem sabe, para a lista de 2011. E quinta-feira vamos dar uma geral pelos bons livros de 2010.

quarta-feira, 31 de março de 2010

O SUMIÇO DO LUBISCO 1



#agência pirata
Mash up literário

txt: Alexandre Lucchese

O que você vai ler agora é o meu primeiro mash-up de textos, ou seja, um conto composto apenas de colagens de outros textos. É bem comum encontrar na rede mash-ups musicais, mas de textos nunca vi – embora provavelmente eu esteja simplesmente mal informado. É possível que a história de Lubisco continue por vários e vários posts. Ou não. E que João Brasil salve a literatura!

[todos os textos e imagens aqui roubados usam a licença Creative Commons]


NORBERTO LUBISCO, editor da revista, blog e redes sociais ABSURDO, está sumido desde o início do carnaval deste ano. Segundo o capitão Macalé, Norberto foi visto pela última vez tentando escapar dos inimigos ao atravessar o Rio das Almas dirigindo um carro anfíbio. Nem ele, nem o carro jamais foram vistos novamente.

“Estamos certos que nesse tempo manter-se-ão intactas as relações de profunda amizade, respeito profissional e carinho cultivadas entre os integrantes d’O ABSURDO”, afirma a moça de pele escura, aspecto hippie e graciosos gestos de bailarina oriental solidamente construídos nesses onze anos de convivência. E mais: “estive conversando com capitão Macalé e chegamos a seguinte conclusão: DEVEMOS raptar a mulher do Palhaço”.

Palhaço se propôs a renascer deixando pra trás símbolos do passado e passou a investir nos últimos anos na identificação como oposição ferrenha aos sentimentos profundos de apelo universal, da mesma forma que animais e homens parecem possuir atitudes inatas. Palhaço também fez com que Lubisco se desfiliasse para expulsar nesta quarta-feira o governador interino e determinou que todos os cargos de confiança deixassem o governo d’O ABSURDO, na tentativa de se desvincular do desgaste.

“Que foda, horrible!”, dispara a moça de pele escura. Concentrada diante do palco, ela dança e tece evoluções com o auxílio de uma canga.

***

Lubisco foi até a janela e afastou as cortinas de tafetá branco. Ficou quase uma hora apreciando a paisagem e a mudança de tonalidade das folhas das árvores enquanto o sol mudava de posição em sua eterna vigilância das horas.

Não entendia muito de mulheres, pensou ele. Depois da morte da mãe, seu pai não quis se casar novamente e as garotas da escola lhe eram indiferentes. É claro que namorara uma ou outra menina, mas nunca entregou seu coração a nenhuma delas. Pra complicar ainda mais, embora casado com uma bela bailarina russa, suas idéias viraram do avesso: “Por que nos apaixonamos pela pessoa errada?”.

Uma batida na porta freou seus pensamentos.

- Com licença, Lubi – Dr. Love estava bem à vontade de terno bege e gravata cinza – hoje estou extremamente bem-humorado, parece até que acabei de assistir algum daqueles filmes onde os animais falam e sempre tem um cachorro inteligente que salva a turma no final… ahn…

- Dr. Love, a verdade é esta, estamos na merda, e precisamos de uma grande descarga de água para desentupir a nossa atual economia estagnada, e não creio que brincar aos aviões e comboios seja o melhor meio para isso…

- Então por que você se fez de tão misterioso? Todo lugar que eu me encontrava com você, você fugia!

- Eu tinha medo de as suspeitas caírem sobre mim…

- Teve efeito contrário…

- Ok, acho que estou quase desvendando este crime…

Então os dois descem a montanha e se separam.

(continua aqui)


Autores e fontes dos textos aqui mixados:

* Arlei Arnt

* Marcelo Noah

* http://espicacandomarketing.blogspot.com/2009/03/ruina-da-balipodia.html

* Pedro Alexandre Sanches

* Luiza Monteiro

* Wikipedia – verbete “Carl Gustav Jung”

* Chellot

* Marcelo Manzano

* Dr. Love

* http://aquiloqueescrevo.blogspot.com/2005/12/critica-pseudo-revoltada.html

* Mario S. R.

sexta-feira, 26 de março de 2010

UNIVERSIDADE PIRATA DA BAHIA



#agência pirata
Cultura Digital

txt: Leonardo Foletto

Eis que uma iniciativa inédita no país toma corpo na Bahia, a partir de apoio da Universidade Estadual da Bahia e do Pontão de Cultura Junta Dados: a Universidade Pirata. O objetivo da coisa é oferecer cursos relacionados à cultura digital e, como não poderia deixar de ser, “fomentar o uso de tecnologias livres (software e hardware livre) e promover discussões sobre democratização da comunicação, apropriação tecnológica, conservação ambiental dentro de um espaço autônomo na Universidade“.

A ideia do pirata no nome é aquela mesma que está por trás de boa parte das associações, na rede, com o termo pirataria; “um esforço para demonstrar que o termo pirata não indica cibercriminalidade, e sim o grupo de pessoas que busca meios de reparar as restrições ao mercado cultural, intelectual e de informação”, nas palavras do texto de divulgação da iniciativa.

Os cursos oferecidos são os seguintes: Lógica de programação, Vídeo em Software Livre, Pure Data, Direito Autoral e Meta-reciclagem, todos a ocorrer por 4 meses com aulas uma vez por semana. As inscrições estão abertas até 15 de abril (tem prioridade aqueles que participam de pontos de cultura) e, por enquanto, os cursos só funcionam de maneira presencial, no campus de Salvador. Mas como se tem a previsão de oferecer módulos a distância, fique ligado na página da Universidade Pirata para novas informações.

#ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

Você pode:

  • Remixar — criar obras derivadas.

Sob as seguintes condições:

  • Atribuição — Você deve creditar a obra da forma especificada pelo autor ou licenciante (mas não de maneira que sugira que estes concedem qualquer aval a você ou ao seu uso da obra).

  • Compartilhamento pela mesma licença — Se você alterar, transformar ou criar em cima desta obra, você poderá distribuir a obra resultante apenas sob a mesma licença, ou sob licença similar ou compatível.

Ficando claro que:

  • Renúncia — Qualquer das condições acima pode ser renunciada se você obtiver permissão do titular dos direitos autorais.
  • Domínio Público — Onde a obra ou qualquer de seus elementos estiver em domínio público sob o direito aplicável, esta condição não é, de maneira alguma, afetada pela licença.
  • Outros Direitos — Os seguintes direitos não são, de maneira alguma, afetados pela licença:
    • Limitações e exceções aos direitos autorais ou quaisquer usos livres aplicáveis;
    • Os direitos morais do autor;
    • Direitos que outras pessoas podem ter sobre a obra ou sobre a utilização da obra, tais como direitos de imagem ou privacidade.
  • Aviso — Para qualquer reutilização ou distribuição, você deve deixar claro a terceiros os termos da licença a que se encontra submetida esta obra. A melhor maneira de fazer isso é com um link para esta página.

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