#CADÊ MEU CHINELO?

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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

[do além] STALIN PROCESSA MARCELO FROMER POR CRIME CONTRA A HONRA



::txt y ntrvst::Monsenhor Jucá::

O ex-ditador Stalin e eterno ídolo da playboyzada universitária do PSOL e PCdoB encaminhou ao Ministério Público do Além uma queixa crime contra o ex-guitarrista do Titãs Marcelo Fromer. A acusação diz respeito a letra da música “Nome aos Bois”, sucesso da banda nos anos 80. Conseguimos um contato com Stalin graças a intermediação do médium Chico Xavier. Abaixo alguns trechos da entrevista.

Porque o senhor quer processar o Marcelo Fromer?
Minha intenção é colocar esse inimigo da revolução no seu devido lugar. A música até é legal, mas a letra é desrespeitosa.

Desculpe, mas não vi nenhum desrespeito na letra! Ela somente cita o seu nome e de outras pessoas, não há nenhum juízo de valor.
Como que não, camarada? Preste a atenção no título da música: “Nome aos Bois”. Nem eu e nenhum dos meus camaradas citados na letra somos, fomos e jamais seremos bois. Nós somos grandes personalidades da história. Milhares de livros contam nossa vida e nossa obra. E ele, quem é ele? Nunca vi uma estátua dele. Conhece alguma cidade com o nome dele? Algum movimento chamado “marcelista” ou “fromista”?

Não, mas …
...Então. Ele quer fazer fama às nossas custas!

Mas os Titãs foram uma das melhores bandas dos anos 80! Foi não?
Isso é uma mentira produzida pela propaganda capitalista. Esse sujeito já morreu, inclusive.

O senhor também!
Isso é outra mentira do capitalismo!

E como fica a liberdade de expressão?
Porra, camarada, você não sabe que sou comunista? Não tem essa de liberdade de expressão. Isso é discurso demagógico do Giovani Cherini pra imprensa e eleitores ... duas coisas que na União Soviética e nos outros países comunistas jamais existiu. Esse músico gaúcho aí, como é mesmo o nome dele?

O que o Cherini tá processando?
Como dizia meu pupilo Chavez, “isso isso isso”!

Tonho Crocco.
Então. Comigo já tinha ido pro paredão. Ele e todos esses manés que querem protestar a favor dele. Ah democracia, que nojo! Só estou processando o Marcelo Fromer por dois motivos: primeiro que não dá pra matar ele, pois já está morto. E também porque aqui no céu tem um carinha com uma tábua que diz “não matarás”.

Mas o senhor está no céu? Jurava que tinha ido pro inferno!
Pois é, o FHC privatizou o inferno. Deu de mãos beijadas pro capeta. Aí vim pra cá, é tudo estatal.

Mais alguém está apoiando a sua iniciativa contra o Fromer?
Quase todos os citados na letra assinaram a queixa. Meu camarada Hitler é o mais entusiasmado em colher assinaturas.

Vocês dois fizeram as pazes?
Sim, só tivemos aquela pequena briga nos anos 40 porque ele insistiu em matar uns camaradas judeus, mas antes disso sempre estivemos do mesmo lado. Se tu não sabe, o partido que elegeu o Hitler também era socialista.

O senhor sabia que há vários partidos no Brasil que o idolatram?
Sei, mas esses playboys do PSOL, do PPS e do PCdoB não são do meu tipo. Só querem um carguinho de CC, ou uma vaga no legislativo. Não são capazes de botar no paredão essa mulher de vocês aí que continua bebendo da cartilha capitalista e neoliberal.

E o Chico Xavier, o que pensa sobre isso?
Não sei.

Você viu o filme sobre a vida dele?
Vi sim, o Mussolini me emprestou o DVD.

Achou o filme bom ou ruim?
Médium!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

[agência pirata] MARCHAS CARETAS E MARCHAS MUITO LOUCAS



::txt::Arnaldo Jabor::

"A maconha marcha, gente boa... Até na Argentina, México e Colômbia está descriminalizada. Os tabus vão sendo quebrados. Aqui, as marchas foram liberadas pelo STF, numa decisão muito louca: pode marchar, mas não pode fumar. Por que será que a maconha provoca tanta inquietação? Evangélicos marcham contra, xingam FHC pelo filme Quebrando o Tabu, "mermão", qual é a deles? É tanto auê, tanta onda por causa de uma mixaria dessas que eu tenho de alugar vocês sobre essa "parada". É... já escrevi sobre esse lance aqui e repito: a maconha não é nada, ou quase nada. Não é uma droga que corrói o fígado como o álcool. Não mata como a cocaína, esse veneno de rato branco que você aspira, depois de malhada pelos afro-negões da favela; é erva natural, não tem o sangue jorrando atrás dela desde a Bolívia até os morros, nem precisa dos bujões de éter no meio da floresta. Não é como o ácido lisérgico que te faz ver uma grande gelatina na realidade, onde tudo se mexe como uma rumba azul. Por que, então, tanto medo?

Está provado que a birita, o cigarro careta fazem muito mais mal que uma frágil "diamba", um reles "bagulho", um baseadinho inocente... Aliás, declaram cientistas e doidões, a maconha faz até bem para o coração de muitos ansiosos; era comprada em qualquer farmácia nos anos 30 com o nome de Cigarros Indianos, lindos pacotinhos com uma índia de cocar colorido, cigarros que acalmavam a angústia das senhoras antigas, combatiam a depressão, as "flores brancas", as dismenorreias, as alvas enxaquecas, os desmaios histéricos, as dores desconhecidas, as insônias. A maconha, dizem os "manos", é o remédio melhor para o glaucoma e dizem que ela produz um relaxo legal nos músculos e uma tranquilidade que poucos calmantes te proporcionam. Muito médico acha que inúmeros remédios e panaceias poderiam advir do refino da mesma, para acalmar velhinhos em asilos, para tranquilizar agitados em suas camisas de força, ervinha que, uma vez fumada antes do ato sexual, provoca prazeres inauditos, podendo não só fazer com que ejaculadores precoces se segurem, quanto frígidas senhoras se soltem e uivem nos laços de um polvo invisível e voltejante, numa teia de loucos estertores entre gritos operísticos.

Isso dizem alguns, não eu, claro, que sou um pobre-diabo, nunca me aproximaria dessa erva do Demônio, dessa "maria juana" temível. Contam alguns que o prazer sexual aumenta muito, já que a noção de tempo também se alonga, ficando tudo em câmera lenta, coisa desagradável se você está num túnel ou num engarrafamento de trânsito, mas que é delicioso não nos dois braços, mas nos cinco braços, ou nas cinco asas brancas de uma mulher amada e que o amor vira uma grande dança num paraíso e que mesmo os lençóis brancos semelham ondas do mar, dependendo da qualidade do "back", que pode ser um "acapulco gold" ou mesmo um "da lata", (oh!!! As maravilhas que contam daquelas latas lançadas por um navio muito louco nas águas da Guanabara em 84 e que até hoje são lembradas por velhos chincheiros). Thomas de Quincey fumava, Baudelaire fumava, Rimbaud queimava altos haxixes em Aden... Em suma, gente boa, como eu dizia acima, dependendo da qualidade da "massa", "nêgo" podia ficar curtindo horas seguidas, ajudado pelo Hendrix, Stones... tudo muito louco.

Mas, a razão deste raciocínio - não posso me perder, "mermão" - é a seguinte transação: por que causa tanta raiva nos caretas? Todo mundo fala em "reacionário", de "esquerda", de "direita" e coisa e tal, e os caretas? Onde ficam? Muito da nossa desgraça política deve-se à caretice. Porque "careta" é o cara que vive com a cara torta, armando uma pose, fingindo que é democrata sem ser, fingindo que é honesto sendo ladrão. Os vícios se escondem atrás de uma "careta", daí a origem da expressão... ah, ah... tá ligado? Pega esses deputados e senadores aí, todos enforcados em gravatas e ternos escrotos e me respondam: por que temem tanto a "diamba", aquela turminha braba que depois da Câmara vai tudo encher a cara com uísque no Piantella, entre peruas, gargalhadas e conchavos, por que essa gangue tem tanto medo do fumo?

A resposta é simples, cara... Diferentemente da coca, da birita e outros bichos, a maconha libera o filho da mãe. O sujeito queima o fumo e dá um "relaxo". A vida fica mais democrática, gente boa; evola-se uma nuvem azulada nos céus, como uma espécie de inconsciente artificial, e o mundo fica diferente, as obsessões perdem a valia, as culpas, os superegos diminuem, e some a sensação de que a vida é uma grande Câmara dos Deputados, onde nunca há quorum para aprovar nossos desejos! Ah!... Ah!... boa comparação... E a vida fica mais bela que o bigode do Sarney ah ah... ou seja, a liberdade que ela provoca no sujeito é, digamos, "incopatível", como é que se diz mesmo? - im-com-pa-tível... ah... ah... essa palavra é muito louca, gente boa, a maconha é "incampatível" com a caretice necessária ao bom exercício da política. Me diz, me diz como um cara vai para a tribuna doidão para armar uma roubalheira? Como enfiar uma maracutaia numa MP com a cara cheia de um "paraguaio com mel", nem mesmo precisa um "skunk" , basta um "pernambuco light"...

Já imaginaram o Congresso muito louco? O Pedro Simon desbundando e indo morar em Trancoso, cheio de fitas no pescoço? O PC do B falando em "revolução interior"? Mas, que eu estava dizendo mesmo?... ah... lembrei... o seguinte: eu acho, numa "boa" mesmo, na "moral", que as autoridades têm medo da maconha porque ela dá uma ilusão de liberdade. Por isso, estão com tanto medo de comida de passarinho... ééé... ééé... Os canários cantam melhor com as sementes de "canabis"... E a sensação de liberdade é, como eu já disse, inco-incopa..."incopatível"...sei lá, deixa pra lá... E tem mais... o seguinte... quer dizer... esqueci... é isso aí, gente boa.... falei..."

quarta-feira, 22 de junho de 2011

[agência pirata] SEM BANDEIRA



::txt::Paulo Anis Lima::
::pht::creative commons::

Engraçado ver o efeito do tempo. Implacável e transformador quase sempre. Impotente diante de algumas coisas. O ano era 2001, mês de setembro... Bin Laden estava bem vivo. Tinha acabado de explodir as torres em Nova York. Fernando Henrique Cardoso era o presidente por aqui e parecia mais preocupado com o iminente fim de seu segundo mandato do que com questões "menores" e "complicadas do ponto de vista eleitoral" como as políticas nacionais sobre drogas e a maconha. Por seu turno, poucos meses antes, uma das mais respeitadas revistas do mundo, a The Economist, dava capa ao tema, defendendo expressamente a urgência da revisão e da liberação de todas as drogas, diante do absoluto fracasso das outras opções, em especial da política internacional de repressão a usuários e traficantes. Uma revista menos famosa fazia sua parte do lado de cá do equador. Falamos desta mesma Trip, que então ainda adolescente, com seus 15 anos recém-completados, dedicava 16 páginas a um caderno completo contendo trabalho extenso e deliciosamente pretensioso sobre um assunto que parecia merecer o carimbo de "urgente urgentíssimo": a revisão da legislação brasileira sobre drogas e a descriminação da maconha, posicionando-se com toda a clareza a favor das duas coisas.

Dez anos depois o país é outro, deu vigorosos passos na direção do desenvolvimento, tornou-se infinitamente mais respeitado de acordo com dezenas de quesitos e indicadores, afirmou-se como uma nação mais madura e capaz, ganhou respeito dentro e fora de suas fronteiras e musculatura mais robusta. Mas paradoxalmente, com relação às drogas e à maconha em especial, continua mergulhado numa nuvem estupefaciente de hipocrisia da pura. E, assim, aqui estamos novamente, dedicando não mais um caderno especial, mas uma edição inteira ao mesmíssimo tema. Bin Laden morreu, alguns dos personagens das nossas enquetes e reportagens de então também.

Outros aparentemente ficaram mais vivos, como parece ser o caso de FHC, que, antes tarde do que nunca, foi à luta para tirar o atraso e usar sua reputação e sua notável rede de relacionamentos na tentativa de oferecer elementos para que o país que governou por oito anos possa finalmente ganhar consciência mais equilibrada e clara sobre o problema, através do fundamental debate de que foi privado durante seu mandato.

E é essa exatamente a nossa intenção. Contribuir para que a reflexão inteligente e equilibrada frutifique e para que a planta que segundo fontes confiáveis responde tristemente por 80% do negócio do tráfico no mundo e que é utilizada por milhões de pessoas no Brasil e em boa parte da Terra seja regulamentada a partir de critérios amplos e aprofundados. Não apenas abordando os aspectos jurídicos da despenalização e da descriminação, mas indo além, planejando e legislando de forma madura e contemporânea sobre todos os pontos relativos a cultivo, uso e acesso, lançando mão do bom-senso, única arma capaz de afastar da sociedade o cinismo, a corrupção, a violência e as outras apresentações e formas da ignorância.

Ouvimos, novamente, representantes de todos os lados e vertentes da sociedade sobre o assunto, para concluir o que nosso colunista Ricardo Guimarães já bradava nestas mesmas páginas em setembro de 2001: a bandeira não é a da maconha, mas a da consciência, algo cada vez mais necessário para que todo esse poder colocado em nossas mãos, seja do dinheiro, da tecnologia, da força política, da energia nuclear ou das drogas, não destrua nossas cabeças, nossas relações e nosso planeta.


PS.: Se você não se lembra dos detalhes deste nobilíssimo caderno lançado pela Trip em 2001, graças às tecnologias que ainda eram embriões àquela altura, basta clicar aqui para reler o trabalho executado brilhantemente por uma equipe que, não por acaso, está hoje dstribuindo seu talento no comando de vários e importantes veículos de comunicação pelo país. Giuliano Cedroni, Ivan Marsiglia, Ronaldo Bressane, Jorge Colombo, Phydia de Athayde, André Viana, Fernando Costa Netto, Erica Gonsales, Moacyr Vieira Martins, Endrigo Chiri, Elisa Biagi e outras figuras igualmente competentes.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

[agência pirata] A GUERRA CONTRA AS DROGAS



::txt::Fernando Henrique Cardoso::

A guerra contra as drogas é uma guerra perdida e 2011 é o momento para afastar-se da abordagem punitiva e buscar um novo conjunto de políticas baseado na saúde pública, direitos humanos e bom senso. Essas foram as principais conclusões da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia que organizei, ao lado dos ex-presidentes Ernesto Zedillo, do México, e César Gaviria, da Colômbia.

Envolvemos-nos no assunto por um motivo persuasivo: a violência e a corrupção associadas ao tráfico de drogas representam uma grande ameaça à democracia em nossa região. Esse senso de urgência nos levou a avaliar as atuais políticas e a procurar alternativas viáveis. A abordagem proibicionista, baseada na repressão da produção e criminalização do consumo, claramente, fracassou.

Após 30 anos de esforços maciços, tudo o que o proibicionismo alcançou foi transferir as áreas de cultivo e os cartéis de drogas de um país a outro (conhecido como efeito balão). A América Latina continua sendo a maior exportadora de cocaína e maconha. Milhares de jovens continuam a perder as vidas em guerras de gangues. Os barões das drogas dominam comunidades inteiras por meio do medo.

Concluímos nosso informe com a defesa de uma mudança de paradigma. O comércio ilícito de drogas continuará enquanto houver demanda por drogas. Em vez de aferrar-se a políticas fracassadas que não reduzem a lucratividade do comércio - e, portanto, seu poder - precisamos redirecionar nossos esforços à redução do consumo e contra o dano causado pelas drogas às pessoas e sociedade.

Ao longo da história, sempre existiu algum tipo de consumo de droga nas mais diversas culturas. Hoje, o uso de droga existe por toda a sociedade. Pessoas de todos os tipos usam drogas por motivos de todos os tipos: para aliviar dores ou experimentar prazer, para escapar da realidade ou para incrementar a percepção dela.

A abordagem recomendada no informe da comissão, no entanto, não significa complacência. As drogas são prejudiciais à saúde. Minam a capacidade dos usuários de tomar decisões. O compartilhamento de agulhas dissemina o HIV/Aids e outras doenças. O vício pode levar à ruína financeira e ao abuso doméstico, especialmente de crianças.

A capacidade das pessoas de avaliar riscos e fazer escolhas estando informadas será tão importante para regular o uso das drogas quanto leis e políticas mais humanas e eficientes. A repressão aos usuários de drogas é também ameaça à liberdade.

Reduzir o consumo o máximo possível precisa, portanto, ser o objetivo principal. Isso, contudo, requer tratar os usuários de drogas como pacientes que precisam ser cuidados e não como criminais que devem ser encarcerados. Vários países empenham-se em políticas que enfatizam a prevenção e tratamento, em vez da repressão - e reorientam suas medidas repressivas para combater o verdadeiro inimigo: o crime organizado.

A cisão no consenso global em torno à abordagem proibicionista é cada vez maior. Um número crescente de países na Europa e América Latina se afastam do modelo puramente repressivo.

Portugal e Suíça são exemplos convincentes do impacto positivo das políticas centradas na prevenção, tratamento e redução de danos. Os dois países descriminalizaram a posse de drogas para uso pessoal. Em vez de registrar-se uma explosão no consumo de drogas como muitos temiam, houve aumento no número de pessoas em busca de tratamento e o uso de drogas em geral caiu.

Quando a abordagem política deixa de ser a de repressão criminal para ser questão de saúde pública, os consumidores de drogas ficam mais abertos a buscar tratamento. A descriminalização do consumo também reduz o poder dos traficantes de influenciar e controlar o comportamento dos consumidores.

Em nosso informe, recomendamos avaliar do ponto de vista da saúde pública - e com base na mais avançada ciência médica - os méritos de descriminalizar a posse da canabis para uso pessoal.

A maconha é de longe a droga mais usada. Há um número cada vez maior de evidências indicando que seus danos são, na pior hipótese, similares aos provocados pelo álcool ou tabaco. Além disso, a maior parte dos problemas associados ao uso da maconha - desde o encarceramento indiscriminado dos consumidores até a violência e a corrupção associadas ao tráfico de drogas - é resultado das atuais políticas proibicionistas.

A descriminalização da canabis seria, portanto, um importante passo à frente para abordar o uso de drogas como um problema de saúde e não como uma questão para o sistema de Justiça criminal.

Para ter credibilidade e eficiência, a descriminalização precisa vir acompanhada de campanhas sólidas de prevenção. O declínio acentuado e persistente no consumo de tabaco nas últimas décadas mostra que as campanhas de prevenção e informação pública podem funcionar, quando baseadas em mensagens consistentes com a experiência das pessoas que são alvo desses esforços. O tabaco foi desglamourizado, tributado e regulamentado; não foi proibido.

Nenhum país concebeu uma solução abrangente ao problema das drogas. A solução, no entanto, não exige uma escolha cabal entre a proibição e a legalização. A pior proibição é a proibição de pensar. Agora, enfim, o tabu que impedia o debate foi quebrado. Abordagens alternativas estão sendo testadas e precisam ser cuidadosamente avaliadas.

No fim das contas, a capacidade das pessoas de avaliar riscos e fazer escolhas estando informadas será tão importante para regular o uso das drogas quanto leis e políticas mais humanas e eficientes. Sim, as drogas corroem a liberdade das pessoas. É hora, no entanto, de reconhecer que políticas repressivas em relação aos usuários de drogas, baseadas, como é o caso, em preconceito, medo e ideologia, são da mesma forma uma ameaça à liberdade.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

[agência pirata] O QUE É ISSO, MACONHEIRO?



Globo acende o debate até a última ponta

::txt::Xico Sá::

Hey, Dude! Nessas encruzilhadas históricas sempre lembro do meu amigo Dude, que atua no filme em cartaz aí acima. Fica na maresia aí, Dude, joga o teu boliche, viaja no tapete, que preciso ganhar aqui honestamente a minha segundona.

E não é que a Marcha da Maconha, canetada pela turma da toga preta e reprimida nas ruas pelos frios homens de cinza, foi realizada em pleno “Fantástico” da rede Globo?!

#Fato, como diz a juvenília das redes, avarandados e puxadinhos sociais.

#Contradições do sistema, diria um velho comuna outsider.

Inevitável lembrar um ditado popular carioca que ouvi pela primeira vez no filmaço “Rio Babilônia” (1982) e que o Tim Maia repetia com frequência: no Brasil, traficante cheira, puta goza, cafetão se apaixona e o dólar paralelo é mais baixo que o dólar oficial.

Que adubado latifúndio de espaço a Globo deu ao assunto, Dude! Tão bom para o plantio quanto as ilhotas do rio São Francisco, o generoso Velho Chico.

O gancho, essa terrível e empobrecedora necessidade jornalística, ah o mané gancho, foi o documentário “Quebrando o Tabu”, dirigido pelo jovem Fernando Grostein Andrade, que estreia na próxima sexta, 03, nos cinemas.

O ator principal: o ex-presidente FHC, que defende o plantio para consumo e a regulamentação da maconha. Não farei, só por hoje, amém, o trocadilho siglístico com THC, o princípio ativo tetra-hidro-canabinol. Passo, embora nada combine mais com baseado do que trocadilho, como verão aqui nesse texto-palha.

[Inevitável lembrar, porém, do tratamento que o saudoso Casseta & Planeta dava ao ex: Viajando Henrique Cardoso].

Ótimo, mas voltemos ao chão da praça.

A marcha global, distante do gás-pimenta da PM comandada pelo tucanismo em SP, foi de efeito moral imediato: 57% de telespectadores convidados a opinar sobre o assunto, na enquete do programa, disseram sim à descriminalização do barato.

Sim, não temos o número de votantes, mas é bem significativo para uma emissora de massa. Se a reportagem conseguiu fazer ou não a cabeça da maioria, não importa. O bom é que o assunto já não é mais tão escandaloso assim como a tropa de choque da caretice imagina.

Além de FHC, outros ex-presidentes aparecem no doc do menino Andrade com discurso semelhante: Ernesto Zedillo (México), César Gaviria (Colômbia), Jimmy Carter e Bill Clinton (EUA).

O “Fantástico”, na sua marcha dominical nos lares doces lares, lembrou também que outro dia o líder do PT na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP), defendeu o plantio coletivo de maconha, em cooperativas.

A carroça da história desembestou e avançaremos mesmo nessa questão?

Veremos. Bom é que as marchas das ruas acionaram o piloto automático dos avanços.

Sim, a gente que foi à Paulista tem uma saúde dentária de anúncio dentifrício, não havia um só desdentado, como tirou onda o gênio reacionário Nelson Rodrigues sobre os protestos de 1968. Como argumentam hoje outros enfezados sem a genialidade do tio Nelson.

Mas já valeu, tá valendo, é um luxo ter uma fatia da classe média moderna acendendo uma ponta do avanço histórico em vez de tocar fogo na fogueira eterna da liga das senhoras católicas.

Que a segundona lhe seja leve!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

[over12] SARNEY INOCENTA PALOCCI



::txt::Monseñor Jacá::

Quem viveu a década de 80 sabe o que significa o prezado senhor Ribamar. Pensando nas eleições pra governador/senador/deputados de 1986, Sarney criou o plano cruzado, congelou os preços de tudo e nos convocou para ser os seus fiscais no combate a inflação. Dos 22 governadores eleitos na época, 21 eram do PMDB, seu partido, e apenas 1 do PFL, seu aliado (entre os governadores eleitos estavam os queridos Moreira Franco, Pedro Simon, Orestes Quércia). Dias depois os preços voltaram a explodir e a inflação voltou aos seus passos de lebre. Lembro bem de meu pai gastando todo salário no supermercado no dia em que recebia, pois no outro dia já estaria mais caro.

Para ficar mais um ano no poder, Sarney deu inúmeras concessões de emissoras de rádio e televisão para dezenas de deputados. O latifúndio midiático de hoje é obra dele, o dito cujo, o carcará. Naquele tempo eu ainda acreditava em alguns políticos, e todos eles o tratavam como o diabo da política brasileira. Brizola, Gabeira, Roberto Freire, Mário Covas, Lula, Collares, Olívio Dutra, Fernando Henrique Cardoso, enfim, todos aqueles que pediram Diretas Já e apoiaram Lula contra Collor em 1989, eram taxativos sobre Sarney: "se ele está de um lado, nós estamos do outro".

Pois bem, fiz as contas, e notei que Sarney está no poder, com poucas e raras exceções, desde 1º de abril de 1964, fato que coloca todos os presidentes de lá pra cá no mesmo saco. Isso sem falar do Maranhão, onde ele e seus filhos e netos e sobrinhos mandam, comandam e desmandam também há décadas, e do Amapá, estado que o Godfather comprou pra ele.

Mas eu quero chegar é num fato atual. Não sei se Palocci está certo ou não, se é ilegal, imoral ou engorda. Tenho medo é de dois coisos: se Sarney diz que Palocci é inocente, é indício de ser exatamente o contrário. Dois: se Sarney diz que inocenta Palocci, é sinal que Palocci já está inocentado. E não discutimos mais isso.

domingo, 2 de janeiro de 2011

[agência pirata] LULA: R$ 10 BI EM PUBLICIDADE

::txt::Amanda Costa::

Em oito anos, Lula gastou quase R$ 10 bilhões em publicidade

Se propaganda é a alma do negócio, não à toa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrará o mandato com uma aprovação popular recorde de 83%, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Em oito anos de mandato, Lula gastou pouco mais de R$ 9,3 bilhões dos cofres públicos no intuito de manter a sociedade informada sobre os atos de governo – em valores corrigidos pela inflação. Um balanço preliminar da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), divulgado na última semana, informa aplicações de R$ 1,1 bilhão em publicidade neste ano, apenas até o início de dezembro, uma média diária de R$ 3 milhões. A cifra refere-se a todos os ministérios, autarquias, fundações, empresas estatais e sociedades de economia mista.

A mídia mais procurada pelos órgãos públicos federais foi, mais uma vez, a televisão, que respondeu por R$ 707,2 milhões, ou 64% de todos os anúncios feitos neste ano (veja tabela). A publicidade nos jornais obteve investimentos de R$ 100,1 milhões, o que representa 9% dos gastos com propaganda. Bem próximo, os anúncios em rádios chegaram a quase R$ 100 milhões.

As revistas foram responsáveis por R$ 83 milhões. A Internet e os outdoors receberam anúncios de R$ 36,6 milhões e R$ 5,8 milhões, respectivamente. Já a publicidade governamental em cinema, mobiliário urbano, carro de som, telas digitais em shopping, elevadores, supermercados e aeroportos respondeu por R$ 68,4 milhões, ou 6% do total investido no período.

O órgão que mais desembolsou recursos neste ano com publicidade foi o Ministério da Saúde, que dispensou R$ 137,8 milhões para anúncios. Já as aplicações da Secom chegaram a R$ 100,8 milhões. Ministério das Cidades dispensou R$ 60,3 milhões. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aparece na quarta colocação, tendo um consumo publicitário de R$ 23 milhões. Um pouco mais abaixo na lista dos maiores investidores em mídia, a Infraero aplicou R$ 842,3 mil.

Na outra ponta, o Ministério do Trabalho e Emprego desembolsou R$ 363,2 mil, seguido do Banco Central com R$ 328,9 mil e da Eletrobras Eletronuclear com R$ 48 mil (veja tabela). O governo federal não divulga individualmente os gastos publicitários das estatais que concorrem no mercado sob o argumento de que a divulgação faria com que empresas como a Petrobras e o Banco do Brasil perdessem competitividade.

Apesar de não constarem os valores individuais, no cálculo global estão incluídas as aplicações em campanhas publicitárias de todos os órgãos da administração direta e indireta em ações de publicidade institucional e de utilidade pública. Os dados, contudo, não computam informações sobre publicidade legal, produção e patrocínio.

A publicidade institucional e a de utilidade pública, objetos do levantamento da Secom, diferenciam-se nos fins almejados. Enquanto a publicidade de utilidade pública prevê informar, orientar, prevenir ou alertar a população para que adote um comportamento específico, visando benefícios sociais, a publicidade institucional se limita a divulgar informações sobre atos, obras, programas, metas e resultados do órgão público.
Década

Em 10 anos, o maior valor registrado em anúncio publicitário foi no ano passado, quando o governo aplicou quase R$ 1,7 bilhão em campanhas. A média diária de investimentos chegou a R$ 4,6 milhões, recorde desde o início da década. A cifra representa um incremento de R$ 519,7 milhões na comparação com 2008, quando foi aplicado R$ 1,2 bilhão em propaganda. O principal responsável pelo acréscimo foi a Internet, que teve aumento de 101% no ano passado em relação a 2008. Em números, a Internet recebeu R$ 30,3 milhões a mais de investimentos em 2009.

A TV, por outro lado, teve um incremento de apenas 46% na comparação com 2008. Apesar do baixo crescimento se comparado a outros veículos, a televisão continuou sendo o carro-chefe da propaganda pública, com R$ 1,1 bilhão gasto, o que representou 63% do valor aplicado em publicidade no ano passado.

Na comparação entre os governos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, a atual gestão sai ligeiramente na frente. Entre 2000 e 2002, FHC aplicou R$ 3,1 bilhões em publicidade, uma média de pouco mais de R$ 1 bilhão por ano. Já o presidente Lula, que dispensou R$ 9,3 bilhões durante oito anos, teve média anual de gastos estimada em quase R$ 1,2 bilhão.

Os dados sobre os investimentos em mídia do governo federal são fornecidos gratuitamente à Secretaria de Comunicação da Presidência pelo Instituto para Acompanhamento da Publicidade (IAP). O IAP, instituição sem fins lucrativos, é constituído por empresas de comunicação que prestam serviço de publicidade a órgãos e entidades do Poder Executivo Federal.

O balanço final dos anúncios publicitários referentes a 2010, de acordo com a Secom, só será divulgado em janeiro do próximo ano.

Expansão

De acordo com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, 7.047 veículos – entre rádios, jornais, TVs e revistas – de 2.184 municípios estão incluídos no plano de mídia do governo federal e, portanto, aptos a divulgarem campanhas. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, a quantidade de veículos estava limitada a 499 em 182 cidades brasileiras.

Ao longo de seu mandato, o presidente Lula inovou e estabeleceu contatos diários com a imprensa, enviando recados a todos o país. Entre as criações midiáticas de Lula está o programa semanal de rádio “Café com o Presidente”, a coluna impressa “O presidente Responde”, além da publicação bimestral “Caderno Destaques” e o boletim diário “Em Questão”, que visa orientar a sociedade sobre as políticas públicas do Poder Executivo.

O cientista político e professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em São Paulo, Fernando Azevedo ressalta que um dos princípios que rege as democracias modernas é a transparência e a prestação de contas do governo perante o cidadão. Neste sentido, portanto, a publicidade seria um instrumento de transparência governamental. Por outro lado, Azevedo não descarta a possibilidade de autopromoção de autoridades públicas. “A tendência é que os governos ampliem seus investimentos nessa área porque a divulgação governamental beneficia o partido ou a coalizão partidária que controla o governo”, avalia.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

[cc] A FIRME CANETA DE HENRIQUE MEIRELLES



::txt::Bruno Lima Rocha::

Reflexões imediatas após a vitória de Dilma Rousseff: uma crítica pela esquerda mais à esquerda

No momento em que escrevo estas palavras, a economista Dilma Rousseff (PT) acaba de ser eleita como primeira mulher presidente do Brasil. A derrota da dobradinha “clássica” PSDB-DEM, José Serra e Índio da Costa, demonstra um novo arranjo político e de parcelas do poder no Brasil. Mas, a eleição da ex-ministra em chefe da Casa Civil não significa necessariamente um avanço por esquerda, longe disso. A coligação de dez legendas, tendo ao deputado federal pelo PMDB quercista de São Paulo Michel Temer como vice, representa por si só a ampla margem de negociação e desistência de perspectivas históricas do reformismo radical dos anos ’80. E agora?

A economista e ex-guerrilheira do COLINA e da VAR-Palmares governará sobre o terreno da política econômica assentada pela firme caneta de Mr. Meirelles, homem da banca internacional. Não por acaso o tema do endividamento público ficou fora da campanha, uma vez que era pauta consensual com o tucanato-udenista. Freios de agentes de veto como este(s), em nome dos banqueiros, dominarão a agenda política do novo mandato de melhorismo, uma centro-esquerda não classista.

Para além do óbvio, analisando a vitoriosa composição de aliança política e de classes.

O pensamento socializante brasileiro tem algumas constatações relevantes, para as quais aporto meu grão de areia nesta reflexão. Temos duas novidades neste pleito, duas dentre várias. Elegeu-se uma ex-guerrilheira e mulher (estando separada em sua vida conjugal) para chefiar o Poder Executivo da 5ª economia do mundo e o país líder latino-americano do G-20. Não é coisa de pouca monta. Ou não seria. Esta mesma operadora política, com grande capacidade de execução de agenda, viu-se obrigada (ou se obrigou dado o volume de compromissos) a abandonar temas de convicção consensual no que resta das esquerdas com perfil militante no Brasil. Em termos de reivindicação imediata, o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, peça esta que Lula não assinara, traçaria um senso comum daqueles que entendem – ainda que por dentro do aparelho de Estado - como prioridade a divisão de recursos e de poder. Pois bem, esta mesma peça consensual e imediata, foi refutada, negada, afastada, retirada de pauta, por parte da candidata. Na ponta do problema, o tema do aborto, entrando pela porta dos fundos através dos factóides políticos e dos poderes de veto do obscurantismo nacional.

Não ficou por aí. A aliança da legenda de Luiz Inácio teve a “sabedoria” eleitoral de costurar com aqueles que serviram, em sua própria iniciação da vida política, de objeto de ódio na figura do inimigo visível. Sei que é chato, mas é inevitável lembrar o apoio dos oligarcas como Sarney, Jucá, Calheiros, Geddel & Cia ou o reforço de opinião de operadores pró-ditadura como o ex-ministro Delfim Netto ou o ex-reitor da Universidade Mackenzie do CCC, Cláudio Lembo; de agentes econômicos como os líderes do mercado financeiro, materializado nos bancos (FEBRABAN), na indústria automobilística (ANFAVEA), das transnacionais e mega-conglomerados nacionais de telecomunicações (SINDITELEBRASIL) capitaneados no Brasil pela Telefônica de Espanha e na fusão absurda que dera na BROi e após na compra de uma parte da nova super-empresa por parte da Portugal Telecom (PT). Não parou por aí.

Na mídia, frente de batalha prioritária no embate político-eleitoral, abriu-se uma cunha entre os líderes do oligopólio nacional das comunicações. Se por um lado as famílias, Marinho (Globo), Mesquita (Estado de SP), Frias (Folha de SP) e Civita (Abril-Naspers), de outro, grupos do porte da Rede Record, do portal Terra (Telefônica de Espanha), da estirpe da Carta Capital, no alinhamento recente do Grupo Três (Alzogaray, cujo veículo líder é a revista Istoé) e na posição rachada do empresariado dos radiofusores entre a ABERT (liderada pela Globo), e a ABRA (liderada pela Rede Bandeirantes, da família Saad). Ressalto este aspecto, pois a luta política migrara para o espaço midiático (que de público pouco ou nada tem) e a coligação governista sabiamente (espertamente, pragmaticamente) optou pela solução Getúlio Vargas encontrando o seu – no caso, os seus – Samuel Weiner. Poderíamos seguir narrando as composições com agentes econômicos líderes dos respectivos oligopólios do capitalismo operando e existente no Brasil, mas basta com ressaltar o perfil agro-exportador do Brasil e a relação mais que promíscua entre o Ministério da Agricultura e o latifúndio.

Para além do sectarismo, porque estamos piores organizados?

O que me assusta é o lado de cá do balcão. Lula deixa o poder conseguindo uma proeza paradoxal. Seria leviano dizer que os brasileiros e brasileiras vivem em condições piores do que a oito anos atrás. Não seria correto. Ao mesmo tempo, seria tão ou mais leviano afirmar que as forças sociais, muitas delas ainda tributárias do mesmo processo de reivindicações e protagonismo de luta popular dos anos ’80, a mesma matriz do PT e seu líder histórico, estão mais organizadas. Nossas entidades e movimentos populares estão piores organizados, mobilizam menos, milita-se menos, há um distanciamento muito maior entre dirigentes e bases, não têm uma entidade que seja transversal para os movimentos (como uma central ou confederação sindical mais à esquerda e livre das práticas do viciado aparelhismo e disputa sectária de correntes) e o próprio MST perde sua capacidade de liderança da luta popular uma vez que se esvai em posições tênues, abrandadas, e terminando por ir a reboque da União e do melhorismo. Para quem julga ser isto exagero deste analista, sugiro que leiam os embates na interna do jornal Brasil de Fato ou simplesmente converse entre a militância detentora de algum nível de responsabilidade.

Eleitoralmente, e esta não é a opção militante deste que escreve, os índices foram pífios. PSOL, PSTU, PCO e PCB não são a mesma coisa, tem diferenças de origens políticas (ressaltando-se este último) e tampouco representam alguma forma de consenso da esquerda que ainda crê na via eleitoral. Seus resultados sequer passam de 1% das intenções de voto e o escrutínio não veio acompanhado de um avançar de lutas sociais a ser galvanizada através da participação nas regras da democracia de tipo liberal e representativo. É difícil crescer eleitoralmente em conjunturas de pouca ou nenhuma mobilização e onde a tensão social está ausente da política.

Já da parte das organizações políticas que não optam pela via eleitoral por dentro do sistema – sendo esta a opção deste analista - o que se vê é uma grande chance de crescimento qualitativo, desde que seja explícito um projeto político para o curtíssimo e curto prazos (2 e 4 anos, respectivamente). Será necessária uma maturidade de outro tipo, quando as minorias ativas têm de compreender que a sensação popular é que suas vidas melhoraram, e ao mesmo tempo, os projetos de poder de transformação profunda estão mais distantes do que estavam no final dos anos ‘80 e, como um todo, o movimento popular brasileiro está muito mais confuso do que estava na segunda metade dos anos ’90, em pleno auge do neoliberalismo e da Era FHC.

Trata-se de um paradoxo de difícil compreensão para quem tem pressa – e é difícil fazer política apressadamente. De um lado a massificação reivindicativa se complica, uma vez que a sociedade como um todo (incluindo os setores de classe tradicionalmente organizados) está mais desorganizada, fragmentada e dispersa. De outro, o romper com as práticas viciadas e o manifestar de uma cultura política distinta pode e vem atraindo significativamente militantes com trajetória ilibada e que não concordam com as vias do legalismo-reformista (como a ilusão de fazer política radical através do Judiciário e do Ministério Público) e menos ainda com o compartilhamento de postos de poder tanto com inimigos históricos (como a leva de Arenistas presentes nos oito anos de Lula) e menos ainda com o espaço enorme dado e garantido a setores pelegos oriundos do sistema corporativo (como a Força Sindical, a CGTB e a recalcitrante UGT). O racha sindical que leva a construir a CTB é declaradamente uma peleia por recursos derivados da legalização das centrais sindicais e reflete também uma aproximação – em função de clivagem eleitoral – de PC do B e PSB. Romper com estas práticas é algo muito factível. A luta sindical abre um oceano de perspectivas de crescimento com qualidade da militância recrutada e é possível fazer desta uma via que dê oxigênio para as agrupações mais à esquerda e programaticamente distantes das urnas.

Apontando conclusões

É duro admitir que a guerrilheira que caiu de pé e não cantou sob tortura, resistindo com dignidade aos suplícios da Operação Bandeirantes e da estrutura do DOI-CODI do II Exército em São Paulo não representa sequer um projeto reformista. É mais duro ainda admitir que esta mesma pessoa, uma mulher, representa de por si uma quebra de paradigma. E, por fim, o mais duro de tudo é perceber a forma como se governou nos últimos oito anos e quanto esta prática política está distante da tensão social necessária para aumentar os níveis de organização popular para poder, de fato, acumular forças rumo a um câmbio profundo. Lula tem mais de 80% de aprovação é isto não implica (e nem poderia implicar) uma guinada à esquerda do povo brasileiro. Repito, é hora de refletir e buscar a consistência através de um crescimento qualitativo, rompendo com a cultura política viciada e dirigista.

Entender este momento e fazer política para ele é uma atitude construtiva. É diferente de afirmar que o melhorismo da coligação de centro-esquerda é idêntico da histeria de tipo udenista da coligação de centro-direita. Afirmar isso seria leviano e absurdo. Os projetos que chegaram ao segundo turno não são idênticos, e mesmo que através de Dilma as políticas sociais permaneçam, é preciso ter a firmeza e a maturidade para assumir que há governos de turno que melhoram a vida das maiorias e não constroem projetos de poder para estas mesmas maiorias serem donas de seus destinos. Este é o caso brasileiro e continuará sendo nos próximos quatro anos.

Se o objetivo determina o método segundo as condicionalidades, os sessenta dias restantes do ano servem para gerar a reflexão necessária a respeito das condições de existência e expansão da proposta que visa organizar desde abaixo, acumulando forças – através da luta popular em sua forma direta - no sentido da radicalização da democracia através de sua forma direta e participativa, socializando recursos e poder entre as maiorias. Fazer oposição por esquerda não é tarefa fácil. Há muito trabalho pela frente.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

[cc] O SERTÃO VAI VIRAR MAR



::txt::Carlos Brickmann::

Dizem que Rudolf Hess, por muitos anos o segundo homem da Alemanha nazista, quando morreu foi logo ao inferno, para encontrar-se com Hitler. Diante da pergunta a respeito das coisas na Terra, respondeu: "Führer, o senhor não vai acreditar. Os alemães estão fazendo negócios e os judeus estão fazendo guerra".

Ou, como diria Sebá, o último exilado, grande personagem de Jô Soares, "vocês não querem que eu volte". Pois não é que o Clube Militar promoveu um encontro sobre liberdade de expressão e o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo abrigou uma reunião contra a imprensa?

Está bem, não é "contra a imprensa". É "a favor da democratização da comunicação", contra "a velha mídia", "a imprensa golpista", "os que tentam o golpe midiático", "os jornais que assumiram o papel de partidos políticos de oposição". Em outras palavras, aqueles meios de comunicação que vivem inventando factóides a respeito de irregularidades no governo – factóides tão sem pé nem cabeça que o governo passou uma semana demitindo parentes da ministra-chefe da Casa Civil; factóides tão ridículos que a ministra anterior, Dilma Rousseff, disse que não tinha nada a ver com sua sucessora, e o presidente Lula, além de garantir que foi traído, afirmou que quem tenta se aproveitar de favores oficiais sempre acaba sendo surpreendido e derrubado.

O mais curioso, entretanto, é o que se entende por "democratização da comunicação". O PCdoB, por exemplo, partido comunista que segue a vertente chinesa, será favorável à democratização da comunicação? Há algum país comunista, linha soviética, chinesa, albanesa, norte-coreana, cubana, em que haja essa "comunicação democrática" que nos sirva de exemplo? Dizem que existe comunicação democrática, sim: todos têm acesso à mesma informação. E ai deles se não tiverem.

Mas sigamos o que diz o próprio manifesto que convocou a manifestação: "Vamos dar um basta às baixarias da direita!" Aonde foi parar o arco democrático? PCdoB pode, mas Cláudio Lembo não pode? O evento se proclamou pluripartidário – desde que só participe gente de esquerda. E que é ser de esquerda? Parece que o partido de Marcelinho Carioca, de Gabriel Chalita e de Paulo Skaf é de esquerda, tanto assim que uma representante do PSB fez um discurso muito aplaudido. Parece que o partido de Aldo Rebelo, porta-voz da bancada ruralista no Congresso, é de esquerda, porque foi um dos organizadores da manifestação. Parece que Ney Santos, aquele ex-presidiário que é dono de postos de gasolina, carros Ferrari e patrimônio de R$ 50 milhões, também é de esquerda, porque seu partido, o PSC de Régis de Oliveira (o vice de Celso Pitta), está coligado nacionalmente ao PCdoB e ao PT. Ou talvez não seja, porque em São Paulo apóia o PSDB de Alckmin e Serra. Só mesmo um profundo estudo ideológico poderá resolver o problema.

E, naturalmente, temos o astro maior dessa coligação marxista da linha Groucho: o revolucionário midiático Tiririca, do PR. Seus votos ajudarão a eleger não apenas Valdemar Costa Neto, líder de seu partido, idealizador de sua candidatura, mas também o pessoal do PT, PCdoB, PSC. É isso aí! E Netinho na cabeça, como já comprovaram alguns repórteres e também sua aterrorizada ex-mulher.



O nome das coisas

Há muitos e muitos anos, o grande Saul Galvão dizia que, para saber que o interlocutor era comunista, bastava prestar atenção no que dizia: chamava a Rússia de União Soviética e caboclo de camponês. Hoje a linguagem ficou mais requintada: para identificar um progressista, é preciso observar se chama a imprensa de "mídia", Fernando Henrique de "FHC", oposição de "golpismo", reportagens sobre irregularidades no governo de "factóides" ou "sensacionalismo". Importante: isso vale se as irregularidades ocorrerem no governo federal. Se envolverem governos estaduais de partidos que se opõem ao presidente Lula, não são espúrias: são é escondidas pela mídia, que nada divulga a esse respeito. (A propósito, como é que tomaram conhecimento dessas notícias? Bingo! Pela imprensa).



Cadê o meu?

Alguns colegas foram ainda mais longe do que a "democratização da informação": defenderam, nos acirrados debates provocados pela manifestação contra a imprensa dentro do Sindicato dos Jornalistas, a estatização dos meios de comunicação. OK, para eles deve ser bom: é a melhor maneira de conseguir emprego para quem não o consegue sem QI nem parentes importantes e bem situados na máquina.



Millôr, sempre Millôr

A propósito, a tese de que jornalismo é oposição não é da Associação Nacional de Jornais, nem da "velha mídia golpista": é muito mais antiga. Quem melhor a formulou foi Millôr Fernandes – que enfrentou a ditadura, que não pediu indenização por sua luta, que há muitos e muitos anos é um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros: "Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados". A imprensa tem de ser crítica, e portanto é objetivamente oposicionista. Mas tem de ser crítica seja Fernando Henrique o presidente, ou Lula, Dilma, Serra ou Marina. Um meio de comunicação pode tomar posição, nas eleições, declarando seu candidato. E, se esse candidato for eleito, será crítico do mesmo jeito.

Não, os meios de comunicação não devem se limitar a noticiar. Devem analisar, devem pesquisar, devem descobrir como é que as coisas acontecem, devem ser críticos. Devem ficar perto das autoridades o suficiente para obter informações e tão longe quanto possível para evitar contaminações. Imparcialidade quer dizer que isso se fará com qualquer governo, seja qual for.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

[agência pirata] O PREÇO DA POLÍTICA

::txt::André::

não é novidade que a grande explosão criativa gerada aqui no brasil foi concebida no verdadeiro cerne do tempo, a exemplo do resto do mundo, nos míticos anos 60. assim como um vírus, a invenção pairava no ar e infectava todos que ainda não tinham sido contaminados pelo conservadorismo onipresente da época. conservadorismo esse, responsável direto pela disseminação das manifestações que caracterizaram aquela década iluminada (já falei disso no velho amarelo tráfico). aqui no brasil, o tropicalismo COMEU os modernistas de 22 e vomitou diferentes abordagens, sejam elas de esquerda – como o cinema de glauber -, ou de direita – como o movimento de caetano (licença poética aqui). porém, tudo remontava ao princípio antropofágico – a mistura, a nudez de todas as noções pré-concebidas de moral e certeza, pronta para abraçar (ou comer) o mundo em nome da criação.


os tropicalistas

os anos 60 passaram e a tropicália acabou. porém, como qualquer manifestação artística ou ato criativo, sua estética reverberou profundamente na esfera política e das grandes decisões, mesmo que de forma LATENTE, para se realizar no futuro. os anos 70 vieram e as discussões políticas (aliadas ao frouxamento da ditadura) amadureceram ao longo da década, culminando no que seria o verdadeiro partido das vanguardas políticas por excelência – o PT. aglutinando todos os que valiam a pena dos movimentos políticos e sociais dos 60’s e capitaneados pela figura de LULA, o PT seguia como diretriz justamente a quebra com o conservadorismo e o abraço ao social. de base teórica marxista INOVADORA – gramsci e lukacs, por exemplo – o PT era lindo porém ingênuo. demorou quase 20 anos para amadurecer (mais rápido que eu, pelo menos).


PT nos 80

devido a essa inocência, quando os 60’s chegaram ao poder no brasil, não foi através de LULA, mas sim de FHC. a sua eleição foi a vitória do tropicalismo e de toda aquela geração de ideais revolucionários. porém só a vitória, já que seu governo se rendeu às políticas neo-liberais e aquela putaria toda. o tropicalismo só veio se realizar no poder MESMO, como política pública, no governo LULA. com o PT já maduro o suficiente e a figura de LULA emergindo como solução final para a chamada “podreira dos políticos” que o senso-comum berrava no ouvido das massas, o PT se deixou libertar e abraçou a ANTROPOFAGIA como política. é possível se misturar politicamente e o resultado se transformar em algo positivo? o cenário político atual brasileiro prova que sim. mas a que preço?


lulinha chegando

O PT MUDOU O BRASIL, MAS FOI CONSUMIDO NO PROCESSO.

o PT vanguardista, inovador, revolucionário não existe mais. foi comido e digerido pelo sistema político, porém marcando-o e modificando-o profundamente no processo, mas não conseguiu sair com vida. NÃO PODIA SOBREVIVER. o PT morreu para o brasil mudar. aqueles que não aceitaram a transformação saíram chorando, o que se empolgaram saíram chutados, e LULA se mantém como o maior estadista da história do país, com seus porcentos de aprovação. o projeto de governo acerta muito, erra ainda mais, mas segue como a personificação daquilo que nos 60’s era utopia, com o olhar voltado para todas as frentes que PARA MIM importam e afetam – artes, universidade, miséria.


nosso presidente

MAS agora chegamos a um impasse: em ano de eleição O QUE FAZER? acalmar o meu espírito revolucionário e votar em um PT chapa branca? por mais que o projeto seja o melhor que já vi, ainda sim é demagógico e não exatamente comprometido revolucionariamente do jeito que eu gostaria. mas o que sobra? uma volta ao neo-liberalismo cruel e idiota ou um falso PT de trinta anos atrás, tão ingênuo e despreparado quanto. existe opção? onde estão as vanguardas de pensamento que dariam fundamento para o NOVO pensamento político?

a criação, o NOVO, é infelizmente NOCIVO e já aparece, mesmo que sutilmente, nessas eleições, personificado na figura de MARINA. obviamente que não falo do aspecto VERDE da moça, mas sim do seu atrelamento com o lado CRENTE da coisa. claro que essa não é a sua plataforma, mas é possível identificar fragmentos do pensamento EVANGÉLICO em seu discurso. essas novas igrejas são o que efetivamente vem buscando novos espaços e tratando quase esteticamente o pensamento político, seja nas prisões, seja nas regiões sub-urbanas. o resultado desse conservadorismo aplicado só pode ser um retrocesso, porém é o que surge no horizonte político como opção diferenciada (mesmo que não pra mim). estamos atrasados em relação a esse pensamento. enquanto discutimos política de modo arcaico, outras frentes – reacionárias por natureza – se organizam de maneira muito mais revolucionária.


culto ou doutrina?


marina pregando

é preciso parar e refletir: onde está a potência criativa do nosso tempo? o que ela diz e representa? como transformá-la em ato político? aí está o desafio, procurar a invenção e dela extrair a intervenção.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

[over12] BOLSO É VOTO



::txt::Arlei Arnt::

Num desses dias, numa conversa pelo getalco com nosso editor @omandachuva, ele disse: "vai te fodê!". Bem, isso não vem ao caso. O que eu realmente queria contar a você, e-leitor, é sobre a tarde em areias catarinas, que @omandachuva assava a própria pele em tons de camarão numa caminhada pro Siriú. Atucanado com o sol que pintava o couro dele sem trégua, o magrão tentava lembrar de algo que não virava palavra.

- Porra, Arlei, como é o nome daquele negócio?
- Que negócio, man?
- Aquele bagulho quadrado que tem na parede, cacildiz!

Enquanto eu chutava diversas coisas - quadro?, poster? espelho? -, e o neurônio tostado pela energia solar e aromatizado pela erva do @omandachuva não recordava do esquecido objeto, eu falei quieto em pensamentos baixos. Viajei no bolso, e que ele nessas horas quentes é bom pra não queimar as mãos. Imagine, xirú, você sem o bolso? Quando saímos de casa e vamos à rua, é no bolso onde nos escondemos. Não levamos somente um simples número de RG que nos identifica como cidadão. Mas lá também estão os coisos & cousas que nos caracterizam como pessoa.

O brasileiro é conservador quando se trata do bolso. E vota de acordo com ele. Podem encher o bolso de santinho, mas o importante pro e-leitor é a questão financeira. Elegeu e reelegeu FHC em virtude do Plano Real, que estancou a inflação com paridade monetária. Nosso dinheiro não perdia mais o valor dum dia pro outro, e, nivelado ao dólar, comprava e importava tudo aquilo oferecido pelo mercado mundial.

Quando o mercado de trabalho nacional despediu "voluntariamente" por causa da concorrência estrangeira, num país acostumado a monópolios estatais e cartéis oligárquicos com atrasadas ofertas de livre concorrência, o Real despencou e não fez sucessor. Lula é eleito com um discurso até então inédito no palanque do PT. Ruim não era o Real, e sim quem (mal) o administrava. Reeleito em 2006, Lula deve fazer a sucessora, financiada pelo bolsa banqueiro e endossada pelo bolsa família.

E assim sempre foi. Desde a ditadura Vargas, quando o filho esqueceu as memórias do cárcere e elegeu o pai dos pobres. Calou-se novamente quando o milagre econômico falava mais alto, fazendo vista grossa aos gritos que (não) ecoavam dos porões militares do AI-5. E assim sempre seremos, fiscais do Sarney.

A oposição hoje engana-se que vai conquistar votos ao prever a volta do mensalão e Zé Dirceu, ou com denúncias de espionagem na Receita Federal, ou com indagações sobre as amizades fraternas com os ditadores do Irã. Desde que o nosso bolso não fique furado, não importa a nós, brasileiros, que a sujeira do poder apareça na cueca de governantes, secretários e empreiteiros.

Então pensei em voz alta pro @omandachuva ouvir minha filosofia alucinada:

- No bolso vai a mão suja que carrega o dinheiro lavado pelo tráfico, mas que não tirou o fedor do bagulho que tu leva contigo. Afinal, a mão no bolso é pra não se queimar ou pra esconder o queimado?
- Lembrei, cabron! - gritou ele.
- Cuma?
- Daquele coiso quadrado que tem na parede. É janela!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O REI NÃO MORREU




::txt::André Caramuru Aubert::
::ilstrç::Roberto Ploeg::

Você pode deixar a monarquia, mas a monarquia não deixa você. No país dos reis da picanha, das baguetes, dos lustres, de tanta coisa, a política segue sendo uma coisa tão autoritária que dom Pedro 2º, aquele rei velhinho, com cara de Papai Noel, continua a ser lembrado, com escravidão e tudo, como um dos mais sábios e liberais governantes brasileiros de todos os tempos. A eleição presidencial deste ano será, na prática, uma disputa entre Serra e Dilma, com a Marina correndo por fora para marcar presença. O máximo de exercício democrático para o qual você será não convidado, mas intimado (pois o voto é obrigatório) a fazer será registrar seu voto na urna eletrônica, a partir daí ele se diluirá entre outros 134 milhões.

Do dia da eleição em diante, o presidente eleito se comportará como um monarca, fazendo praticamente o que bem entender durante quatro anos, negociando apenas com os deputados, que não representam ninguém além dos interesses deles próprios ou de lobbies com muito dinheiro e força. Num modelo político como o nosso, por melhores que sejam (e parecem ser) as intenções de Marina Silva, ela simplesmente não conseguiria governar.

A Constituinte de 1988 teve a oportunidade de inaugurar um regime político democrático e moderno, mas a verdade é que perdeu a chance. Criou uma Carta enorme, cheia de tópicos bem-intencionados, mas impossíveis de serem colocados em prática (como a fixação da taxa de juros em 12%), e falhou onde realmente importava. Para começar, deixamos de lado o parlamentarismo, que, se não é perfeito, é infinitamente melhor que o modelo presidencialista de tipo americano que adotamos.

Também ignoramos que partidos devem representar ideologias, segmentos ou mesmo regiões do país e não ser meros clubes de negócios. Ignoramos o voto distrital misto e outros recursos que poderiam deixar os políticos mais próximos de nós. Nos Estados Unidos, os eleitores têm "o meu deputado". Nós, nem isso. Em nosso país, o Executivo legisla e o Legislativo endossa. Para que endosse, o Executivo precisa cooptar os partidos (pois não há identificação programática), e é daí que brotam os mensalões e os loteamentos de cargos e ministérios. Não adianta dizer que "o Brasil está melhor" (e está mesmo), pois esse argumento já foi exaustivamente invocado, de Vargas a Médici.

À LA MAQUIAVEL

É claro que não há, por definição, um modelo perfeito: democracia implica representatividade, significando que, em alguma medida, o poder será transferido do eleitor para o eleito. Mas dava para ser melhor. Nosso modelo está bem mais para o pragmatismo de Maquiavel do que para o iluminismo de Montesquieu. Qualquer dos eleitos, Serra ou Dilma, fará um governo semelhante, assim como foram parecidos, nos defeitos e nas qualidades, os de FHC e Lula. Prefiro que Serra vença, assim como preferi Lula há oito anos, pois isso, pelo menos, significará alguma alternância no poder. Adicionalmente, me parece que a escolha de Dilma como sucessora "porque eu quis" foi uma decisão um pouco extrapolante na atitude monárquica de Lula. Até dom Pedro 2º teria consultado as bases antes de tirar do bolso um candidato desconhecido. Mas, enfim, não perderei o sono com isso.

Nós, brasileiros, não entendemos ainda que a democracia, muito mais que o fim, é o meio. É menos o resultado e mais o processo. É menos a transferência do poder e mais o exercício cotidiano dele por cada um de nós. É menos a vontade da maioria do que o respeito pelas minorias. Enquanto não aprendermos isso tudo, continuaremos a ser os felizes súditos do imperador: pois a cada quatro anos, na "festa democrática" na qual nos intimam a comparecer, gostamos de cultivar a ilusão de que escolhemos o rei e controlamos nosso destino.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

ME ENGANA, LULA, QUE EU GOSTO




::txt::Ariovaldo Umbelino de Oliveira::

Em 2003, quando foi elaborado o II PNRA, ficou acertado entre os movimentos sociais e o governo LULA que o MDA/INCRA encaminharia ao Ministério da Agricultura uma nova minuta de portaria interministerial para a atualização dos índices de produtividade dos imóveis rurais.

Esta iniciativa era importante para que se estabelecessem os novos índices mínimos de utilização da terra para que ela cumpra a função social quanto à produtividade, segundo a Constituição Federal de 1988 e Lei 8.629/93.

Os índices utilizados atualmente pelo INCRA foram elaborados em 1980, baseados nos indicadores de produtividade das lavouras e dos rebanhos por hectares levando-se em conta o nível técnico da agropecuária, segundo os dados do censo agropecuário de 1975 do IBGE. Estes índices foram inclusive, utilizados durante o governo Sarney na implantação do I PNRA. Hoje eles estão completamente defasados, pois, por exemplo, no estado de São Paulo basta-se produzir 1.900 kg/hectare de milho para que a propriedade seja considerada produtiva.

Entretanto, a produtividade média do milho neste estado na safra de 2005/6, foi de 4.150 kg/ha. E por que até agora estes índices não foram atualizados? Não foram porque não interessa aos latifundiários, pois assim, seus imóveis mesmo com baixas produtividades escapam da desapropriação e da reforma agrária.

Caso o INCRA cumprisse a Constituição de 1988, mesmo com estes índices desatualizados, o Brasil tinha em 2003, um total de 54 mil grandes imóveis rurais ocupando 120 milhões de hectares considerados improdutivos. Portanto, passíveis de desapropriação por não cumprirem a função social. Em São Paulo há mais de 2,5 milhões de hectares improdutivos e, no Mato Grosso mais de 34 milhões de hectares.

No governo FHC, o INCRA solicitou estudos para a Unicamp e depois à Embrapa para fazer a atualização dos índices. Estes estudos indicaram que o índice para São Paulo deveria ser atualizado para 3.000 kg/ha para o milho. Estes novos indicadores foram então, incluídos no documento que a equipe coordenada por Plínio de Arruda Sampaio preparou para o II PNRA, e o governo LULA comprometeu-se a atualizá-los.

Mas, foi somente em meados de abril de 2005, depois das negociações da "Marcha para Brasília" dos movimentos sociais em 2004, que o MDA e o INCRA encaminharam ao Ministério da Agricultura a proposta de portaria para atualização dos índices de produtividade dos imóveis rurais. Entretanto, nem mesmo assim, o então ministro da Agricultura Roberto Rodrigues (e ex-presidente da Associação Brasileira do Agribusiness) concordou com eles. Inclusive, as organizações dos latifundiários protestaram através da mídia afirmando que "o conceito era burro, e que estava tudo errado".

Criado o impasse entre Rosseto e Rodrigues, caberia ao Presidente LULA resolver, isto em abril de 2005. Foi então que prevaleceu a opinião do ministro do agronegócio Roberto Rodrigues, e LULA ficou com os latifundiários, pois, a portaria modificada por técnicos dos dois ministérios desde fevereiro de 2006, não foi assinada, e mesmo assim, Rodrigues saiu do ministério em 2006.

Com a posse de Luís Carlos Guedes Pinto como ministro da Agricultura, todos imaginavam que ele, que fora fundador e presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária - ABRA, iria assinar a portaria conjunta. Ledo engano, pois segundo a mídia no final do ano de 2006, novos estudos teriam sido feitos e os índices propostos estariam sob segredo na Casa Civil da Presidência da República. A conclusão acertada dos jornalistas indicava também, que o presidente LULA pretendia esperar o segundo mandato para aprovar a nova tabela dos índices de produtividade das propriedades rurais.

Mas, a realidade cruel é que com a provável indicação de outro representante do agronegócio para o Ministério da Agricultura, os movimentos sociais e todos os que lutam pela reforma agrária no Brasil, podem, se nada for feito em contrário, continuar a repetirem o mesmo ditado que já viveram no primeiro mandato do governo LULA, "me engana que eu gosto", pois, a portaria com os índices atualizados pode novamente não ser assinada.

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